sexta-feira, outubro 03, 2014

o crítico literário vai de férias à província

Da varanda do quarto
viam-se
em vez das aliterações
o vale

e os pinheiros bravos
a subir
o monte. Acordava-se assim
a ver as coisas

concretas. Como se
afinal
além da literatura houvesse

mundo: casas;
pessoas; pássaros que
voavam mesmo.

quinta-feira, outubro 02, 2014

os do Eiró nos anos setenta

Os do Eiró
uma vez puxaram de navalhas
no recreio da escola
a meio de uma discussão

sobre a caderneta
dos cromos. E de repente
éramos todos grandes. Já ninguém
queria saber dos triângulos escalenos

ou dos complementos
directos. Tínhamos crescido tanto
nesses quinze minutos de recreio

que mal
começávamos
a caber em nós. Bem

podia a professora
falar-nos das províncias ultramarinas
ou apontar-nos no mapa
dos caminhos-de-ferro

a linha
do Corgo. Só pensávamos
no recreio
e em termos um dia

uma navalha de ponta-e-mola
com a lâmina
do comprimento

de uma mão de travessa
como as dos rapazes
do Eiró.

quarta-feira, outubro 01, 2014

nota a despropósito sobre um livro que ganhou um prémio

Não tinha caído a noite.
A noite não cai.
Isso é um modo de dizer.
Nós é que tínhamos caído

com estrondo. A noite apenas subiu
em direcção ao céu
a partir de nós.
O fenómeno está explicado

num livro de poemas
cujo título assim de repente
não recordo. O certo é
que ninguém se aleijou.

terça-feira, setembro 30, 2014

assinar decretos ou cagar d' alto

há os que adoram atirar pedras
ao espelho imóvel das represas
e depois se mijam todos ao confrontarem-se
com a ondulação ligeira das águas.

é o que dá não levarem a sério os ditados antigos
da infância: quem durante o dia brinca com a água
acaba por molhar as cuecas na cama
durante a noite.

e brincar com o fogo é pior: mas esses que
atiram pedras às represas com a suposta legitimidade
de um poder arbitrado
nem coragem costumam ter para acender um petromax

com um fósforo aceso. quanto mais. por isso
geralmente
mijam-se em maior frequência pelas pernas abaixo
do que queimam os dedos.

domingo, setembro 21, 2014

[não é por lermos mais]

Foi uma desilusão quando compreendi
que a regra não era sermos melhores pessoas
por lermos mais ou termos uma educação
esmerada. O meu amigo Adolfo levava-nos

a palma a todos e nunca leu um livro
pela razão simples de que não sabia sequer
juntar as letras do seu nome
próprio. Ripada tenho eu levado ao longo da vida

essencialmente de gente respeitável
de berço. De gente que leu o Quixote
na versão do Aquilino para as criancinhas

e os filósofos gregos e que adormecia a ouvir Bach
e que depois se doutorou no estrangeiro.
Claro que nenhum deles me roubou

a carteira como aquele energúmeno da Campanhã
que tinha ar de não conhecer uma letra
do tamanho de um malho rodeiro mas
apenas umas unhas com tanta merda que só visto.

São mais subtis e limpos. E os advogados deles
pagam-nos ao minuto de modo a que a falta de tempo
não seja desculpa para não levarem o código
tão a pente fino como se estivessem a catar

lêndeas. Mas a questão é que o termos lido muito
ou pouco e termos tido ou não educação de berço
não é critério para que sejamos melhores ou

piores pessoas. E isso é uma coisa que
quando um dia descobrimos nos deixa,
digamos assim, melancólicos.

quinta-feira, maio 22, 2014

[Vilarinho Seco]

Inverno após inverno o coração a
preto e branco tece a monotonia desce
em fios oblíquos poisa enfim abandonado nestas
margens onde o próprio fulgor da idade

parou a descansar os ombros os braços a
voz inúmera e arável uma alegria que
o tempo foi esculpindo nos rostos e nas casas
uma serenidade tantas vezes próxima do

inquietamento e do milagre. Inverno após
inverno a preto e branco a inocência cresce
sobe às paredes mais altas desenha nas saias
e nos lenços o que só com o desejo

pode partilhar: o silêncio grande do largo
a casa fechada a monotonia dividindo com o corpo
os mapas e as razões para uma
última viagem sem pecado nem memória.

[Tílias]

[para o Pedro]



Não saberemos nunca de que lado
o seu olhar partiu em direcção ao rio
à curva do muro à sombra
também dos lódãos em setembro a caminho do azul

e outras águas. Raras vezes a manhã
terá morado assim as suas vozes no crepúsculo
devagar abrindo junto à casa
aos poucos degraus por onde cresce

o morangueiro o alecrim o pequeno sol da infância
a crueldade ainda do inverno
repetindo modos de perder as coisas.
Hoje as abelhas talvez apenas demorem mais

tempo na corola de fogo do seu nome
no telhado novo na laja da mesa
onde o esquecimento adormece com as mãos
dobradas em quatro sobre o pano da memória.

sexta-feira, maio 16, 2014

[A Redundância]

A máquina hidráulica repõe
nos canais de rega
a água e a luz remanescentes do inverno
um veio de silício que mistura a
obscura matéria dos astros e
a poeira incombustível das
folhas das árvores depois dos meses breves
de junho
a cal incinerada nos fornos de calcário
as mãos abertas em vez da intempérie
a página dos romances e

se respiras impões uma gramática
a Lentidão
a Redundância.

terça-feira, maio 06, 2014

[Não havia fronteiras]

Podias então dizer
tudo me pertence:
a luz de junho poisada
nos taludes ou nas folhas
minúsculas das cerejeiras
bravas, o mapa
das efémeras migrações
dos nomes, os territórios desenhados
nos cadernos de duas linhas
logo depois sujeitos
à voragem dos incêndios.
Não havia fronteiras:
em vez das bandeiras
espetavas na terra lavrada

uma vara de lódão.

quinta-feira, maio 01, 2014

[Os objectos comuns]

Eram objectos comuns
e no entanto os
seus nomes estabeleciam categorias
além dos nomes

que os designavam: vasos,
cântaros, vasilhas
de alumínio, púcaros
de água.

Só não regressas
a esses nomes
porque nunca te desligaste
deles. É

uma fidelidade
que a filosofia da contemporaneidade
não aprendeu ainda a inscrever
nos seus pressupostos

e que um dia emergirá
naturalmente
por entre diagramas e os gráficos
da crise.

quarta-feira, abril 30, 2014

[Os almoços]

Os almoços depois
das inaugurações: essa espécie
de coisa deslocada
entre regozijo

e a ideia
de que é preciso
começar
tudo de novo.

terça-feira, abril 29, 2014

[O relâmpago]

Já se correu o eito. Já se carregaram os colmos
e na madrugada de junho
se recolheu a marcela.
Já se pisaram as uvas.
Já nas vertentes da umbria a
giesta negral deixou a sombra dos seus nomes.
Não tarda a água talhada
no tanque, o relâmpago
no pátio.

segunda-feira, abril 28, 2014

[Turismo cultural]

Por detrás de tudo isso que procuramos
num fim de semana de férias
como se tivéssemos vencido
e nos pudéssemos dar ao luxo de perder: a merda

nos currais, a neve a que a lama se mistura
nos caminhos, um médico
que já não chega ao posto de saúde improvisado
às segundas feiras de manhã. E

o silêncio. O silêncio nos telhados
das casas vazias. Quase
não há mais nada: o lume que levamos
nem chega para acender a lareira.

domingo, abril 27, 2014

[Jovens de fato/ e gravata]

O velho quase nunca tinha
visto a televisão: a perplexidade
dele a olhar o telejornal:
jovens de fato

e gravata como se estivessem num casamento
fino: a discutirem os investimentos
do Estado, prioridades,
as idades da reforma.

quinta-feira, abril 24, 2014

[Um lugar]

Um lugar onde nos reconhecêssemos
como se chegássemos tarde a
um país estrangeiro
e não precisássemos de perguntar
onde se acendem as luzes
ou se vendem os
cigarros
e a cerveja.

quarta-feira, abril 23, 2014

[Da série «O Fado do desgraçadinho e da desgraçadinha»]

Não me deixes acordada
qualquer dia nem me deito
já chegou a madrugada
e eu hora a hora acordada
até ser de madrugada
com esta ferida no peito

Não me digas que é já tarde
que o tempo nos amolece
não digas que me resguarde
da paixão só porque é tarde
não digas que já não arde
não digas que tudo esquece

Não insistas no argumento
de que o que passou passou
e que é só dar tempo ao tempo
que o amor é como o vento
não é mais do que um momento
que tudo o vento levou

Eu cheguei a achar que o mundo
era mais do que perfeito
o céu alto o mar profundo
ninguém ficar em segundo
e não sentir lá no fundo
esta dor dentro do peito

Mas esta ferida não passa
transformou-se em cicatriz
não diminui não deslaça
e por mais coisas que eu faça
ai esta ferida não passa
transformou-se em cicatriz

Não me deixes acordada
bate à porta sou sincera
esquece que estou magoada
que me senti ultrajada
bate à porta sobe a escada
estive sempre à tua espera

quarta-feira, abril 16, 2014

[A juventude]

Às drogas, aos estaleiros das obras,
ao vento do árctico nos ramos finos dos vidoeiros,
às navalhas e às lâminas, aos automóveis
a cortar a noite sem faróis nos caminhos
de terra, aos metais incandescentes,
às fasquias, à música, à electricidade
estática, aos ferros amarelos dos guindastes,
às páginas dobradas dos livros de geologia,
aos incêndios, ao rumor dos caules da insónia,
às fendas das águas subterrâneas
dos relâmpagos, ao amor sem o cálculo, ao álcool,
às bombas de combustível, aos declives,

a tudo isso e mais a juventude deve
a eternidade do seu tempo imenso e breve.

quinta-feira, abril 10, 2014

[As cobras]

As cobras nunca regressam
aos lugares onde deixaram a pele.

quarta-feira, abril 09, 2014

[O caminho de casa]

A minha avó trazia o cântaro
e enchia vagarosamente
os púcaros com água.
Eu ficava a olhar e
por um instante acreditava
que não havia mundo
fora dos muros do pátio
e que o estrangeiro era uma invenção
dos que perdem as chaves
ou o caminho de casa.

quarta-feira, abril 02, 2014

As Coisas que é preciso dizer. 19: a nostalgia

um tempo houve
em que estendíamos os frutos na esteira das açoteias
como se fosse ainda possível acrescentar à tarde uma outra luz que a
tarde exasperadamente procurava nas
suas frases de verão
as crianças corriam nos lancis dos canais de rega
mergulhavam no tanque ou
levantavam-se em equilíbrio nas cumeadas distantes
as árvores cresciam devagar como se apenas esperassem a noite
o correr das águas ficava suspenso de um gesto
e então as mulheres erguiam-se das cadeiras de esparto e
vinham também elas ao pátio
deslumbradas
a olhar as labaredas imensas
e a esconder com o lenço na cara
as lágrimas
de uma nostalgia
sem nome