quinta-feira, julho 12, 2007

Ameixas

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quarta-feira, julho 11, 2007

[Intervalo: livros, por exemplo]

O meu amigo João, provocador, mete-me assim sem mais aquelas numa corrente de escritas imaginando que citarei, de sopetão, o «Eu, Carolina, oh ai ai ai» – tendo o correspondente pretexto de me cair em cima fazendo depois piadinhas com, é um supor, o Derlei. Dessa estou eu livre – muitas felicidades à mocinha e ao FCP, e que no próximo ano o destino lhes permita, a eles, ao FCP e a ela, um lugar na Europa – cheios de dinheiro e sem Pepe nem outra gente de génio que se veja tirante o Pinto, o Castro, o Rui Pedro e o Hélder Barbosa.

Aconselhar cinco livros? Aí vai: não se pedindo necessariamente os que se levariam para a ilha deserta, deixemos os óbvios (D. Quixote, sempre, o Borges todo, sempre, o Camilo, sempre, o Sthendal, sempre, por exemplo) e passemos aos que, sendo obrigatórios, nem sempre aparecem por aí muito citados:

1: Michael Kohlhaas, o Rebelde, de Heinrich von Kleist. Livro maior da literatura universal, deveria ser obrigatório nas escolas e nos governos. «O príncipe Cristiano von Meissen, bastante preocupado com o aspecto que as coisas tomavam, ameaçando ofuscar perigosamente o bom nome do seu soberano, foi imediatamente ter com ele ao palácio e, embora adivinhando o interesse dos von Tronka em perder Kohlhaas, se possível apoiados em novos delitos, pediu-lhe autorização para submeter imediatamente o negociante a um novo interrogatório.»

2: Carta de Guia de Casados, de D. Francisco Manuel de Melo. Prosa límpida, de estudar-se nas escolas se as escolas tivessem a preocupação de ensinar-se a língua pátria. Um cibo reaccionariozinho, sim, que sei eu do século dezassete se nem muito do nosso vinte e um? «Ame-se a mulher, mas de tal sorte que se não perca por ela seu marido. Aquele amor cego fique para as damas, e para as mulheres o amor com vista. Ou cure os olhos que tem, ou os peça emprestados ao entendimento desses que lhe sobejam.»

3: A Noite e o Riso, de Nuno Bragança. Título maior do romance português do século vinte, caso Jorge de Sena não nos tivesse deixado (em versão por burilar?) os «Sinais de Fogo»? «Ainda eu me achava tonto de ejaculado e já ela sacudia, erguendo-se. Ao rebolar, magoei o sexo num calhau. O tempo de verificar estragos e sentar-me e já a rapariga se sumia através de canas.»

4: Portugal – o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro. É apenas, dizia ele, «um esboço de relações geográficas». Para compreender o país como em nenhum outro lugar ou demanda. Literatura, também, como raras vezes a literatura portuguesa alcançou. «O frio moderado não provoca na vegetação o repouso hibernal. Uma única árvore tipicamente mediterrânica perde as folhas: a figueira; onde predominarem as árvores de folha caduca é sinal de que as condições setentrionais, atlânticas ou de altitude já se vão fazendo sentir.»

5: Anfíbios e Répteis de Portugal, de Nuno Ferrand de Almeida et all. Dezenas de anos de estudo e dedicação sobre a distribuição, o comportamento e a ecologia de espécies perseguidas e temidas em razão de antiquíssimos medos e generalizadas crenças e superstições. «O seu principal mecanismo de defesa [cobra-rateira, Malpolon monspessulanus] é a fuga. Por vezes, quando ameaçada, pode tornar-se agressiva, erguendo a região anterior do corpo, soprando e chegando a morder. Produz um forte veneno de características neurotóxicas. No entanto, não é perigosa para o Homem, já que se trata de uma espécie opistoglifa.»

A quem passo a corrente (e seja o que Deus quiser)? Ao António, ao Hélder, à Sílvia, ao nrc e à Lenor.

segunda-feira, julho 09, 2007

Os dias estão a ficar mais pequenos

CHAMO-ME JOÃO, tenho vinte e três anos e garanto que os dias estão a ficar mais pequenos. É certo que deixei os estudos muito cedo para trabalhar nos bares e no que fosse aparecendo. É certo: sinto muitas vezes que me falta um pouco da ciência dos livros. Mas sei como funcionam as coisas do mundo e do universo vasto onde se perde o que de nós mesmos sabemos. Orgulho-me, aliás, de conhecer o que tantos desconhecem sobre os astros e os asteróides, sobre a passagem do tempo, sobre a Próxima de Centauro, sobre Andrómeda ou as galáxias espirais. Reconheço: aprendi com a Teresa a olhar o céu no silêncio da sua casa, nos bancos corridos do jardim de pequenos arbustos aromáticos, na açoteia onde montou um telescópio, e a ficar assim rendido ao silêncio das estrelas, dos cometas, dos outros dois iluminados planetas do nosso sistema solar: aprendi com ela, reconheço, a experimentar em mim a lancinante percepção da pequenez do que somos. Mas não é isso o que vem ao caso. O que vem ao caso é a evidência de que os dias, dia após dia, e quando deveria ocorrer exactamente o contrário, estão a ficar mais pequenos. Recordo-me: despedimo-nos com lágrimas no dia vinte e dois de Março. E recordo-me por não esquecer a frase que a Teresa me deixou como memória desse desencontro: «Separamo-nos, João, no momento em que a elíptica cruza o equador celeste». Era o equinócio: quando as águas do mar se erguem num rumor subterrâneo, afastado, vindo de longe e de lugar nenhum. Quando as aves, de súbito, deixam os ramos das árvores e cruzam o céu em largas e vagarosas elipses. Quando o dia e a noite têm a mesma exacta duração. Isso recordo-me. E sei que a partir dessa data, até que o solstício de finais de Junho inverta os movimentos do mundo, os dias continuam a crescer progressivamente em duração e intensidade de luz. Não se compreende, pois, que aconteça exactamente o contrário. Que cada vez anoiteça mais cedo, que cada vez a manhã demore mais um pouco a levantar-se da terra: hoje é dia doze de Junho, são quatro da tarde e é quase noite. E é assim, como se a sombra e a passagem do tempo tivessem uma origem comum, que a memória de Teresa regressa. É quase noite. Confuso, indeciso, rendido à evidência das sombras, caminho ao acaso na rua deserta. E uma tristeza sem nome parece caminhar a meu lado, tocar-me nas mãos, entrar comigo pela noite dentro numa noite que deveria ainda ser dia, claridade, luz e exaltação.

CHAMO-ME TERESA, tenho vinte e três anos e garanto que os dias estão a ficar mais pequenos. É estranho: hoje é dia doze de Junho, são quatro e meia da tarde (isto é um modo de dizer) e é já de noite. Demorei a acreditar que não era em mim apenas que sentia crescer a sombra e a sentir que a sombra me tocava mais tempo. Vivo sozinha. A minha casa fica quase na cumeada, erguida sobre a vertente aplanada do ribeiro do Álamo. Vejo dali, olhando na direcção da terra ou na direcção do céu, quase tudo o que me interessa no mundo: o meu pequeno mundo e simultaneamente vasto, inominável, sem fim nem princípio. O Guadiana: as suas águas, em Maio, a reflectir um outro azul ou a correr na vazante, lamacentas, depois da chuva, sob uma nuvem espessa que vem de Espanha e parece ficar poisada nas areias da península de Cacela Velha. O mar da baía recolhido ao silêncio do Inverno. O pátio. Os muros de xisto. As hortas minúsculas, as últimas. Uma eira em ruínas, uma nora, uma cisterna. A amendoeira grande. As paredes de cal. A açoteia com tijoleira de Santa Catarina. Canes venatici e cor caroli, a sua estrela alfa. Bootes e arcturus. Cassiopeia. A ursa maior, a ursa menor, dubhe e polaris. Draco, lynx, coma berenices. Mas hoje sei que o mundo não faz sentido sem as suas mãos a tocar as minhas mãos. Hoje sei que a sombra vai crescendo, dia após dia, noite após noite, à medida que vai ficando mais ténue, ou mais viva, a memória das suas mãos nas minhas mãos. Atravesso o jardim e fico por algum tempo sentada na pedra do muro do pátio a olhar a noite. Uma noite escassamente iluminada pela lua que começa a erguer-se no horizonte. Uma noite estranhamente fria, estranhamente feita de um silêncio que parece nascer das profundezas da terra. E é então que vejo um automóvel a aproximar-se. Dois faróis acesos a iluminar o estradão e os troncos das alfarrobeiras do pomar. Um automóvel a cortar o silêncio ancestral da noite em fatias descontínuas. E fico assim, por instantes, interdita, a imaginar que talvez amanhã a luz se erga mais cedo, que talvez amanhã anoiteça mais tarde e que tudo regresse à ordem natural das coisas.

sábado, julho 07, 2007

As mãos

As mãos
quase lava
incandescente.

Minúsculas,
trémulas,
poderosas.

Movendo roldanas
a puxar a luz
dos poços.

Nuvem
imensa
de palavras.

Tecendo
com brevíssimos fios
o vento.

As mãos
ou a
cal.

Quase
a gramática,
a álgebra.

Quase uma página.

quarta-feira, julho 04, 2007

Os Quatro Rios

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Casa

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Árvore

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segunda-feira, julho 02, 2007

O Éden

Tudo começa num estirador
ou na imaginação de jardineiros sábios: os arbustos
e as árvores, os coretos ou os lagos, as fontes
ou as veredas traçadas
por entre as sebes de buxo.

Como um edifício das finanças
ou uma alfândega, assim o jardim
é uma construção do homem.

domingo, julho 01, 2007

[Outra versão]

Nos teus nomes


Se as estrelas se desmoronarem de súbito só
de te moveres
se as mais inumeráveis lâmpadas do amor se acenderem só
de te moveres
se o fogo subir desde as mais improváveis raízes só
de te moveres
se o equilíbrio dos astros ficar em perigo só
de te moveres.

quarta-feira, junho 27, 2007

Nas despedidas

Os amigos
deixam nos restaurantes
em vez dos endereços
a promessa de que regressarão sempre
à cidade onde os morangos
crescem nas bermas das estradas
e uma única laranja
iluminará para sempre
os corações indefesos
das crianças.

segunda-feira, junho 25, 2007

A caminho de casa

Como se o vento os levasse a caminho de casa

cavalos de espuma erguidos nas águas
com a memória ainda das primeiras palavras.

terça-feira, junho 19, 2007

Fado

Gostava de escrever letras de fado.
Falar dum coração que não existe
se a dor o não tocar ou não for triste,
se o mundo não ruir, desmoronado

de tanta vil angústia e desalento.
Gostava desses temas nos meus versos:
de ter todos os dias mil pretextos
pra invocar um crime ou um lamento,

a insídia, um aneurisma, um anexim
antigo, um nó fatal na coronária,
traições, o luto, as penas do inferno.

Gostava tanto de escrever assim.
Detesto a minha obra literária.
Detesto ser poeta e ser moderno.

domingo, junho 10, 2007

As curiosidades etnográficas

As curiosidades etnográficas
ficam bem
nos retratos a preto e branco
e nos poemas.

Termos em desuso

Termos em desuso,
objectos
de museu de província: recuperamos
o que não queremos.

A distância

A distância
é um dos pressupostos
para falar em paz
do que ruiu.

O desvio, 2

O mato cresceu nos carreiros, nas veredas,
nos atalhos, no desvio que levava aos terraços
das vinhas, à parcela onde procuravas
temporão o renovo. A casa era uma consequência

da paisagem: dos lugares onde florescia
a planta inúmera das sete pétalas, do modo
como as argilas se depositavam nos vales
ou nas vertentes da encosta, dos declives,

das linhas de encontro ou de separação das águas.
A ruína começou nas paredes, nos telhados,
nos muros de pedra: quando começou
o mato a crescer no desvio que levava aos terraços

das vinhas, à parcela onde procuravas
temporão o renovo. E tudo é agora indiferente:
se as palhas ficam nos solos, se os medos não exigem
as rezas, se já nos montes não vagueiam as luzes.

O desvio, 1

jcb

quinta-feira, junho 07, 2007

Um único objecto

São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
as manchas da humidade nas fotografias

da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
a água primeiro escorrendo num fio por entre
os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos

da aluvião; uma horta defendida pelos muros
altos; os matos; o bosque: só depois
o segredo de curar ou enlouquecer
tocando com as mãos nos ombros das crianças:

só depois da casa e dos caminhos de terra
batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
dos canais de rega; só depois das sementes
espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo

e do rumor do vento nos arames das vinhas.
São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
a faca de cortar o pão.

sábado, junho 02, 2007

Lua cheia

jcb



Uma luz muito leve, vagarosa, fica poisada nos muros de cal e nas folhas das árvores. Como se só então os pássaros de Junho pudessem adormecer.

sexta-feira, junho 01, 2007

Memórias

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