8.
A corda tinha deslaçado e Sebastião José compreendeu que a coisa não avançaria com falinhas mansas. E declarou guerra a Castela. Mas era ainda a diplomacia o que comandava o processo: os diplomatas retomavam as mesas de jogo para que não fossem necessárias tropas no terreno: em vez dos tiros que seriam o recurso sem a presença e a actuação deles, a diplomacia movia as peças no tabuleiro legislativo.
terça-feira, novembro 15, 2011
7.
A diplomacia é a arte de esconder o jogo e procurar foder o parceiro com elegância. Às vezes as cartas estão todas em cima da mesa e faz-se de conta que há jogo escondido. Um sabe que o outro sabe o que o outro sabe e ambos fazem de conta. E, no entanto, quem vê as cartas e sabe que não há jogo escondido, mas faz de conta que acredita que há jogo escondido, deixa correr a coisa elegantemente até a corda começar a deslaçar. Então é altura de o que está enfraquecido informar superiormente que o adversário enfraqueceu tanto que é tempo de dar-lhe o golpe final; o que está a vencer informa de modo igual o seu governo. Os diplomatas saem ambos por cima, o de um lado e outro, e lavam as mãos com elegância. Entretanto fizeram ambos um excelente e reconhecido trabalho e haverão de receber medalhas dos respectivos estados pelas mesmas e diversas razões.
As medalhas são concedidas em sessões solenes às vezes em datas não muito afastadas.
A diplomacia é a arte de esconder o jogo e procurar foder o parceiro com elegância. Às vezes as cartas estão todas em cima da mesa e faz-se de conta que há jogo escondido. Um sabe que o outro sabe o que o outro sabe e ambos fazem de conta. E, no entanto, quem vê as cartas e sabe que não há jogo escondido, mas faz de conta que acredita que há jogo escondido, deixa correr a coisa elegantemente até a corda começar a deslaçar. Então é altura de o que está enfraquecido informar superiormente que o adversário enfraqueceu tanto que é tempo de dar-lhe o golpe final; o que está a vencer informa de modo igual o seu governo. Os diplomatas saem ambos por cima, o de um lado e outro, e lavam as mãos com elegância. Entretanto fizeram ambos um excelente e reconhecido trabalho e haverão de receber medalhas dos respectivos estados pelas mesmas e diversas razões.
As medalhas são concedidas em sessões solenes às vezes em datas não muito afastadas.
segunda-feira, novembro 14, 2011
6.
Cinco mil pessoas é diferente de uma mais uma mais uma até cinco mil. Cinco mil pessoas é um ponto num mapa, uma generalização num relatório entregue a Sebastião José sobre a economia do Reino do Algarve. Uma mais uma mais uma até cinco mil é uma pessoa e outra e outra, um e outro rosto, um nome e outro nome até à soma de cinco mil nomes e cinco mil rostos.
Mas a Coroa, preocupada com o interesse público, pouco curará de saber de nomes e rostos. Nos relatórios enviados a Lisboa não existe nenhum João Martins, de alcunha o Joanete, que cortou vinte e seis pinheiros na mata do concelho; nem consta nenhum Romão Pereira nem nenhum António Martins Mascarenhas, este que acaba de acusar aquele do roubo de pão. Existe apenas o conjunto abstracto que resultou do somatório de parcelas concretas.
António Martins Mascarenhas, vírgula: este armador de xávega há-de constar de mais que uma petição, de mais que um relatório, de mais que um anexo dos arquivos do Paço. Não Romão Pereira, claro, simples costeiro sem nome em autos que não sejam de querela e no papel de querelado. Mas este António Martins Mascarenhas, vírgula: os armadores catalães não podem vê-lo e é a ele que acusam das mudanças em curso e que, garantem, a ninguém acabarão por aproveitar. Acusações antigas, de resto, como haverá de se ver.
Cinco mil pessoas é diferente de uma mais uma mais uma até cinco mil. Cinco mil pessoas é um ponto num mapa, uma generalização num relatório entregue a Sebastião José sobre a economia do Reino do Algarve. Uma mais uma mais uma até cinco mil é uma pessoa e outra e outra, um e outro rosto, um nome e outro nome até à soma de cinco mil nomes e cinco mil rostos.
Mas a Coroa, preocupada com o interesse público, pouco curará de saber de nomes e rostos. Nos relatórios enviados a Lisboa não existe nenhum João Martins, de alcunha o Joanete, que cortou vinte e seis pinheiros na mata do concelho; nem consta nenhum Romão Pereira nem nenhum António Martins Mascarenhas, este que acaba de acusar aquele do roubo de pão. Existe apenas o conjunto abstracto que resultou do somatório de parcelas concretas.
António Martins Mascarenhas, vírgula: este armador de xávega há-de constar de mais que uma petição, de mais que um relatório, de mais que um anexo dos arquivos do Paço. Não Romão Pereira, claro, simples costeiro sem nome em autos que não sejam de querela e no papel de querelado. Mas este António Martins Mascarenhas, vírgula: os armadores catalães não podem vê-lo e é a ele que acusam das mudanças em curso e que, garantem, a ninguém acabarão por aproveitar. Acusações antigas, de resto, como haverá de se ver.
quarta-feira, novembro 09, 2011
5.
O interesse público vê a fuga aos impostos, ou apenas os cofres públicos quase vazios, com os maus olhos com que é suposto que veja.
O tgv (quer dizer: a expansão marítima) exigia pulso firme na percepção das receitas. Reformaram-se forais, mexeu-se em mordomias antigas de senhores com brasão de granito nas empenas das casas e camas de dossel, apertou-se ao povo um pouco mais o gasganete em nome do interesse público: construíram-se naus, desenhou-se um império.
E as modas pegam. D. Manuel, já no século XVI, recebe um relatório que fala de sítios ermos de areia, na foz do Guadiana e na contígua linha de costa, onde a riqueza invulgar de pescado não acrescenta um ceitil ao erário da Coroa: é a Castela que a apanha do carapau e da sardinha aproveitam. Em 1512 manda el-rei português que junto ao estuário seja edificada uma vila capaz de impor a prática de uma soberania que até então o era apenas de direito. Eis o programa: controlar os ataques corsários e a avidez mourama, inscrever no território as marcas efectivas do poder central, atacar o contrabando, fiscalizar, arrecadar receitas.
É assim que nasce Santo António da Foz do Guadiana por ordem real. Como se os lugares, as vilas, as cidades, se edificassem por decreto contra a geografia das necessidades, dos sonhos e da necessidade deles. Acontece, portanto, que antes ainda dos éditos, antes ainda das cartas de privilégio, já num desenho de Duarte de Armas o lugar é referenciado com topónimo castelhano: Arenilha. Já ali, portanto, antes da decisão real de mandar construir o aglomerado, havia gente a viver em barracas e a dar-lhe um nome. É bem feito.
Mas era a poente, não longe, nos areais abertos à baía de pescado abundante, indiferente às cartas de privilégio ou à outorga de regimentos de alfândega, que o povo começava a juntar-se. Santo António de Arenilha haverá de ficar sem gente, haverá de afundar-se nas águas do rio; e o contrabando haverá de persistir, como haverão de persistir a fuga aos impostos e a imposição dos interesses individuais, de gente livre, contra os interesses do Estado e as correlativas determinações de D. Manuel e de D. João III. E é por isso que neste mês de Outubro de 1773, pelas contas do jovem Leonardo Loppes de Arouca, o número de almas que na praia de Monte Gordo vivem (supondo que a cada indigente corresponde uma alma) ultrapassa os cinco mil.
O interesse público vê a fuga aos impostos, ou apenas os cofres públicos quase vazios, com os maus olhos com que é suposto que veja.
O tgv (quer dizer: a expansão marítima) exigia pulso firme na percepção das receitas. Reformaram-se forais, mexeu-se em mordomias antigas de senhores com brasão de granito nas empenas das casas e camas de dossel, apertou-se ao povo um pouco mais o gasganete em nome do interesse público: construíram-se naus, desenhou-se um império.
E as modas pegam. D. Manuel, já no século XVI, recebe um relatório que fala de sítios ermos de areia, na foz do Guadiana e na contígua linha de costa, onde a riqueza invulgar de pescado não acrescenta um ceitil ao erário da Coroa: é a Castela que a apanha do carapau e da sardinha aproveitam. Em 1512 manda el-rei português que junto ao estuário seja edificada uma vila capaz de impor a prática de uma soberania que até então o era apenas de direito. Eis o programa: controlar os ataques corsários e a avidez mourama, inscrever no território as marcas efectivas do poder central, atacar o contrabando, fiscalizar, arrecadar receitas.
É assim que nasce Santo António da Foz do Guadiana por ordem real. Como se os lugares, as vilas, as cidades, se edificassem por decreto contra a geografia das necessidades, dos sonhos e da necessidade deles. Acontece, portanto, que antes ainda dos éditos, antes ainda das cartas de privilégio, já num desenho de Duarte de Armas o lugar é referenciado com topónimo castelhano: Arenilha. Já ali, portanto, antes da decisão real de mandar construir o aglomerado, havia gente a viver em barracas e a dar-lhe um nome. É bem feito.
Mas era a poente, não longe, nos areais abertos à baía de pescado abundante, indiferente às cartas de privilégio ou à outorga de regimentos de alfândega, que o povo começava a juntar-se. Santo António de Arenilha haverá de ficar sem gente, haverá de afundar-se nas águas do rio; e o contrabando haverá de persistir, como haverão de persistir a fuga aos impostos e a imposição dos interesses individuais, de gente livre, contra os interesses do Estado e as correlativas determinações de D. Manuel e de D. João III. E é por isso que neste mês de Outubro de 1773, pelas contas do jovem Leonardo Loppes de Arouca, o número de almas que na praia de Monte Gordo vivem (supondo que a cada indigente corresponde uma alma) ultrapassa os cinco mil.
4.
A liberdade individual é contrária aos interesses do Estado. O Estado prossegue o bem comum, o interesse público. Promulga leis, regulamenta. E a liberdade individual deve sujeitar-se às regras que garantam e assegurem o primado de um interesse mais vasto: o interesse comum. O ponto é que o interesse comum nunca é o resultado da soma dos interesses individuais. E a soma dos interesses individuais esbarra nos superiores interesses do Estado.
Os pinheiros da mata do concelho estão ao serviço do interesse público. Os pinheiros são cortados por ordem do Procurador do Concelho e vendidos na outra margem do rio; em Espanha. João Martins, de alcunha o Joanete, nunca usufruiu, directamente ou indirectamente, da venda legal e regulamentar dos pinheiros bravos. Uma noite resolveu cortar vinte e seis pinheiros e vendê-los a um espanhol que, de costume, os comprava mais caros ao Procurador do Concelho. Pela primeira vez iria usufruir de uma parcela de um bem comum. O certo é que foi apanhado e não é crível que o crime fique sem o castigo que a lei regulamenta e o interesse público recomenda.
A liberdade individual é contrária aos interesses do Estado. O Estado prossegue o bem comum, o interesse público. Promulga leis, regulamenta. E a liberdade individual deve sujeitar-se às regras que garantam e assegurem o primado de um interesse mais vasto: o interesse comum. O ponto é que o interesse comum nunca é o resultado da soma dos interesses individuais. E a soma dos interesses individuais esbarra nos superiores interesses do Estado.
Os pinheiros da mata do concelho estão ao serviço do interesse público. Os pinheiros são cortados por ordem do Procurador do Concelho e vendidos na outra margem do rio; em Espanha. João Martins, de alcunha o Joanete, nunca usufruiu, directamente ou indirectamente, da venda legal e regulamentar dos pinheiros bravos. Uma noite resolveu cortar vinte e seis pinheiros e vendê-los a um espanhol que, de costume, os comprava mais caros ao Procurador do Concelho. Pela primeira vez iria usufruir de uma parcela de um bem comum. O certo é que foi apanhado e não é crível que o crime fique sem o castigo que a lei regulamenta e o interesse público recomenda.
segunda-feira, novembro 07, 2011
3.
Leonardo olhou o desenho do enviado da Corte e fascinou-o essa representação do real. Não tanto por o desenho representar a realidade: mas por reinventá-la.
É certo que se implantam em três linhas ao longo de uma légua as cabanas de colmo e as poucas casas de adobe e cobertura de telha onde vivem os mais de cinco mil habitantes da Praia de Monte Gordo: mas era preciso um desenho para representar essa realidade. Porque de nenhum ponto se tem uma percepção do conjunto. A quem chega pelo Norte, pelas marinhas do esteiro da Carrasqueira, o aglomerado novo há-de parecer um pequeno conjunto de choças erguidas por entre o ondulado dos relevos dunares; a quem chega do nascente, das bandas do Guadiana, seguindo pela vereda que corre na orla do pinhal do concelho, a imagem que se realça é a da igreja de Nossa Senhora das Dores e de uma espécie de largo que não é senão um breve descampado de areia; antes, de um e outro lado, dez cabanas iguais. E tudo é tão igual que estando em qualquer lugar do aglomerado é como se estivéssemos em todos os outros.
Mas o desenho do enviado da Corte reinventa cada minúscula parcela, esbate a ideia de um lugar abstracto onde se misturam patrões de xávega e gente adventícia fugida à justiça por delitos e más obras: uma rua específica, uma cabana específica, uma específica casa de adobe: onde vivem, onde trabalham, onde vagabundeiam, onde circulam aladores e mestres de alar, cirurgiões e estanqueiros, carpinteiros e soldados de infantaria, capitães e tanoeiros, sapateiros, costeiros, padeiros, mestres de iate.
O mundo é um desenho. E a realidade é a representação que se faz dela.
Leonardo olhou o desenho do enviado da Corte e fascinou-o essa representação do real. Não tanto por o desenho representar a realidade: mas por reinventá-la.
É certo que se implantam em três linhas ao longo de uma légua as cabanas de colmo e as poucas casas de adobe e cobertura de telha onde vivem os mais de cinco mil habitantes da Praia de Monte Gordo: mas era preciso um desenho para representar essa realidade. Porque de nenhum ponto se tem uma percepção do conjunto. A quem chega pelo Norte, pelas marinhas do esteiro da Carrasqueira, o aglomerado novo há-de parecer um pequeno conjunto de choças erguidas por entre o ondulado dos relevos dunares; a quem chega do nascente, das bandas do Guadiana, seguindo pela vereda que corre na orla do pinhal do concelho, a imagem que se realça é a da igreja de Nossa Senhora das Dores e de uma espécie de largo que não é senão um breve descampado de areia; antes, de um e outro lado, dez cabanas iguais. E tudo é tão igual que estando em qualquer lugar do aglomerado é como se estivéssemos em todos os outros.
Mas o desenho do enviado da Corte reinventa cada minúscula parcela, esbate a ideia de um lugar abstracto onde se misturam patrões de xávega e gente adventícia fugida à justiça por delitos e más obras: uma rua específica, uma cabana específica, uma específica casa de adobe: onde vivem, onde trabalham, onde vagabundeiam, onde circulam aladores e mestres de alar, cirurgiões e estanqueiros, carpinteiros e soldados de infantaria, capitães e tanoeiros, sapateiros, costeiros, padeiros, mestres de iate.
O mundo é um desenho. E a realidade é a representação que se faz dela.
sexta-feira, novembro 04, 2011
2.
Um homem, na mata pública, cortou vinte e seis pinheiros verdes. Estavam arrumados em toros de nove palmos pelo comprido no interior de uma lancha que não tardaria a atravessar o rio quando o homem foi surpreendido pelo Procurador do Concelho. Tanto era certa a consciência de que cometia um crime: procedera ao corte das árvores durante a noite; e era madrugada ainda quando, furtivo, acabava a tarefa.
A Leonardo começara sobretudo por surpreendê-lo a determinação do Procurador: quase a ira. Tinha dificuldade em compreender esse empenho contra um homem que, de acordo com o próprio denunciante, em sua defesa se limitara a afirmar «ser um pobre».
O Procurador acusou-o do roubo dos pinheiros e de posse de arma ilegal. E o escrivão quase sorriu de ver como as histórias se repetiam e como os acasos eram tão favoráveis às instâncias dos poderes: quis o acaso que naquele dia o Procurador se tivesse levantado invulgarmente cedo e topasse o homem pronto a largar-se da margem com os toros de nove palmos; quis o acaso, ainda, que quatro pessoas ali passassem nesse preciso momento e testemunhassem o denunciante a retirar ao denunciado, por cautela, uma faca que trazia no cós do calção e se confirmou ser flamenga, «de ponta aguda penetrante», com o seu cabo de madeira lavrada e um anel de metal amarelo; e quis o acaso, finalmente, que dois soldados artilheiros da guarnição da Praça ali estivessem em lugar de costume tão deserto e assim o levassem logo para o posto da guarda do Poço da Areia enquanto o Procurador rumara a denunciar o roubo «e mais perfídias» ao doutor juiz de fora ou a quem em juízo o representasse.
O homem, João Martins, de alcunha o Joanete, que cortava os pinheiros e se preparava para vendê-nos na outra margem por desafio de um espanhol que vivia de argúcias, não saberia defender-se por não compreender as razões de o que fazia ser um crime. Quer dizer: não desconhece que apenas é possível cortar pinheiros da mata por ordem do Procurador; mas não compreende porque se diz que os pinheiros são uma riqueza de todos quando sabe que nunca a ele essa riqueza aproveitou e tem por certo que nunca haverá de aproveitar-lhe.
Um homem, na mata pública, cortou vinte e seis pinheiros verdes. Estavam arrumados em toros de nove palmos pelo comprido no interior de uma lancha que não tardaria a atravessar o rio quando o homem foi surpreendido pelo Procurador do Concelho. Tanto era certa a consciência de que cometia um crime: procedera ao corte das árvores durante a noite; e era madrugada ainda quando, furtivo, acabava a tarefa.
A Leonardo começara sobretudo por surpreendê-lo a determinação do Procurador: quase a ira. Tinha dificuldade em compreender esse empenho contra um homem que, de acordo com o próprio denunciante, em sua defesa se limitara a afirmar «ser um pobre».
O Procurador acusou-o do roubo dos pinheiros e de posse de arma ilegal. E o escrivão quase sorriu de ver como as histórias se repetiam e como os acasos eram tão favoráveis às instâncias dos poderes: quis o acaso que naquele dia o Procurador se tivesse levantado invulgarmente cedo e topasse o homem pronto a largar-se da margem com os toros de nove palmos; quis o acaso, ainda, que quatro pessoas ali passassem nesse preciso momento e testemunhassem o denunciante a retirar ao denunciado, por cautela, uma faca que trazia no cós do calção e se confirmou ser flamenga, «de ponta aguda penetrante», com o seu cabo de madeira lavrada e um anel de metal amarelo; e quis o acaso, finalmente, que dois soldados artilheiros da guarnição da Praça ali estivessem em lugar de costume tão deserto e assim o levassem logo para o posto da guarda do Poço da Areia enquanto o Procurador rumara a denunciar o roubo «e mais perfídias» ao doutor juiz de fora ou a quem em juízo o representasse.
O homem, João Martins, de alcunha o Joanete, que cortava os pinheiros e se preparava para vendê-nos na outra margem por desafio de um espanhol que vivia de argúcias, não saberia defender-se por não compreender as razões de o que fazia ser um crime. Quer dizer: não desconhece que apenas é possível cortar pinheiros da mata por ordem do Procurador; mas não compreende porque se diz que os pinheiros são uma riqueza de todos quando sabe que nunca a ele essa riqueza aproveitou e tem por certo que nunca haverá de aproveitar-lhe.
quinta-feira, novembro 03, 2011
Capítulo III
[Monte Gordo, Outubro de 1773]
1.
Leonardo Loppes de Arouca tem uma expressão curiosa no seu livro de apontamentos: «este fascinante caos urbano de vária gente». É uma frase quase inverosímil para a época. Leonardo vem de boas famílias de Faro, é um jovem de vinte e um anos, e a praia de Monte Gordo, vê-se, mexe-lhe com a estrutura. A frase equivaleria hoje a falarmos com o mesmo entusiasmo das periferias urbanas: do caos de anexos de tijolo e prumos metálicos, da fascinante desordem e rendilhado das fasquias e dos andaimes das obras, dos impasses, dos loteamentos de ruas desligadas, de passeios interrompidos, de azulejos decorativos nas varandas.
Leonardo Loppes de Arouca, escrivão da Câmara, tem como função essencial dar conta dos autos de querela que na dita praia ocorrem com frequência desusada. Aí, na cabana de aposentadoria do juiz ordinário, às vezes com enfado, quase sempre com curiosidade e aprazimento, dá nota das ocorrências vulgares. Os autos de denunciação, no entanto, não é tanto ao corregedor ou ao doutor juiz de fora que os redige: primeiro os aproveita como matéria para a compreensão do mundo.
[Monte Gordo, Outubro de 1773]
1.
Leonardo Loppes de Arouca tem uma expressão curiosa no seu livro de apontamentos: «este fascinante caos urbano de vária gente». É uma frase quase inverosímil para a época. Leonardo vem de boas famílias de Faro, é um jovem de vinte e um anos, e a praia de Monte Gordo, vê-se, mexe-lhe com a estrutura. A frase equivaleria hoje a falarmos com o mesmo entusiasmo das periferias urbanas: do caos de anexos de tijolo e prumos metálicos, da fascinante desordem e rendilhado das fasquias e dos andaimes das obras, dos impasses, dos loteamentos de ruas desligadas, de passeios interrompidos, de azulejos decorativos nas varandas.
Leonardo Loppes de Arouca, escrivão da Câmara, tem como função essencial dar conta dos autos de querela que na dita praia ocorrem com frequência desusada. Aí, na cabana de aposentadoria do juiz ordinário, às vezes com enfado, quase sempre com curiosidade e aprazimento, dá nota das ocorrências vulgares. Os autos de denunciação, no entanto, não é tanto ao corregedor ou ao doutor juiz de fora que os redige: primeiro os aproveita como matéria para a compreensão do mundo.
quarta-feira, novembro 02, 2011
Capítulo II
[Pombal, Setembro de 1779]
O homem que entra na sege parece um mendigo. Caminha devagar. Tem uma manta sobre os ombros, um gorro de lã enfiado na cabeça, umas calças largas de saragoça. É ainda escuro. Dois jovens ajudam-no a subir o degrau, a entrar, a sentar-se. A cena tem algo de desconcertante: uma mistura de miséria e solenidade, de vulgaridade e nobreza. As cortinas de cabedal fecharam à praça o espaço interior da sege e na manhã de Setembro começou por ouvir-se o ruído metálico das rodas a correr na pedra do pavimento, o eco dos cavalos a trote.
[Pombal, Setembro de 1779]
O homem que entra na sege parece um mendigo. Caminha devagar. Tem uma manta sobre os ombros, um gorro de lã enfiado na cabeça, umas calças largas de saragoça. É ainda escuro. Dois jovens ajudam-no a subir o degrau, a entrar, a sentar-se. A cena tem algo de desconcertante: uma mistura de miséria e solenidade, de vulgaridade e nobreza. As cortinas de cabedal fecharam à praça o espaço interior da sege e na manhã de Setembro começou por ouvir-se o ruído metálico das rodas a correr na pedra do pavimento, o eco dos cavalos a trote.
segunda-feira, outubro 31, 2011
Capítulo I
[Marco Polo]
«As Cidades Invisíveis» são uma metáfora do sonho das cidades. Não apenas das cidades longínquas que nunca visitámos, ou já derruídas, e que, por isso mesmo, dão espaço à imaginação e à mitificação das praças, das ruas, dos palácios, dos panos de muralha: «As Cidades Invisíveis» são uma metáfora do sonho de todas as cidades. Mas o sonho e as realidades concretas, não raro, misturam-se. Italo Calvino, falando do sonho, escreve sobretudo sobre a realidade que se esconde sempre aos olhos de quem visita as cidades; e que se esconde, mesmo, aos olhos de quem nasceu ou vive numa cidade e que nunca haverá de conhecê-la além da ilusão do olhar mais próximo. Todas as cidades são cidades invisíveis: o que verdadeiramente lhes pertence, o que elas verdadeiramente são, faz parte de um segredo sobre o qual é permitido especular até aproximar a realidade e a invisibilidade dela. O mais certo é que Marco Polo, falando a Kublain Kan sobre cidades imaginárias, não fale senão dos segredos intangíveis de cidades reais, materiais, verdadeiras, concretas.
[Marco Polo]
«As Cidades Invisíveis» são uma metáfora do sonho das cidades. Não apenas das cidades longínquas que nunca visitámos, ou já derruídas, e que, por isso mesmo, dão espaço à imaginação e à mitificação das praças, das ruas, dos palácios, dos panos de muralha: «As Cidades Invisíveis» são uma metáfora do sonho de todas as cidades. Mas o sonho e as realidades concretas, não raro, misturam-se. Italo Calvino, falando do sonho, escreve sobretudo sobre a realidade que se esconde sempre aos olhos de quem visita as cidades; e que se esconde, mesmo, aos olhos de quem nasceu ou vive numa cidade e que nunca haverá de conhecê-la além da ilusão do olhar mais próximo. Todas as cidades são cidades invisíveis: o que verdadeiramente lhes pertence, o que elas verdadeiramente são, faz parte de um segredo sobre o qual é permitido especular até aproximar a realidade e a invisibilidade dela. O mais certo é que Marco Polo, falando a Kublain Kan sobre cidades imaginárias, não fale senão dos segredos intangíveis de cidades reais, materiais, verdadeiras, concretas.
quinta-feira, agosto 11, 2011
[as Horas]
Não sei neste momento exactamente onde tenho guardado o relógio do meu avô. Procurei nas gavetas não o encontro. E no entanto cheguei a acreditar que o teria sempre momento após momento a meu lado. Comigo. No pulso ou no bolso das calças de guardar a chave de casa ou preso por uma corrente de prata a uma presilha. E no entanto neste momento exactamente não sei onde pára onde terei guardado o relógio do meu avô.
Os homens do campo sempre apreciaram os relógios enquanto objectos num certo sentido redundantes mas simultaneamente mágicos. Por trazerem uma ordem aos desacertos do tempo. Andávamos por exemplo nas encostas da presa do padre pedro a cortar nos salgueiros as varas dos cestos das uvas e o meu avô parava olhava o céu e dizia
já devem ser umas seis da tarde.
E então olhava o relógio e confirmava como se a tarde estivesse certa com a ordem natural das coisas
pois bem me parecia faltam quatro minutos para as seis.
O meu avô ofereceu-me o relógio quando estava a morrer. Procuro nas gavetas e não o encontro. E de súbito é como se mais nenhum relógio do mundo me pudesse devolver
as horas certas.
Os homens do campo sempre apreciaram os relógios enquanto objectos num certo sentido redundantes mas simultaneamente mágicos. Por trazerem uma ordem aos desacertos do tempo. Andávamos por exemplo nas encostas da presa do padre pedro a cortar nos salgueiros as varas dos cestos das uvas e o meu avô parava olhava o céu e dizia
já devem ser umas seis da tarde.
E então olhava o relógio e confirmava como se a tarde estivesse certa com a ordem natural das coisas
pois bem me parecia faltam quatro minutos para as seis.
O meu avô ofereceu-me o relógio quando estava a morrer. Procuro nas gavetas e não o encontro. E de súbito é como se mais nenhum relógio do mundo me pudesse devolver
as horas certas.
terça-feira, agosto 02, 2011
[para adquirir RUMOR]
Relembro: para adquirir um exemplar de RUMOR os interessados enviam um mail para blogcacela@gmail.com indicando endereço postal completo e número de contribuinte (para ser possível a emissão de recibo). Nesse mail indicar-se-á que se procedeu já à transferência bancária (no valor de 11 euros – não é necessário comprovativo) para a seguinte conta (NIB):
0033-0000-00060303349-05.
O livrinho seguirá de imediato por correio normal.
0033-0000-00060303349-05.
O livrinho seguirá de imediato por correio normal.
[uma recensão a RUMOR]
[in Expresso, Atual, 30 de Julho de 2011]
Nada justifica que um poeta com provas dadas como José Carlos Barros (n. 1963) continue a publicar apenas em edições de autor ou à conta de prémios regionais. Mas o novo livro, «Rumor», é uma vez mais uma edição quase clandestina, com tiragem de cem exemplares e venda individualizada (através de blogcacela@gmail.com). Autor de «Uma Abstracção Inútil» (1991), «Todos os Náufragos» (1994), «Teoria do Esquecimento» (1995), «As Leis do Povoamento» (1996) e «As Moradas Inúteis» (2007), Barros é transmontano, vive no Algarve e mantém o blogue Casa de Cacela (http://casa-de-cacela.blogspot.com), onde apareceram originalmente vários destes poemas. A memória e a simplicidade são elementos centrais, embora coexistam com apontamentos políticos cáusticos. Os poemas, discretos e cuidadosos, estão cheios de vislumbres da infância, imagens familiares, secretos envios amorosos. O tema dos objectos antigos e dos usos antigos é recorrente, mas não existe nenhuma nostalgia, somente uma sensação de distância, madura e entristecida, face às coisas simples. Referindo-se à pintura rupestre, o autor fala de uma representação do real «contaminada pelo que sabemos». A poesia é a forma decantada dessa representação, feita de figuras enigmáticas e alusões mínimas, uma bacia de plástico com água da chuva, máquinas de luzes, uma torneira, um álamo, símbolos pessoalíssimos de um desejo urgente de pureza. A poesia, escreve Barros, é uma forma de redundância. Mas é também uma forma de evidência: «era no tempo da literatura/ dizíamos ‘a água dos tanques’/ e ficávamos à espera da reverberação dessas cinco sílabas/ ou cortávamos vagarosamente/ um ramo/ da árvore dos significados.»
Pedro Mexia
Nada justifica que um poeta com provas dadas como José Carlos Barros (n. 1963) continue a publicar apenas em edições de autor ou à conta de prémios regionais. Mas o novo livro, «Rumor», é uma vez mais uma edição quase clandestina, com tiragem de cem exemplares e venda individualizada (através de blogcacela@gmail.com). Autor de «Uma Abstracção Inútil» (1991), «Todos os Náufragos» (1994), «Teoria do Esquecimento» (1995), «As Leis do Povoamento» (1996) e «As Moradas Inúteis» (2007), Barros é transmontano, vive no Algarve e mantém o blogue Casa de Cacela (http://casa-de-cacela.blogspot.com), onde apareceram originalmente vários destes poemas. A memória e a simplicidade são elementos centrais, embora coexistam com apontamentos políticos cáusticos. Os poemas, discretos e cuidadosos, estão cheios de vislumbres da infância, imagens familiares, secretos envios amorosos. O tema dos objectos antigos e dos usos antigos é recorrente, mas não existe nenhuma nostalgia, somente uma sensação de distância, madura e entristecida, face às coisas simples. Referindo-se à pintura rupestre, o autor fala de uma representação do real «contaminada pelo que sabemos». A poesia é a forma decantada dessa representação, feita de figuras enigmáticas e alusões mínimas, uma bacia de plástico com água da chuva, máquinas de luzes, uma torneira, um álamo, símbolos pessoalíssimos de um desejo urgente de pureza. A poesia, escreve Barros, é uma forma de redundância. Mas é também uma forma de evidência: «era no tempo da literatura/ dizíamos ‘a água dos tanques’/ e ficávamos à espera da reverberação dessas cinco sílabas/ ou cortávamos vagarosamente/ um ramo/ da árvore dos significados.»
Pedro Mexia
segunda-feira, julho 18, 2011
[se o poema]
se o poema pudesse ser um número
ou uma pedra de calcário
se o poema pudesse ser uma arte produtiva
se pudesse não
apenas descrever a obscura luz de um poço
mas simultaneamente mover os rolamentos da
máquina hidráulica que
traz o balde de zinco
do mais fundo dos veios da água
se o poema alinhasse um bloco desacertado
e depois outro
erguendo em linhas a direito
os muros das propriedades
se o poema derruísse os taludes instáveis das áreas de risco
se delimitasse os
tão desejados perímetros de segurança
se curasse as doenças de pele
se tivesse os efeitos de um protector de
ecrã total
quando apenas o mundo nos pede a
contínua exposição solar ouvindo o
rumor imperceptível do levante
se o poema fosse uma farmácia ou
uma oficina de bicicletas
se disparasse balas verdadeiras contra os facínoras
e o seu eco nos acompanhasse nas
noites infelizes da insónia revertida dos espelhos onde
nos olhamos no dia vinte e
sete de novembro de todos os anos
se o poema nos acordasse quando os
exércitos precisam de reforços
se um poema ganhasse as eleições intercalares
eu sei
profundamente sei meu amor
que me haverias de enviar um mail
ou um sms
a dizer que desististe
que partiste com as aves da península
para nenhum
lugar
e que gostaste de conhecer-me
e que talvez um dia seja possível encontrarmo-nos de
novo
para mudarmos de sítio
as pétalas
inúteis
das frésias
dos jardins
ou uma pedra de calcário
se o poema pudesse ser uma arte produtiva
se pudesse não
apenas descrever a obscura luz de um poço
mas simultaneamente mover os rolamentos da
máquina hidráulica que
traz o balde de zinco
do mais fundo dos veios da água
se o poema alinhasse um bloco desacertado
e depois outro
erguendo em linhas a direito
os muros das propriedades
se o poema derruísse os taludes instáveis das áreas de risco
se delimitasse os
tão desejados perímetros de segurança
se curasse as doenças de pele
se tivesse os efeitos de um protector de
ecrã total
quando apenas o mundo nos pede a
contínua exposição solar ouvindo o
rumor imperceptível do levante
se o poema fosse uma farmácia ou
uma oficina de bicicletas
se disparasse balas verdadeiras contra os facínoras
e o seu eco nos acompanhasse nas
noites infelizes da insónia revertida dos espelhos onde
nos olhamos no dia vinte e
sete de novembro de todos os anos
se o poema nos acordasse quando os
exércitos precisam de reforços
se um poema ganhasse as eleições intercalares
eu sei
profundamente sei meu amor
que me haverias de enviar um mail
ou um sms
a dizer que desististe
que partiste com as aves da península
para nenhum
lugar
e que gostaste de conhecer-me
e que talvez um dia seja possível encontrarmo-nos de
novo
para mudarmos de sítio
as pétalas
inúteis
das frésias
dos jardins
quarta-feira, julho 13, 2011
Já à venda
O livrinho de poesia já está à venda. Numa tiragem de cem exemplares numerados.
Para adquirir um exemplar de RUMOR, entender-nos-emos no seguinte: os interessados enviam um mail para blogcacela@gmail.com indicando endereço postal completo e número de contribuinte (para ser possível a emissão de recibo). Nesse mail indicar-se-á que se procedeu já à transferência bancária (no valor de 11 euros) para a seguinte conta (NIB):
0033-0000-00060303349-05.
O livrinho seguirá de imediato por correio normal.
Para adquirir um exemplar de RUMOR, entender-nos-emos no seguinte: os interessados enviam um mail para blogcacela@gmail.com indicando endereço postal completo e número de contribuinte (para ser possível a emissão de recibo). Nesse mail indicar-se-á que se procedeu já à transferência bancária (no valor de 11 euros) para a seguinte conta (NIB):
0033-0000-00060303349-05.
O livrinho seguirá de imediato por correio normal.
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