sexta-feira, maio 16, 2014

[A Redundância]

A máquina hidráulica repõe
nos canais de rega
a água e a luz remanescentes do inverno
um veio de silício que mistura a
obscura matéria dos astros e
a poeira incombustível das
folhas das árvores depois dos meses breves
de junho
a cal incinerada nos fornos de calcário
as mãos abertas em vez da intempérie
a página dos romances e

se respiras impões uma gramática
a Lentidão
a Redundância.

terça-feira, maio 06, 2014

[Não havia fronteiras]

Podias então dizer
tudo me pertence:
a luz de junho poisada
nos taludes ou nas folhas
minúsculas das cerejeiras
bravas, o mapa
das efémeras migrações
dos nomes, os territórios desenhados
nos cadernos de duas linhas
logo depois sujeitos
à voragem dos incêndios.
Não havia fronteiras:
em vez das bandeiras
espetavas na terra lavrada

uma vara de lódão.

quinta-feira, maio 01, 2014

[Os objectos comuns]

Eram objectos comuns
e no entanto os
seus nomes estabeleciam categorias
além dos nomes

que os designavam: vasos,
cântaros, vasilhas
de alumínio, púcaros
de água.

Só não regressas
a esses nomes
porque nunca te desligaste
deles. É

uma fidelidade
que a filosofia da contemporaneidade
não aprendeu ainda a inscrever
nos seus pressupostos

e que um dia emergirá
naturalmente
por entre diagramas e os gráficos
da crise.

quarta-feira, abril 30, 2014

[Os almoços]

Os almoços depois
das inaugurações: essa espécie
de coisa deslocada
entre regozijo

e a ideia
de que é preciso
começar
tudo de novo.

terça-feira, abril 29, 2014

[O relâmpago]

Já se correu o eito. Já se carregaram os colmos
e na madrugada de junho
se recolheu a marcela.
Já se pisaram as uvas.
Já nas vertentes da umbria a
giesta negral deixou a sombra dos seus nomes.
Não tarda a água talhada
no tanque, o relâmpago
no pátio.

segunda-feira, abril 28, 2014

[Turismo cultural]

Por detrás de tudo isso que procuramos
num fim de semana de férias
como se tivéssemos vencido
e nos pudéssemos dar ao luxo de perder: a merda

nos currais, a neve a que a lama se mistura
nos caminhos, um médico
que já não chega ao posto de saúde improvisado
às segundas feiras de manhã. E

o silêncio. O silêncio nos telhados
das casas vazias. Quase
não há mais nada: o lume que levamos
nem chega para acender a lareira.

domingo, abril 27, 2014

[Jovens de fato/ e gravata]

O velho quase nunca tinha
visto a televisão: a perplexidade
dele a olhar o telejornal:
jovens de fato

e gravata como se estivessem num casamento
fino: a discutirem os investimentos
do Estado, prioridades,
as idades da reforma.

quinta-feira, abril 24, 2014

[Um lugar]

Um lugar onde nos reconhecêssemos
como se chegássemos tarde a
um país estrangeiro
e não precisássemos de perguntar
onde se acendem as luzes
ou se vendem os
cigarros
e a cerveja.

quarta-feira, abril 23, 2014

[Da série «O Fado do desgraçadinho e da desgraçadinha»]

Não me deixes acordada
qualquer dia nem me deito
já chegou a madrugada
e eu hora a hora acordada
até ser de madrugada
com esta ferida no peito

Não me digas que é já tarde
que o tempo nos amolece
não digas que me resguarde
da paixão só porque é tarde
não digas que já não arde
não digas que tudo esquece

Não insistas no argumento
de que o que passou passou
e que é só dar tempo ao tempo
que o amor é como o vento
não é mais do que um momento
que tudo o vento levou

Eu cheguei a achar que o mundo
era mais do que perfeito
o céu alto o mar profundo
ninguém ficar em segundo
e não sentir lá no fundo
esta dor dentro do peito

Mas esta ferida não passa
transformou-se em cicatriz
não diminui não deslaça
e por mais coisas que eu faça
ai esta ferida não passa
transformou-se em cicatriz

Não me deixes acordada
bate à porta sou sincera
esquece que estou magoada
que me senti ultrajada
bate à porta sobe a escada
estive sempre à tua espera

quarta-feira, abril 16, 2014

[A juventude]

Às drogas, aos estaleiros das obras,
ao vento do árctico nos ramos finos dos vidoeiros,
às navalhas e às lâminas, aos automóveis
a cortar a noite sem faróis nos caminhos
de terra, aos metais incandescentes,
às fasquias, à música, à electricidade
estática, aos ferros amarelos dos guindastes,
às páginas dobradas dos livros de geologia,
aos incêndios, ao rumor dos caules da insónia,
às fendas das águas subterrâneas
dos relâmpagos, ao amor sem o cálculo, ao álcool,
às bombas de combustível, aos declives,

a tudo isso e mais a juventude deve
a eternidade do seu tempo imenso e breve.

quinta-feira, abril 10, 2014

[As cobras]

As cobras nunca regressam
aos lugares onde deixaram a pele.

quarta-feira, abril 09, 2014

[O caminho de casa]

A minha avó trazia o cântaro
e enchia vagarosamente
os púcaros com água.
Eu ficava a olhar e
por um instante acreditava
que não havia mundo
fora dos muros do pátio
e que o estrangeiro era uma invenção
dos que perdem as chaves
ou o caminho de casa.

quarta-feira, abril 02, 2014

As Coisas que é preciso dizer. 19: a nostalgia

um tempo houve
em que estendíamos os frutos na esteira das açoteias
como se fosse ainda possível acrescentar à tarde uma outra luz que a
tarde exasperadamente procurava nas
suas frases de verão
as crianças corriam nos lancis dos canais de rega
mergulhavam no tanque ou
levantavam-se em equilíbrio nas cumeadas distantes
as árvores cresciam devagar como se apenas esperassem a noite
o correr das águas ficava suspenso de um gesto
e então as mulheres erguiam-se das cadeiras de esparto e
vinham também elas ao pátio
deslumbradas
a olhar as labaredas imensas
e a esconder com o lenço na cara
as lágrimas
de uma nostalgia
sem nome

terça-feira, abril 01, 2014

As Coisas que é preciso dizer. 18: vai ser difícil

vai ser difícil regressar à simplicidade dos gestos iniciais
porque primeiro é preciso retirar o entulho dos armazéns dos desperdícios
e já nem sabemos por onde espalhámos os objectos excessivos
vai ser difícil
os holofotes iluminam as árvores erradas
nos caminhos cresceram as ervas azuis do esquecimento
e é preciso fazer tudo ao contrário
recomeçar a partir dos campos lavrados
da luz adormecida no cimento das açoteias
da água a correr nos canais de rega
vai ser difícil
porque primeiro é preciso desligar a máquina oscilatória dos interesses
e já nem sabemos
no emaranhado de fios
quais são os fios
por onde devemos puxar

sexta-feira, março 28, 2014

As Coisas que é preciso dizer. 17: antes do acordo ortográfico

não queres nada
o ramo de ser o melhor no dia das colheitas da
flor-de-púrpura-das-sete-pétalas-desencontradas
o prémio de atirar mais longe no malhão a pedra-do-prémio
não queres nada
não queres vencer no terreiro do largo do meio-da-aldeia
não queres a
memória gloriosa das mulheres que traziam cântaros castanhos à
cabeça com os seus contornos irregulares contra
a luz excessiva
não queres sucumbir ao poder da aliteração
não queres o disfarce das máscaras dos domingos depois dos
horários litúrgicos
não queres as flores dos panos de linho em cima da cómoda
não queres a página do jornal com o círculo desenhado a tinta-da-china
não queres os líquidos aquecidos nos jarros de cerâmica
não queres a ardósia ilusória dos alicerces das casas
não queres nada
queres o vaso minúsculo da água-das-fontes
queres a flor desarmada da urze-branca dos primeiros meses
queres a toalha estendida na mesa-dos-encontros
queres a luz de ser ainda o outono e de caírem as folhas das
árvores vagarosamente nos limites mais próximos dos meses de novembro
não queres nada
vem de tão longe o desejo de erguer nas varandas o
nome dos primeiros meses
o incombustível desígnio das nascentes iluminadas pelo lado de dentro
a leveza das coisas
o incêndio dos telhados vagarosos
não queres nada
não queres a vantagem dos nomes acabados de dizer em voz alta
não queres o álbum das fotografias dos casamentos e
dos baptizados antes do acordo ortográfico
não queres abdicar da etimologia
não queres abdicar do pão a levedar no forno das pedras incandescentes
não queres abdicar da água-dos-herdeiros
não queres nada
queres que se percam no interior de si mesmos
queres que um dia os senhores dos impostos nem saibam fazer as contas
quando for o tempo da contabilidade
dos desastres inumeráveis

terça-feira, março 11, 2014

As Coisas que é preciso dizer. 16: a hélice invisível

o mecanismo é o mesmo
nas golas dos açudes
à superfície
é quase invisível o círculo a transformar-se em elipse
mas depois a força helicoidal da massa de
água puxa os corpos para o buraco da descarga de fundo
como a acção de um íman sobre objectos metálicos minúsculos
o mecanismo é o mesmo
pensamos sempre que vemos o que não vemos
é uma tarde vagarosa com
a luz a atravessar os objectos
mas o buraco está debaixo de água e
é imune aos discursos das boas intenções
é refractário à sintaxe
é assim nas golas dos açudes
a hélice invisível puxa-te até ao fundo
primeiro parece apenas uma ligeira rarefacção do ar
depois sentes que a respiração é cada vez mais difícil
no último instante compreendes que
o buraco tem espaço suficiente para passar a cabeça
mas que é impossível
passar o resto
do corpo

terça-feira, fevereiro 25, 2014

As Coisas que é preciso dizer. 15: no sul

outra vez a terra
o imperscrutável som do puro veio da água
isso que parece afluir aos dedos como cinza ou obscura semente
isso que mistura o antes e o depois da música
uma criança corria nos muros estreitos das propriedades
delimitava o mundo em linhas a direito nos campos lavrados
ficava a olhar a luz misturada aos ramos das árvores
ao vermelho e ao castanho da terra
a luz a poisar exausta nas açoteias das casas
a subir os degraus como se finalmente os
dias e as noites pudessem equivaler-se
no sul a
arquitectura é a
luz desatada a meio da tarde nos troncos das amendoeiras jovens
a sombra que reflecte o espelho das
imagens verdadeiras numa parede de cal
a água das cisternas
o azul que ficava do lado do mar quando a
criança desenhava uma linha no chão
e descia dos muros das propriedades
para que
pudesse
começar
a anoitecer

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

As Coisas que é preciso dizer. 14: uma vez

uma vez uma senhora
exigiu a factura dos dois quilos de carne de porco
que estava em promoção no pingo doce
e saiu-lhe um automóvel de luxo no sorteio da administração tributária
não havia mais nada no mundo que
a senhora desejasse
nada que pudesse fazê-la sentir-se mais útil ou solidária
nada que pudesse fazê-la mais feliz
nada que lhe fizesse mais falta
um automóvel topo de gama
um automóvel de alta cilindrada para no fim de
semana
correr as grandes superfícies
em busca das melhores promoções de costeleta de borrego
ou de massinha de cotovelo
sem estar sujeita às filas intermináveis
e aos horários cada vez mais imprevisíveis e espaçados
dos transportes
públicos

terça-feira, fevereiro 11, 2014

As Coisas que é preciso dizer. 13: um rosto estrangeiro

não chegavam a olhá-los de frente
olhos nos olhos
com receio de que uma qualquer forma de afecto acabasse por aproximá-los
limitavam-se a dar-lhes água e a inventar uma desculpa
para se fecharem de novo e
ficarem a olhá-los por detrás dos vidros das
janelas das casas enquanto eles vagarosamente se afastavam
era assim que estava escrito
nenhum sentimento nos deve ligar aos que estão de passagem
nenhum sentimento nos deve ligar aos que desconhecemos
por isso não os olhavam de frente e não faziam perguntas
até a esse dia em que alguém decidiu ficar por mais tempo na rua
e olhou de frente um rosto estrangeiro
até ao sobressalto de compreender que
havia alguma coisa nesse rosto que pertencia ao seu próprio rosto
que havia alguma coisa nos seus gestos que
era já parte dos seus próprios gestos
e fumaram juntos e falaram de lugares diferentes do mundo
como se ambos fossem estrangeiros e
assim começassem aos poucos a deixar de sê-lo
ou pelo menos a deixarem de
ser estrangeiros um do outro
como se ambos andassem há muito tempo perdidos
e agora se encontrassem para a possibilidade fabulosa de
caminharem juntos
e se perderem juntos
nos caminhos do mundo

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

As Coisas que é preciso dizer. 12: os processos de deriva

já nem procuras a luz dos faróis que separam as enseadas e
as escarpas íngremes
como se aceitasses o princípio de que o
futuro depende dos processos de deriva litoral
como se nada valesse a pena
como se tudo fosse o resultado da vontade dos outros
até que alguém te dirá «talvez não seja tarde»
mas já não sabes os segredos de puxar as
estrelas cadentes com fios de ráfia
mas já não sabes respirar debaixo de água nos
açudes das penínsulas
mas já não sabes tirar o pão do forno enquanto as
pedras estão incandescentes
mas já não sabes em outubro adormecer nas avenidas à
espera da primeira e única folha dilacerada do ácer
mas já não olhas os desenhos das encostas de caducifólias a
procurar estabelecer o roteiro das perguntas difíceis
preferes desistir
secaram nos jardins os caules dos gerânios
desapareceram no horizonte o anil e a púrpura da luz tão
vagarosamente a evaporar-se
as crianças correm em desequilíbrio nos muros estreitos dos loteamentos
os velhos sobem às açoteias e olham para o lado de
dentro da idade à procura de respostas
e é tarde
já nem procuras
o passado não existe