A luz subia os degraus e
parecia ficar exausta nas tábuas
de castanho da varanda. As mulheres
da casa adormeciam
dessa luz incandescente
e de deixarem enredados nos dedos
os fios dos novelos
de lã. De um a outro lado do vale
oscilavam apenas os
desajustados movimentos
das máquinas de rega. Era quando
os críticos literários elogiavam
a verosimilhança.
Mas as mulheres acordavam
e sobre as páginas dos livros não ficava
senão a marca imperecível
de um fio de lã
a desenhar num bastidor
os corações inusitados
das palavras.
quinta-feira, julho 19, 2012
[As festas do Senhor do Monte]
O parecer do meu avô era o
de que o vinho deixado no frigorífico
quebrava. Nas vésperas
do Senhor do Monte ia durante
a noite à ribeira e alinhava as garrafas
entre os seixos e as ervas
altas. A meio da manhã do dia seguinte
gostava de tirá-las da seira
de vime desviando os
fentos ainda húmidos e despejar
num copo de vidro esse
líquido vivo e ligeiramente fresco
que olhava à transparência. No último
sábado de Julho o calor agarrava-se
à pele e ficava durante
muito tempo poisado nos terreiros
de saibro. Depois da procissão
os peregrinos estendiam os liteiros
nas sombras do pinhal
enquanto não fosse o tempo
de se aproximarem dos coretos a
ouvir os metais e a percussão
das filarmónicas. O meu avô começava
por essa altura a ficar impaciente
e a insistir no regresso
a casa. E recusava-se a aceitar
as bebidas tiradas das arcas
frigoríficas cheias de gelo
com a certeza de
que o vinho e a vida e o amor
quebravam quando eram
aquecidos ou arrefecidos
por métodos artificiais.
de que o vinho deixado no frigorífico
quebrava. Nas vésperas
do Senhor do Monte ia durante
a noite à ribeira e alinhava as garrafas
entre os seixos e as ervas
altas. A meio da manhã do dia seguinte
gostava de tirá-las da seira
de vime desviando os
fentos ainda húmidos e despejar
num copo de vidro esse
líquido vivo e ligeiramente fresco
que olhava à transparência. No último
sábado de Julho o calor agarrava-se
à pele e ficava durante
muito tempo poisado nos terreiros
de saibro. Depois da procissão
os peregrinos estendiam os liteiros
nas sombras do pinhal
enquanto não fosse o tempo
de se aproximarem dos coretos a
ouvir os metais e a percussão
das filarmónicas. O meu avô começava
por essa altura a ficar impaciente
e a insistir no regresso
a casa. E recusava-se a aceitar
as bebidas tiradas das arcas
frigoríficas cheias de gelo
com a certeza de
que o vinho e a vida e o amor
quebravam quando eram
aquecidos ou arrefecidos
por métodos artificiais.
quarta-feira, julho 18, 2012
[A água/ de ser evaporada]
O silêncio parece pronto
a explodir nos veios do volfrâmio.
Já nos lagares minúsculos
do cimo dos prédios se preparou
o sulfato das vinhas. O rumor
de pêndulo dos pulverizadores
mistura-se às folhas e aos ramos
como a única evidência de
que somos nós a passar
pelo tempo e a mover
os relógios das sombras. Muito
ao longe deslaça-se a água
de ser evaporada nos incêndios
das florestas. E é então
que as mães descem dos pátios
e correm e gritam a chamar as crianças
temendo que os tremores
de terra tragam à superfície
as súbitas raízes cor de
laranja dos álamos jovens.
a explodir nos veios do volfrâmio.
Já nos lagares minúsculos
do cimo dos prédios se preparou
o sulfato das vinhas. O rumor
de pêndulo dos pulverizadores
mistura-se às folhas e aos ramos
como a única evidência de
que somos nós a passar
pelo tempo e a mover
os relógios das sombras. Muito
ao longe deslaça-se a água
de ser evaporada nos incêndios
das florestas. E é então
que as mães descem dos pátios
e correm e gritam a chamar as crianças
temendo que os tremores
de terra tragam à superfície
as súbitas raízes cor de
laranja dos álamos jovens.
terça-feira, julho 17, 2012
[Apenas mato e árvores]
Ergue-se entre caruma e a ondulação dos montes
que a distância vai deixando mais azuis
uma espécie de voragem
que parece impedir
a respiração. Apenas mato e árvores
e descendo para o vale os muros de pedra arrumada
a esconder pequenas hortas e os arames
das vinhas como fios lentíssimos
de água que o Verão se prepara
para transformar em nuvem
de horas. Pressente-se
na resina a labareda do ar.
O tempo parado à espera que alguém
corra nos caminhos de saibro
ou de muito longe se oiça de novo
o rumor descontínuo dos motores
das máquinas de feno
a queimar o gasóleo.
que a distância vai deixando mais azuis
uma espécie de voragem
que parece impedir
a respiração. Apenas mato e árvores
e descendo para o vale os muros de pedra arrumada
a esconder pequenas hortas e os arames
das vinhas como fios lentíssimos
de água que o Verão se prepara
para transformar em nuvem
de horas. Pressente-se
na resina a labareda do ar.
O tempo parado à espera que alguém
corra nos caminhos de saibro
ou de muito longe se oiça de novo
o rumor descontínuo dos motores
das máquinas de feno
a queimar o gasóleo.
terça-feira, julho 03, 2012
[Comentários de alguns intelectuais a propósito do europeu de futebol]
Já vi gente de pouca instrução a falar
emocionadamente da Vénus de Milo
ou a esforçar-se por compreender os mecanismos
que nos permitem fruir um objecto
e passar a sentir além do que sentíamos
conscientes de uma nova experiência
que vem da descoberta desta
respiração assistida. E isso sei
que leva muitas pessoas sem especial instrução
a esforçar-se por procurar o instante
a partir do qual a fruição de uma
obra de Mark Rothko é já um outro lugar
além do lugar onde estávamos.
Também conhecemos todos
esses indisponíveis para a emoção estética
que chamam picassadas a
toda a pintura que não imita o real
como se a arte não fosse
exactamente o contrário: interrogar o real
a cada momento que passa.
O certo é que dos intelectuais haveria
de esperar-se uma outra disponibilidade
para o entendimento mais geral
da mecânica das artes: dos intelectuais
que não compreendem
que o futebol é tão belo como a Vénus de Milo
haveria de esperar-se
no mínimo a humildade do reconhecimento
dessa incompreensão ou dessa indisponibilidade
para aceder à emoção sobressaltada
de uma experiência nova: haveria
de esperar-se o reconhecimento
da distância que os separa das qualidades do objecto
e assim os impede de aceder
ao milagre de uma
respiração mediada. Mas oh
nem pensar: muitos intelectuais
caem com uma simplicidade impressionante
nas armadilhas da vulgaridade
e do pior que fecha por dentro
as cápsulas estáveis do lugar
comum. E dizem coisas do género
tanta gente a morrer de fome
e a sociedade a idolatrar uns selvagens
cheios de dinheiro que não sabem fazer mais
nada do que dar uns pontapés na bola.
Estes mesmos intelectuais
ficam de pêlo eriçado
se os que morrem de fome
ou perdem os empregos
não atingem que um quadro de Paula
Rego inspirado na Madame Butterfly
seja vendido por oitocentos
e cinquenta mil euros em tempo de crise
ou que o retrato de Henrietta
Moraes atinja em leilão um valor superior
a vinte e cinco milhões. Aceito
que ao meu amigo
Adolfo lhe custe compreender o preço
que se paga por uma mulher assim enviesada
só porque Francis Bacon
a pintou: custa-me que um intelectual
não compreenda que há no futebol
uma arte feita de um conjunto
de várias artes
e que essa arte contemporânea vai
muito além da caricatura tão apressada
de uns ignorantes ao pontapé
na bola. Mas ainda bem que o preconceito
não anda apenas do lado dos que riem
da pintura abstracta
para se perceber que os artistas
e os intelectuais em geral
não são mais nem são menos
do que um cavador de enxada
ou do que um alfaiate meu conhecido
que escondia a sete chaves
os moldes de pano cru
para que não lhe copiassem a arte
de fazer um fato de caxemira.
emocionadamente da Vénus de Milo
ou a esforçar-se por compreender os mecanismos
que nos permitem fruir um objecto
e passar a sentir além do que sentíamos
conscientes de uma nova experiência
que vem da descoberta desta
respiração assistida. E isso sei
que leva muitas pessoas sem especial instrução
a esforçar-se por procurar o instante
a partir do qual a fruição de uma
obra de Mark Rothko é já um outro lugar
além do lugar onde estávamos.
Também conhecemos todos
esses indisponíveis para a emoção estética
que chamam picassadas a
toda a pintura que não imita o real
como se a arte não fosse
exactamente o contrário: interrogar o real
a cada momento que passa.
O certo é que dos intelectuais haveria
de esperar-se uma outra disponibilidade
para o entendimento mais geral
da mecânica das artes: dos intelectuais
que não compreendem
que o futebol é tão belo como a Vénus de Milo
haveria de esperar-se
no mínimo a humildade do reconhecimento
dessa incompreensão ou dessa indisponibilidade
para aceder à emoção sobressaltada
de uma experiência nova: haveria
de esperar-se o reconhecimento
da distância que os separa das qualidades do objecto
e assim os impede de aceder
ao milagre de uma
respiração mediada. Mas oh
nem pensar: muitos intelectuais
caem com uma simplicidade impressionante
nas armadilhas da vulgaridade
e do pior que fecha por dentro
as cápsulas estáveis do lugar
comum. E dizem coisas do género
tanta gente a morrer de fome
e a sociedade a idolatrar uns selvagens
cheios de dinheiro que não sabem fazer mais
nada do que dar uns pontapés na bola.
Estes mesmos intelectuais
ficam de pêlo eriçado
se os que morrem de fome
ou perdem os empregos
não atingem que um quadro de Paula
Rego inspirado na Madame Butterfly
seja vendido por oitocentos
e cinquenta mil euros em tempo de crise
ou que o retrato de Henrietta
Moraes atinja em leilão um valor superior
a vinte e cinco milhões. Aceito
que ao meu amigo
Adolfo lhe custe compreender o preço
que se paga por uma mulher assim enviesada
só porque Francis Bacon
a pintou: custa-me que um intelectual
não compreenda que há no futebol
uma arte feita de um conjunto
de várias artes
e que essa arte contemporânea vai
muito além da caricatura tão apressada
de uns ignorantes ao pontapé
na bola. Mas ainda bem que o preconceito
não anda apenas do lado dos que riem
da pintura abstracta
para se perceber que os artistas
e os intelectuais em geral
não são mais nem são menos
do que um cavador de enxada
ou do que um alfaiate meu conhecido
que escondia a sete chaves
os moldes de pano cru
para que não lhe copiassem a arte
de fazer um fato de caxemira.
sexta-feira, junho 15, 2012
[Os Rurais]
Primeiro treinamos o disfarce de sermos cosmopolitas
e depois procuramos livrar-nos dos disfarces
de fazer de conta que o somos: tiramos as máscaras
com a ilusão de que assim nos disfarçamos melhor
e de que assim nos é possível fazer de conta
que não trazemos merda agarrada aos sapatos.
Nas grandes cidades chegávamos a dar-nos
bem: Paris ou Copenhaga não são muito
diferentes de uma aldeia de montanha
no que respeita ao modo como os outros nos olham
e olhamos os outros. Quer dizer: a cumplicidade
ou a distância que entre as pessoas se estabelece
nos pequenos lugares não é substancialmente
diferente da que o anonimato proporciona
nas praças e nos largos das urbes. E ser rural
chegava a deixar de ser esse peso de falarmos
ou fazermos um gesto e descobrir-se
à distância a pesada pronúncia ou o cheiro
da urze entranhado na pele. O problema
são os espaços sociais de média dimensão:
um jantar com amigos de amigos num restaurante
caro ou uma conferência num anfiteatro
sobre a imortalidade da alma: o nosso inglês
mesmo que seja perfeito vê-se que foi aprendido
a custo nos livros de um liceu
da província; os nossos fatos têm sempre
desusados vincos e parece que foram
feitos para alguém um pouco mais gordo
ou um pouco mais magro do que nós; os nossos
argumentos filosóficos descambam inevitavelmente
no senso comum e risível dos provérbios;
e nunca acertamos os talheres ou os copos
com as protocoladas necessidades deles.
Compreendemos um dia que não adianta
colocar uma máscara e outra máscara
sobre o rosto ou retirá-las todas na ilusão
de que assim nos é mais fácil disfarçar
a ruralidade que somos como se não pertencêssemos
ainda e para sempre aos lugares afastados
onde nascemos e onde ficámos mesmo quando de
lá saímos muito cedo. E portanto resta-nos
ser rurais e trazer a merda agarrada
aos sapatos com a arrogância e a displicência
com que os cosmopolitas à mesa manobram
os talheres bastando-nos a nós o disfarce
de não sentirmos vergonha quando não sabemos
se é de faca e garfo ou com uma colherzinha
de entre tantas facas e tantos garfos e tantas colherzinhas
que nos devemos meter ao petit gateau de chocolate.
Claro que não é isto que pode salvar-nos.
Mas a partir de certa altura já quase
nos basta ter uma máscara que nos disfarce
até sermos exactamente o que somos.
e depois procuramos livrar-nos dos disfarces
de fazer de conta que o somos: tiramos as máscaras
com a ilusão de que assim nos disfarçamos melhor
e de que assim nos é possível fazer de conta
que não trazemos merda agarrada aos sapatos.
Nas grandes cidades chegávamos a dar-nos
bem: Paris ou Copenhaga não são muito
diferentes de uma aldeia de montanha
no que respeita ao modo como os outros nos olham
e olhamos os outros. Quer dizer: a cumplicidade
ou a distância que entre as pessoas se estabelece
nos pequenos lugares não é substancialmente
diferente da que o anonimato proporciona
nas praças e nos largos das urbes. E ser rural
chegava a deixar de ser esse peso de falarmos
ou fazermos um gesto e descobrir-se
à distância a pesada pronúncia ou o cheiro
da urze entranhado na pele. O problema
são os espaços sociais de média dimensão:
um jantar com amigos de amigos num restaurante
caro ou uma conferência num anfiteatro
sobre a imortalidade da alma: o nosso inglês
mesmo que seja perfeito vê-se que foi aprendido
a custo nos livros de um liceu
da província; os nossos fatos têm sempre
desusados vincos e parece que foram
feitos para alguém um pouco mais gordo
ou um pouco mais magro do que nós; os nossos
argumentos filosóficos descambam inevitavelmente
no senso comum e risível dos provérbios;
e nunca acertamos os talheres ou os copos
com as protocoladas necessidades deles.
Compreendemos um dia que não adianta
colocar uma máscara e outra máscara
sobre o rosto ou retirá-las todas na ilusão
de que assim nos é mais fácil disfarçar
a ruralidade que somos como se não pertencêssemos
ainda e para sempre aos lugares afastados
onde nascemos e onde ficámos mesmo quando de
lá saímos muito cedo. E portanto resta-nos
ser rurais e trazer a merda agarrada
aos sapatos com a arrogância e a displicência
com que os cosmopolitas à mesa manobram
os talheres bastando-nos a nós o disfarce
de não sentirmos vergonha quando não sabemos
se é de faca e garfo ou com uma colherzinha
de entre tantas facas e tantos garfos e tantas colherzinhas
que nos devemos meter ao petit gateau de chocolate.
Claro que não é isto que pode salvar-nos.
Mas a partir de certa altura já quase
nos basta ter uma máscara que nos disfarce
até sermos exactamente o que somos.
terça-feira, junho 12, 2012
[Uma Viagem]
Quando este poema for publicado on-line, falando
de lugares mágicos, espero estar aí, nesses
lugares, a dormir nas margens de um rio
com a ilusão de que, em parte,
me é permitido regressar a uma parcela ínfima
dos sonhos que ao mundo não foi ainda
dado roubar-nos. Há um caminho,
primeiro, a percorrer. Antes de chegar
ao Mousse. Antes de chegar ao Mente. Antes
de chegar às margens de um rio onde os
amigos haverão de dormir sob um céu de estrelas
ou ameaçadoras nuvens. E seis árvores, precisamente
seis, haverão de confirmar-nos que poucas
coisas mudam no mundo, e só vagarosamente
mudam, quando nos conformamos
com os milagres do mundo. Haverei, a
caminho, de parar em Mairos. Para
confirmar que uma horta que é um jardim,
ou um jardim que é uma horta, ou uma horta
e um jardim que são simultaneamente
a mesma coisa, continuam acertados com a
meteorologia e as estações, ou acertados
com a imprevisibilidade delas. Talvez aproveite
para beber cerveja neste café a que se chega
por um corredor estreito de cimento. Mas apenas
porque me apetece ficar um pouco sentado cá fora
a olhar um cacto gigante e uma couve, um campo
de milho ou uma sebe de buxo e alecrim, e essa
arte tão antiga de domesticar as plantas
e misturá-las para nos darem um fruto, uma
sombra mais alargada, uma luz no outono
ou o prazer dos fenómenos. Haverei, então,
de virar à esquerda, a noventa graus. E depois
entrar na capital da batata, no planalto ecológico,
nessa vastidão de campos que são já
da Galiza sem deixarem de ser da Terra Fria,
que são já fronteira sem deixarem de ser
continuidade e aproximação. E aí, em
Travancas, no Café Central, é provável
que beba cerveja. Mas apenas para me sentar
na esplanada e continuar a olhar a cerejeira
que cresce rente a um muro, do lado
direito, na estrada que em seguida me levará
a Argemil e a São Vicente da Raia. E em
São Vicente, depois de acompanhar o rio
serpenteando sem derivações bruscas, antes
de se olharem, do alto, os vales com os
seus quadriculados amarelos e verdes,
as encostas erguendo-se em modulações
entre o verde e o castanho, é provável
que pare por alguns momentos
e beba cerveja. Mas apenas porque
me há-de apetecer ficar sentado a uma
mesa de pedra, sob uma latada
ampla, a olhar o ondulado das cumeadas
sucedendo-se na distância. Descerei
então em apertadas curvas deixando Aveleda
à esquerda arrumada num pequeno vale
com o xisto quase improvável a sair dos montes
para as paredes das casas. E, enfim, chegarei
a Segirei. Não seria necessário continuar
até Segirei: porque deveria virar à direita
antes de chegar a Segirei. Mas é preciso regressar
às memórias antigas de um café que
já fechou há muito, e às memórias antigas
da cozinha e do pátio e da adega da casa
do Ramiro. Por isso não chego a parar. Sigo
devagar, faço inversão de marcha no espaço
mais alargado da ponte da praia fluvial,
e rumo em sentido contrário, deixando
novamente Segirei e o tempo suspenso da
revelação dos seus nomes. É
esta a viagem: chegar a Pejas. Encontrar
os amigos que me esperam na margem
de um rio. Olhar as seis árvores, precisamente as
seis árvores onde procuro a demonstração
de que o mundo quase não muda, e muda
muito vagarosamente, quando apenas
nos bastam os milagres do mundo. Sentar-me-ei
então em redor de uma mesa de madeira.
E talvez não beba cerveja. Mas vinho. Para
que o vinho possa deixar durante muito tempo
a memória dos encontros, a memória
dos milagres, a memória desse
momento de aparição em que por um instante
breve nos é revelado o mistério de estarmos
vivos em nós mesmos e no coração
dos que não podem deixar de amar-nos para sempre.
[publicado originalmente aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/800324.html]
de lugares mágicos, espero estar aí, nesses
lugares, a dormir nas margens de um rio
com a ilusão de que, em parte,
me é permitido regressar a uma parcela ínfima
dos sonhos que ao mundo não foi ainda
dado roubar-nos. Há um caminho,
primeiro, a percorrer. Antes de chegar
ao Mousse. Antes de chegar ao Mente. Antes
de chegar às margens de um rio onde os
amigos haverão de dormir sob um céu de estrelas
ou ameaçadoras nuvens. E seis árvores, precisamente
seis, haverão de confirmar-nos que poucas
coisas mudam no mundo, e só vagarosamente
mudam, quando nos conformamos
com os milagres do mundo. Haverei, a
caminho, de parar em Mairos. Para
confirmar que uma horta que é um jardim,
ou um jardim que é uma horta, ou uma horta
e um jardim que são simultaneamente
a mesma coisa, continuam acertados com a
meteorologia e as estações, ou acertados
com a imprevisibilidade delas. Talvez aproveite
para beber cerveja neste café a que se chega
por um corredor estreito de cimento. Mas apenas
porque me apetece ficar um pouco sentado cá fora
a olhar um cacto gigante e uma couve, um campo
de milho ou uma sebe de buxo e alecrim, e essa
arte tão antiga de domesticar as plantas
e misturá-las para nos darem um fruto, uma
sombra mais alargada, uma luz no outono
ou o prazer dos fenómenos. Haverei, então,
de virar à esquerda, a noventa graus. E depois
entrar na capital da batata, no planalto ecológico,
nessa vastidão de campos que são já
da Galiza sem deixarem de ser da Terra Fria,
que são já fronteira sem deixarem de ser
continuidade e aproximação. E aí, em
Travancas, no Café Central, é provável
que beba cerveja. Mas apenas para me sentar
na esplanada e continuar a olhar a cerejeira
que cresce rente a um muro, do lado
direito, na estrada que em seguida me levará
a Argemil e a São Vicente da Raia. E em
São Vicente, depois de acompanhar o rio
serpenteando sem derivações bruscas, antes
de se olharem, do alto, os vales com os
seus quadriculados amarelos e verdes,
as encostas erguendo-se em modulações
entre o verde e o castanho, é provável
que pare por alguns momentos
e beba cerveja. Mas apenas porque
me há-de apetecer ficar sentado a uma
mesa de pedra, sob uma latada
ampla, a olhar o ondulado das cumeadas
sucedendo-se na distância. Descerei
então em apertadas curvas deixando Aveleda
à esquerda arrumada num pequeno vale
com o xisto quase improvável a sair dos montes
para as paredes das casas. E, enfim, chegarei
a Segirei. Não seria necessário continuar
até Segirei: porque deveria virar à direita
antes de chegar a Segirei. Mas é preciso regressar
às memórias antigas de um café que
já fechou há muito, e às memórias antigas
da cozinha e do pátio e da adega da casa
do Ramiro. Por isso não chego a parar. Sigo
devagar, faço inversão de marcha no espaço
mais alargado da ponte da praia fluvial,
e rumo em sentido contrário, deixando
novamente Segirei e o tempo suspenso da
revelação dos seus nomes. É
esta a viagem: chegar a Pejas. Encontrar
os amigos que me esperam na margem
de um rio. Olhar as seis árvores, precisamente as
seis árvores onde procuro a demonstração
de que o mundo quase não muda, e muda
muito vagarosamente, quando apenas
nos bastam os milagres do mundo. Sentar-me-ei
então em redor de uma mesa de madeira.
E talvez não beba cerveja. Mas vinho. Para
que o vinho possa deixar durante muito tempo
a memória dos encontros, a memória
dos milagres, a memória desse
momento de aparição em que por um instante
breve nos é revelado o mistério de estarmos
vivos em nós mesmos e no coração
dos que não podem deixar de amar-nos para sempre.
[publicado originalmente aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/800324.html]
quarta-feira, maio 16, 2012
[outro endereço, 1]
pode ser essa suspensão
o tempo
esse milagre de um gesto irrepetível
o desejo a precariedade
a oscilação de um pêndulo
cujo movimento chegámos a
suspeitar pertencer-nos
para sempre
e depois adormecíamos de sermos ainda
demasiado jovens
ou o inverno repetir demasiadas vezes os
seus nomes
as suas insuportáveis sílabas
os seus demasiados gestos de
nos tocar nos ombros o
desastre
da enunciação
para o joaquim
o tempo
esse milagre de um gesto irrepetível
o desejo a precariedade
a oscilação de um pêndulo
cujo movimento chegámos a
suspeitar pertencer-nos
para sempre
e depois adormecíamos de sermos ainda
demasiado jovens
ou o inverno repetir demasiadas vezes os
seus nomes
as suas insuportáveis sílabas
os seus demasiados gestos de
nos tocar nos ombros o
desastre
da enunciação
para o joaquim
terça-feira, maio 08, 2012
[14 de Agosto de 1385: ala dos namorados]
eram muito jovens
lutavam pela pátria
como quem acredita ainda no amor
só caíam no campo de batalha
os que uma lança
inimiga
tocasse
no coração
lutavam pela pátria
como quem acredita ainda no amor
só caíam no campo de batalha
os que uma lança
inimiga
tocasse
no coração
segunda-feira, abril 30, 2012
[É de longe]
É de longe
que mais nitidamente
as onduladas
cumeadas
se desenham.
O estrangeiro
é muitas
vezes o país
onde melhor se
recortam
contra o céu
azul da infância
os telhados
de casa
e as árvores
dos pátios.
que mais nitidamente
as onduladas
cumeadas
se desenham.
O estrangeiro
é muitas
vezes o país
onde melhor se
recortam
contra o céu
azul da infância
os telhados
de casa
e as árvores
dos pátios.
sexta-feira, abril 27, 2012
[Cristiano Ronaldo]
Tu nem podes imaginar
entre as festas de Los Angeles com a Paris
Hilton e as conversas por telemóvel
com a Irina Shaik
ou quando vais a um restaurante de Lisboa
comer o bacalhau com natas
tanto da preferência dela
o mal que nos fazes
meu grande filho da mãe
por tão brilhantemente te desenvencilhares
no jogo da bola
e nos deixares estarrecidos a torcer
por ti
esquecendo que a tua camisola
é a branca
do Real Madrid.
Gostaríamos que soubesses
meu caro Cristiano Ronaldo
que nos chegamos a envergonhar de gritar o teu nome
em voz alta
como se pudéssemos esquecer a insídia
da contratação de Di Stéfano
quando Juan Francisco Paulino Hermenegildo
Teódulo Franco y
Bahamonde fazia de conta que gostava de futebol
apenas para que mais reluzentemente a Espanha
pudesse
afirmar-se na Europa e no resto do
mundo.
Tu és
meu caro Cristiano Ronaldo
a nossa pedra no sapato.
Hoje
por exemplo
quando vimos em menos de um minuto
dares a volta ao resultado
e humilhares o Barcelona na sua própria casa
tu sabes lá Cristiano Ronaldo
o quanto nos custou no mais
fundo do coração gritar o teu nome em voz alta
divididos entre seres português
e sabermos que o rei de
Espanha se dá ao luxo de fracturar a anca
por tropeçar de caçar elefantes no
Botswana e sorridente pousar com os bichos caídos ao lado
como se fizesse uma habilidade igual às tuas quando
te limitas a virar brilhantemente um resultado
num único minuto de milagre
levando-nos a ser de um clube a que não
gostaríamos de pertencer. Por
isso te pedimos muito
Cristiano Ronaldo
que compreendas o quanto perdemos de nós
sempre que gritamos
o teu nome
em voz alta.
21 Abril 2012.
entre as festas de Los Angeles com a Paris
Hilton e as conversas por telemóvel
com a Irina Shaik
ou quando vais a um restaurante de Lisboa
comer o bacalhau com natas
tanto da preferência dela
o mal que nos fazes
meu grande filho da mãe
por tão brilhantemente te desenvencilhares
no jogo da bola
e nos deixares estarrecidos a torcer
por ti
esquecendo que a tua camisola
é a branca
do Real Madrid.
Gostaríamos que soubesses
meu caro Cristiano Ronaldo
que nos chegamos a envergonhar de gritar o teu nome
em voz alta
como se pudéssemos esquecer a insídia
da contratação de Di Stéfano
quando Juan Francisco Paulino Hermenegildo
Teódulo Franco y
Bahamonde fazia de conta que gostava de futebol
apenas para que mais reluzentemente a Espanha
pudesse
afirmar-se na Europa e no resto do
mundo.
Tu és
meu caro Cristiano Ronaldo
a nossa pedra no sapato.
Hoje
por exemplo
quando vimos em menos de um minuto
dares a volta ao resultado
e humilhares o Barcelona na sua própria casa
tu sabes lá Cristiano Ronaldo
o quanto nos custou no mais
fundo do coração gritar o teu nome em voz alta
divididos entre seres português
e sabermos que o rei de
Espanha se dá ao luxo de fracturar a anca
por tropeçar de caçar elefantes no
Botswana e sorridente pousar com os bichos caídos ao lado
como se fizesse uma habilidade igual às tuas quando
te limitas a virar brilhantemente um resultado
num único minuto de milagre
levando-nos a ser de um clube a que não
gostaríamos de pertencer. Por
isso te pedimos muito
Cristiano Ronaldo
que compreendas o quanto perdemos de nós
sempre que gritamos
o teu nome
em voz alta.
21 Abril 2012.
quinta-feira, abril 19, 2012
[acendiam o lume]
As mulheres
fechavam as portas e as janelas
acendiam o lume
e ficavam
à lareira
a fazer
as camisolas
do inverno.
E era ainda
o verão.
fechavam as portas e as janelas
acendiam o lume
e ficavam
à lareira
a fazer
as camisolas
do inverno.
E era ainda
o verão.
terça-feira, abril 17, 2012
[Em todos os poemas há/ a casa]
Em todos os poemas há
a casa. Para que tudo possa começar
onde deve começar. No pátio
e na escaleira da entrada. Na porta
pintada de verde com o forro de zinco. Nos retratos
a sépia pendurados nas paredes
da sala. Na pedra da lareira. Nos corredores
a dar para a sombra dos quartos. Na varanda.
O mundo é uma repetida enunciação.
Depois vem a luz do verão. A luz intensa
que em vez das palavras
desloca os objectos. Uma travessa
de cerâmica. Um pote de ferro. O assador
das castanhas. A luz que fica agarrada aos vidros
das janelas. A luz que espalha nas traves do soalho
os losangos de haver muitas
afastadas vozes misturadas
às folhas dos álamos jovens.
E o inverno. Para que a tempestade
traga de longe o rumor do vento nos arames
das vinhas. Para que uma sombra possa repetir
todas as sombras
que o labirinto da idade abateu
sobre os corações desabitados.
Em todos os poemas há
a casa. Porque a casa é também o lugar
das viagens. Numa manhã dos meses de junho
alguém fala do tempo antigo das mulheres do rio
de janeiro como se a sede
pudesse matar-se com a água do cântaro
arrumado ao lado do escano.
Uma fotografia guardada num álbum
de fotografias. Numa das salas da casa.
Numa das gavetas da cómoda
que não sabemos se alguém
haverá de abrir. O poema. A desvalorizada moeda.
Onde havia uma casa
e o verão e o inverno
subiram um dia a escaleira de pedra.
a casa. Para que tudo possa começar
onde deve começar. No pátio
e na escaleira da entrada. Na porta
pintada de verde com o forro de zinco. Nos retratos
a sépia pendurados nas paredes
da sala. Na pedra da lareira. Nos corredores
a dar para a sombra dos quartos. Na varanda.
O mundo é uma repetida enunciação.
Depois vem a luz do verão. A luz intensa
que em vez das palavras
desloca os objectos. Uma travessa
de cerâmica. Um pote de ferro. O assador
das castanhas. A luz que fica agarrada aos vidros
das janelas. A luz que espalha nas traves do soalho
os losangos de haver muitas
afastadas vozes misturadas
às folhas dos álamos jovens.
E o inverno. Para que a tempestade
traga de longe o rumor do vento nos arames
das vinhas. Para que uma sombra possa repetir
todas as sombras
que o labirinto da idade abateu
sobre os corações desabitados.
Em todos os poemas há
a casa. Porque a casa é também o lugar
das viagens. Numa manhã dos meses de junho
alguém fala do tempo antigo das mulheres do rio
de janeiro como se a sede
pudesse matar-se com a água do cântaro
arrumado ao lado do escano.
Uma fotografia guardada num álbum
de fotografias. Numa das salas da casa.
Numa das gavetas da cómoda
que não sabemos se alguém
haverá de abrir. O poema. A desvalorizada moeda.
Onde havia uma casa
e o verão e o inverno
subiram um dia a escaleira de pedra.
segunda-feira, abril 09, 2012
quinta-feira, abril 05, 2012
terça-feira, abril 03, 2012
quinta-feira, março 29, 2012
[6.]
EM VEZ DOS BASTIDORES
Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa –
a linha descontínua de estrelas incineradas
com a língua
autóctone
a servir de espelho à água: a libertar-se
da âncora genealógica
pela destruição do livro
dos exemplos. E da meteorologia
o que retinham
era antes dos ciclones
a minúscula nuvem deslaçada do vento: até ao alicerce
e à raiz e à álgebra. E então aprendiam a ler
e a mover no ábaco
as doze contas
errando propositadamente
as sílabas antigas
todas.
Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa –
a linha descontínua de estrelas incineradas
com a língua
autóctone
a servir de espelho à água: a libertar-se
da âncora genealógica
pela destruição do livro
dos exemplos. E da meteorologia
o que retinham
era antes dos ciclones
a minúscula nuvem deslaçada do vento: até ao alicerce
e à raiz e à álgebra. E então aprendiam a ler
e a mover no ábaco
as doze contas
errando propositadamente
as sílabas antigas
todas.
quarta-feira, março 28, 2012
[5.]
A LOCOMOÇÃO
Ele dizia «eu movo-me
de ver crescer o trigo
na umbria». Porque há um momento
em que a heresia e a coragem se confundem
e a baixa densidade dos núcleos
remove
por intuição
a desmesura
das memórias
descritivas
dos interesses. Ele desenhava a cidade
a graffiti. Ele fazia as plantas
e os alçados
dos contentores das obras de restauro
e projectava os jardins
nas periferias
contra a cartografia dos planos
recentes. Ele dizia
«eu sou movido pela dissolução da água»
como se a locomoção
fosse uma questão
de regime.
Ele dizia «eu movo-me
de ver crescer o trigo
na umbria». Porque há um momento
em que a heresia e a coragem se confundem
e a baixa densidade dos núcleos
remove
por intuição
a desmesura
das memórias
descritivas
dos interesses. Ele desenhava a cidade
a graffiti. Ele fazia as plantas
e os alçados
dos contentores das obras de restauro
e projectava os jardins
nas periferias
contra a cartografia dos planos
recentes. Ele dizia
«eu sou movido pela dissolução da água»
como se a locomoção
fosse uma questão
de regime.
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