terça-feira, junho 12, 2012

[Uma Viagem]

Quando este poema for publicado on-line, falando
de lugares mágicos, espero estar aí, nesses
lugares, a dormir nas margens de um rio
com a ilusão de que, em parte,
me é permitido regressar a uma parcela ínfima
dos sonhos que ao mundo não foi ainda
dado roubar-nos. Há um caminho,

primeiro, a percorrer. Antes de chegar
ao Mousse. Antes de chegar ao Mente. Antes
de chegar às margens de um rio onde os
amigos haverão de dormir sob um céu de estrelas
ou ameaçadoras nuvens. E seis árvores, precisamente
seis, haverão de confirmar-nos que poucas
coisas mudam no mundo, e só vagarosamente
mudam, quando nos conformamos
com os milagres do mundo. Haverei, a

caminho, de parar em Mairos. Para
confirmar que uma horta que é um jardim,
ou um jardim que é uma horta, ou uma horta
e um jardim que são simultaneamente
a mesma coisa, continuam acertados com a
meteorologia e as estações, ou acertados
com a imprevisibilidade delas. Talvez aproveite
para beber cerveja neste café a que se chega
por um corredor estreito de cimento. Mas apenas
porque me apetece ficar um pouco sentado cá fora
a olhar um cacto gigante e uma couve, um campo
de milho ou uma sebe de buxo e alecrim, e essa
arte tão antiga de domesticar as plantas
e misturá-las para nos darem um fruto, uma
sombra mais alargada, uma luz no outono
ou o prazer dos fenómenos. Haverei, então,

de virar à esquerda, a noventa graus. E depois
entrar na capital da batata, no planalto ecológico,
nessa vastidão de campos que são já
da Galiza sem deixarem de ser da Terra Fria,
que são já fronteira sem deixarem de ser
continuidade e aproximação. E aí, em
Travancas, no Café Central, é provável
que beba cerveja. Mas apenas para me sentar
na esplanada e continuar a olhar a cerejeira
que cresce rente a um muro, do lado
direito, na estrada que em seguida me levará
a Argemil e a São Vicente da Raia. E em

São Vicente, depois de acompanhar o rio
serpenteando sem derivações bruscas, antes
de se olharem, do alto, os vales com os
seus quadriculados amarelos e verdes,
as encostas erguendo-se em modulações
entre o verde e o castanho, é provável
que pare por alguns momentos
e beba cerveja. Mas apenas porque
me há-de apetecer ficar sentado a uma
mesa de pedra, sob uma latada
ampla, a olhar o ondulado das cumeadas
sucedendo-se na distância. Descerei

então em apertadas curvas deixando Aveleda
à esquerda arrumada num pequeno vale
com o xisto quase improvável a sair dos montes
para as paredes das casas. E, enfim, chegarei
a Segirei. Não seria necessário continuar
até Segirei: porque deveria virar à direita
antes de chegar a Segirei. Mas é preciso regressar
às memórias antigas de um café que
já fechou há muito, e às memórias antigas
da cozinha e do pátio e da adega da casa
do Ramiro. Por isso não chego a parar. Sigo
devagar, faço inversão de marcha no espaço
mais alargado da ponte da praia fluvial,
e rumo em sentido contrário, deixando
novamente Segirei e o tempo suspenso da
revelação dos seus nomes. É

esta a viagem: chegar a Pejas. Encontrar
os amigos que me esperam na margem
de um rio. Olhar as seis árvores, precisamente as
seis árvores onde procuro a demonstração
de que o mundo quase não muda, e muda
muito vagarosamente, quando apenas
nos bastam os milagres do mundo. Sentar-me-ei

então em redor de uma mesa de madeira.
E talvez não beba cerveja. Mas vinho. Para
que o vinho possa deixar durante muito tempo
a memória dos encontros, a memória
dos milagres, a memória desse
momento de aparição em que por um instante
breve nos é revelado o mistério de estarmos
vivos em nós mesmos e no coração
dos que não podem deixar de amar-nos para sempre.



[publicado originalmente aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/800324.html]

quarta-feira, maio 16, 2012

[outro endereço, 1]

pode ser essa suspensão
o tempo
esse milagre de um gesto irrepetível

o desejo a precariedade
a oscilação de um pêndulo
cujo movimento chegámos a
suspeitar pertencer-nos
para sempre

e depois adormecíamos de sermos ainda
demasiado jovens
ou o inverno repetir demasiadas vezes os
seus nomes
as suas insuportáveis sílabas
os seus demasiados gestos de
nos tocar nos ombros o
desastre
da enunciação



para o joaquim

terça-feira, maio 08, 2012

[14 de Agosto de 1385: ala dos namorados]

eram muito jovens
lutavam pela pátria
como quem acredita ainda no amor

só caíam no campo de batalha
os que uma lança
inimiga
tocasse
no coração

[um peixe]



jcb. acrílico sobre radiografia.

segunda-feira, abril 30, 2012

[É de longe]

É de longe
que mais nitidamente
as onduladas
cumeadas
se desenham.
O estrangeiro
é muitas
vezes o país
onde melhor se
recortam
contra o céu
azul da infância
os telhados
de casa
e as árvores
dos pátios.

sexta-feira, abril 27, 2012

[Cristiano Ronaldo]

Tu nem podes imaginar
entre as festas de Los Angeles com a Paris
Hilton e as conversas por telemóvel
com a Irina Shaik
ou quando vais a um restaurante de Lisboa
comer o bacalhau com natas
tanto da preferência dela
o mal que nos fazes
meu grande filho da mãe
por tão brilhantemente te desenvencilhares
no jogo da bola
e nos deixares estarrecidos a torcer
por ti
esquecendo que a tua camisola
é a branca
do Real Madrid.

Gostaríamos que soubesses
meu caro Cristiano Ronaldo
que nos chegamos a envergonhar de gritar o teu nome
em voz alta
como se pudéssemos esquecer a insídia
da contratação de Di Stéfano
quando Juan Francisco Paulino Hermenegildo
Teódulo Franco y
Bahamonde fazia de conta que gostava de futebol
apenas para que mais reluzentemente a Espanha
pudesse
afirmar-se na Europa e no resto do
mundo.

Tu és
meu caro Cristiano Ronaldo
a nossa pedra no sapato.
Hoje
por exemplo
quando vimos em menos de um minuto
dares a volta ao resultado
e humilhares o Barcelona na sua própria casa
tu sabes lá Cristiano Ronaldo
o quanto nos custou no mais
fundo do coração gritar o teu nome em voz alta
divididos entre seres português
e sabermos que o rei de
Espanha se dá ao luxo de fracturar a anca
por tropeçar de caçar elefantes no
Botswana e sorridente pousar com os bichos caídos ao lado
como se fizesse uma habilidade igual às tuas quando
te limitas a virar brilhantemente um resultado
num único minuto de milagre
levando-nos a ser de um clube a que não
gostaríamos de pertencer. Por

isso te pedimos muito
Cristiano Ronaldo
que compreendas o quanto perdemos de nós
sempre que gritamos
o teu nome
em voz alta.



21 Abril 2012.

quinta-feira, abril 19, 2012

[acendiam o lume]

As mulheres
fechavam as portas e as janelas
acendiam o lume
e ficavam
à lareira
a fazer
as camisolas
do inverno.
E era ainda
o verão.

terça-feira, abril 17, 2012

[Em todos os poemas há/ a casa]

Em todos os poemas há
a casa. Para que tudo possa começar
onde deve começar. No pátio
e na escaleira da entrada. Na porta
pintada de verde com o forro de zinco. Nos retratos
a sépia pendurados nas paredes
da sala. Na pedra da lareira. Nos corredores
a dar para a sombra dos quartos. Na varanda.
O mundo é uma repetida enunciação.

Depois vem a luz do verão. A luz intensa
que em vez das palavras
desloca os objectos. Uma travessa
de cerâmica. Um pote de ferro. O assador
das castanhas. A luz que fica agarrada aos vidros
das janelas. A luz que espalha nas traves do soalho
os losangos de haver muitas
afastadas vozes misturadas
às folhas dos álamos jovens.

E o inverno. Para que a tempestade
traga de longe o rumor do vento nos arames
das vinhas. Para que uma sombra possa repetir
todas as sombras
que o labirinto da idade abateu
sobre os corações desabitados.

Em todos os poemas há
a casa. Porque a casa é também o lugar
das viagens. Numa manhã dos meses de junho
alguém fala do tempo antigo das mulheres do rio
de janeiro como se a sede
pudesse matar-se com a água do cântaro
arrumado ao lado do escano.

Uma fotografia guardada num álbum
de fotografias. Numa das salas da casa.
Numa das gavetas da cómoda
que não sabemos se alguém
haverá de abrir. O poema. A desvalorizada moeda.
Onde havia uma casa
e o verão e o inverno
subiram um dia a escaleira de pedra.

segunda-feira, abril 09, 2012

[klee em 1938]



jcb. acrílico sobre papel de arroz.

quinta-feira, abril 05, 2012

[novembro]




jcb. acrílico sobre papel.

terça-feira, abril 03, 2012

[uma alegoria: paula rego]




jcb. acrílico sobre papel.

[segirei: março de 2012]



jcb. acrílico sobre cartão, 0.65x050 m.

quinta-feira, março 29, 2012

[6.]

EM VEZ DOS BASTIDORES

Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa –
a linha descontínua de estrelas incineradas
com a língua
autóctone
a servir de espelho à água: a libertar-se
da âncora genealógica
pela destruição do livro
dos exemplos. E da meteorologia
o que retinham
era antes dos ciclones
a minúscula nuvem deslaçada do vento: até ao alicerce
e à raiz e à álgebra. E então aprendiam a ler
e a mover no ábaco
as doze contas
errando propositadamente
as sílabas antigas
todas.

quarta-feira, março 28, 2012

[5.]

A LOCOMOÇÃO

Ele dizia «eu movo-me
de ver crescer o trigo
na umbria». Porque há um momento
em que a heresia e a coragem se confundem
e a baixa densidade dos núcleos
remove
por intuição
a desmesura
das memórias
descritivas
dos interesses. Ele desenhava a cidade
a graffiti. Ele fazia as plantas
e os alçados
dos contentores das obras de restauro
e projectava os jardins
nas periferias
contra a cartografia dos planos
recentes. Ele dizia
«eu sou movido pela dissolução da água»
como se a locomoção
fosse uma questão
de regime.

terça-feira, março 27, 2012

[4.]

AS MÃOS

O temor
de que fosse pecado
a exaltação:
isso as levava a afastarem
da boca dos fornos
o ferro
e o alumínio. E recuavam
deixando na pedra
os aventais azuis
para que a massa resplandecesse
na divisória
incandescente
à rarefacção do ar.
E ouvia-se ao
longe o rumor contínuo do tempo. As mãos
a procurar ainda –
a esconder ainda:
o lareiro das fornalhas, a levedação,
os milagres.

quinta-feira, março 22, 2012

[3.]

A LABAREDA AZUL

Em vez do pavio aceso –
trazia à loja os rastilhos de cerâmica. E guardava
a luz irregular
do petróleo
erguendo-a
nos candeeiros de vidro.
Os sacos de sementes e o tendal –
esse pó levantado: a sombra irrespirável
a queimar os pulmões dos fantasmas
debruados a sépia
nas capas
dos livros
das estantes. E a apagar a chama
e a acendê-la de novo.
E vinha então a dissensão
e
espalhava nas divisões da casa
a labareda azul
da resina.

quarta-feira, março 21, 2012

[2.]

A ENERGIA EÓLICA

Para respirar
eu procurava nesse tempo as vagarosas pás
dos aerogeradores.
Corria o agosto
e discutia-se o estilo
nas esplanadas das praças. E alguém dizia «o verso,
a semiótica»
e adormecia
de caírem
com a calma
as aves
nos relvados. Outros
[por exemplo]
defendiam a obscuridade
e usavam a álgebra e logaritmos
e traziam som e estrados portáteis a que se acedia
pela levitação.
Só eu não tinha uma teoria
e preenchia
os impressos das finanças:
corria o agosto e
nesse tempo [lembro-me]
a energia eólica
deduzia-se
dos impostos.

terça-feira, março 20, 2012

[seis poemas para uma obra colectiva. 1.]

OS QUE SE DEDICAM ÀS ARTES CÉNICAS

Agora me lembro –
do fundo das noras erguia-se
a labareda
das rosas
dos quintais.
Aprendera a respirar
abaixo
da linha de água.
Mas não era possível ainda
enlouquecer
pela perseverança
nas artes cénicas. E então as mulheres dos montes
viravam os estrados
para o lado de dentro
dos teatros
como se o luxo
da estreia
fosse quase insuportável
e irradiasse nos espelhos
das cerimónias. Agora me lembro –
do modo como o pêndulo
na imensa manhã desse tempo
oscilava
nos ensaios
e
ia e
vinha.

segunda-feira, março 19, 2012

[eraser, 7]




jcb. tinta plástica sobre tela, 0.80x0.60 m.

sexta-feira, março 09, 2012

[Os Investimentos, 2]

Era o frio
que trazia as rezas e os louvores.
Era quando os fantasmas do esquecimento
atravessavam as divisórias
dos quartos.

A névoa ficava poisada nos campos
e depois deslaçava vagarosamente
para que a neve descesse
das cumeadas
distantes.
Uma imensa navalha de silêncio
cortava os vales
como se fizesse uma incisão
num corpo adormecido
nos arames
das vinhas.

E então rezava-se em voz alta
como se estarmos vivos
dependesse
de nos ouvirmos
uns aos outros. E o eco das orações
atravessava
os campos de pousio.

Havia sempre alguém
que desconhecia
os mitos. Havia sempre alguém
que saía à rua
nestas tardes paradas
como a água
dos aquários
das casas
em ruína.

O cão das múltiplas cabeças
guardava os labirintos
subterrâneos
à entrada
da mina
das nascentes.
Parecia afável.

E havia sempre alguém
que se aproximava
e entrava
sem saber
que nunca se regressa
dos lugares
ausentes.