sexta-feira, novembro 02, 2012

[estas vilas e estas cidades]

Estas vilas e estas cidades que conhecemos só de passagem
estas vilas e estas cidades que as
auto-estradas deixaram fora das rotas da infância
estas vilas e estas cidades com prédios de seis andares e
marquises e persianas de plástico
com bairros de vivendas de desenhador e
pequenos jardins com anjinhos a mijar nas
fontes pré-fabricadas de cimento
com loteamentos cheios de impasses nas periferias
e passeios com ervas e candeeiros que ninguém
ligou ainda à electricidade
estas vilas e estas cidades com os nomes dos
restaurantes desenhados em velhos toldos azuis
com arquitectura moderna e casas em ruína
com alamedas de lódãos
com um coreto nos largos de canteiros ridículos de
relva em forma de biscoito
estas vilas e estas cidades sem alma
estas vilas e estas cidades a quem cometemos a
injustiça de acharmos que não têm alma
porque se calhar somos nós que já não temos alma

são as vilas e as cidades que eu amo
como se desde sempre me pertencessem

[comovo-me sempre]

Vejo os filmes sobre a história de jesus
e comovo-me sempre com o anjo
da caverna da anunciação
comovo-me sempre que vejo
a d. dolores aveiro no camarote de honra
do santiago barnabéu
comovo-me quando vejo a mara
da casa dos segredos a dizer «os portugueses»
ou a alexandra a explicar as razões de
um triângulo equilátero
ter seis lados iguais
comovo-me quando vejo o
director geral dos impostos a
brincar com os filhos numa tarde de domingo
comovo-me sempre que alguém chora
ou alguém ri
como se fosse eu que estivesse
a rir
ou a chorar

quinta-feira, outubro 25, 2012

[na província]

trocávamos tudo
por tão pouco
o largo com meia-dúzia de lâmpadas na noite de agosto
o duo de música pimba no atrelado de um tractor
os amigos em redor da roulote a
beber cerveja
em copos de plástico

quarta-feira, outubro 10, 2012

[palavras]

a distância que vai das palavras ao significado delas
do cartaz das manifestações ao texto do memorando
das entrevistas e dos comícios às reuniões
estratégicas
da coligação

as questões de linguagem
o cálculo
o uso que se faz das frases ao longo do tempo até
uma coisa significar o seu contrário

a erosão dos signos
a distância que vai do que é
ao que se diz

 

segunda-feira, outubro 08, 2012

[as golas dos açudes]

o mecanismo é o mesmo

nas golas dos açudes
à superfície
é quase invisível o círculo a transformar-se em elipse
mas depois a força helicoidal da massa de água
puxa os corpos para o
buraco da descarga de fundo
como a acção de um íman
sobre objectos metálicos
minúsculos 

o mecanismo é o mesmo
pensamos sempre que vemos o que não vemos
é uma tarde vagarosa com
a luz a atravessar os objectos
mas o buraco está debaixo de água e
é imune aos discursos das boas intenções
é refractário à sintaxe

é assim nas golas dos açudes
a hélice invisível puxa-te até ao fundo
primeiro parece apenas uma ligeira rarefacção do ar
depois sentes que a respiração é cada vez mais difícil
no último instante compreendes que

o buraco tem espaço suficiente para passar a cabeça
mas que é impossível
passar o resto do corpo



[publicado originalmente aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/846393.html]

segunda-feira, outubro 01, 2012

[Como se fosse eu mesmo]

Não posso ver estes programas parvos
estes programas das noites de fim de semana que
puxam à lágrima mais fácil
à emoção por educar
ao sentimentalismo mais primário

sobretudo quando os jovens estão a ser completamente iludidos
quando se lhes dá a ideia de que a fama os espera ao virar da esquina
de que os aplausos os acompanharão até serem velhos
e que ainda assim depois de velhos
haverão de ser premiados nas galas
que reconhecem as carreiras

sobretudo quando são emigrantes
sobretudo quando não estudaram
sobretudo quando pensam que estudaram
sobretudo quando são jovens das periferias urbanas
cresceram a ver os pais à bofetada e aos gritos
têm a avó num lar da misericórdia
ninguém a visita
um encargo de que nos temos que livrar

Não posso ver estes programas parvos
sem que as lágrimas me corram na cara duas a duas
sem que o coração me fique apertado dentro do peito
como se fosse eu mesmo
que estivesse à prova
quando lhes dão o palco do horário nobre
para os enganarem do modo mais vil
para os humilharem
para fazerem deles gato-sapato
como se as audiências justificassem
tudo

quinta-feira, agosto 23, 2012

[5: tiro ao alvo]

perdia
propositadamente
a ver se em vez do alvo
te acertava no coração

[4: mesmo quando/ não corres]

eu quero sempre
que ganhes
mesmo quando
não corres

já vês
porque não trouxe de londres
mais que a medalha
de prata

[3: a bandeira de xadrez]

dessem-te
a bandeira de xadrez
e eu ganhava a etapa
da senhora da Graça

[2: antes de ser pedra]

antes de ser pedra
a água
é como a luz
que procura a sombra

[quadras ao gosto popular. 1: a melancolia]

a melancolia
é quase sempre
o que separa a nuvem
da água da nascente

quarta-feira, agosto 22, 2012

[a volta a portugal em bicicleta]

o último classificado da etapa
garantiu a quem o quis ouvir
que não teve nem por um instante a sensação
de que a senhora da Graça o ajudasse
na subida em espiral
e que se não fosse um popular
acudir-lhe com água
não seriam as rezas que o levariam à meta
e que já nem sabia o que dizer
senão que as lágrimas
que agora lhe corriam pela face
só podiam reverter do desgosto de compreender
que não merecia a ajuda que não teve
e que lhe custava sobretudo
não tanto ficar na cauda do pelotão
mas por um instante vacilar na fé
e ter acreditado mais que na senhora da Graça
na água das nascentes
quando estava quase a desfalecer

[o verão quente]

não é o verão quente
apenas nos termómetros o calor
eleva o mercúrio

quarta-feira, agosto 08, 2012

[Nessa noite em que mataram/ Santiago Luís Fernandes]

Nessa noite em que mataram
Santiago Luís Fernandes
no passeio em frente ao café O Túnel
compreendeu-se que as previsões meteorológicas
podem falhar
por causa de uma navalha
mais do que por um imprevisto deslocamento
do anti-ciclone
dos Açores

Estava previsto que nem uma
aragem
corresse
tu dormias como sempre
era quase do outro lado da rua
não acordaste
não ouviste sequer o vento
não ouviste sequer a chuva
a bater descompassadamente nos
vidros
da janela
do quarto

Deviam ser contas
antigas
nenhuma das doze testemunhas
soube explicar a razão de se ter puxado
a navalha
Santiago bebia cerveja e discutia um
jogo da taça da liga
nem se deve ter apercebido que a súbita
dor aguda
vinha de uma lâmina
iluminada pelo brilho
de um reclame
de néon

Tu dormias como sempre
como agora dorme Santiago Luís Fernandes
como agora
do outro lado do mundo
alguém acorda
alguém adormece
indiferente ao fio da navalha
aberta
na esplanada
do café O Túnel
antes de começar a chover

num dia em que a
meteorologia
previa
que nem uma aragem corresse
durante a noite

quinta-feira, agosto 02, 2012

sexta-feira, julho 27, 2012

[o filme]



[um convite]

terça-feira, julho 24, 2012

[a ignição dos interesses]

é mais antigo o que vem da cinza dos incêndios
mapas que parecem mal desenhados propositadamente
contas dos ábacos trocadas umas pelas outras
discursos de navios de ouro destinados afinal ao
comércio dos naufrágios
e depois é isto a
discussão estéril sobre estratégias de combate
como se isto fosse uma guerra
como se as guerras não devessem resolver-se num
tempo anterior ao da deflagração
ao da ignição dos interesses

quinta-feira, julho 19, 2012

[Os críticos literários]

A luz subia os degraus e
parecia ficar exausta nas tábuas
de castanho da varanda. As mulheres
da casa adormeciam
dessa luz incandescente
e de deixarem enredados nos dedos
os fios dos novelos
de lã. De um a outro lado do vale
oscilavam apenas os
desajustados movimentos
das máquinas de rega. Era quando
os críticos literários elogiavam
a verosimilhança.
Mas as mulheres acordavam
e sobre as páginas dos livros não ficava
senão a marca imperecível
de um fio de lã
a desenhar num bastidor
os corações inusitados
das palavras.

[As festas do Senhor do Monte]

O parecer do meu avô era o
de que o vinho deixado no frigorífico
quebrava. Nas vésperas
do Senhor do Monte ia durante
a noite à ribeira e alinhava as garrafas
entre os seixos e as ervas
altas. A meio da manhã do dia seguinte
gostava de tirá-las da seira
de vime desviando os
fentos ainda húmidos e despejar
num copo de vidro esse
líquido vivo e ligeiramente fresco
que olhava à transparência. No último
sábado de Julho o calor agarrava-se
à pele e ficava durante
muito tempo poisado nos terreiros
de saibro. Depois da procissão
os peregrinos estendiam os liteiros
nas sombras do pinhal
enquanto não fosse o tempo
de se aproximarem dos coretos a
ouvir os metais e a percussão
das filarmónicas. O meu avô começava
por essa altura a ficar impaciente
e a insistir no regresso
a casa. E recusava-se a aceitar
as bebidas tiradas das arcas
frigoríficas cheias de gelo
com a certeza de
que o vinho e a vida e o amor
quebravam quando eram
aquecidos ou arrefecidos
por métodos artificiais.