terça-feira, maio 08, 2012

[um peixe]



jcb. acrílico sobre radiografia.

segunda-feira, abril 30, 2012

[É de longe]

É de longe
que mais nitidamente
as onduladas
cumeadas
se desenham.
O estrangeiro
é muitas
vezes o país
onde melhor se
recortam
contra o céu
azul da infância
os telhados
de casa
e as árvores
dos pátios.

sexta-feira, abril 27, 2012

[Cristiano Ronaldo]

Tu nem podes imaginar
entre as festas de Los Angeles com a Paris
Hilton e as conversas por telemóvel
com a Irina Shaik
ou quando vais a um restaurante de Lisboa
comer o bacalhau com natas
tanto da preferência dela
o mal que nos fazes
meu grande filho da mãe
por tão brilhantemente te desenvencilhares
no jogo da bola
e nos deixares estarrecidos a torcer
por ti
esquecendo que a tua camisola
é a branca
do Real Madrid.

Gostaríamos que soubesses
meu caro Cristiano Ronaldo
que nos chegamos a envergonhar de gritar o teu nome
em voz alta
como se pudéssemos esquecer a insídia
da contratação de Di Stéfano
quando Juan Francisco Paulino Hermenegildo
Teódulo Franco y
Bahamonde fazia de conta que gostava de futebol
apenas para que mais reluzentemente a Espanha
pudesse
afirmar-se na Europa e no resto do
mundo.

Tu és
meu caro Cristiano Ronaldo
a nossa pedra no sapato.
Hoje
por exemplo
quando vimos em menos de um minuto
dares a volta ao resultado
e humilhares o Barcelona na sua própria casa
tu sabes lá Cristiano Ronaldo
o quanto nos custou no mais
fundo do coração gritar o teu nome em voz alta
divididos entre seres português
e sabermos que o rei de
Espanha se dá ao luxo de fracturar a anca
por tropeçar de caçar elefantes no
Botswana e sorridente pousar com os bichos caídos ao lado
como se fizesse uma habilidade igual às tuas quando
te limitas a virar brilhantemente um resultado
num único minuto de milagre
levando-nos a ser de um clube a que não
gostaríamos de pertencer. Por

isso te pedimos muito
Cristiano Ronaldo
que compreendas o quanto perdemos de nós
sempre que gritamos
o teu nome
em voz alta.



21 Abril 2012.

quinta-feira, abril 19, 2012

[acendiam o lume]

As mulheres
fechavam as portas e as janelas
acendiam o lume
e ficavam
à lareira
a fazer
as camisolas
do inverno.
E era ainda
o verão.

terça-feira, abril 17, 2012

[Em todos os poemas há/ a casa]

Em todos os poemas há
a casa. Para que tudo possa começar
onde deve começar. No pátio
e na escaleira da entrada. Na porta
pintada de verde com o forro de zinco. Nos retratos
a sépia pendurados nas paredes
da sala. Na pedra da lareira. Nos corredores
a dar para a sombra dos quartos. Na varanda.
O mundo é uma repetida enunciação.

Depois vem a luz do verão. A luz intensa
que em vez das palavras
desloca os objectos. Uma travessa
de cerâmica. Um pote de ferro. O assador
das castanhas. A luz que fica agarrada aos vidros
das janelas. A luz que espalha nas traves do soalho
os losangos de haver muitas
afastadas vozes misturadas
às folhas dos álamos jovens.

E o inverno. Para que a tempestade
traga de longe o rumor do vento nos arames
das vinhas. Para que uma sombra possa repetir
todas as sombras
que o labirinto da idade abateu
sobre os corações desabitados.

Em todos os poemas há
a casa. Porque a casa é também o lugar
das viagens. Numa manhã dos meses de junho
alguém fala do tempo antigo das mulheres do rio
de janeiro como se a sede
pudesse matar-se com a água do cântaro
arrumado ao lado do escano.

Uma fotografia guardada num álbum
de fotografias. Numa das salas da casa.
Numa das gavetas da cómoda
que não sabemos se alguém
haverá de abrir. O poema. A desvalorizada moeda.
Onde havia uma casa
e o verão e o inverno
subiram um dia a escaleira de pedra.

segunda-feira, abril 09, 2012

[klee em 1938]



jcb. acrílico sobre papel de arroz.

quinta-feira, abril 05, 2012

[novembro]




jcb. acrílico sobre papel.

terça-feira, abril 03, 2012

[uma alegoria: paula rego]




jcb. acrílico sobre papel.

[segirei: março de 2012]



jcb. acrílico sobre cartão, 0.65x050 m.

quinta-feira, março 29, 2012

[6.]

EM VEZ DOS BASTIDORES

Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa –
a linha descontínua de estrelas incineradas
com a língua
autóctone
a servir de espelho à água: a libertar-se
da âncora genealógica
pela destruição do livro
dos exemplos. E da meteorologia
o que retinham
era antes dos ciclones
a minúscula nuvem deslaçada do vento: até ao alicerce
e à raiz e à álgebra. E então aprendiam a ler
e a mover no ábaco
as doze contas
errando propositadamente
as sílabas antigas
todas.

quarta-feira, março 28, 2012

[5.]

A LOCOMOÇÃO

Ele dizia «eu movo-me
de ver crescer o trigo
na umbria». Porque há um momento
em que a heresia e a coragem se confundem
e a baixa densidade dos núcleos
remove
por intuição
a desmesura
das memórias
descritivas
dos interesses. Ele desenhava a cidade
a graffiti. Ele fazia as plantas
e os alçados
dos contentores das obras de restauro
e projectava os jardins
nas periferias
contra a cartografia dos planos
recentes. Ele dizia
«eu sou movido pela dissolução da água»
como se a locomoção
fosse uma questão
de regime.

terça-feira, março 27, 2012

[4.]

AS MÃOS

O temor
de que fosse pecado
a exaltação:
isso as levava a afastarem
da boca dos fornos
o ferro
e o alumínio. E recuavam
deixando na pedra
os aventais azuis
para que a massa resplandecesse
na divisória
incandescente
à rarefacção do ar.
E ouvia-se ao
longe o rumor contínuo do tempo. As mãos
a procurar ainda –
a esconder ainda:
o lareiro das fornalhas, a levedação,
os milagres.

quinta-feira, março 22, 2012

[3.]

A LABAREDA AZUL

Em vez do pavio aceso –
trazia à loja os rastilhos de cerâmica. E guardava
a luz irregular
do petróleo
erguendo-a
nos candeeiros de vidro.
Os sacos de sementes e o tendal –
esse pó levantado: a sombra irrespirável
a queimar os pulmões dos fantasmas
debruados a sépia
nas capas
dos livros
das estantes. E a apagar a chama
e a acendê-la de novo.
E vinha então a dissensão
e
espalhava nas divisões da casa
a labareda azul
da resina.

quarta-feira, março 21, 2012

[2.]

A ENERGIA EÓLICA

Para respirar
eu procurava nesse tempo as vagarosas pás
dos aerogeradores.
Corria o agosto
e discutia-se o estilo
nas esplanadas das praças. E alguém dizia «o verso,
a semiótica»
e adormecia
de caírem
com a calma
as aves
nos relvados. Outros
[por exemplo]
defendiam a obscuridade
e usavam a álgebra e logaritmos
e traziam som e estrados portáteis a que se acedia
pela levitação.
Só eu não tinha uma teoria
e preenchia
os impressos das finanças:
corria o agosto e
nesse tempo [lembro-me]
a energia eólica
deduzia-se
dos impostos.

terça-feira, março 20, 2012

[seis poemas para uma obra colectiva. 1.]

OS QUE SE DEDICAM ÀS ARTES CÉNICAS

Agora me lembro –
do fundo das noras erguia-se
a labareda
das rosas
dos quintais.
Aprendera a respirar
abaixo
da linha de água.
Mas não era possível ainda
enlouquecer
pela perseverança
nas artes cénicas. E então as mulheres dos montes
viravam os estrados
para o lado de dentro
dos teatros
como se o luxo
da estreia
fosse quase insuportável
e irradiasse nos espelhos
das cerimónias. Agora me lembro –
do modo como o pêndulo
na imensa manhã desse tempo
oscilava
nos ensaios
e
ia e
vinha.

segunda-feira, março 19, 2012

[eraser, 7]




jcb. tinta plástica sobre tela, 0.80x0.60 m.

sexta-feira, março 09, 2012

[Os Investimentos, 2]

Era o frio
que trazia as rezas e os louvores.
Era quando os fantasmas do esquecimento
atravessavam as divisórias
dos quartos.

A névoa ficava poisada nos campos
e depois deslaçava vagarosamente
para que a neve descesse
das cumeadas
distantes.
Uma imensa navalha de silêncio
cortava os vales
como se fizesse uma incisão
num corpo adormecido
nos arames
das vinhas.

E então rezava-se em voz alta
como se estarmos vivos
dependesse
de nos ouvirmos
uns aos outros. E o eco das orações
atravessava
os campos de pousio.

Havia sempre alguém
que desconhecia
os mitos. Havia sempre alguém
que saía à rua
nestas tardes paradas
como a água
dos aquários
das casas
em ruína.

O cão das múltiplas cabeças
guardava os labirintos
subterrâneos
à entrada
da mina
das nascentes.
Parecia afável.

E havia sempre alguém
que se aproximava
e entrava
sem saber
que nunca se regressa
dos lugares
ausentes.

quinta-feira, março 08, 2012

[Os Investimentos, 1]

Não éramos felizes
se a felicidade é esse reconhecimento de
que chegámos a um lugar ou um estádio
desenhado nos mapas. Não tínhamos projectos
e estávamos além disso.
Só não sabíamos
que tínhamos
tudo.

Nas tardes quentes dos meses de julho
gostávamos de ficar assim
nas esplanadas
ou nas mesas das tabernas das aldeias
a ver apenas o tempo
a envelhecer
enquanto bebíamos cerveja
pelas garrafas. Chegava o inverno
e a nossa idade
era a mesma
em redor das lareiras
acesas.

Há uma fotografia de grupo
em que os nossos rostos parecem
atravessados pela luz improvável
das profecias. Como se não vivêssemos
onde estávamos
ou não fôssemos contemporâneos
do tempo
que vivíamos.

quarta-feira, março 07, 2012

[eraser, 6]



jcb. acrílico sobre papel, 0.80x0.60 m.

terça-feira, março 06, 2012

[klee em 2012. fragmento]



jcb. acrílico sobre papel.