sexta-feira, janeiro 09, 2015

outra vez

UM ROSTO ESTRANGEIRO

não chegavam a olhá-los de frente
olhos nos olhos
com receio de que uma qualquer forma de afecto acabasse por aproximá-los
limitavam-se a dar-lhes água e a inventar uma desculpa
para se fecharem de novo e
ficarem a olhá-los por detrás dos vidros das
janelas das casas enquanto eles vagarosamente se afastavam
era assim que estava escrito
nenhum sentimento nos deve ligar aos que estão de passagem
nenhum sentimento nos deve ligar aos que desconhecemos
por isso não os olhavam de frente e não faziam perguntas
até a esse dia em que alguém decidiu ficar por mais tempo na rua
e olhou de frente um rosto estrangeiro
até ao sobressalto de compreender que
havia alguma coisa nesse rosto que pertencia ao seu próprio rosto
que havia alguma coisa nos seus gestos que
era já parte dos seus próprios gestos
e fumaram juntos e falaram de lugares diferentes do mundo
como se ambos fossem estrangeiros e
assim começassem aos poucos a deixar de sê-lo
ou pelo menos a deixarem de
ser estrangeiros um do outro
como se ambos andassem há muito tempo perdidos
e agora se encontrassem para a possibilidade fabulosa de
caminharem juntos
e se perderem juntos
nos caminhos do mundo

ISTO SÓ EM VILARINHO

Foi há seis anos que dona Marquinhas anunciou o propósito de recuperar a tradição do presépio de Vilarinho que antigamente se montava no Largo da Escola. Fez as contas à reforma e às poupanças e começou por adquirir a imagem do Menino Jesus em tamanho natural. E, passados quatro meses, a Nossa Senhora. E depois, espaçadamente, o São José, o burro, os Reis Magos, o pastor, as ovelhas. Seis anos nisto até que a 12 de Dezembro último, enfim, se começou a montagem. Todos muito rendidos à emoção, quase a epifania, quando se dá um revés. Diz a Lena: «Ó Marquinhas, carai, então os teus Reis Magos, os três, são brancos co-má-gente? Não saberás que um era preto retinto?»

Lá teve, pois, que se encomendar a Braga, com pedido de urgência, um preto. A temer-se, tão em cima da hora, que já nem chegasse a tempo. Quis Deus que chegasse: a 23. E logo nessa tarde, sem demoras, se recomeçaram os trabalhos de colocação das figuras: já o serrim nos caminhos, já o papel azul de lustro nas ribeiras, já o musgo no resto.

Até que a Lena se apercebeu da falta da vaca: «Olha-me um presépio só com o burro.»

Outro revés. Este pior: anunciada a inauguração, o padre Martins convidado à bênção, as rabanadas e as filhoses de jerimum à espera.

Mas foi então que o Tó Maluco, o único declarado no nome de entre os doze que existem na terra, se fez ouvir: «Descansem. Eu é falar com o doutor e resolve-se tudo.»

Diz-se que em todas as terras há um maluco. Em Vilarinho são doze. Quem o afirma é o doutor Augusto, que parece que se inclui nas contas. A Marquinhas também ninguém a tira do rol. Isto, somado ao Tó, é ver-se a quem a coisa começava a ficar entregue.

O certo é que a 24, ao anoitecer, o Artur Vicente estacionou a camioneta no Largo da Escola e viu-se a descarregar e a fazer deslizar sobre o musgo, ajudado pelo doutor Augusto e o Tó Maluco, um vulto de pescoço alto.

E hoje, 25 de Dezembro, não sendo ainda meio-dia, já o povo das aldeias à volta, e mesmo de Chaves, pois tão longe e rapidamente andou a notícia, se acotovela em redor do presépio.

É quando alguém diz: «Isto só os malucos de Vilarinho.»

Inveja. Porque o certo é haver acima de duzentas pessoas a olhar, deslumbradas, o único presépio do mundo com quatro Reis Magos e uma girafa, desaparafusada na noite anterior do carrossel que o Artur Vicente estaciona durante o Inverno no jardim do doutor Augusto, a fazer de vaca.


[Texto publicado originalmente na revista SÁBADO, nº 556, edição de 23 a 29 de Dezembro de 2014]

sábado, janeiro 03, 2015

[O amor]

Se não lhe faltasse
o sentido de orientação
era uma ave
o amor.

sexta-feira, janeiro 02, 2015

dos poemas

Eu dava tudo por escrever alexandrinos.

quinta-feira, janeiro 01, 2015

a literatura é sobretudo o enredo, a mensagem

- E não tens vergonha, pá? Então bateste na tua mãe?
- Não, levava-as eu.

ainda sobre a literatura 2

A minha tia Almerinda mandou-me uma SMS a desejar um foliz ano nobo. Não se pode dizer que a minha tia Almerinda seja particularmente devotada às letras. Mas eu emocionei-me e quase me vieram as lágrimas aos olhos. É que sou dos que acham que o importante é a história, o enredo, a mensagem que se quer transmitir. A linguagem é o menos.

ainda o caso espírito santo

O meu tio António ficou de pé-atrás. E disse-lhe:
- Ó Estriga, mas assim perdes dinheiro. Se compras a cinquenta e vendes a quarenta e sete e quinhentos...
E ele:
- Mas perco pouco.

ainda sobre a literatura

Brilhem mais, brilhem menos, há estrelas que pernanecem o ano todo acima do horizonte. Não é como aquelas totós, cheias de brilhozinho e aparente grandeza, que, vai-se a ver, deixam de ver-se quando menos-se-espera. O Sporting, com estrelas das que brilham pouco, mas que são circumpolares, foi a Guimarães e deu-lhes duas batatas. Isto podia ser uma metáfora. Mas não é: é só porque alguém tem que dizer estas coisas.

é páprenderes

Eu:
- E o tipo isto e aquilo, e ó carai, que já nem o posso ver.
Ele:
- Mas tens assim tanta admiração pelo gajo?
E eu:
- O quê, mó? Mau que não-te-percebo. E à-mor-de-quê é que dizes isso?
E ele:
- É que eu só falo mal de quem admiro.

sábado, dezembro 27, 2014

ainda O Uso dos Venenos

O meu livro de poesia "O Uso dos Venenos", edições Língua Morta, foi referenciado, nas habituais escolhas dos melhores livros publicados em Portugal durante o ano, por dois críticos literários do jornal Público (José Riço Direitinho e Luís Miguel Queirós) e por dois do Expresso (Pedro Mexia e José Mário Silva). O livro, que se vende ao preço de 13 euros e que saiu numa tiragem de duzentos exemplares, deve estar longe de se encontrar esgotado. Além dessas referências na imprensa, que valem o que valem, acrescente-se a opinião do meu tio Alberto e da minha prima Esmeralda, que consideram "O Uso dos Venenos", respectivamente, "um livro que tem ali umas coisas que dá que pensar" e "uma obra que, não fosse a gente não entender metade do que lá se diz, tinha que se lhe dissesse".

O livro pode ser adquirido, por exemplo, na Livraria Letra Livre (www.letralivre.com), ou pedido directamente à editora através do mail edlinguamorta@gmail.com.

domingo, novembro 02, 2014

um disco dos doors

Coisas que chegámos a pensar
que guardaríamos para sempre. Um disco
dos Doors. Umas calças de ganga. Um seixo
rolado da Presa das Tílias. Um livro

de Teixeira de Pascoaes. Uma
carta de amor com a letra ainda trémula
de os sentimentos de quem escrevia
se sobreporem aos cuidados

da caligrafia. Um mapa das estradas.
Coisas assim. A vereda a caminho do rio
onde pela primeira vez as nossas mãos

por um momento tão breve
chegaram a tocar-se. Uma dança
num baile de aldeia. Uma viagem de automóvel

sem gps. O odor húmido
dos pinheiros bravos depois dos incêndios.
Coisas assim

que um dia julgámos
que havíamos de guardar como tesouros
inconsumíveis. E no entanto

fomos perdendo tudo
até os bolsos ficarem vazios
e o coração apagado como num incidente
de inverno. E nem a memória

de tudo isso pode agora valer-nos.
Porque a memória
recupera sempre o que não temos
ou já não podemos ter.

domingo, outubro 26, 2014

notas do caderno de apontamentos do meu avô francisco

Os
que entram no mundo
pelo silêncio das florestas.
Os que vêem apenas
quando a luz
os cega.
Os que repetem
em voz alta
os nomes dos frutos.
Os que procuram até ao fim
a árvore
dos significados.
Os
que não
acreditam.
Os que não temem
o frio
do inverno.
Os
que não têm
contas a prazo.
Os que chegam sempre
tarde
às paragens dos autocarros.
Os que se esquecem
de riscar os dias
nos calendários.
Os que se recusam
a serem jovens
para sempre.
Os que guardam
as sementes
nas gavetas das cómodas.
Os
que não têm
pátria.
Os que deixam
entre as folhas dos livros
os retratos antigos.
Os
que enlouquecem
devagar.
Os
que têm
a obsessão dos mapas.
Os
que se rendem
à linguagem.
Os que crêem
no poder obscuro
dos acasos.
Os
que olham
as estrelas.
Os
que se
perdem.
Os
que não esperam nada
do mundo.
Os
que não têm nada
a perder.

quarta-feira, outubro 15, 2014

(poema antigo)

FADO

Gostava de escrever letras de fado.
Falar de um coração que não existe
se a dor o não tocar ou não for triste,
se o mundo não ruir, desmoronado

de tanta vil angústia e desalento.
Gostava desses temas nos meus versos:
de ter todos os dias mil pretextos
pra invocar um crime ou um lamento,

a insídia, um aneurisma, um anexim
antigo, um nó fatal na coronária,
traições, o luto, as penas do inferno.

Gostava tanto de escrever assim.
Detesto a minha obra literária.
Detesto ser poeta e ser moderno.

quinta-feira, outubro 09, 2014

os teus poemas

Tu dizes que é já tarde - e anoitece.
Tu falas em marés - e o mar pressente.
E o sol é nos teus braços que se aquece
em busca de outro núcleo iridescente.

Mas é no dia-a-dia, meu amor,
no pão, numa panela, num cabide,
na cama por fazer, no esquentador,
que tudo se confronta e se decide.

Por isso escrevo em prosa os teus poemas
e mais que a lua, a orbe, a imprecisa
Andrómeda, uma estrela, os grandes temas,
eu escolho o chão que pisas por divisa.

E temo, por incrível que pareça,
que a poesia mate ou enlouqueça.

quarta-feira, outubro 08, 2014

é pouco o que te der

É pouco o que te der. É sempre pouco.
Há sempre uma palavra, há sempre um gesto,
há sempre um nome em falta. Há sempre o resto.
Por isso o que te der é sempre pouco.

Às vezes imagino que o teu nome
é feito dos silêncios da floresta.
Às vezes adormeço: é o que me resta
nos dias em que o mar traz o teu nome.

Assim pudesse dar-te o que é do mundo:
navios, uma estrela, nebulosas
planetárias. Ou transformar em rosas
a luz das supernovas que há no mundo.

Assim pudesse dar-te a vida toda
e mais ainda. O resto que se foda.

terça-feira, outubro 07, 2014

em todas as mentiras

Em todas as mentiras que te disse
havia qualquer coisa de sublime:
eu queria ser melhor; e fui; e se
te menti até isso me redime.

Eu via-te chegar fechada em leque,
às vezes tão cansada e indiferente
ao lume e aos seus rumores; mas eu é que
limpava o pus e a ferida persistente

de ser o mundo assim tão arbitrário,
infame, vil, gravado em desencanto.
É certo que tirei do dicionário

(eram mentira) os versos que te fiz
e os nomes que te dava. E no entanto
só queria que pudesses ser feliz.

domingo, outubro 05, 2014

lamento do autor antigo

A métrica é um chão que já deu uvas.
A rima é outro chão. E agora é in
diferente o decassílabo ter vinte
ou doze ou quatro sílabas. Oh musas

de versos tão antigos: vade retro!
Eu quero é ser moderno em estilo livre
e ter a liberdade que não tive
ao respeitar a norma, a rima, o metro.

Calhava-me ter outras companhias.
Talvez frequentar mais livrarias
e ter noção dos crimes que cometo.

O certo é que merecia outro destaque:
autor que até se vende na FNAC,
só falta que me livre do soneto.

sábado, outubro 04, 2014

a poesia em 2014: uma antologia

Com o John Wayne
estávamos sempre à vontade.
Estávamos com o John Wayne
e atirámos a matar.

Os dois ladrões de cavalos
ficaram no chão
de terra batida
em frente ao saloon

com o sangue a escorrer-lhes
da boca. Tínhamos
oito anos

e no dia seguinte
não se falava de outra coisa
no recreio da escola.

sexta-feira, outubro 03, 2014

isto é apenas/ um filme

Ele dizia: isto é apenas
um filme; não tem o ruído de fundo
e esse grão minúsculo
e quase imperceptível

do cinema; uma espécie de sujidade
leve. E é isso também
que separa as cidades
e as aldeias: eu não era capaz

de respirar o ar
lavado dos campos; preciso
dos prédios altos

e desse ruído de fundo levemente sujo
das ruas das cidades
em hora de ponta.

o crítico literário vai de férias à província

Da varanda do quarto
viam-se
em vez das aliterações
o vale

e os pinheiros bravos
a subir
o monte. Acordava-se assim
a ver as coisas

concretas. Como se
afinal
além da literatura houvesse

mundo: casas;
pessoas; pássaros que
voavam mesmo.