sexta-feira, dezembro 10, 2010

[a neve nas Alturas]


Sabemos que uma coisa não existe
senão no modo como a olhamos. A água benta
é apenas um bom exemplo:
o Homem é o único animal que a distingue

da água da torneira. Assim
a neve nas suas múltiplas representações:
a neve prosaica
que significa desconforto

e se mistura com a lama e desliza, entre espessa
e deslaçada, nas ruas e nos pátios;
a neve muito branca elevada à categoria simbólica

da purificação; a neve e o seu carácter
lúdico, jogo e divertimento,
riso e corrida nas descidas das veredas lisas.

A neve caiu mais uma vez (e deu-lhe forte)
sobre as aldeias e as vilas, das cumeadas
às encostas da urze, das colinas aos vales da aluvião,

dos largos aos terraços, dos telhados das casas
aos adros das igrejas. E novamente
o múltiplo olhar do mundo

a desenhou em cartas de rumo inúmeras, derivações,
diferenças: da exaltação à palavra avisada
do velho das Alturas do Barroso
que não se teve que não dissesse à algarvia jovem

que saltava na neve e deslizava como se estivesse por dentro
da nuvem dos sonhos dos livros: «pois se gosta
tanto dela
leve-a toda que não nos faz falta nenhuma.»




publicado originalmente aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt/

fotografia tirada daqui: http://www.cm-boticas.pt/

terça-feira, novembro 30, 2010

[num tempo virado ao contrário]

Não atirava contra
os alvos fáceis e em si mesmo
guardava a lança
das cinco pontas envenenadas
dos desastres
como se existisse uma ética
num tempo virado ao contrário
em ser derrotado
no alto das colinas
defensivas.

segunda-feira, novembro 29, 2010

[armadilhas]

digo-te o que não sei
armadilhas que preparo contra mim

[a geada]

Deixamos os segredos atados aos
ramos das árvores
quando a geada desce
sobre as vinhas
e os telhados das casas
para que possa recrudescer
por um instante
o imenso poder da rasura
e do silêncio
nas páginas impressas
de todos os livros.

domingo, novembro 28, 2010

[novembro]

jcb

terça-feira, novembro 23, 2010

[Olhar por cima do ombro]

Olhar por cima do ombro e haver um dia antigo em que os animais deixaram no saibro dos estradões as linhas marcadas de ser o verão e existir o amor/
ou um outro feito de ferros enferrujados dos andaimes das obras das periferias como se mais nada valesse a pena depois das palavras que nem chegámos a dizer. Isso é tão pouco/
e é quase tudo: podermos olhar por cima do ombro e a memória devolver um dia de treva ou um dia da mais iluminada sombra. E ambos terem deixado no corpo as mesmas marcas imperecíveis.

segunda-feira, novembro 22, 2010

[o gato ilusionista interpõe recurso]

jcb


«o gato ilusionista interpõe recurso». 50x70 cm, acrílico sobre tela. Set 2010.

terça-feira, novembro 16, 2010

[as paisagens de Georges]

jcb


«as paisagens de Georges». 70x70 cm, técnica mista sobre tela. Nov 2010.

sábado, novembro 13, 2010

[degraus, patamar & queda]

jcb







«degraus, patamar & queda». 50x50 cm, técnica mista sobre tela. Set 2010.

[os pagadores de promessas]

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«os pagadores de promessas». 70x50 cm, acrílico sobre tela. Nov 2010.

[a casa dos segredos]

jcb


«casa dos segredos». Marcador sobre toalha de papel. Nov 2010.

domingo, novembro 07, 2010

[a tríade e o agente secreto]

jcb


«a tríade e o agente secreto». Marcador sobre toalha de papel. Nov 2010.

sábado, novembro 06, 2010

[Kirchner em 1910]

jcb





«Kirchner em 1910: Franzie e Marcella», 80x60 cm. Acrílico sobre madeira de guarda-vestidos. Nov 2010.

[em vez da sombra]

jcb



«em vez da sombra». Marcador sobre toalha de papel. Nov 2010.

[os limites da literatura]

sei hoje
com a desilusão imensa de quem
suspeita ter perdido um rumo
ou o reconhecimento dos que nos lêem
que nenhum dos meus poemas sobre a crise e o orçamento
e muito menos os líricos publicados na revista criatura
deve ter influenciado assim de
modo particularmente decisivo
os relatórios
das agências de rating

sexta-feira, novembro 05, 2010

[dos naufrágios]

jcb



«dos naufrágios». Marcador e lápis de cor sobre toalha de papel. Nov 2010.

segunda-feira, outubro 18, 2010

[as sementes aladas]

cúmplices do vento

as sementes aladas
do ácer.

[antes]

antes
e depois da água

a nuvem.

[a luz reflectida]

e de súbito
no meio do deserto
apareciam casas

como se
houvesse casas
no meio do deserto.

sexta-feira, outubro 15, 2010

[regressar às mesmas coisas de sempre]

regressar às mesmas coisas de sempre
como se não existissem outras
como se pela exaustão nos fosse dado o obscuro
poder de queimar as palavras nos incêndios das florestas
e apenas um ou outro nome sobreviesse
um ou outro utensílio feito de matéria incombustível
para cozinhar os alimentos
ou recolher a água dos tanques.