segunda-feira, janeiro 09, 2012

[Uma árvore]

Um dia compreendemos: quando se corta
mais uma árvore da infância
não é o amor às árvores
o que traz ao rosto a lágrima exasperada
das nascentes da água. É só que morremos
repetidamente nesse preciso instante
em que as raízes se erguem no ar
e uma ave regressa ao obscuro refúgio
da floresta das ausências.

[Caderno de Viagem: Anambô e Lagoa Azul]

jcb


domingo, janeiro 08, 2012

[Os canais de rega]

A ecologia é matar o animal
que ronda o pátio e limpar os canais
de rega quando nas terras
de herdeiros se aproxima
o tempo das águas de aviação.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

quarta-feira, janeiro 04, 2012

[um dia de chuva]


jcb. caneta sobre toalha de papel.

[cinema, 3]

Como se fosse um emprego
fechava todos
os bares

[cinema, 2]

Só ficaste nua
quando trocaste a minha
camisola pela tua

[direcções, 2]


jcb. pastel sobre cartão.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

o ano novo

O mais fácil é varrer as ruas depois do alvoroço
limpar o lixo
as malhas de gordura dos mosaicos
recolher os vidros partidos das
garrafas nos passeios
mudar o calendário da parede
é o mais fácil
assim a alma viesse nova com
o ano novo
assim pudéssemos depois da meia noite
poisar as mãos limpas no tabuleiro das mesas
ou escrever um verso
como se essas palavras estivessem
pela primeira vez
a escrever-se
nas páginas
dos livros

quarta-feira, dezembro 28, 2011

[cinema]

*
Não digas nada
que venha
no guião

*
Acredita que a tarde de sol
da cena número doze
ainda hoje me aquece

*
Eu apontava-te a pistola
na esperança de que pudesses
acertar-me

*
Amo-te meu amor
como se fosse verdade
o papel que represento

quarta-feira, dezembro 21, 2011

[o rastilho das legislaturas]

Só um poema de novo interessa neste tempo
de vigilância sucessiva. Um poema
sobre a deflação e o silencioso e rapace
voo da coruja. Sobre a irrealidade
material dos orçamentos. Sobre as técnicas
de diluição do défice nas
folhas remuneratórias das repartições.
É certo que desertaram os arautos

migratórios e se esvaiu assim
a fabulosa retórica de acreditarmos
ser possível de cabeça para
baixo sobreviver sem a protecção
civil nem a ajuda externa no fundo
de um poço com água pela metade
dele. Mas há terreno tanto ainda
para estender de um a outro

lado das praças o fio cinzento
do rastilho das legislaturas.
E por isso aqui se escreve que
chegou depois de tantos anos
o tempo do poema como quando
na tropa os sapadores procuram em pânico
nos livros de instruções o segredo
dos instrumentos de deflagração.

terça-feira, dezembro 20, 2011

[pr: memória das histórias da infância, 2]




jcb. pastel sobre cartão.

segunda-feira, dezembro 19, 2011

[pr: memória das histórias da infância, 1]




jcb. pastel sobre cartão.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

[1866-1944]



jcb. pastel sobre cartão.

[em dresden no inverno de 1909]



jcb. pastel sobre cartão.

[direcções]




jcb. pastel sobre cartão.

[PONTO DE SITUAÇÃO]

O folhetim fica de molho... Até ver.

quinta-feira, novembro 17, 2011

12.

Isto já vinha de princípios do ano. Mas as determinações da administração é muito vagarosamente, e não raro de um modo difuso, precedidas em regra de sinais contraditórios, que chegam ao terreno e produzem efeitos concretos. Na praia de Monte Gordo poucos sabiam que o ouro do Brasil abundara e começava a escassear e que o muito que chegara à metrópole havia sido desbaratado em abastança pacóvia, lausperenes e indulgências; poucos sabiam que um poder reformador se preparava para devolver à Fazenda Real o que lhe era de direito e que os diplomas legais se sucediam em favor desse interesse público que em regra é foda ou canelada para os interesses individuais de cujo somatório seria suposto que resultasse; poucos sabiam que D. José, com enfado, nos intervalos do torno, assinava despachos de organização administrativa que começavam a dificultar as folgas aos funcionários dos impostos e, do mesmo passo, impunham ónus crescentes aos armadores de Castela; poucos sabiam que D. Carlos III não se ficara e taxara a valores proibitivos a importação de pescado dos mares portugueses; poucos sabiam que, em resposta, medidas fiscais foram promulgadas de modo a impedir que a sardinha galega fosse vendida no norte do território nacional; poucos sabiam que a diplomacia entrara em guerra, disparando de um e outro lado da fronteira; poucos sabiam que o Marquês de Pombal decidira, como agora em tempos da troika não seria mau decidir-se, transformar a crise em oportunidades: isentou-se de taxas a comercialização interna do pescado algarvio; revitalizou-se a indústria da salicultura, a economia das marismas; e Frei João de Mansilha foi chamado por Sebastião José para que, em segredo, e acenando com privilégios, aliciasse (que é um modo de dizer) a burguesia nortenha para o negócio das pescas do Reino do Algarve: em Monte Gordo podiam eles instalar os seus telheiros e salgas e cada um deles, em nome do interesse público, enriquecer ancorado numa política que os defendia sem pôr em causa o bem comum da pátria.

Poucos, nestas partes afastadas do mundo, sabiam das movimentações diplomáticas, das guerrilhas de secretaria: mas os efeitos, aos poucos, chegavam aos areais da praia: os catalães viam-se obrigados a mudar de rumo; António Martins Mascarenhas ria-se por dentro e achava que verdadeiramente começava a chegar o seu tempo.

Mal sabia ele que este pequeno fio de água se avolumava, crescia em torrente, desaguaria em breve na baía do Monte do Ouro com estrondo e espalhafato.
11.

Faça-se um intervalo (antecipando o que há-de vir) apenas para dizer-se que quase sempre os grandes amores, senão sempre, nascem das coisas mais prosaicas. Uma delas é a circunstância. O corrente, para depois justificarmos um encontro que parecia desenhado nas estrelas, é invocar elementos tão abstractos como o destino: isso que serve para justificar tudo o que acontece e tudo o que não chega a acontecer. Pois que grande habilidade quando Leonardo viu a pele muito branca da filha de António Martins Mascarenhas e o seu perfume se insinuou depois de tanto tempo em que as poucas mulheres que vira era como se não tivessem pele e, oh, sentiu que o punhal da paixão o atravessava. É isto que designamos por destino? Pois que seja: olha a grande habilidade. O certo é que o destino, por interposto Leonardo, há muito que não topava com uma circunstância assim tão propícia ao exercício do seu mister.

quarta-feira, novembro 16, 2011

10.

António Martins Mascarenhas era um dos mais dinâmicos estrategas da guerra diplomática que neste ano do Senhor de 1773 conhecia o auge. Não o movia o interesse público: mas era em nome dele, como é quase sempre, que defendia os seus interesses próprios.

Os interesses não é de costume digladiarem-se em podendo juntar-se. Os armadores catalães, que dominavam a praia com quase noventa das cem artes de xávega que aí concorriam, procuravam chamá-lo à razão: a situação interessava a todos.

Mas António Martins Mascarenhas via longe, que é muitas vezes um modo de vermos curto: e já imaginava, expulsos os catalães aos seus domínios, ser ele a dominar o empório da sardinha. Conspirou. Moveu cordelinhos. Fez aquilo a que hoje chamaríamos lóbi, termo que recentemente deixou de ser pejorativo para ser tão gabado.

António Martins Mascarenhas, vírgula: o nome de Mascarenhas constava de alguns dos relatórios enviados ao Paço. E neste mês de Setembro de 1773, enfim, sorri de ver que o mover das peças no tabuleiro legislativo, muito por sua iniciativa e empenho, começa a levar os espanhóis ao abandono dos areais da baía de Monte Gordo, que alguns designavam já por Monte do Ouro.

A coisa começava a compor-se.