Quinta-feira, Julho 16, 2009

[A locomoção]

Ele dizia «eu movo-me
de ver crescer o trigo
na umbria». Porque há um momento
em que a heresia e a coragem se confundem
e a baixa densidade dos núcleos
remove
por intuição
a desmesura
das memórias
descritivas
dos interesses. Ele desenhava a cidade
a graffiti. Ele fazia as plantas
e os alçados
dos contentores das obras de restauro
e projectava os jardins
nas periferias
contra a cartografia dos planos
recentes. Ele dizia
«eu sou movido pela dissolução da água»
como se a locomoção
fosse uma questão
de regime.

Terça-feira, Julho 14, 2009

[Um poema antigo]

Repetir os nomes das árvores:
olaia, bétula, negrilho, alfarrobeira;
a cerejeira do fundo dos muros e os admiráveis
brincos da infância; o carvalho negral
e as folhas ténues trazendo às colinas
os primeiros meses de Abril.
Dizer em voz alta os nomes
dos lugares onde parece
que o mundo se suspendeu
para que pudéssemos regressar
à água e ao lume, à terra
e ao éter e à varanda incandescente
das tardes de Verão: Gardunho
e Segirei, Cacela, Voluntário, Vilarinho
Seco. Roubar à caligrafia
os nomes da manhã acabada de nascer:
nuvem onde poisamos as mãos.

Segunda-feira, Julho 13, 2009

[Em vez dos bastidores]

Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa –
a linha descontínua de estrelas incineradas
com a língua
autóctone
a servir de espelho à água: a libertar-se
da âncora genealógica
pela destruição do livro
dos exemplos. E da meteorologia
o que retinham
era antes dos ciclones
a minúscula nuvem deslaçada do vento: até ao alicerce
e à raiz e à álgebra. E então aprendiam a ler
e a mover no ábaco
as doze contas
errando propositadamente
as sílabas antigas
todas.

Domingo, Julho 12, 2009

Intervalo

§ Quando tememos perder uma coisa é como se já a tivéssemos perdido.

§ As coisas só começam verdadeiramente a pertencer-nos no exacto momento em que tememos perdê-las.

§ Só nos pertence o que não é possível perdermos.

Sexta-feira, Julho 10, 2009

O livro, ainda

Excertos. E ecos do que vai acontecendo em redor do romance «O Prazer e o Tédio» -- que aqui mesmo, neste blogue, correu entre 3 de Fevereiro de 2008 e 3 de Janeiro de 2009.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

[As mãos]

O temor
de que fosse pecado
a exaltação:
isso as levava a afastarem
da boca dos fornos
o ferro
e o alumínio. E recuavam
deixando na pedra
os aventais azuis
para que a massa resplandecesse
na divisória
incandescente
à rarefacção do ar.
E ouvia-se ao
longe o rumor contínuo do tempo. As mãos
a procurar ainda –
a esconder ainda:
o lareiro das fornalhas, a levedação,
os milagres.

Terça-feira, Julho 07, 2009

[Nos pátios]

Eu quero para sempre a fasquia dos incêndios
de mil novecentos
e oitenta e seis. As tábuas da cancela
de vilarinho seco
esculpidas
a navalha. A memória
dessa noite em que
juraste pelo vento
dos meses
de novembro. A faca a desenhar
um coração
no chão de cimento
dos terraços. As águas
de nascente
de valdarada. A primeira nuvem
a entrar
na órbita
dos meteoros. O fogo
das lareiras
a aquecer as vasilhas
de ferro. O momento em que as mães
correm à janela
se a poeira se levanta
nos pátios.

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Se Pudesses Regressar

Nova actualização: aqui.

Sábado, Julho 04, 2009

[Poema]

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Folhetins: o problema dos títulos

O folhetim ainda mal começou e já teve dois nomes: a) As Heranças Indivisas; b) Se Pudesses Regressar. É o problema dos títulos... Entretanto, texto reformulado e acrescentado. Aqui o esboço mais actual -- e todo de seguida.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

[M. R.]

DUAS CRIANÇAS

Duas crianças olham o mar.
Como se o mundo 
estivesse a começar.


UMA ONDA

Uma onda e depois outra:
o mundo é feito
de repetições.


O SILÊNCIO

O silêncio inúmero da tarde
quebrado pelo rumor
de um búzio.


MARÉS

As tuas pálpebras subindo
e descendo: marés
do equinócio.

Segunda-feira, Junho 29, 2009

[Uma possibilidade de começo]

Foi essa a sua primeira e inocente obsessão: a medição do tempo. Procurar uma ordem entre os eventos e o seu carácter aleatório; procurar estabelecer relações entre o voo das aves e a sombra estendida na tijoleira dos pátios; compreender o que separa o movimento e a imobilidade; entrar nos segredos da idade, da passagem das horas, da oscilação dos pêndulos abstractos. No entendimento de que o mundo só existe se o medirmos e se apreendermos o mistério da matéria volátil que faz mover as coisas.

Domingo, Junho 28, 2009

[O Castelo de Santo Estêvão]

O grupo de teatro universitário ia pois levar à cena
no centro cultural de Évora a sua primeira peça
que posso já adiantar que não chegou
à estreia. Pela razão simples de que ao encenador

 não lhe escapou a pronúncia cerrada do moço
vindo do Barroso e do liceu de Chaves
a estudar arquitectura paisagista no Alentejo
fazia eu de Afonso III. Luís Varela insistia comigo

para que acariciasse Beatriz entre a ternura do velho
bárbaro a fazer festinhas na criança que a princesa ainda
era e a luxúria intervalada de quem sente

já nos seus braços uma mulher que começava
na realidade a sê-lo. Ora eu na parte da luxúria
continha-me ali em público nos ensaios

 um cibo. E o Luís então gritava em desespero que
nem parecia ter eu nascido no sítio onde
no século XIII a coisa verdadeiramente se passara
por não serem de hábito assim tão encolhidos

os conterrâneos meus que se soubesse em
se tratando de mandar a uma moça deslumbrante
a ceitoira. E eis como foi necessário o orgulho
ferido e a subsequente lição para ficar a saber

que o Bolonhês em segundas núpcias e em primeiras
a filha do rei Afonso X se casaram nem mais
nem menos que em Santo Estêvão. E assim

se compreenderá também que durante tantos anos
visitasse sempre que podia e hoje
ainda a aldeia que de entre todas do concelho de Chaves
 
me pertencia e me pertence mais. E quando
regresso é como se regressasse a 1253 e visse
Beatriz de Castilla y Guzman a entrar na capela de
mão dada com este d. Afonso III que quase representei

 no Garcia de Resende não fora por mor dos copos uns
e outros pelo honesto estudo terem deixado 
uns e outros a mais de meio mas antes da estreia a peça
do Ernesto Leal. Aí fui portanto tantas vezes e vou agora

e sempre a imaginar nas nove ameias do alçado
e na planta rectangular do que resta do castelo
a Beatriz que em Évora demorei a acariciar com luxúria

enquanto o encenador não me puxou pelos brios e eu
não soube que Beatriz e d. Afonso III se casaram afinal
no castelo que é também meu de Santo Estêvão.

publicado originalmente aqui.

Terça-feira, Junho 23, 2009

[Os dias estão a ficar mais pequenos]

CHAMO-ME JOÃO, tenho vinte e três anos e garanto que os dias estão a ficar mais pequenos. É certo que deixei os estudos muito cedo para trabalhar nos bares e no que fosse aparecendo. É certo: sinto muitas vezes que me falta um pouco da ciência dos livros. Mas sei como funcionam as coisas do mundo e do universo vasto onde se perde o que de nós mesmos sabemos. Orgulho-me, aliás, de conhecer o que tantos desconhecem sobre os astros e os asteróides, sobre a passagem do tempo, sobre a Próxima de Centauro, sobre Andrómeda ou as galáxias espirais. Reconheço: aprendi com a Teresa a olhar o céu no silêncio da sua casa, nos bancos corridos do jardim de pequenos arbustos aromáticos, na açoteia onde montou um telescópio, e a ficar assim rendido ao silêncio das estrelas, dos cometas, dos outros dois iluminados planetas do nosso sistema solar: aprendi com ela, reconheço, a experimentar em mim a lancinante percepção da pequenez do que somos. Mas não é isso o que vem ao caso. O que vem ao caso é a evidência de que os dias, dia após dia, e quando deveria ocorrer exactamente o contrário, estão a ficar mais pequenos. Recordo-me: despedimo-nos com lágrimas no dia vinte e dois de Março. E recordo-me por não esquecer a frase que a Teresa me deixou como memória desse desencontro: «Separamo-nos, João, no momento em que a elíptica cruza o equador celeste». Era o equinócio: quando as águas do mar se erguem num rumor subterrâneo, afastado, vindo de longe e de lugar nenhum. Quando as aves, de súbito, deixam os ramos das árvores e cruzam o céu em largas e vagarosas elipses. Quando o dia e a noite têm a mesma exacta duração. Isso recordo-me. E sei que a partir dessa data, até que o solstício de finais de Junho inverta os movimentos do mundo, os dias continuam a crescer progressivamente em duração e intensidade de luz. Não se compreende, pois, que aconteça exactamente o contrário. Que cada vez anoiteça mais cedo, que cada vez a manhã demore mais um pouco a levantar-se da terra: hoje é dia doze de Junho, são quatro da tarde e é quase noite. E é assim, como se a sombra e a passagem do tempo tivessem uma origem comum, que a memória de Teresa regressa. É quase noite. Confuso, indeciso, rendido à evidência das sombras, caminho ao acaso na rua deserta. E uma tristeza sem nome parece caminhar a meu lado, tocar-me nas mãos, entrar comigo pela noite dentro numa noite que deveria ainda ser dia, claridade, luz e exaltação.

CHAMO-ME TERESA, tenho vinte e três anos e garanto que os dias estão a ficar mais pequenos. É estranho: hoje é dia doze de Junho, são quatro e meia da tarde (isto é um modo de dizer) e é já de noite. Demorei a acreditar que não era em mim apenas que sentia crescer a sombra e a sentir que a sombra me tocava mais tempo. Vivo sozinha. A minha casa fica quase na cumeada, erguida sobre a vertente aplanada do ribeiro do Álamo. Vejo dali, olhando na direcção da terra ou na direcção do céu, quase tudo o que me interessa no mundo: o meu pequeno mundo e simultaneamente vasto, inominável, sem fim nem princípio. O Guadiana: as suas águas, em Maio, a reflectir um outro azul ou a correr na vazante, lamacentas, depois da chuva, sob uma nuvem espessa que vem de Espanha e parece ficar poisada nas areias da península de Cacela Velha. O mar da baía recolhido ao silêncio do Inverno. O pátio. Os muros de xisto. As hortas minúsculas, as últimas. Uma eira em ruínas, uma nora, uma cisterna. A amendoeira grande. As paredes de cal. A açoteia com tijoleira de Santa Catarina. Canes venatici e cor caroli, a sua estrela alfa. Bootes e arcturus. Cassiopeia. A ursa maior, a ursa menor, dubhe e polaris. Draco, lynx, coma berenices. Mas hoje sei que o mundo não faz sentido sem as suas mãos a tocar as minhas mãos. Hoje sei que a sombra vai crescendo, dia após dia, noite após noite, à medida que vai ficando mais ténue, ou mais viva, a memória das suas mãos nas minhas mãos. Atravesso o jardim e fico por algum tempo sentada na pedra do muro do pátio a olhar a noite. Uma noite escassamente iluminada pela lua que começa a erguer-se no horizonte. Uma noite estranhamente fria, estranhamente feita de um silêncio que parece nascer das profundezas da terra. E é então que vejo um automóvel a aproximar-se. Dois faróis acesos a iluminar o estradão e os troncos das alfarrobeiras do pomar. Um automóvel a cortar o silêncio ancestral da noite em fatias descontínuas. E fico assim, por instantes, interdita, a imaginar que talvez amanhã a luz se erga mais cedo, que talvez amanheça mais cedo e que tudo regresse à ordem natural das coisas.

[Dos Anos de Glória]

1.
O baterista queixava-se:
nas alturas 
decisivas tinha 

quase 
sempre as mãos
ocupadas.

2.
A Diva até
a olhar-nos de
frente 

até olhos nos olhos
a víamos
de lado.

3.
Em digressão perdíamo-nos 
era muito nas
rotundas.

4.
O vocalista dizia
oh a Diva
e ficava 

mudo
quase quinze
dias.

5.
O nosso maior
sucesso não 
chegou 

a ser gravado
por falta
de vinil.

6.
Quando ele
e a Diva
desapareceram

a grande questão era
como arranjar um novo
baterista.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

[Lamento do autor antigo]

para a Tatiana F., com amizade

A métrica é um chão que já deu uvas.
A rima é o outro chão. E agora é in
diferente o decassílabo ter vinte
ou doze ou quatro sílabas. Oh musas

de versos tão antigos: vá de retro!
Eu quero é ser moderno em estilo livre
e ter a liberdade que não tive
ao respeitar a norma, a rima, o metro.

Calhava-me ter outras companhias.
Talvez frequentar mais livrarias
e ter noção dos crimes que cometo.

Enfim, eu já merecia outro destaque:
autor tão consagrado na FNAC
e nem assim me livro do soneto.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

[A contar o tempo]

Não dobres as páginas 
dos livros
no princípio 
dos romances. Não escrevas  
as promessas 
nas folhas das árvores 
do inverno. 
Não fiques a contar o tempo que passa entre uma nuvem
e outra – 
entre uma luz
e outra 
dos astros que acendem no céu
os seus demorados 
nomes. 

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Convite


Terça-feira, 16 de Junho, 18h30. Em Lisboa. Na FNAC Chiado.

Domingo, Junho 14, 2009

[Objectos de cort/ ar]

Ele dizia eu às vezes parece
me que trago nos pulsos 
uma hélice ou uma navalha
de gelo. Objectos de cort
ar. Uma lâmina. A água fresca
dos púcaros. A toalha fi
na de linho. E depois
o movimento sucessivo das
coisas contra a ordem
do mundo e a cronologia. 

[As pedras]

As pedras que eu tirava dos bolsos 
para depois rasá-las no espelho
dos açudes. A ver na tarde 
a quase aleatória repercussão
da sombra. O silêncio a descer
de novo após os incêndios
da reverberação. E outra
vez a quietude do mundo suspensa
do arremesso das pedras
guardadas nos bolsos.

Sexta-feira, Junho 12, 2009

Os mais jovens


No lançamento do livro, no passado dia seis. Os mais jovens.

[Fotografia: João Pinto]

Quinta-feira, Junho 11, 2009

[Se a não tivesse]

Chegar ao coração das coisas
tocando-as: a pedra da varanda
e a nuvem das metáforas dos tanques;
a cerâmica dos jarros
de vinho; a página dos livros
das águas de aviação; o tampo da mesa
da cozinha se
a não tivesse levado
o tempo.

Domingo, Junho 07, 2009

[Avô Francisco]

O que mais lembro dele? O modo
delicado como espremia os favos? Ou 
esse gesto de censura
de subir os colarinhos
simultaneamente a dizer «as
correntes de ar são piores
que facas»? Não esquecerei nunca
o sabor exacto do mel das colmeias de Ribas
como não esquecerei nunca
o ranger da porta que eu então lhe fechava
até não ficar uma frincha
que o incomodasse.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

{Elíptica}

Um dia descobrimos 
que também nos pertencem (eles 
e todos os outros) os planetas refractários
às promessas. Não 
nos livramos disso: dessas órbitas difusas
ou excêntricas; dessa característica
falta de luz própria que nem a nós mesmos 
chega a iluminar por dentro.
Talvez seja tarde. Talvez
seja apenas o tempo 
de desenharmos uma nova elíptica
geoestacionária 
no afastado lugar indefeso
do coração.

Quarta-feira, Junho 03, 2009

[A água]

O vedor
sentiu que a vara
apontava ao céu:
a nuvem
em vez 
das nascentes.

Terça-feira, Junho 02, 2009

[Pub]

O «Prazer e o Tédio», além de disponível na Feira do Livro do Porto, começa a chegar às livrarias. À Pátio de Letras, em Faro, por exemplo.

Jogar em Casa


No próximo sábado. Às 18.00 h. Em Vila Nova de Cacela.

Domingo, Maio 31, 2009

{Oh se não te conhecêssemos}

Desculpa
mas tens que continuar a atender o telemóvel
a dizer onde deixaste a chave da Casa 
quando vier o granizo e a tempestade.

Desculpa
mas não te safas com esta facilidade
ninguém acredita que não estás à nossa espera
quando começar a chover.

Desculpa
mas não é possível acender o fogo da lareira
se não fores tu a trazer os guiços de lenha
se não fores tu a estender na mesa do escano
as cinquenta e duas cartas da árvore dos segredos.

Desculpa
mas estamos todos à tua espera
com a certeza de que apenas resolveste chegar mais tarde
porque decidiste trocar-nos as voltas
oh se não te conhecêssemos.

Sábado, Maio 30, 2009

[Em segredo]

É este o lugar: no silêncio 
das águas do fiord
a sudoeste 
de honningsvag. A cabana 
é minúscula
e a mobília quase se reduz à cama e 
a uma
mesa de madeira de bétula
junto à lareira.
Mas temos o vinho 
e temos as cartas:
essas que uma vez marcámos 
em segredo
para que ambos perdêssemos
quando jogássemos 
um 
contra o outro. 

in «Os Sete Epígonos de Tebas» (inédito)

Quarta-feira, Maio 27, 2009

O começo

«Há um momento que pertence ao olhar. Corria o frio mês de Março de mil oitocentos e sessenta e cinco e Américo Fontes olhou a encosta e imaginou a casa a desenhar-se nas paredes alinhadas, nos prumos de sustentação dos alpendres, no pátio onde as folhas horizontais de uma tília futura estendiam já a sua sombra.»

«O Prazer e o Tédio». Edição Oficina do Livro. 

Segunda-feira, Maio 25, 2009

A capa

Quinta-feira, Maio 21, 2009

[Os países mudam]

Da rua via-se até ao fundo
a oficina
e a parede onde se penduravam as ferramentas
com os desenhos
delas.
As carroçarias dos automóveis
riscavam a sombra
na manhã de outubro
de se altear o brilho dos metais
por ali fora
com sucessivas camadas
de tinta.
E tudo se transformava
em permanência
por via do desembaraço: alavancas motrizes,
bielas, parafusos,
embraiagens. E circulavam
sempre nas ruas
muito azuis ou vermelhos
com a música alta
e sorrisos de quantos
lá cabiam dentro
nos bancos corridos
dos estados unidos
dos anos 
cinquenta. E
nas alamedas
a seiva das árvores procurava ascender
das raízes
aos ramos altos
por entre o rumor e o fumo
da gasolina
incombustível
dos motores
modificados: assim 
o socialismo
ancorava com dificuldade à sua base
os pressupostos
dele.
E as fotografias
dos turistas
repetiam apenas o brilho dos cromados
e as camadas de tinta
dos automóveis
que corriam na cidade
como se a revolução tivesse ainda 
num entroncamento 
com semáforos acesos
uma questão
digamos assim
mal 
resolvida
consigo mesma. 

Terça-feira, Maio 19, 2009

Está quase


«O Prazer e o Tédio» é o título definitivo do texto que aqui mesmo correu entre Fevereiro de 2008 e Janeiro de 2009. O romance, em edição da Oficina do Livro, chegará às livrarias no próximo mês de Junho.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

[A Noite]

É no preciso momento em que uma membrana 
fina
de plasma
separa o lume da lareira
e o oxigénio. O tempo
e a luz trémula
do querosene. As peças 
de cerâmica
e a heráldica.
E as mulheres
sustêm a respiração
para que as crianças do inverno 
adormeçam 
nos retratos
das salas. E a noite do inverno 
fica suspensa
sobre os telhados
e as ruas. 
E ninguém diz uma palavra.
E ninguém se move em redor do lume
com medo
da repercussão
dos desastres.

in «Os Sete Epígonos de Tebas» (inédito)

Uma leitura

Ruy Ventura, a propósito de Os Sete Epígonos de Tebas: «Nos seus poemas contidos, meditativos, este livro tem contudo raros vestígios da narrativa mitológica dos “sete epígonos de Tebas” – da história dos sete chefes militares que vingaram a derrota dos seus ascendentes conquistando, em vez deles, a urbe fundada pelo introdutor mítico do alfabeto fenício no território grego. É, antes, uma reflexão alargada sobre a memória, sobre a passagem do tempo (…)»

Aqui.

Já lá estamos...


[Imagem retirada daqui]

Domingo, Maio 17, 2009

Escola pública, escola democrática

Há sempre os bons exemplos. São esses que contam. Além do Magalhães e da retórica política.

Sábado, Maio 16, 2009

Mosaicos a um lado, rodapés a outro

O folhetim (que é como quem diz: o divertimento) «As Heranças Indivisas» continuará aqui. Com as actualizações possíveis, «A Onda Gigante» retomar-se-á e continuará aqui.

7.

E eu, de novo, que não. Que não conhecia a história do Alcino da Vicência.

6.

E foi então que o Miguel me olhou, surpreso, a perguntar se sabia quem era o de fato azul-clarinho e bigodaça retorcida. Eu que não. E ele, primeiro ainda a mirá-lo de revés, depois compenetrado num rosto dividido entre o ruído e a melancolia: «Tu não me queres ver que será o lapardeiro do Alcino da Vicência? Não lhe conheces a história?»

5.

O padre Salomão esperava em silêncio, as páginas do missal marcadas por fitas coloridas, resignado do hábito, mortinho pelo fim da cerimónia que era dia de pesca e estava de fé na pluma e a lamber-se já da lembrança do clafouti de maçã reineta poisado nas mesas corridas da Junta de Freguesia de que ouvira falar assim de passagem.

Sexta-feira, Maio 15, 2009

4.

O certo é que o panasca do cantador minhoto não havia meio de aparecer. Até que o meu tio Alberto o fisgou na adega com o Zé Cândido, de caneca providencial, a fazer rimas e a filosofar sobre os desacertos do mundo limpando as beiças. Agarrou-o pelos colarinhos, trouxe-o quase de rastas até ao alpendre da casa, ajeitou-lhe o nó da gravata, olhou-o muito de frente na impossibilidade de lhe compor a linha das sobrancelhas, amanhou ele mesmo um sorriso de circunstância e só lhe disse entre dentes: «Eu quero é ver se desafinas que te espeto um lareiro no olho que até te desdanças.»

Quinta-feira, Maio 14, 2009

3.

As mulheres, na madrugada da cerimónia, aqueciam o forno do povo e começavam por conduzir ao fogo, antes dos cabritos com batatas cortadas em quadrados grossos, os tabuleiros de empada de presunto e salpicão. E sentavam-se na pedra do forno, insinuando coisas, a fazer chalaça de a noiva levar o vestido branco e as flores simbólicas da laranjeira. «Ai eu se me apanhasse na idade e soubesse o que sei hoje.» E também elas riam correndo à boca a mão estendida como se o tempo por um instante pudesse suspender-se para que fossem jovens de novo e gritassem o que por dentro delas ficou sempre por dizer.

Quarta-feira, Maio 13, 2009

2.

O almoço do casamento ainda vinha longe no salão da Junta. Mas a festa começara antes. Na sexta-feira mataram-se os cabritos no pátio do Zé Ventura suspendendo-os de paus espetados nos intervalos do perpianho grosseiro das paredes. O vinho corria a par das moscas rondando os alguidares das vísceras depois de os bichos serem soprados à cana para que as enxúndias viessem inteiras na precisão do corte. O Zé Ventura limpava as mãos e a navalha no pano de cozinha deixando escorrer as gotas de sangue no lajedo ao mesmo tempo que gritava para cima «ó Tila que o vinho parece que entupiu a torneira do pipo». Ao pai da noiva competia então, em sendo já o fim da manhã, aparecer e pagar um copo aos rapazes na taberna do Pedro. «Estava a ver que adormeceras tarde, cabrão.» E ele a rir-se e a dizer «o que tu sabes já me esqueceu há muito».

1.

O cantador minhoto não havia meio de aparecer. Era um casamento à tradição e o tio Alberto exaltava-se na razão que a realidade lhe dava de ver-se mais que armada a bronca cerimonial. «São sempre os mesmos panascas. Por mim não punham cá eles o cu.» Mas a minha tia fizera questão de que a noiva fosse recebida com vénias e flores de laranjeira atadas em ramo, com um tapete de rosmaninho e alecrim a seguir em duas linhas da casa à igreja, passando pelo largo do meio da aldeia, atravessando o adro, entrando enfim pelo santuário quase até ao altar. Os cantadores eram a cereja no cimo do bolo: um a apresentar a noiva e a gabar-lhe as qualidades da temperança; outro em favor do prometido esposo exaltando em métrica relapsa a sua propensão às virtudes do trabalho. Ao Marcos de Romainho ficava reservada a função de garantir na concertina o acerto dos versos com a prosápia quando a noiva seguisse até ao arco de loureiro e depois entrasse na igreja de braço dado com o futuro esposo.

Terça-feira, Maio 12, 2009

Capítulo I

[Onde se conta do cantador minhoto e da aparição inusitada do Alcino
no casamento da minha prima.]

As Heranças Indivisas

[folhetim]

Segunda-feira, Maio 11, 2009

[Um poema sobre a crise económica]

Deve ser um manuscrito valioso: os planos
de viagem do zeppelin Hindenburgo que
sobrevoava os céus de Lisboa em
1936. Tenho-o diante de mim enquanto
escrevo um poema sobre a crise
económica e sei que um dia o haverei
de vender a bom preço.

Domingo, Maio 10, 2009

[Só existe]

Só existe um caminho que
depois se bifurca na multiplicidade
de veredas que levam ao único
caminho do mundo.

Sábado, Maio 09, 2009

[Os sonhos]

A lição maior que tiro do D. Quixote é
a de que o sonho é imprescindível 
a termos os pés bem assentes na terra.
Quem não acredita que as pás 
dos moinhos são ameaçadores gigantes 
acabará como Sancho a adormecer
com dificuldade a pensar nos decretos
de governação das ilhas fabulosas.

Quinta-feira, Maio 07, 2009

[A rarefacção]

Trabalhou 
seis meses
nas plataformas
de petróleo. Dizia 
que os helicópteros
pareciam suspensos
de uma nuvem
de poeira
de água
volátil. E que
nesse tempo
nem as mulheres
lhe lembravam.

Do livro (inédito) «Os Sete Epígonos de Tebas»

intervalo

Só um intervalo para lembrar que ele há muitas questões. Há questões terríveis. Há a prostituição... o pauperismo... Ele há muitas questões... Pois há. E todas elas de gravidade intermédia

Sábado, Maio 02, 2009

[Os noticiários da manhã]

Os noticiários da manhã abriram com essa imagem
fabulosa: dois poetas construíam um edifício.
Não era um edifício abstracto. Não
era o utópico edifício do coração das obras.
Era um edifício verdadeiro: alicerces,
paredes, telhado; pedra, tijolos,
cimento. Em vez do exercício habitual
de poetas procurando destruir os edifícios
todos da cidade, um a um, disparando canhões
de pólen, estes dois poetas erguiam
um edifício verdadeiro, concreto,
tangível. E isto é de uma humanidade
comovente. E isto chego a pensar
que quase merecia um poema.

[É verdade que sinto]

É verdade que sinto um imenso desprezo
pelos poetas. Por todos os poetas.
Esses seres ignóbeis que escrevem
a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,
nos queima os dedos distraídos. Uma
vez esteve aqui um poeta. Escreveu
a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas
do fogo sujam as paredes e os
mosaicos vidrados da sala de reuniões
do Conselho de Administração.

[Uma leitura pública num café de Punta Umbría]

Quando leio um poema em voz alta
sinto que as pessoas me olham
como se esperassem uma revelação.
Como se estivessem à espera dos milagres.
E hoje, finalmente, quase cedo à
tentação de explicar os mecanismos
dos milagres. Por exemplo:
eu posso fazer gelo escrevendo apenas
a palavra «gelo». E isso mesmo
faria neste momento
se não temesse que os mais distraídos
usassem o gelos nos copos
altos do gin tónico.

Terça-feira, Abril 28, 2009

[Casas novas]

Uma sombra fugidia atravessa o cenário
como se um amável fantasma
dos livros deambulasse por entre
os talos curtos de couve penca
e as casas novas com escaleira exterior
de granito e persianas de plástico.
A estrada do loteamento rasgou os campos
e as cancelas das traseiras dos
quintais abrem agora à frente urbana.

Sábado, Abril 25, 2009

[O Condestável]

Não precisavas
de ser santo 
para sê-lo.

Sê-lo-ás 
agora menos
que o és.

Sexta-feira, Abril 24, 2009

[Prémios]

O poeta laureado
não perguntou 
pela coroa 

de louros
ao entregarem-lhe 
o cheque.

[O sonho]

Quando acordei do sonho
de ter vencido nas olimpíadas
os quatrocentos metros barreiras

nenhum músculo me doía
e apenas me tocava
o desencanto

de ver que do pescoço
não pendia
nenhuma medalha de ouro.

[A traça]

O bicho dos livros analfabeto
só come
nos cantos 

da página
fora do corpo 
do texto.

Quinta-feira, Abril 23, 2009

[O pão]

Não queiras saber da roça
e do mato levado em gabelas
aos pátios e aos currais.
Não queiras saber do estrume
que a fertilidade dos campos
exige. Olha o pão a ser retirado
do forno e imagina que tudo
começou no fintar e no tender
e no calor das brasas varridas
com o matão da urzeira.

Terça-feira, Abril 21, 2009

[O uso dos venenos]

Desde sempre o direito agrário do reino
proíbe lançar-se o trovisco
nos rios e lagoas. O trovisco
retira o oxigénio das águas
e os seus ramos espetados nos linhares
afastam as bruxas. O direito
e a tradição dividem-se no uso
dos venenos. Por omissão legislativa
os cachos das flores aromáticas do trovisco
enlouquecem ainda as raparigas
que recolhem os arbustos em Abril
para fazer vassouras de varrer os pátios.

Segunda-feira, Abril 20, 2009

[O que não interessa]

Cresce desmesuradamente nos campos
o que não interessa.
Preparas a calda num pequeno
lagar de pedra e cortas as ervas
e depois com a mesma tesoura de sempre
os rebentos largos e inúteis
das videiras.

Domingo, Abril 19, 2009

[Os Sete Epígonos de Tebas]

OS QUE SE DEDICAM ÀS ARTES CÉNICAS

Agora me lembro –
do fundo das noras erguia-se
a labareda
das rosas
dos quintais.
Aprendera a respirar
abaixo
da linha de água.
Mas não era possível ainda
enlouquecer
pela perseverança
nas artes cénicas. E então as mulheres dos montes
viravam os estrados
para o lado de dentro
dos teatros
como se o luxo
da estreia
fosse quase insuportável
e irradiasse nos espelhos
das cerimónias. Agora me lembro –
do modo como o pêndulo
na imensa manhã desse tempo
oscilava
nos ensaios
e
ia e
vinha.


A VARA INCANDESCENTE

Mais que a tempestade ou o dilúvio
o crepúsculo
era o inverno. Porque no interior
da treva demorada
as roldanas dos poços
e a ferrugem
exerciam o ofício de trazer aos alguidares de barro
os rumorosos
óxidos
das nascentes:
e moviam as alavancas
de queimar a urze
nos pátios: e poisavam nas mesas
de pão
o brilho
estrangeiro
das missangas
preciosas. As crianças adormeciam – se o
vento varria nas varandas
a vagarosa vara
incandescente
do ulmeiro
jovem.

Nota: Estes dois poemas fazem parte do original vencedor do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2009. Em «Os Sete Epígonos de Tebas» estabelece-se um jogo de espelhos com a obra de Herberto Helder – com os riscos inerentes, claro, de o lume dessa poesia queimar os versos que a confrontam.

[Podar as videiras]

Podar as videiras é
um exercício em que a estética
prevalece sobre o princípio
dos ramos produtivos. Um
arado corre a direito
para que a geometria 
e o comum da terra
possam encontrar-se no fim
das manhãs de Fevereiro.

Sexta-feira, Abril 17, 2009

[Serões]

O frio trazia a imobilidade
nocturna. Nem automóveis nem pessoas
cortavam o silêncio das ruas
e dos largos. Em não havendo lua
os próprios cães deixavam
de ladrar. Só dentro de casa
a luz irregular do petróleo
fazia mover os objectos.

[O que vem dos poemas]

É no fim das manhãs de Abril
e não sabes já o que vem dos poemas
ou do que lhes trouxe as iluminadas
e precárias sílabas: o voo das aves a regressar
aos campos lavrados; o odor
da hortelã pisada pelas crianças
nas veredas das bouças.

Quarta-feira, Abril 15, 2009

[Novembro]

Esperava-se a chuva ou o frio
como um sinal de que tudo
estava certo. Fechava-se sobre os campos
um ciclo que finda e logo
recomeça. Mas então
era o domínio do fogo da lareira
mesmo que os dias
depois das chuvas devolvessem
às ruas a claridade das folhas dos carvalhais
e alguém fosse desatando
os pedaços de ráfia que ficam
a apodrecer nos arames das vinhas.

Terça-feira, Abril 14, 2009

[17/2]

Saímos muito cedo. A névoa
diluía os contornos das paredes das casas
e dos muros dos quintais. Nem olhámos
pelo retrovisor. A distância parecia começar
a proteger-nos. E no entanto
continuava a perseguir-nos
o odor das bagas ácidas do arando.

Segunda-feira, Abril 13, 2009

[Conhecemos às vezes]

Conhecemos às vezes as cidades
apenas pelo que não vem nos roteiros
nem chegávamos a
supor: do Rio de Janeiro
não recordas mais que o fim
de tarde no aterro do Flamengo
a ver um jogo na TV
e a discutir com um velho
a meio de sucessivos chopes
o ataque do Vasco da Gama.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

[No Junqueira]

Víamos os jogos do mundial
no Junqueira em dois grupos
separados por mesas de madeira
cobertas com toalhas de plástico de
um lado com quadrados brancos
e vermelhos e brancos e azuis
do outro. Uns a favor
do Brasil a gabar a criatividade
do jogo e o mais certo a imaginarem-se
estendidos no Leblon com as gajas 
bronzeadas das telenovelas
a mamar um chope ou a pagar-lhes
caipirinhas. Outros a favor
da Itália a realçar a organização
defensiva que nem por 
hipótese académica as Chaves
do Areeiro a preparar-se 
para uma acção inspectiva aos
cofres. Da cerveja muito fresca
é que partilhávamos todos contra 
o calor excessivo e invulgar 
dessa tarde de cinco de Julho
de mil novecentos e oitenta e dois.

[O teu quarto da residência universitária]

Fechavas as gelosias às luzes 
da cidade que não andavam longe 
e na aparelhagem (nesse
tempo dizia-se assim) ouvia-se a 
inevitável música brasileira 
romântica. Nem chegavam a irritar-me 
os pauzinhos de incenso e 
aquelas sedas que pareciam
da Índia compradas na feira 
da ladra suspensas de varões 
torneados de plástico a imitar
a madeira de carvalho. Éramos todos 
tão modernos que a porta 
do quarto ficava aberta a noite
toda e podia dar-se o caso de alguém 
entrar e perguntar à duas
da manhã se o 4ac da fórmula 
resolvente tinha 
que vir entre parêntesis.

[Esses dois anos]

Olhamos a labareda concentrados nesse
rumor que parece ser 
de oxigénio a consumir-se e
pela primeira vez depois de tantos anos
ouso puxar a conversa sobre as raparigas estrangeiras
de que não chegámos nunca a saber o nome
por responderem sempre a um outro nome
que lhes dávamos. Pergunto então

se te recordas. E tu manténs
o silêncio que a memória trazia de longe e tão perto
do vento nos ramos dos salgueiros das margens
da neve descendo as encostas
até responderes vagarosamente sem erguer a cabeça
continuando a olhar a labareda 
e a ouvir o seu rumor: não me lembro 
de ter havido inverno durante esses dois anos
em boa verdade nunca
chegámos a acender a lareira.

Terça-feira, Abril 07, 2009

[Cicatrizes]

Guardei sem medo
a tua navalha
sabendo

que era ela
quem menos
poderia cortar-me.

Domingo, Abril 05, 2009

[Às vezes é preciso não compreender]

Às vezes é preciso não compreender.
Às vezes é preciso deixar as palavras entregues
à interrogação e (por essa via)
ao sobressalto. Às vezes 
em vez das páginas dos livros
é preciso deixar que as palavras devolvam
o centro imaterial dos seus obscuros
significados. E deixá-las assim.

Nas aldeias o tempo difere os eventos
como se a cronologia subvertesse
a realidade objectiva
e o futuro e a memória se confundissem
na poeira levantada dos caminhos

que levam aos largos. Eu e tu procuramos
o que julgámos ter ficado suspenso
da árvore incombustível dos pronomes
possessivos. Eu e tu regressamos à procura
do rumor antigo das águas de nascente
a correr nos tanques. E só então nos apercebemos
de como as horas correm

e de como as sebes altíssimas da adolescência
erguidas nos limites da propriedade
nos entregam a cúpula insignificante
do grande vazio das nossas vidas.

Quinta-feira, Abril 02, 2009

[Modalidades olímpicas. 5: Natação]

Dissesses-me 
uma única 
palavra 

e eu fazia os duzentos metros 
mariposa
debaixo de água.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

[Modalidades olímpicas. 4: Salto em altura]

Em voo sobre a
fasquia há um momento
em que o céu

e a memória
dos teus olhos
se confundem.

Terça-feira, Março 31, 2009

[Modalidades olímpicas. 3: Fosso olímpico]

Por ti
eu parto
a loiça toda.

[Modalidades olímpicas. 2: Lançamento do peso]

Assim como tu
às leis da gravidade
não estivesse

sujeita
a esfera
arremessada.

Segunda-feira, Março 30, 2009

[Modalidades olímpicas. 1: Triplo salto]

A ti, pelo salto
de gazela
te conheço.

Quinta-feira, Março 26, 2009

[Metade de metade]

Metade de metade
do que te dou
é mais do que tenho.

[A pedra dos vocábulos]

A pedra dos vocábulos
repercutia
nas páginas dos livros.

[Ao jogo]

Só vou ao jogo
se me deixares
perder.

[A música]

Nas folhas dos salgueiros
a música é anterior
ao vento.

Quarta-feira, Março 25, 2009

[No deserto]

A memória
da tua pele
é que me matava

no deserto
e não
a falta de água.

[Exemplos. 4: A necrópole dos três Reis]

É como se a geometria e a proporção 
revertessem da ética e a eternidade obrigasse
a essa exigência tão próxima da música 
e da álgebra. Uma íntima cartografia tumular
ficou inscrita nos livros guardados 
para que ao público se expusesse apenas 
o remanescente dos corredores e das salas 
dos palácios onde a vida verdadeiramente 
se viveu: nos jardins encostados a paredes de taipa, 
nos azulejos minúsculos das tumbas
sem a gravação dos nomes ou o retrato
dos rostos que um dia foram a matéria sujeita
à infâmia contingente de que todos 
indistintamente somos feitos.

Quinta-feira, Março 19, 2009

[Exemplos. 3: Metáfora do labirinto das águas]

Perdido num outro e maior labirinto
olhas os canais de rega 
como se também a tua vida 
pudesse inscrever-se nos códigos 
de aviação da água: como se também 
os teus medos pudessem 
quebrar-se assim de um só golpe
oblíquo da lâmina nos torrões
aluviais: como se a tempestade fosse
riscada ao inventário dos terrenos
de herdeiros. O território e os gestos 
confundem-se para que os canais 
de rega e as sementes do trigo dividam
a luz abundante dos labirintos.

Terça-feira, Março 17, 2009

[Exemplos. 2: A Casa do Muro]

O tempo desloca os lugares 
e rouba-lhes sentido. Aqui havia uma 
varanda e os açudes reflectiam
no seu espelho as cerejeiras 
em flor das fotografias japonesas 
das caixas de costura. E havia maçãs. E 
o velho do Largo numa noite muito quente
de julho mostrou-nos de memória
como era nos anos trinta o rio
de janeiro a desenhar no chão
do pátio uma nuvem de luz evaporada.
Hoje regressamos em silêncio: olhamos
a noite e tememos saber que nomes
nos devolve ou temos para lhe dar.

jcb


Segunda-feira, Março 16, 2009

[Exemplos. 1: Aquele que ficou]

Em sua casa os panos sobre
as mesas faziam duvidar que a flor
azul ou a bagarela fossem as mesmas
dos outros ou igual a medida
dos nove dias na água ou das nove
noites e nove manhãs do linho a
secar. Diversas de todas as restantes
haveriam de ser ainda as varas de
salgueiro entrançadas nos seus perfeitos
cestos vindimos com o conjunto das pontas
atadas. E sem precisar de terras
centieiras como nenhum assim crescia
o cereal do inverno que semeava em cavadas
de pedra desmontada e pouco chão.
jcb

Domingo, Março 15, 2009

[Para acabar esta série]

O mar trazia de longe as anémonas
da infância a literatura
traz as anémonas
de onde quisermos.

Sábado, Março 14, 2009

[Outro]

Assim também eu pintava
parece-me que tudo se resumia a três faixas
horizontais de cores primárias sobre tela 
e um título a verdade

é que o inverno nunca mais acaba.
Tem chovido que só visto
as alterações climáticas a deflação
é uma consequência da crise dos mercados

financeiros. Não vislumbro um critério 
objectivo nunca mais hei-de esquecer a recensão 
em que a propósito de um 
quadro abstracto se escrevia 

na sua génese a guerra civil nos estados 
unidos o estado de israel. Se visses 
o preço que a obra atingiu em leilão 
as baixas pressões são responsáveis 

por esta instabilidade. Tudo depende 
da resposta do gerente do banco 
o crédito não é como antes
apetecia-me tanto abrir uma galeria de arte.