quinta-feira, outubro 19, 2006

Sophia, o ICN e a Culatra

Num dos mais belos poemas da língua portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen insiste que «A civilização em que estamos é tão errada que/ Nela o pensamento se desligou da mão». O poema é já antigo: mas a passagem dos anos, ao invés de o envelhecer ou de lhe retirar esse iluminado fulgor, acrescentou às suas sílabas uma estranha e dolorosa actualidade. Nunca, como no nosso tempo, foi tão evidente esse afastamento entre mão e pensamento, entre teoria e prática, entre discurso e realidade concreta.

O mundo urbano e o mundo rural deixaram de se constituir como elementos de complementaridade e equilíbrio: diluídas as suas fronteiras, há uma espécie de suburbanidade (dito melhor: uma cultura suburbana) que avança, avassaladora, boçal, sem saber muito bem para onde caminha e que objectivos pretende atingir. Num tempo em que os instrumentos de navegação nos permitiriam tirar os pontos de rumo, é como se uma esquiva vocação para o desastre nos deixasse, enquanto alternativas únicas, a navegação à vista ou o naufrágio.


[Texto completo no Jornal do Algarve]