segunda-feira, outubro 31, 2011

Capítulo I

[Marco Polo]

«As Cidades Invisíveis» são uma metáfora do sonho das cidades. Não apenas das cidades longínquas que nunca visitámos, ou já derruídas, e que, por isso mesmo, dão espaço à imaginação e à mitificação das praças, das ruas, dos palácios, dos panos de muralha: «As Cidades Invisíveis» são uma metáfora do sonho de todas as cidades. Mas o sonho e as realidades concretas, não raro, misturam-se. Italo Calvino, falando do sonho, escreve sobretudo sobre a realidade que se esconde sempre aos olhos de quem visita as cidades; e que se esconde, mesmo, aos olhos de quem nasceu ou vive numa cidade e que nunca haverá de conhecê-la além da ilusão do olhar mais próximo. Todas as cidades são cidades invisíveis: o que verdadeiramente lhes pertence, o que elas verdadeiramente são, faz parte de um segredo sobre o qual é permitido especular até aproximar a realidade e a invisibilidade dela. O mais certo é que Marco Polo, falando a Kublain Kan sobre cidades imaginárias, não fale senão dos segredos intangíveis de cidades reais, materiais, verdadeiras, concretas.


Uma Arte de Arrastar

(Folhetim)


quinta-feira, agosto 11, 2011

[as Horas]

Não sei neste momento exactamente onde tenho guardado o relógio do meu avô. Procurei nas gavetas não o encontro. E no entanto cheguei a acreditar que o teria sempre momento após momento a meu lado. Comigo. No pulso ou no bolso das calças de guardar a chave de casa ou preso por uma corrente de prata a uma presilha. E no entanto neste momento exactamente não sei onde pára onde terei guardado o relógio do meu avô.

Os homens do campo sempre apreciaram os relógios enquanto objectos num certo sentido redundantes mas simultaneamente mágicos. Por trazerem uma ordem aos desacertos do tempo. Andávamos por exemplo nas encostas da presa do padre pedro a cortar nos salgueiros as varas dos cestos das uvas e o meu avô parava olhava o céu e dizia
já devem ser umas seis da tarde.
E então olhava o relógio e confirmava como se a tarde estivesse certa com a ordem natural das coisas
pois bem me parecia faltam quatro minutos para as seis.

O meu avô ofereceu-me o relógio quando estava a morrer. Procuro nas gavetas e não o encontro. E de súbito é como se mais nenhum relógio do mundo me pudesse devolver
as horas certas.

[a reunião da troika sobre o sector florestal]

jcb







[uma noite nos estradões das florestas]

jcb

terça-feira, agosto 02, 2011

[para adquirir RUMOR]

Relembro: para adquirir um exemplar de RUMOR os interessados enviam um mail para blogcacela@gmail.com indicando endereço postal completo e número de contribuinte (para ser possível a emissão de recibo). Nesse mail indicar-se-á que se procedeu já à transferência bancária (no valor de 11 euros – não é necessário comprovativo) para a seguinte conta (NIB):

0033-0000-00060303349-05.

O livrinho seguirá de imediato por correio normal.

[uma recensão a RUMOR]

[in Expresso, Atual, 30 de Julho de 2011]


Nada justifica que um poeta com provas dadas como José Carlos Barros (n. 1963) continue a publicar apenas em edições de autor ou à conta de prémios regionais. Mas o novo livro, «Rumor», é uma vez mais uma edição quase clandestina, com tiragem de cem exemplares e venda individualizada (através de blogcacela@gmail.com). Autor de «Uma Abstracção Inútil» (1991), «Todos os Náufragos» (1994), «Teoria do Esquecimento» (1995), «As Leis do Povoamento» (1996) e «As Moradas Inúteis» (2007), Barros é transmontano, vive no Algarve e mantém o blogue Casa de Cacela (http://casa-de-cacela.blogspot.com), onde apareceram originalmente vários destes poemas. A memória e a simplicidade são elementos centrais, embora coexistam com apontamentos políticos cáusticos. Os poemas, discretos e cuidadosos, estão cheios de vislumbres da infância, imagens familiares, secretos envios amorosos. O tema dos objectos antigos e dos usos antigos é recorrente, mas não existe nenhuma nostalgia, somente uma sensação de distância, madura e entristecida, face às coisas simples. Referindo-se à pintura rupestre, o autor fala de uma representação do real «contaminada pelo que sabemos». A poesia é a forma decantada dessa representação, feita de figuras enigmáticas e alusões mínimas, uma bacia de plástico com água da chuva, máquinas de luzes, uma torneira, um álamo, símbolos pessoalíssimos de um desejo urgente de pureza. A poesia, escreve Barros, é uma forma de redundância. Mas é também uma forma de evidência: «era no tempo da literatura/ dizíamos ‘a água dos tanques’/ e ficávamos à espera da reverberação dessas cinco sílabas/ ou cortávamos vagarosamente/ um ramo/ da árvore dos significados.»

Pedro Mexia

capa definitiva





segunda-feira, julho 18, 2011

[se o poema]

se o poema pudesse ser um número
ou uma pedra de calcário
se o poema pudesse ser uma arte produtiva
se pudesse não
apenas descrever a obscura luz de um poço
mas simultaneamente mover os rolamentos da
máquina hidráulica que
traz o balde de zinco
do mais fundo dos veios da água
se o poema alinhasse um bloco desacertado
e depois outro
erguendo em linhas a direito
os muros das propriedades
se o poema derruísse os taludes instáveis das áreas de risco
se delimitasse os
tão desejados perímetros de segurança
se curasse as doenças de pele
se tivesse os efeitos de um protector de
ecrã total
quando apenas o mundo nos pede a
contínua exposição solar ouvindo o
rumor imperceptível do levante
se o poema fosse uma farmácia ou
uma oficina de bicicletas
se disparasse balas verdadeiras contra os facínoras
e o seu eco nos acompanhasse nas
noites infelizes da insónia revertida dos espelhos onde
nos olhamos no dia vinte e
sete de novembro de todos os anos
se o poema nos acordasse quando os
exércitos precisam de reforços
se um poema ganhasse as eleições intercalares

eu sei
profundamente sei meu amor
que me haverias de enviar um mail
ou um sms
a dizer que desististe
que partiste com as aves da península
para nenhum
lugar
e que gostaste de conhecer-me
e que talvez um dia seja possível encontrarmo-nos de
novo
para mudarmos de sítio
as pétalas
inúteis
das frésias
dos jardins

quarta-feira, julho 13, 2011

Já à venda

O livrinho de poesia já está à venda. Numa tiragem de cem exemplares numerados.

Para adquirir um exemplar de RUMOR, entender-nos-emos no seguinte: os interessados enviam um mail para blogcacela@gmail.com indicando endereço postal completo e número de contribuinte (para ser possível a emissão de recibo). Nesse mail indicar-se-á que se procedeu já à transferência bancária (no valor de 11 euros) para a seguinte conta (NIB):

0033-0000-00060303349-05.

O livrinho seguirá de imediato por correio normal.

quinta-feira, junho 02, 2011

em breve


RUMOR. Poemas. Edição do autor. Tiragem: 100 exemplares numerados. A sair nos primeiros dias de Julho.

terça-feira, maio 17, 2011

[e depois o inverno]

Varas de lódão
pranchas nas cancelas das
hortas esculpidas a navalha
uma cruz desenhada com tinta vermelha
do lado de dentro
do portão das lojas
dos animais

e depois o inverno
o vento a dobrar os troncos dos
álamos brancos
a chuva no cimento dos pátios
o território imenso de um verão
que escreveu a direito nos fios
emaranhados
dos novelos
de ráfia

Era o tempo da infância
corríamos em direcção a
lado nenhum com lanternas acesas
a luz de mercúrio desenhada
no espelho de água
das represas

Habitaremos sempre esse
território devastado pelo granizo e
o lume incombustível

é aí que
ainda hoje nos dói quando
estamos doentes
ou acordamos num largo a meio da noite
e o mundo todo é só o
que vem desenhado
nos mapas
antigos
das províncias

[não era ainda a época dos naufrágios]

Não era ainda a época dos naufrágios
uma hélice triturava a
usura dos ofícios
os espíritos mais puros do meu tempo enriqueceram a
vender caixas de fósforos
um candidato mostrava que
não tinha nada na manga
fabricava permanganato
oferecia petróleo para a luz trémula dos candeeiros
das casas
nos intervalos
da campanha

Uma árvore
ou um rio

tão distante de nós ia ficando o que mais amávamos
lembro-me de conduzirmos os barcos
nos canais de rega
como se fossem as naus
dos descobrimentos

sabíamos o nome
delas todas
acreditávamos
ainda
no azul tingido da nuvem
do futuro

terça-feira, maio 10, 2011

[não devia chegar de noite]

Não devia chegar de noite a estes lugares
onde tudo o que um dia foi
parece emergir do fundo dos poços dos quintais
eco de outras vozes mais antigas
reverberação insidiosa dos segredos
palavras roídas pelo lado de
dentro das próprias frases

Fantasmas vagueiam em
silêncio contra o
fundo indefinido dos pinheiros bravos
o meu avô a colher as maçãs camoesas
e a guardá-las no cesto de vimes entrançadas da
presa das tílias
o táxi do senhor adriano a aproximar-se
vagarosamente da
bomba de gasolina
uma criança
que podia ser eu
a correr de olhos vendados nos
andaimes da obra dos bombeiros
voluntários

A sombra

mancha de óleo nas paredes das casas
cobrindo o alcatrão da estrada do rio

parece encerrar o tempo nas
suas cápsulas
de vidro

E não há um rumor
não há um único movimento
os ponteiros do relógio da torre parados a
meio da noite
entre as quatro
e as cinco horas
da tarde

quinta-feira, maio 05, 2011

[a luz de que fugíamos]

era em vez das constelações
escolhíamos o lugar da sombra
erguíamos uma pedra outra pedra
a água chegava-nos à cintura
nunca um muro juntou tantas coisas de um e outro lado
era como se fosse o contrário de uma fronteira
e fizéssemos contrabando de açúcar nas manhãs muito frias
de novembro
quando os guardas-fiscais ficam até tarde no posto
em redor do lume
e o amor acorda a meio da noite

era no tempo em que fugíamos da luz
porque não procurávamos outra coisa
a luz
a luz de que fugíamos ao seu encontro

quarta-feira, maio 04, 2011

[perder a memória]

perder a memória
como quem perde o barco que une as duas margens
dos rios
como quem procura no estrangeiro
a chave de casa
ou adormece na pedra
da lareira
com o rosto encostado
ao efémero tempo dos incêndios

chove de novo
desenhas nas partes em branco dos
mapas dos naufrágios
um território
que não existe

domingo, maio 01, 2011

[memória de tetuan]

jcb




[memória de chaouen]

jcb




segunda-feira, abril 25, 2011

domingo, abril 24, 2011