sexta-feira, março 18, 2011

[alguma coisa]

alguma coisa batia com força
nos tampos de madeira das carteiras
nas continhas do ábaco
no branco do giz sobre o quadro de ardósia

o tempo é essa matéria vil
que nos separa da memória do
cheiro dos livros das primeiras letras
do rumor do vento nos
vidros pequenos das janelas da escola

alguma coisa batia com força no mais fundo da infância
aí procuramos ainda hoje o poema
uma razão para não temermos a sombra ou a tempestade
o arame onde estender a roupa que
nos fica apertada nos braços.

quarta-feira, março 16, 2011

[os objectos antigos]

olhar os objectos antigos
sem que a memória devolva os seus usos
como se acabassem de ser construídos
como se não houvesse ainda uma função que
lhes estivesse destinada

como se conhecêssemos já um gesto e
tivéssemos que procurar a mão
que haverá de fazê-lo.

sexta-feira, março 11, 2011

[pedia que nos afastássemos]

pedia que nos afastássemos
trazia a vara das nascentes
puxava as mangas da camisa acima dos cotovelos
concentrava-se
não há outro mistério
outro milagre
à face da terra

a vibração da vara das nascentes
a desenhar o mapa dos terrenos de herdeiros
o veio subterrâneo
da água.

[misturávamos/ as uvas]

misturávamos
as uvas
e as bagas do arando

ficávamos em silêncio
a escutar o rumor dos arames das vinhas
deixávamos erguer-se sobre as mesas
o odor dos frutos vermelhos
dos bosques

as tardes de domingo
suspensas de quase nada

um gesto
uma palavra
o voo de um pássaro podiam
fazer ruir
as paredes das casas.

[os anjinhos]

os anjinhos das procissões
cansados
cheios de sede
pareciam apenas
crianças
verdadeiras.

quinta-feira, março 10, 2011

[quadra ao gosto popular]

olho a fotografia de grupo
onde nunca apareceste
e é como se apenas tu
estivesses no retrato.

quarta-feira, março 09, 2011

[lembro-me/ das tuas camisolas]

lembro-me
das tuas camisolas todas

eu chegava a ter frio
só para que pudesse
vesti-las.

[imagina/ que escrevias]

imagina
que escrevias um poema de cinco
em cinco minutos
e que morrias disso
não propriamente do coração
não propriamente das transaminases
mas de um problema de métrica
de uma rima excessiva
que crescesse dentro de ti
como uma pedra
nos rins.

[às vezes/ o tempo apaga]

às vezes
o tempo apaga todas as imagens
a tua bicicleta vermelha comprada no miranda
a noite em que uma estrela cadente
ficou poisada nas tuas mãos
durante quase uma hora

e ninguém acreditava

a filarmónica tocava no coreto
havia quem dançasse ao ritmo certinho da música
como se mais nada existisse
como se o mundo não estivesse a nascer
no lugar exacto
em que as mãos de um
tocavam as mãos
do outro.

[os dias separavam]

os dias separavam as palavras
e os gestos
o que dizíamos
e o que queríamos dizer

mesmo que trouxesses os teus cadernos
e os lápis de cor
era como se os desenhos
ficassem sempre
por fazer.

[trazias a água]

trazias a água num cântaro
era no tempo em que os assessores
ainda não tinham fechado
as escolas primárias
nem os centros de saúde
nos lugares mais afastados
da província

a fotografia mostra as duas casas
a seguir ao tanque
deves lembrar-te dessa tarde de verão
em que subimos a escaleira
a correr

no pátio havia uma torneira

mas não era dessa água
que queríamos beber.

[as mulheres traziam coisas à cabeça]

as mulheres traziam coisas à cabeça
coisas inexplicáveis
um cântaro iluminado
a flor da urze
um rumor que parecia vir das nascentes

equilibravam-se como se saíssem de
um quadro de vermeer
de um fotograma
de um relâmpago
que ainda hoje
nos cega.

[deixar/ que sejam as palavras]

deixar
que sejam as palavras
a levar o vento
a estender nos arames dos
pátios os segredos do inverno
a espalhar as fotografias nas mesas da cozinha
a misturar as certezas e os enganos

deixar
que sejam as palavras
a esconder o teu rosto por
detrás de camadas de poeira sucessivas
ou por detrás das cortinas das janelas
quando o verão irrompia
como se fosse
o último.

[os rios só existem]

os rios só existem nos mapas das províncias
nos quadros de ardósia
da escola primária
onde se misturavam estuários
e afluentes

lembro-me de desenhar um rio
e esse rio ter o teu nome

e eu acreditar que não havia outro rio
a cruzar os continentes.

[nas colinas]

nas colinas
havia o palco de um teatro
estrados e máquinas de luzes
panos de correr

treinávamos durante o inverno
líamos os textos
ensaiávamos
chegámos a acreditar no estrangeiro

mas quando chegavas
esquecia-me sempre
das frases.

[escrevíamos a lápis]

escrevíamos a lápis
podíamos mudar as versões
dessa história
bastava apagar as palavras
uma linha
depois outra

e no entanto
era como se o teu nome
ficasse marcado na parte de trás das folhas
dos cadernos

como quando
escrevíamos com medo que a caligrafia
traísse o que queríamos dizer
ou desenhávamos um barco

mesmo que apagássemos os desenhos
ficava sempre
essa marca
imperecível
como uma memória
dos erros.

[lembro-me]

lembro-me
de haver um fio que juntava
a água e o coração

lembro-me de chover
dias inteiros
para que o inverno ficasse na memória dos livros
para que as nascentes se aproximassem das casas
e pudéssemos beber
em vez de morrermos de frio

lembro-me
de haver um fio
que ligava o corpo
às suas próprias
mentiras.

[hoje sei]

hoje sei
que estivemos tão perto
de ter quase tudo

que era possível ainda regressar ao largo
deixar a mão poisada na superfície plana
da água do tanque

e esperar
os milagres.

terça-feira, março 08, 2011

[já nem pergunto]

já nem pergunto
por ti
aos amigos

chego a pensar que nunca exististe
que esta cicatriz junto ao coração
não foste tu
que a desenhaste
só de respirares a meu lado

se hoje te visse
a descer a caminho do largo
talvez nem acreditasse
que um dia foste tu
que disseste o meu nome
a tremer
de frio.

segunda-feira, março 07, 2011

[ainda hoje]

nunca digas
«para sempre»
meu amor
como disseste uma vez
já nem te lembras

a manhã entrava
pela janela do quarto

estávamos tão próximos das despedidas
e a luz era tanta
que ainda hoje
nos cega.