quarta-feira, março 09, 2011

[deixar/ que sejam as palavras]

deixar
que sejam as palavras
a levar o vento
a estender nos arames dos
pátios os segredos do inverno
a espalhar as fotografias nas mesas da cozinha
a misturar as certezas e os enganos

deixar
que sejam as palavras
a esconder o teu rosto por
detrás de camadas de poeira sucessivas
ou por detrás das cortinas das janelas
quando o verão irrompia
como se fosse
o último.

[os rios só existem]

os rios só existem nos mapas das províncias
nos quadros de ardósia
da escola primária
onde se misturavam estuários
e afluentes

lembro-me de desenhar um rio
e esse rio ter o teu nome

e eu acreditar que não havia outro rio
a cruzar os continentes.

[nas colinas]

nas colinas
havia o palco de um teatro
estrados e máquinas de luzes
panos de correr

treinávamos durante o inverno
líamos os textos
ensaiávamos
chegámos a acreditar no estrangeiro

mas quando chegavas
esquecia-me sempre
das frases.

[escrevíamos a lápis]

escrevíamos a lápis
podíamos mudar as versões
dessa história
bastava apagar as palavras
uma linha
depois outra

e no entanto
era como se o teu nome
ficasse marcado na parte de trás das folhas
dos cadernos

como quando
escrevíamos com medo que a caligrafia
traísse o que queríamos dizer
ou desenhávamos um barco

mesmo que apagássemos os desenhos
ficava sempre
essa marca
imperecível
como uma memória
dos erros.

[lembro-me]

lembro-me
de haver um fio que juntava
a água e o coração

lembro-me de chover
dias inteiros
para que o inverno ficasse na memória dos livros
para que as nascentes se aproximassem das casas
e pudéssemos beber
em vez de morrermos de frio

lembro-me
de haver um fio
que ligava o corpo
às suas próprias
mentiras.

[hoje sei]

hoje sei
que estivemos tão perto
de ter quase tudo

que era possível ainda regressar ao largo
deixar a mão poisada na superfície plana
da água do tanque

e esperar
os milagres.

terça-feira, março 08, 2011

[já nem pergunto]

já nem pergunto
por ti
aos amigos

chego a pensar que nunca exististe
que esta cicatriz junto ao coração
não foste tu
que a desenhaste
só de respirares a meu lado

se hoje te visse
a descer a caminho do largo
talvez nem acreditasse
que um dia foste tu
que disseste o meu nome
a tremer
de frio.

segunda-feira, março 07, 2011

[ainda hoje]

nunca digas
«para sempre»
meu amor
como disseste uma vez
já nem te lembras

a manhã entrava
pela janela do quarto

estávamos tão próximos das despedidas
e a luz era tanta
que ainda hoje
nos cega.

[há coisas/ tão difíceis]

há coisas
tão difíceis de compreender
o modo como perguntámos
«dás-me um cigarro»
quando o amor
parecia ainda imperecível

o modo como nos despedimos
de tudo o que chegámos a imaginar
que nos haveria de pertencer
para sempre.

[se pudéssemos]

Se pudéssemos desviar de nós
por um momento
os cuidados do amor
essa atenção quase permanente que o amor exige
se pudéssemos por um momento
deixar ao amor apenas o tempo
que ao amor pertence
um perfume
um passeio nas florestas de bétulas
um copo de vinho em tabernas afastadas do mundo
a camisola que trocamos no inverno
os mapas onde desenhamos todas as viagens

se pudéssemos por um único instante
desviarmo-nos do que o amor exige
para nos concentrarmos apenas
no que é do amor
sem a exigência
de sermos puros.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

[o vendedor de astros]

Sinto-me outra vez tão cansado
de ter que carregar os astros
de um lado para o outro, de ter que arrumá-los no fim-de-semana
a procurar um espaço na garagem
entre fasquias, latas de tinta e peças dos restos de motores,
de ter que trazê-los de novo para a loja
muito cedo nas segundas-feiras de manhã.
Sinto-me tão cansado de ter que andar com eles às costas,
a expô-los na montra,
a escrever com marcadores de feltro
os papelinhos dos saldos,
a passar os dias inteiros à espera
dos tão escassos clientes
interessados neste primeiro quartel do século XXI
na poesia iluminada dos astros,
nesse fogo de combustão lenta,
nessa incandescência que vem
do lado de dentro das coisas,
nesta matéria afastada do câmbio,
neste produto menos valorizado hoi’ jem dia
que as batatas da Bretanha vendidas nas grandes superfícies
em saquinhos de três quilos
ao preço da uva mijona.
Sinto-me tão cansado,
sinto-me tão moído,
sinto-me tão farto de vender astros numa loja de comércio,
de ter que limpar-lhes o brilho
de ficarem tanto tempo nas estantes e nos expositores,
de vender ou procurar vender
a luz perfeita desses incêndios incombustíveis,
que chego a ter inveja dos funcionários públicos
que passam os dias a receber requerimentos
ou a preencher formulários
e a levar ao fim do mês
para casa
o ordenado inscrito no livro de estilo
dos vencimentos
do Estado.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

[eram crianças]

Eram crianças como se tivessem holofotes.
Os homens chegavam durante a noite
e ficavam parados nos largos
a procurar nessa luz os segredos das renúncias.
E acreditavam que essa luz
vinha de um tempo anterior
ao tempo dos primeiros Livros.
E acreditavam que assim
podiam aproximar-se
da Palavra
reveladora.
Por isso rezavam.
Rezavam em voz baixa como se temessem
a reverberação dos sons
nos arames das vinhas.

Eram crianças como se fossem máscaras
de outras máscaras.
Os homens deixavam
os trabalhos dos campos
e procuravam nos guarda-fatos
o rosto verdadeiro
atrás do rosto devolvido pelos espelhos.
Os homens temiam enlouquecer
de nem terem um rosto.
E temiam que os seus rostos
estivessem escondidos
nos rostos das crianças.

Porque não havia nenhuma voz
e porque não havia
nenhum movimento
nem a cintilação de uma sílaba
nos muros das propriedades
ou nos andaimes das obras.

Porque
de súbito
só havia crianças.
Crianças.
Crianças como se fossem pedras incandescentes
tiradas de dentro dos cântaros.
Crianças como se fossem pistolas de plástico
e encerrassem nelas mesmas
a impossibilidade da revelação.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

[quadros de uma exposição, 1]


[reflexos na montra do Armindo numa manhã de Agosto de 2009]

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

[uma horta]

jcb




sábado, fevereiro 05, 2011

terça-feira, fevereiro 01, 2011

[Os antigos]

Noite sem nenhum elemento
singular: lua minguante
e a temperatura média dos meses de fevereiro.
A mulher levava uma candeia no corredor
que liga a cozinha a um dos quartos.
E de súbito tudo ficou iluminado
pelo clarão de um incêndio
a lavrar nas paredes. Foi
um instante breve. Logo regressou
a sombra. E só a luz ténue
da candeia espalhava de novo
os correntes rostos disformes dos antigos
na casa habitada pelo mesmo
sobressaltado silêncio de sempre.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

[resumo, 3]

Não temias nenhuma dessas feridas
quase desejavas a cicatriz

quando nos dói
é bom haver uma marca no corpo.

[resumo, 2]

Sejamos claros: escrevemos poesia
para ficarmos às escuras.

[resumo, 1]

Estou quase como o Tjorge: Sá antologia
dá Sírio não reparou em mim
quexe cossxa: o problema
é deis:
a posteridade lá estás.
Mas por mim não mer’ ciam um artigo na Lerque
nem lhes dava de vaia.

domingo, janeiro 30, 2011

[do estado da arte. ou dos lentos progressos. excerto.]

Mas assim se passaram as coisas. E apenas quatro passageiros seguiram na camioneta da carreira que saiu às três e cinco do Largo do Toural: dois pides e dois conspiradores contra a segurança do Estado. Na tarde sentia-se a rarefacção do ar, um silêncio que era muito mais que a ausência de som, a imobilidade dos objectos de família poisados nas cómodas velhas. A camioneta da carreira descia a Rua Vinte e Oito de Maio como se prosseguisse numa cápsula de vácuo e como se as mulheres debruçadas às janelas e os homens parados à porta da barbearia, e os cães adormecidos no quelho das Casas do Canto, e os gatos estirados na varanda da ourivesaria, e os pássaros escondidos nos ramos densos dos abetos do jardim, estivessem já fixados nos sais de prata das fotografias.

Também lá dentro, nos bancos da frente, não se ouvia o ruído do motor nem o chiar dos eixos de um carro de bois que se arrastava pela estrada do Noro, não se ouvia uma palavra, não se percebia a mais ligeira oscilação da viatura. E foi então que o pide número um moveu a cabeça e depois aproximou o rosto da janela e viu que um homem voava sobre a Vila, vagaroso, ausente, distante, na tarde que de súbito se sobressaltou com o voo de todos os pássaros até então escondidos nos abetos do jardim dos Correios. Tirou os óculos escuros, encostou o nariz ao vidro embaciado, o barulho do motor da camioneta da carreira misturou-se ao tumulto das aves a esconder o céu. Fixou o olhar. Mas se alguém voava sobre a Vila, sobre o quadriculado da Veiga, sobre as encostas de urze e pinheiros bravos, acabara de desaparecer por entre a sombra escura que descia sobre as ruas e os telhados.