na vida real o
actor desculpava-se com frequência
de não ter ainda
decorado
o papel
terça-feira, janeiro 10, 2012
[a largar os horizontes]
na última aula do curso
deformação profissional
pago pela comunidade europeia e
pelo centro de emprego
a senhora dos andares confessou que
não aprendera a fazer melhor as camas
nem a limpar melhor o pó dos móveis
ou as casas de banho do hotel
mas que sabia agora mais coisas
do mundo e de si própria
e que estranhamente se sentia agora
mais triste e desgraçada e inútil
depois de vinte e dois
anos sucessivos a deambular debalde
e esfregona entre corre dores e eleva dores
entre singles e suites
e que só lhe apetecia chorar
deformação profissional
pago pela comunidade europeia e
pelo centro de emprego
a senhora dos andares confessou que
não aprendera a fazer melhor as camas
nem a limpar melhor o pó dos móveis
ou as casas de banho do hotel
mas que sabia agora mais coisas
do mundo e de si própria
e que estranhamente se sentia agora
mais triste e desgraçada e inútil
depois de vinte e dois
anos sucessivos a deambular debalde
e esfregona entre corre dores e eleva dores
entre singles e suites
e que só lhe apetecia chorar
segunda-feira, janeiro 09, 2012
[Uma árvore]
Um dia compreendemos: quando se corta
mais uma árvore da infância
não é o amor às árvores
o que traz ao rosto a lágrima exasperada
das nascentes da água. É só que morremos
repetidamente nesse preciso instante
em que as raízes se erguem no ar
e uma ave regressa ao obscuro refúgio
da floresta das ausências.
mais uma árvore da infância
não é o amor às árvores
o que traz ao rosto a lágrima exasperada
das nascentes da água. É só que morremos
repetidamente nesse preciso instante
em que as raízes se erguem no ar
e uma ave regressa ao obscuro refúgio
da floresta das ausências.
domingo, janeiro 08, 2012
[Os canais de rega]
A ecologia é matar o animal
que ronda o pátio e limpar os canais
de rega quando nas terras
de herdeiros se aproxima
o tempo das águas de aviação.
que ronda o pátio e limpar os canais
de rega quando nas terras
de herdeiros se aproxima
o tempo das águas de aviação.
sexta-feira, janeiro 06, 2012
quarta-feira, janeiro 04, 2012
segunda-feira, janeiro 02, 2012
o ano novo
O mais fácil é varrer as ruas depois do alvoroço
limpar o lixo
as malhas de gordura dos mosaicos
recolher os vidros partidos das
garrafas nos passeios
mudar o calendário da parede
é o mais fácil
assim a alma viesse nova com
o ano novo
assim pudéssemos depois da meia noite
poisar as mãos limpas no tabuleiro das mesas
ou escrever um verso
como se essas palavras estivessem
pela primeira vez
a escrever-se
nas páginas
dos livros
limpar o lixo
as malhas de gordura dos mosaicos
recolher os vidros partidos das
garrafas nos passeios
mudar o calendário da parede
é o mais fácil
assim a alma viesse nova com
o ano novo
assim pudéssemos depois da meia noite
poisar as mãos limpas no tabuleiro das mesas
ou escrever um verso
como se essas palavras estivessem
pela primeira vez
a escrever-se
nas páginas
dos livros
quarta-feira, dezembro 28, 2011
quarta-feira, dezembro 21, 2011
[o rastilho das legislaturas]
Só um poema de novo interessa neste tempo
de vigilância sucessiva. Um poema
sobre a deflação e o silencioso e rapace
voo da coruja. Sobre a irrealidade
material dos orçamentos. Sobre as técnicas
de diluição do défice nas
folhas remuneratórias das repartições.
É certo que desertaram os arautos
migratórios e se esvaiu assim
a fabulosa retórica de acreditarmos
ser possível de cabeça para
baixo sobreviver sem a protecção
civil nem a ajuda externa no fundo
de um poço com água pela metade
dele. Mas há terreno tanto ainda
para estender de um a outro
lado das praças o fio cinzento
do rastilho das legislaturas.
E por isso aqui se escreve que
chegou depois de tantos anos
o tempo do poema como quando
na tropa os sapadores procuram em pânico
nos livros de instruções o segredo
dos instrumentos de deflagração.
de vigilância sucessiva. Um poema
sobre a deflação e o silencioso e rapace
voo da coruja. Sobre a irrealidade
material dos orçamentos. Sobre as técnicas
de diluição do défice nas
folhas remuneratórias das repartições.
É certo que desertaram os arautos
migratórios e se esvaiu assim
a fabulosa retórica de acreditarmos
ser possível de cabeça para
baixo sobreviver sem a protecção
civil nem a ajuda externa no fundo
de um poço com água pela metade
dele. Mas há terreno tanto ainda
para estender de um a outro
lado das praças o fio cinzento
do rastilho das legislaturas.
E por isso aqui se escreve que
chegou depois de tantos anos
o tempo do poema como quando
na tropa os sapadores procuram em pânico
nos livros de instruções o segredo
dos instrumentos de deflagração.
terça-feira, dezembro 20, 2011
segunda-feira, dezembro 19, 2011
quinta-feira, dezembro 15, 2011
quinta-feira, novembro 17, 2011
12.
Isto já vinha de princípios do ano. Mas as determinações da administração é muito vagarosamente, e não raro de um modo difuso, precedidas em regra de sinais contraditórios, que chegam ao terreno e produzem efeitos concretos. Na praia de Monte Gordo poucos sabiam que o ouro do Brasil abundara e começava a escassear e que o muito que chegara à metrópole havia sido desbaratado em abastança pacóvia, lausperenes e indulgências; poucos sabiam que um poder reformador se preparava para devolver à Fazenda Real o que lhe era de direito e que os diplomas legais se sucediam em favor desse interesse público que em regra é foda ou canelada para os interesses individuais de cujo somatório seria suposto que resultasse; poucos sabiam que D. José, com enfado, nos intervalos do torno, assinava despachos de organização administrativa que começavam a dificultar as folgas aos funcionários dos impostos e, do mesmo passo, impunham ónus crescentes aos armadores de Castela; poucos sabiam que D. Carlos III não se ficara e taxara a valores proibitivos a importação de pescado dos mares portugueses; poucos sabiam que, em resposta, medidas fiscais foram promulgadas de modo a impedir que a sardinha galega fosse vendida no norte do território nacional; poucos sabiam que a diplomacia entrara em guerra, disparando de um e outro lado da fronteira; poucos sabiam que o Marquês de Pombal decidira, como agora em tempos da troika não seria mau decidir-se, transformar a crise em oportunidades: isentou-se de taxas a comercialização interna do pescado algarvio; revitalizou-se a indústria da salicultura, a economia das marismas; e Frei João de Mansilha foi chamado por Sebastião José para que, em segredo, e acenando com privilégios, aliciasse (que é um modo de dizer) a burguesia nortenha para o negócio das pescas do Reino do Algarve: em Monte Gordo podiam eles instalar os seus telheiros e salgas e cada um deles, em nome do interesse público, enriquecer ancorado numa política que os defendia sem pôr em causa o bem comum da pátria.
Poucos, nestas partes afastadas do mundo, sabiam das movimentações diplomáticas, das guerrilhas de secretaria: mas os efeitos, aos poucos, chegavam aos areais da praia: os catalães viam-se obrigados a mudar de rumo; António Martins Mascarenhas ria-se por dentro e achava que verdadeiramente começava a chegar o seu tempo.
Mal sabia ele que este pequeno fio de água se avolumava, crescia em torrente, desaguaria em breve na baía do Monte do Ouro com estrondo e espalhafato.
Isto já vinha de princípios do ano. Mas as determinações da administração é muito vagarosamente, e não raro de um modo difuso, precedidas em regra de sinais contraditórios, que chegam ao terreno e produzem efeitos concretos. Na praia de Monte Gordo poucos sabiam que o ouro do Brasil abundara e começava a escassear e que o muito que chegara à metrópole havia sido desbaratado em abastança pacóvia, lausperenes e indulgências; poucos sabiam que um poder reformador se preparava para devolver à Fazenda Real o que lhe era de direito e que os diplomas legais se sucediam em favor desse interesse público que em regra é foda ou canelada para os interesses individuais de cujo somatório seria suposto que resultasse; poucos sabiam que D. José, com enfado, nos intervalos do torno, assinava despachos de organização administrativa que começavam a dificultar as folgas aos funcionários dos impostos e, do mesmo passo, impunham ónus crescentes aos armadores de Castela; poucos sabiam que D. Carlos III não se ficara e taxara a valores proibitivos a importação de pescado dos mares portugueses; poucos sabiam que, em resposta, medidas fiscais foram promulgadas de modo a impedir que a sardinha galega fosse vendida no norte do território nacional; poucos sabiam que a diplomacia entrara em guerra, disparando de um e outro lado da fronteira; poucos sabiam que o Marquês de Pombal decidira, como agora em tempos da troika não seria mau decidir-se, transformar a crise em oportunidades: isentou-se de taxas a comercialização interna do pescado algarvio; revitalizou-se a indústria da salicultura, a economia das marismas; e Frei João de Mansilha foi chamado por Sebastião José para que, em segredo, e acenando com privilégios, aliciasse (que é um modo de dizer) a burguesia nortenha para o negócio das pescas do Reino do Algarve: em Monte Gordo podiam eles instalar os seus telheiros e salgas e cada um deles, em nome do interesse público, enriquecer ancorado numa política que os defendia sem pôr em causa o bem comum da pátria.
Poucos, nestas partes afastadas do mundo, sabiam das movimentações diplomáticas, das guerrilhas de secretaria: mas os efeitos, aos poucos, chegavam aos areais da praia: os catalães viam-se obrigados a mudar de rumo; António Martins Mascarenhas ria-se por dentro e achava que verdadeiramente começava a chegar o seu tempo.
Mal sabia ele que este pequeno fio de água se avolumava, crescia em torrente, desaguaria em breve na baía do Monte do Ouro com estrondo e espalhafato.
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