segunda-feira, janeiro 30, 2012

[gps]

Virei à esquerda como nesse dia
em que fugimos da estrada principal
com a certeza de que era
possível encontrarmo-nos um no outro.
A voz do sistema de navegação
do automóvel insiste
que vire à direita. Comecei por sorrir: o que sabem
as máquinas das coisas da alma?
E afinal o gps apenas estava tão enganado
como eu.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

[talvez o destino resulte do somatório de todos os acasos]



[Agora apenas à espera de editor]

Não li nenhum tratado sobre «Como Escrever um Romance». Mas não deve ser assim que consta: a espaços, aproveitando uma tarde depois da pesca, uma noite no Gardunho, um fim de semana em Vilar, um sábado e outro, uma noite depois do jantar, um domingo nos jardins da Casa de Cacela. Às vezes com intervalos grandes entre uma frase e outra. Às vezes havendo que reler tudo para retomar um fio. Aos poucos. Entre finais de 2009 e finais de 2011. A verdade é que o esboço ficou concluído antes do fim do ano, e que agora (ainda aos bocadinhos) se procede a uma revisão final: suprimir adjectivos e frases inteiras, substituir uma palavra por outra mais corrente, corrigir cronologias desacertadas.

Seja como for: depois de todos estes pequenos e inúmeros espaços e tempos de reclusão é uma sensação agradável ver os esboços transformados num original de duzentas e trinta e sete páginas agora à espera, apenas, de editor.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

[Os remadores de Gustave Caillebotte]



jcb. desenhado na aplicação Adobe Ideas para iPad.

[literatura light]

como é que os autores dos
romances cor de rosa
vestem os filhos se
lhes sai um rapaz?

terça-feira, janeiro 10, 2012

[outra versão]



jcb. desenhado na aplicação Adobe Ideas para iPad.

cinema, 4

na vida real o
actor desculpava-se com frequência
de não ter ainda
decorado
o papel

[a largar os horizontes]

na última aula do curso
deformação profissional
pago pela comunidade europeia e
pelo centro de emprego
a senhora dos andares confessou que
não aprendera a fazer melhor as camas
nem a limpar melhor o pó dos móveis
ou as casas de banho do hotel
mas que sabia agora mais coisas
do mundo e de si própria
e que estranhamente se sentia agora
mais triste e desgraçada e inútil
depois de vinte e dois
anos sucessivos a deambular debalde
e esfregona entre corre dores e eleva dores
entre singles e suites
e que só lhe apetecia chorar

segunda-feira, janeiro 09, 2012

[Uma árvore]

Um dia compreendemos: quando se corta
mais uma árvore da infância
não é o amor às árvores
o que traz ao rosto a lágrima exasperada
das nascentes da água. É só que morremos
repetidamente nesse preciso instante
em que as raízes se erguem no ar
e uma ave regressa ao obscuro refúgio
da floresta das ausências.

[Caderno de Viagem: Anambô e Lagoa Azul]

jcb


domingo, janeiro 08, 2012

[Os canais de rega]

A ecologia é matar o animal
que ronda o pátio e limpar os canais
de rega quando nas terras
de herdeiros se aproxima
o tempo das águas de aviação.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

quarta-feira, janeiro 04, 2012

[um dia de chuva]


jcb. caneta sobre toalha de papel.

[cinema, 3]

Como se fosse um emprego
fechava todos
os bares

[cinema, 2]

Só ficaste nua
quando trocaste a minha
camisola pela tua

[direcções, 2]


jcb. pastel sobre cartão.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

o ano novo

O mais fácil é varrer as ruas depois do alvoroço
limpar o lixo
as malhas de gordura dos mosaicos
recolher os vidros partidos das
garrafas nos passeios
mudar o calendário da parede
é o mais fácil
assim a alma viesse nova com
o ano novo
assim pudéssemos depois da meia noite
poisar as mãos limpas no tabuleiro das mesas
ou escrever um verso
como se essas palavras estivessem
pela primeira vez
a escrever-se
nas páginas
dos livros

quarta-feira, dezembro 28, 2011

[cinema]

*
Não digas nada
que venha
no guião

*
Acredita que a tarde de sol
da cena número doze
ainda hoje me aquece

*
Eu apontava-te a pistola
na esperança de que pudesses
acertar-me

*
Amo-te meu amor
como se fosse verdade
o papel que represento

quarta-feira, dezembro 21, 2011

[o rastilho das legislaturas]

Só um poema de novo interessa neste tempo
de vigilância sucessiva. Um poema
sobre a deflação e o silencioso e rapace
voo da coruja. Sobre a irrealidade
material dos orçamentos. Sobre as técnicas
de diluição do défice nas
folhas remuneratórias das repartições.
É certo que desertaram os arautos

migratórios e se esvaiu assim
a fabulosa retórica de acreditarmos
ser possível de cabeça para
baixo sobreviver sem a protecção
civil nem a ajuda externa no fundo
de um poço com água pela metade
dele. Mas há terreno tanto ainda
para estender de um a outro

lado das praças o fio cinzento
do rastilho das legislaturas.
E por isso aqui se escreve que
chegou depois de tantos anos
o tempo do poema como quando
na tropa os sapadores procuram em pânico
nos livros de instruções o segredo
dos instrumentos de deflagração.

terça-feira, dezembro 20, 2011

[pr: memória das histórias da infância, 2]




jcb. pastel sobre cartão.