Não sei neste momento exactamente onde tenho guardado o relógio do meu avô. Procurei nas gavetas não o encontro. E no entanto cheguei a acreditar que o teria sempre momento após momento a meu lado. Comigo. No pulso ou no bolso das calças de guardar a chave de casa ou preso por uma corrente de prata a uma presilha. E no entanto neste momento exactamente não sei onde pára onde terei guardado o relógio do meu avô.
Os homens do campo sempre apreciaram os relógios enquanto objectos num certo sentido redundantes mas simultaneamente mágicos. Por trazerem uma ordem aos desacertos do tempo. Andávamos por exemplo nas encostas da presa do padre pedro a cortar nos salgueiros as varas dos cestos das uvas e o meu avô parava olhava o céu e dizia
já devem ser umas seis da tarde.
E então olhava o relógio e confirmava como se a tarde estivesse certa com a ordem natural das coisas
pois bem me parecia faltam quatro minutos para as seis.
O meu avô ofereceu-me o relógio quando estava a morrer. Procuro nas gavetas e não o encontro. E de súbito é como se mais nenhum relógio do mundo me pudesse devolver
as horas certas.
quinta-feira, agosto 11, 2011
terça-feira, agosto 02, 2011
[para adquirir RUMOR]
Relembro: para adquirir um exemplar de RUMOR os interessados enviam um mail para blogcacela@gmail.com indicando endereço postal completo e número de contribuinte (para ser possível a emissão de recibo). Nesse mail indicar-se-á que se procedeu já à transferência bancária (no valor de 11 euros – não é necessário comprovativo) para a seguinte conta (NIB):
0033-0000-00060303349-05.
O livrinho seguirá de imediato por correio normal.
0033-0000-00060303349-05.
O livrinho seguirá de imediato por correio normal.
[uma recensão a RUMOR]
[in Expresso, Atual, 30 de Julho de 2011]
Nada justifica que um poeta com provas dadas como José Carlos Barros (n. 1963) continue a publicar apenas em edições de autor ou à conta de prémios regionais. Mas o novo livro, «Rumor», é uma vez mais uma edição quase clandestina, com tiragem de cem exemplares e venda individualizada (através de blogcacela@gmail.com). Autor de «Uma Abstracção Inútil» (1991), «Todos os Náufragos» (1994), «Teoria do Esquecimento» (1995), «As Leis do Povoamento» (1996) e «As Moradas Inúteis» (2007), Barros é transmontano, vive no Algarve e mantém o blogue Casa de Cacela (http://casa-de-cacela.blogspot.com), onde apareceram originalmente vários destes poemas. A memória e a simplicidade são elementos centrais, embora coexistam com apontamentos políticos cáusticos. Os poemas, discretos e cuidadosos, estão cheios de vislumbres da infância, imagens familiares, secretos envios amorosos. O tema dos objectos antigos e dos usos antigos é recorrente, mas não existe nenhuma nostalgia, somente uma sensação de distância, madura e entristecida, face às coisas simples. Referindo-se à pintura rupestre, o autor fala de uma representação do real «contaminada pelo que sabemos». A poesia é a forma decantada dessa representação, feita de figuras enigmáticas e alusões mínimas, uma bacia de plástico com água da chuva, máquinas de luzes, uma torneira, um álamo, símbolos pessoalíssimos de um desejo urgente de pureza. A poesia, escreve Barros, é uma forma de redundância. Mas é também uma forma de evidência: «era no tempo da literatura/ dizíamos ‘a água dos tanques’/ e ficávamos à espera da reverberação dessas cinco sílabas/ ou cortávamos vagarosamente/ um ramo/ da árvore dos significados.»
Pedro Mexia
Nada justifica que um poeta com provas dadas como José Carlos Barros (n. 1963) continue a publicar apenas em edições de autor ou à conta de prémios regionais. Mas o novo livro, «Rumor», é uma vez mais uma edição quase clandestina, com tiragem de cem exemplares e venda individualizada (através de blogcacela@gmail.com). Autor de «Uma Abstracção Inútil» (1991), «Todos os Náufragos» (1994), «Teoria do Esquecimento» (1995), «As Leis do Povoamento» (1996) e «As Moradas Inúteis» (2007), Barros é transmontano, vive no Algarve e mantém o blogue Casa de Cacela (http://casa-de-cacela.blogspot.com), onde apareceram originalmente vários destes poemas. A memória e a simplicidade são elementos centrais, embora coexistam com apontamentos políticos cáusticos. Os poemas, discretos e cuidadosos, estão cheios de vislumbres da infância, imagens familiares, secretos envios amorosos. O tema dos objectos antigos e dos usos antigos é recorrente, mas não existe nenhuma nostalgia, somente uma sensação de distância, madura e entristecida, face às coisas simples. Referindo-se à pintura rupestre, o autor fala de uma representação do real «contaminada pelo que sabemos». A poesia é a forma decantada dessa representação, feita de figuras enigmáticas e alusões mínimas, uma bacia de plástico com água da chuva, máquinas de luzes, uma torneira, um álamo, símbolos pessoalíssimos de um desejo urgente de pureza. A poesia, escreve Barros, é uma forma de redundância. Mas é também uma forma de evidência: «era no tempo da literatura/ dizíamos ‘a água dos tanques’/ e ficávamos à espera da reverberação dessas cinco sílabas/ ou cortávamos vagarosamente/ um ramo/ da árvore dos significados.»
Pedro Mexia
segunda-feira, julho 18, 2011
[se o poema]
se o poema pudesse ser um número
ou uma pedra de calcário
se o poema pudesse ser uma arte produtiva
se pudesse não
apenas descrever a obscura luz de um poço
mas simultaneamente mover os rolamentos da
máquina hidráulica que
traz o balde de zinco
do mais fundo dos veios da água
se o poema alinhasse um bloco desacertado
e depois outro
erguendo em linhas a direito
os muros das propriedades
se o poema derruísse os taludes instáveis das áreas de risco
se delimitasse os
tão desejados perímetros de segurança
se curasse as doenças de pele
se tivesse os efeitos de um protector de
ecrã total
quando apenas o mundo nos pede a
contínua exposição solar ouvindo o
rumor imperceptível do levante
se o poema fosse uma farmácia ou
uma oficina de bicicletas
se disparasse balas verdadeiras contra os facínoras
e o seu eco nos acompanhasse nas
noites infelizes da insónia revertida dos espelhos onde
nos olhamos no dia vinte e
sete de novembro de todos os anos
se o poema nos acordasse quando os
exércitos precisam de reforços
se um poema ganhasse as eleições intercalares
eu sei
profundamente sei meu amor
que me haverias de enviar um mail
ou um sms
a dizer que desististe
que partiste com as aves da península
para nenhum
lugar
e que gostaste de conhecer-me
e que talvez um dia seja possível encontrarmo-nos de
novo
para mudarmos de sítio
as pétalas
inúteis
das frésias
dos jardins
ou uma pedra de calcário
se o poema pudesse ser uma arte produtiva
se pudesse não
apenas descrever a obscura luz de um poço
mas simultaneamente mover os rolamentos da
máquina hidráulica que
traz o balde de zinco
do mais fundo dos veios da água
se o poema alinhasse um bloco desacertado
e depois outro
erguendo em linhas a direito
os muros das propriedades
se o poema derruísse os taludes instáveis das áreas de risco
se delimitasse os
tão desejados perímetros de segurança
se curasse as doenças de pele
se tivesse os efeitos de um protector de
ecrã total
quando apenas o mundo nos pede a
contínua exposição solar ouvindo o
rumor imperceptível do levante
se o poema fosse uma farmácia ou
uma oficina de bicicletas
se disparasse balas verdadeiras contra os facínoras
e o seu eco nos acompanhasse nas
noites infelizes da insónia revertida dos espelhos onde
nos olhamos no dia vinte e
sete de novembro de todos os anos
se o poema nos acordasse quando os
exércitos precisam de reforços
se um poema ganhasse as eleições intercalares
eu sei
profundamente sei meu amor
que me haverias de enviar um mail
ou um sms
a dizer que desististe
que partiste com as aves da península
para nenhum
lugar
e que gostaste de conhecer-me
e que talvez um dia seja possível encontrarmo-nos de
novo
para mudarmos de sítio
as pétalas
inúteis
das frésias
dos jardins
quarta-feira, julho 13, 2011
Já à venda
O livrinho de poesia já está à venda. Numa tiragem de cem exemplares numerados.
Para adquirir um exemplar de RUMOR, entender-nos-emos no seguinte: os interessados enviam um mail para blogcacela@gmail.com indicando endereço postal completo e número de contribuinte (para ser possível a emissão de recibo). Nesse mail indicar-se-á que se procedeu já à transferência bancária (no valor de 11 euros) para a seguinte conta (NIB):
0033-0000-00060303349-05.
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quinta-feira, junho 02, 2011
terça-feira, maio 17, 2011
[e depois o inverno]
Varas de lódão
pranchas nas cancelas das
hortas esculpidas a navalha
uma cruz desenhada com tinta vermelha
do lado de dentro
do portão das lojas
dos animais
e depois o inverno
o vento a dobrar os troncos dos
álamos brancos
a chuva no cimento dos pátios
o território imenso de um verão
que escreveu a direito nos fios
emaranhados
dos novelos
de ráfia
Era o tempo da infância
corríamos em direcção a
lado nenhum com lanternas acesas
a luz de mercúrio desenhada
no espelho de água
das represas
Habitaremos sempre esse
território devastado pelo granizo e
o lume incombustível
é aí que
ainda hoje nos dói quando
estamos doentes
ou acordamos num largo a meio da noite
e o mundo todo é só o
que vem desenhado
nos mapas
antigos
das províncias
pranchas nas cancelas das
hortas esculpidas a navalha
uma cruz desenhada com tinta vermelha
do lado de dentro
do portão das lojas
dos animais
e depois o inverno
o vento a dobrar os troncos dos
álamos brancos
a chuva no cimento dos pátios
o território imenso de um verão
que escreveu a direito nos fios
emaranhados
dos novelos
de ráfia
Era o tempo da infância
corríamos em direcção a
lado nenhum com lanternas acesas
a luz de mercúrio desenhada
no espelho de água
das represas
Habitaremos sempre esse
território devastado pelo granizo e
o lume incombustível
é aí que
ainda hoje nos dói quando
estamos doentes
ou acordamos num largo a meio da noite
e o mundo todo é só o
que vem desenhado
nos mapas
antigos
das províncias
[não era ainda a época dos naufrágios]
Não era ainda a época dos naufrágios
uma hélice triturava a
usura dos ofícios
os espíritos mais puros do meu tempo enriqueceram a
vender caixas de fósforos
um candidato mostrava que
não tinha nada na manga
fabricava permanganato
oferecia petróleo para a luz trémula dos candeeiros
das casas
nos intervalos
da campanha
Uma árvore
ou um rio
tão distante de nós ia ficando o que mais amávamos
lembro-me de conduzirmos os barcos
nos canais de rega
como se fossem as naus
dos descobrimentos
sabíamos o nome
delas todas
acreditávamos
ainda
no azul tingido da nuvem
do futuro
uma hélice triturava a
usura dos ofícios
os espíritos mais puros do meu tempo enriqueceram a
vender caixas de fósforos
um candidato mostrava que
não tinha nada na manga
fabricava permanganato
oferecia petróleo para a luz trémula dos candeeiros
das casas
nos intervalos
da campanha
Uma árvore
ou um rio
tão distante de nós ia ficando o que mais amávamos
lembro-me de conduzirmos os barcos
nos canais de rega
como se fossem as naus
dos descobrimentos
sabíamos o nome
delas todas
acreditávamos
ainda
no azul tingido da nuvem
do futuro
terça-feira, maio 10, 2011
[não devia chegar de noite]
Não devia chegar de noite a estes lugares
onde tudo o que um dia foi
parece emergir do fundo dos poços dos quintais
eco de outras vozes mais antigas
reverberação insidiosa dos segredos
palavras roídas pelo lado de
dentro das próprias frases
Fantasmas vagueiam em
silêncio contra o
fundo indefinido dos pinheiros bravos
o meu avô a colher as maçãs camoesas
e a guardá-las no cesto de vimes entrançadas da
presa das tílias
o táxi do senhor adriano a aproximar-se
vagarosamente da
bomba de gasolina
uma criança
que podia ser eu
a correr de olhos vendados nos
andaimes da obra dos bombeiros
voluntários
A sombra
mancha de óleo nas paredes das casas
cobrindo o alcatrão da estrada do rio
parece encerrar o tempo nas
suas cápsulas
de vidro
E não há um rumor
não há um único movimento
os ponteiros do relógio da torre parados a
meio da noite
entre as quatro
e as cinco horas
da tarde
onde tudo o que um dia foi
parece emergir do fundo dos poços dos quintais
eco de outras vozes mais antigas
reverberação insidiosa dos segredos
palavras roídas pelo lado de
dentro das próprias frases
Fantasmas vagueiam em
silêncio contra o
fundo indefinido dos pinheiros bravos
o meu avô a colher as maçãs camoesas
e a guardá-las no cesto de vimes entrançadas da
presa das tílias
o táxi do senhor adriano a aproximar-se
vagarosamente da
bomba de gasolina
uma criança
que podia ser eu
a correr de olhos vendados nos
andaimes da obra dos bombeiros
voluntários
A sombra
mancha de óleo nas paredes das casas
cobrindo o alcatrão da estrada do rio
parece encerrar o tempo nas
suas cápsulas
de vidro
E não há um rumor
não há um único movimento
os ponteiros do relógio da torre parados a
meio da noite
entre as quatro
e as cinco horas
da tarde
quinta-feira, maio 05, 2011
[a luz de que fugíamos]
era em vez das constelações
escolhíamos o lugar da sombra
erguíamos uma pedra outra pedra
a água chegava-nos à cintura
nunca um muro juntou tantas coisas de um e outro lado
era como se fosse o contrário de uma fronteira
e fizéssemos contrabando de açúcar nas manhãs muito frias
de novembro
quando os guardas-fiscais ficam até tarde no posto
em redor do lume
e o amor acorda a meio da noite
era no tempo em que fugíamos da luz
porque não procurávamos outra coisa
a luz
a luz de que fugíamos ao seu encontro
escolhíamos o lugar da sombra
erguíamos uma pedra outra pedra
a água chegava-nos à cintura
nunca um muro juntou tantas coisas de um e outro lado
era como se fosse o contrário de uma fronteira
e fizéssemos contrabando de açúcar nas manhãs muito frias
de novembro
quando os guardas-fiscais ficam até tarde no posto
em redor do lume
e o amor acorda a meio da noite
era no tempo em que fugíamos da luz
porque não procurávamos outra coisa
a luz
a luz de que fugíamos ao seu encontro
quarta-feira, maio 04, 2011
[perder a memória]
perder a memória
como quem perde o barco que une as duas margens
dos rios
como quem procura no estrangeiro
a chave de casa
ou adormece na pedra
da lareira
com o rosto encostado
ao efémero tempo dos incêndios
chove de novo
desenhas nas partes em branco dos
mapas dos naufrágios
um território
que não existe
como quem perde o barco que une as duas margens
dos rios
como quem procura no estrangeiro
a chave de casa
ou adormece na pedra
da lareira
com o rosto encostado
ao efémero tempo dos incêndios
chove de novo
desenhas nas partes em branco dos
mapas dos naufrágios
um território
que não existe
domingo, maio 01, 2011
segunda-feira, abril 25, 2011
domingo, abril 24, 2011
domingo, abril 10, 2011
[o espectáculo e os bens comuns]
era no tempo em que
o espectáculo e os bens comuns
se misturavam numa rede feita do novelo dos interesses
era no tempo em que
a propaganda e a encenação
traziam os estrados e os palcos decorados para
as praças
e os largos
era no tempo da cenografia
uma ave saía das mãos abertas do
mestre de cerimónias
num exercício de prestidigitação antigo
a música incitava à ênfase
as pessoas olhavam
deslumbradas
e olhavam de novo
e de cada vez que olhavam era
como se o verniz dos púlpitos
fosse estalando
até se ver o tabopan e a fórmica
de que
na realidade
eram feitos
o espectáculo e os bens comuns
se misturavam numa rede feita do novelo dos interesses
era no tempo em que
a propaganda e a encenação
traziam os estrados e os palcos decorados para
as praças
e os largos
era no tempo da cenografia
uma ave saía das mãos abertas do
mestre de cerimónias
num exercício de prestidigitação antigo
a música incitava à ênfase
as pessoas olhavam
deslumbradas
e olhavam de novo
e de cada vez que olhavam era
como se o verniz dos púlpitos
fosse estalando
até se ver o tabopan e a fórmica
de que
na realidade
eram feitos
sábado, abril 09, 2011
[pareces-me um gajo porreiro]
A nossa história, feita de cruzamentos e desencontros, começou na sala dezanove do Liceu. Na primeira aula do primeiro trimestre. Penso que éramos as únicas novidades numa turma onde toda a gente se conhecia dos anos anteriores. Ela vinha de uma escola nãoseidonde, eu vinha do ciclo de Vidago. E quis o destino que ficássemos juntos, a partilhar a mesma mesa com tampo de fórmica de um amarelo debotado. Meti conversa no intervalo grande da manhã. Sentados no parapeito da janela em frente à sala de aula. Eu com aquele ar de aprendiz de artista de cinema a dizer-lhe como a achava fabulosa e a perguntar-lhe o nome. «O meu nome foi dito na chamada. Se o não recordas é porque não te interesso.»
Acabara de cumprir dezassete anos e o meu insucesso com as mulheres era de uma evidência que cheguei a temer que estivesse inscrito na testa, ou nas faces, em letra de imprensa. Mas andava nos treinos, começava a esboçar umas tácticas. Não estava era preparado para lances tão decisivos e dramáticos, para cortes tão radicais. Atrevi-me, ainda assim, como naqueles momentos em que acreditamos que é tudo ou nada. E disse-lhe: «Claro que me interesso. Nunca vi uma rapariga tão bonita na minha vida.» Ela ficou em silêncio. Sorriu apenas. Como se sorrisse para dentro dela. E entrámos, ao toque, para a aula de Ciências Físico-Químicas.
Só ao chegar a casa, já noite, já depois de apanhar a camioneta da carreira no Jardim do Bacalhau, já depois de passar Curalha e Casas Novas, já quando bebia uma imperial no Jeremias com o Zé Manel, encontrei o bilhete no bolso do casaco. Só podia ser dela. Só mo podia ter deixado durante as aulas. Dizia apenas: «Amanhã 17 horas Adega Eiffel.»
O dia seguinte passou a correr. Às cinco em ponto entrei na Adega do Faustino. A pista parecera-me fácil: havia a conhecida história que atribuía a Eiffel, ou à sua escola, o projecto do Faustino. Ou, pelo menos, da deliciosa estrutura do tecto, desenhado numa teia elegante de ferro e madeira. E, de facto, ela lá estava, com a Teresa, ao fundo, num entusiasmo ruidoso que só não era superior à inépcia demonstrada no lançamento das pequenas malhas do jogo do sapo. O orgulho, no entanto, deixou-me ao balcão, apenas lhes acenei num cumprimento vago, pedi um branco traçado. Tinha a certeza de que ela não tardaria a aproximar-se, a desnovelar conversa, a retomar o fio do mistério que começava a alvoroçar-me. Mas não. Passaram-se uns cinco minutos, uns dez minutos quando muito, e já elas saíam, rindo, cúmplices, quase sem se dignarem olhar-me. Eu não contive um «filha da puta» em voz alta. Mas elas já não podiam ouvir-me. E os meus parceiros de balcão não esboçaram um gesto que demonstrasse terem achado desusada a terminologia. Pedi a conta. E, com os trocos, recebi um envelope. «Pediram-mo que lho entregasse.» A caligrafia era a mesma do bilhetinho inicial: «Para o José Carlos.» E, no interior, um novo recado em papel-manteiga fez-me regressar o sobressalto: «Mereces-me se adivinhares o nome da minha mãe. Tem doze letras. ‘Anagrama’ é a palavra-chave. Disporás de sete pistas. Talvez descubras antes da última. Não fales comigo até me dizeres as duas palavras desse nome próprio com doze letras.»
E foi assim. Durante quase dois meses, a intervalos irregulares, recebi sete mensagens nas situações mais inverosímeis: duas chegaram-me por correio normal; uma foi-me entregue num pavilhão do Tabolado, na feira dos Santos, por uma moça que fazia os trocos das fichas dos matraquilhos; uma outra deu-ma a Adelaide do Jeremias com a explicação de que a tinha deixado ao meu cuidado o viajante dos finos; e as restantes foram-me aparecendo na mochila de ginástica e nos bolsos dos casacos. Da sétima mensagem dei-me conta já em casa, ao deitar-me, no último dia de aulas antes das férias do Natal.
Tinha, portanto, sete pistas para decifrar um enigma. Os recuos iam sendo mais que os progressos; mas o desânimo não chegou nunca a ultrapassar os repetidos momentos de júbilo sempre que avançava na desmontagem das cifras.
A primeira pista remetia de forma óbvia para um topónimo: «As árvores das amoras são um dos lugares»: Amoreiras, claro. A segunda também não foi difícil de resolver: «Um SEREME invertido no concelho de Valpaços» invocava, naturalmente, a igreja de Santa Maria de Émeres (eu lia umas merdas). «Os cachorros de Leocádia» permaneceu durante muito tempo imune à decifração. «Um campanário no Calvo Grande» deu alguma luta; mas, com a ajuda do meu amigo Luís Moura, cada vez mais entusiasmado com os enigmas e seduzido pelo mistério em que eu o tornara cúmplice, cheguei a outro topónimo: Calvão. Havia mais uma pista fácil: «Com mais um S era um Osso» só podia significar Oso, embora isso não nos dissesse coisa absolutamente nenhuma. E foi ainda o Luís Moura, muito calhado com a história da cidade, que me explicou que «É a igreja que foi do Bispo Idácio» só poderia significar uma referência à Igreja Matriz de Chaves, ou de Santa Maria Maior. «Perdizes de São Miguel», enfim, era pista com que não atinávamos: tempo de colheitas, riqueza cinegética?
Mas na noite de consoada, à mesa cheia de copos do café do Jeremias – com o fogo lá fora a subir as labaredas à altura dos fios dos telefones e a pô-los em risco –, o Luís Moura, às tantas, bateu com violência no tampo da mesa, virou-se para a Adelaide e disse, quase num grito: «Cerveja para todos.» Puxou da folha A4 onde, há vários dias, íamos alinhavando nomes e frases. Eu quase não respirava. Sentia o desassossego de quem se aproxima do único segredo do mundo, da revelação, de um corpo que não tardaria a pertencer-me.
Eis as notas que era possível compor:
1) Amoreiras. 2) Santa Maria de Émeres. 3) Leocádia [igreja de Santa Leocádia? Ver se a igreja tem cachorros ou gárgulas]. 4) Calvão [ver se a igreja de Calvão tem um campanário singular]. 5) Oso [ver…]. 6) Igreja de Santa Maria Maior. 7) Perdizes?/São Miguel?/Vilar de Perdizes/Igreja de São Miguel?
Não queria acreditar. «Meu Deus, parece definir-se um padrão: igrejas.» «Claro», respondeu o Luís Moura, já calmo, um sorriso a rasgar-lhe o rosto. «Maria Mantela. Estas pistas parecem remeter para a lenda de Maria Mantela. É só um momento.» E desapareceu. Uma hora depois lá estávamos, de novo, de roda das pistas e de um artigo do padre Lourenço Fontes. «Não conheces a lenda de Maria Mantela?» Eu que não. E então o Luís explicou-me.
Pelos primeiros anos do século XIV um abastado sujeito da Vila de Chaves, passeando com a esposa, encontrou uma mulher com dois filhos gémeos que lhes pediu esmola. Fernão Gralho, assim ele se chamava, condoeu-se da pobre. Mas Maria Mantela, a esposa, colocou em dúvida a honestidade da mulher, porque nenhuma mulher de um só homem poderia gerar de uma só vez mais que um filho. Acontece que, alguns meses depois, Maria Mantela, na hora do parto, teve, um após outro, sete filhos. Com o marido ausente numa caçada, e aflita lembrando-se do que dissera à pobre mãe de duas crianças gémeas, encarregou a ama de lançar às águas do Tâmega seis dos filhos que acabara de parir. Estava a ama a meio das poldras quando apareceu Fernão Gralho e descobriu o que se passava. Ordenou à ama que regressasse a casa e informasse a senhora do cumprimento das ordens. Fernão pegou nas seis crianças e confiou-as, em diferentes aldeias, a diferentes amas. Dez anos depois solicitou à esposa que preparasse um lauto banquete para festejar o Ano Novo com seus especiais convidados. À mesa, quando Maria Mantela chegou com o banquete, estavam sete jovens todos iguais em feições. «Qual deles é o teu filho?», perguntou Fernão.
«Maria Mantela. As pistas remetem para a lenda de Maria Mantela» – insistia, eufórico, o Luís. «Estas sete crianças tornaram-se padres. E cada uma delas acabaria por fundar uma igreja com a invocação de Santa Maria: Santa Maria de Moreiras, Santa Leocádia, Santa Maria de Calvão, Mosteiro de Oso, Santa Maria Maior, Santa Maria de Émeres, São Miguel de Vilar de Perdizes.»
O resto das férias passou vagarosamente. Desesperadamente devagar. É claro que faltava decifrar o segredo final: o nome da mãe da minha apaixonada. Mas isso parecia agora o mais fácil. Como dizia o bilhete do Faustino, ‘Anagrama’ era a palavra-chave. O segredo final só poderia ser um anagrama de Maria Mantela. Peguei num lápis. Papel. Risquei letras, alinhavei palavras. E depressa cheguei ao único nome possível: doze letras: Mariana Telma…
No intervalo da primeira aula do segundo trimestre, no primeiro intervalo da manhã, puxei a minha apaixonada para um canto. «Decifrei o segredo. A tua mãe chama-se Mariana Telma.»
Ela olhou-me semicerrando os olhos. Como se a tivesse surpreendido. Como se não esperasse a minha capacidade de decifração dos enigmas. E respondeu:
«É verdade. Acertaste. Mas vens tarde. Fernão Gralho escondeu o segredo durante dez anos. Tu demoraste vinte dias a descobri-lo. É um avanço. Mas há uma semana que o teu amigo Luís Moura me revelou a resposta. Acertou primeiro. Temos estado juntos. Passámos juntos o fim de ano. Somos namorados. Talvez me venha a arrepender, não digo que não: tu pareces-me um gajo porreiro.»
publicado originalmente aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/
Acabara de cumprir dezassete anos e o meu insucesso com as mulheres era de uma evidência que cheguei a temer que estivesse inscrito na testa, ou nas faces, em letra de imprensa. Mas andava nos treinos, começava a esboçar umas tácticas. Não estava era preparado para lances tão decisivos e dramáticos, para cortes tão radicais. Atrevi-me, ainda assim, como naqueles momentos em que acreditamos que é tudo ou nada. E disse-lhe: «Claro que me interesso. Nunca vi uma rapariga tão bonita na minha vida.» Ela ficou em silêncio. Sorriu apenas. Como se sorrisse para dentro dela. E entrámos, ao toque, para a aula de Ciências Físico-Químicas.
Só ao chegar a casa, já noite, já depois de apanhar a camioneta da carreira no Jardim do Bacalhau, já depois de passar Curalha e Casas Novas, já quando bebia uma imperial no Jeremias com o Zé Manel, encontrei o bilhete no bolso do casaco. Só podia ser dela. Só mo podia ter deixado durante as aulas. Dizia apenas: «Amanhã 17 horas Adega Eiffel.»
O dia seguinte passou a correr. Às cinco em ponto entrei na Adega do Faustino. A pista parecera-me fácil: havia a conhecida história que atribuía a Eiffel, ou à sua escola, o projecto do Faustino. Ou, pelo menos, da deliciosa estrutura do tecto, desenhado numa teia elegante de ferro e madeira. E, de facto, ela lá estava, com a Teresa, ao fundo, num entusiasmo ruidoso que só não era superior à inépcia demonstrada no lançamento das pequenas malhas do jogo do sapo. O orgulho, no entanto, deixou-me ao balcão, apenas lhes acenei num cumprimento vago, pedi um branco traçado. Tinha a certeza de que ela não tardaria a aproximar-se, a desnovelar conversa, a retomar o fio do mistério que começava a alvoroçar-me. Mas não. Passaram-se uns cinco minutos, uns dez minutos quando muito, e já elas saíam, rindo, cúmplices, quase sem se dignarem olhar-me. Eu não contive um «filha da puta» em voz alta. Mas elas já não podiam ouvir-me. E os meus parceiros de balcão não esboçaram um gesto que demonstrasse terem achado desusada a terminologia. Pedi a conta. E, com os trocos, recebi um envelope. «Pediram-mo que lho entregasse.» A caligrafia era a mesma do bilhetinho inicial: «Para o José Carlos.» E, no interior, um novo recado em papel-manteiga fez-me regressar o sobressalto: «Mereces-me se adivinhares o nome da minha mãe. Tem doze letras. ‘Anagrama’ é a palavra-chave. Disporás de sete pistas. Talvez descubras antes da última. Não fales comigo até me dizeres as duas palavras desse nome próprio com doze letras.»
E foi assim. Durante quase dois meses, a intervalos irregulares, recebi sete mensagens nas situações mais inverosímeis: duas chegaram-me por correio normal; uma foi-me entregue num pavilhão do Tabolado, na feira dos Santos, por uma moça que fazia os trocos das fichas dos matraquilhos; uma outra deu-ma a Adelaide do Jeremias com a explicação de que a tinha deixado ao meu cuidado o viajante dos finos; e as restantes foram-me aparecendo na mochila de ginástica e nos bolsos dos casacos. Da sétima mensagem dei-me conta já em casa, ao deitar-me, no último dia de aulas antes das férias do Natal.
Tinha, portanto, sete pistas para decifrar um enigma. Os recuos iam sendo mais que os progressos; mas o desânimo não chegou nunca a ultrapassar os repetidos momentos de júbilo sempre que avançava na desmontagem das cifras.
A primeira pista remetia de forma óbvia para um topónimo: «As árvores das amoras são um dos lugares»: Amoreiras, claro. A segunda também não foi difícil de resolver: «Um SEREME invertido no concelho de Valpaços» invocava, naturalmente, a igreja de Santa Maria de Émeres (eu lia umas merdas). «Os cachorros de Leocádia» permaneceu durante muito tempo imune à decifração. «Um campanário no Calvo Grande» deu alguma luta; mas, com a ajuda do meu amigo Luís Moura, cada vez mais entusiasmado com os enigmas e seduzido pelo mistério em que eu o tornara cúmplice, cheguei a outro topónimo: Calvão. Havia mais uma pista fácil: «Com mais um S era um Osso» só podia significar Oso, embora isso não nos dissesse coisa absolutamente nenhuma. E foi ainda o Luís Moura, muito calhado com a história da cidade, que me explicou que «É a igreja que foi do Bispo Idácio» só poderia significar uma referência à Igreja Matriz de Chaves, ou de Santa Maria Maior. «Perdizes de São Miguel», enfim, era pista com que não atinávamos: tempo de colheitas, riqueza cinegética?
Mas na noite de consoada, à mesa cheia de copos do café do Jeremias – com o fogo lá fora a subir as labaredas à altura dos fios dos telefones e a pô-los em risco –, o Luís Moura, às tantas, bateu com violência no tampo da mesa, virou-se para a Adelaide e disse, quase num grito: «Cerveja para todos.» Puxou da folha A4 onde, há vários dias, íamos alinhavando nomes e frases. Eu quase não respirava. Sentia o desassossego de quem se aproxima do único segredo do mundo, da revelação, de um corpo que não tardaria a pertencer-me.
Eis as notas que era possível compor:
1) Amoreiras. 2) Santa Maria de Émeres. 3) Leocádia [igreja de Santa Leocádia? Ver se a igreja tem cachorros ou gárgulas]. 4) Calvão [ver se a igreja de Calvão tem um campanário singular]. 5) Oso [ver…]. 6) Igreja de Santa Maria Maior. 7) Perdizes?/São Miguel?/Vilar de Perdizes/Igreja de São Miguel?
Não queria acreditar. «Meu Deus, parece definir-se um padrão: igrejas.» «Claro», respondeu o Luís Moura, já calmo, um sorriso a rasgar-lhe o rosto. «Maria Mantela. Estas pistas parecem remeter para a lenda de Maria Mantela. É só um momento.» E desapareceu. Uma hora depois lá estávamos, de novo, de roda das pistas e de um artigo do padre Lourenço Fontes. «Não conheces a lenda de Maria Mantela?» Eu que não. E então o Luís explicou-me.
Pelos primeiros anos do século XIV um abastado sujeito da Vila de Chaves, passeando com a esposa, encontrou uma mulher com dois filhos gémeos que lhes pediu esmola. Fernão Gralho, assim ele se chamava, condoeu-se da pobre. Mas Maria Mantela, a esposa, colocou em dúvida a honestidade da mulher, porque nenhuma mulher de um só homem poderia gerar de uma só vez mais que um filho. Acontece que, alguns meses depois, Maria Mantela, na hora do parto, teve, um após outro, sete filhos. Com o marido ausente numa caçada, e aflita lembrando-se do que dissera à pobre mãe de duas crianças gémeas, encarregou a ama de lançar às águas do Tâmega seis dos filhos que acabara de parir. Estava a ama a meio das poldras quando apareceu Fernão Gralho e descobriu o que se passava. Ordenou à ama que regressasse a casa e informasse a senhora do cumprimento das ordens. Fernão pegou nas seis crianças e confiou-as, em diferentes aldeias, a diferentes amas. Dez anos depois solicitou à esposa que preparasse um lauto banquete para festejar o Ano Novo com seus especiais convidados. À mesa, quando Maria Mantela chegou com o banquete, estavam sete jovens todos iguais em feições. «Qual deles é o teu filho?», perguntou Fernão.
«Maria Mantela. As pistas remetem para a lenda de Maria Mantela» – insistia, eufórico, o Luís. «Estas sete crianças tornaram-se padres. E cada uma delas acabaria por fundar uma igreja com a invocação de Santa Maria: Santa Maria de Moreiras, Santa Leocádia, Santa Maria de Calvão, Mosteiro de Oso, Santa Maria Maior, Santa Maria de Émeres, São Miguel de Vilar de Perdizes.»
O resto das férias passou vagarosamente. Desesperadamente devagar. É claro que faltava decifrar o segredo final: o nome da mãe da minha apaixonada. Mas isso parecia agora o mais fácil. Como dizia o bilhete do Faustino, ‘Anagrama’ era a palavra-chave. O segredo final só poderia ser um anagrama de Maria Mantela. Peguei num lápis. Papel. Risquei letras, alinhavei palavras. E depressa cheguei ao único nome possível: doze letras: Mariana Telma…
No intervalo da primeira aula do segundo trimestre, no primeiro intervalo da manhã, puxei a minha apaixonada para um canto. «Decifrei o segredo. A tua mãe chama-se Mariana Telma.»
Ela olhou-me semicerrando os olhos. Como se a tivesse surpreendido. Como se não esperasse a minha capacidade de decifração dos enigmas. E respondeu:
«É verdade. Acertaste. Mas vens tarde. Fernão Gralho escondeu o segredo durante dez anos. Tu demoraste vinte dias a descobri-lo. É um avanço. Mas há uma semana que o teu amigo Luís Moura me revelou a resposta. Acertou primeiro. Temos estado juntos. Passámos juntos o fim de ano. Somos namorados. Talvez me venha a arrepender, não digo que não: tu pareces-me um gajo porreiro.»
publicado originalmente aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/
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