venho para te salvar.
trago um velho helicóptero em segunda mão
e
(porque será preciso içar-te do rasteiro chão)
uma corda de esparto
da minha terra.
não te preocupes.
nunca deixei ninguém
em território inimigo
(independentemente da precariedade dos meios aéreos)
sempre que levei comigo
a corda de esparto
da minha terra.
quinta-feira, setembro 23, 2010
quarta-feira, setembro 22, 2010
[«não espero nada do mundo»]
«não espero nada do mundo»
dizia o meu amigo poeta decadentista
muito displicente
muito dado à cerveja e à exaltação do comezinho
desde que leu a antologia
(que lhe emprestaram e não devolveu)
do Manuel de Freitas.
e alguém que perdesse tempo a explicar-lhe
que bem fodido estava o mundo
se esperasse mais dele
do que ele esperava do mundo.
dizia o meu amigo poeta decadentista
muito displicente
muito dado à cerveja e à exaltação do comezinho
desde que leu a antologia
(que lhe emprestaram e não devolveu)
do Manuel de Freitas.
e alguém que perdesse tempo a explicar-lhe
que bem fodido estava o mundo
se esperasse mais dele
do que ele esperava do mundo.
[oiçam como eu suspiro]
oiçam como eu suspiro:
ai.
a minha poesia
em finais da primeira década do século xxi
haja embora opiniões contraditórias
é de um lirismo comovente.
ai.
a minha poesia
em finais da primeira década do século xxi
haja embora opiniões contraditórias
é de um lirismo comovente.
[no país dos narcóticos]
no país dos narcóticos
lembro-me de pedir um copo de água
e ficarmos todos ganzados.
lembro-me de pedir um copo de água
e ficarmos todos ganzados.
[rendo-me à subjectividade]
rendo-me à subjectividade.
de que outro modo escrever relatórios
num país de poetas?
quando digo pedra todos compreendem nuvem
quando digo nuvem todos compreendem pedra.
rendo-me enfim à subjectividade:
escrevo nuvem porque quero dizer pedra
sabendo que todos lêem pedra
quando escrevo nuvem.
de que outro modo escrever relatórios
num país de poetas?
quando digo pedra todos compreendem nuvem
quando digo nuvem todos compreendem pedra.
rendo-me enfim à subjectividade:
escrevo nuvem porque quero dizer pedra
sabendo que todos lêem pedra
quando escrevo nuvem.
segunda-feira, junho 28, 2010
PAUSA
Quando se anda em serviços mínimos, e mesmo esses começam a falhar, recomenda-se uma pausa até poder ser retomada alguma normalidade. O blog, portanto, fecha por uns tempos. Com um agradecimento e um pedido de desculpas, sobretudo aos que passam por aqui com alguma regularidade. Até breve.
quarta-feira, junho 23, 2010
[o que é dos livros]
Estás sentado de frente
para a montra de vidro
do café. Vês a rapariga de jeans
a atravessar a passadeira
do outro lado do vidro
e procuras adivinhar
uma vida por detrás
dum rosto: uma infância, um rio,
o amor, uma dança
a meio da noite. Ela pára
no passeio, suspeitas
que te olha nos olhos, imaginas
que se decide a entrar
e a sentar-se a teu lado.
Estás sentado de frente
para a montra de vidro
e deixas o romance
a meio do capítulo IX.
Ergues o olhar e olhas a rua: lá fora
uma rapariga de jeans
atravessa a passadeira
do outro lado do vidro
e por um instante
não compreendes o que é
do mundo, o que é dos livros.
para a montra de vidro
do café. Vês a rapariga de jeans
a atravessar a passadeira
do outro lado do vidro
e procuras adivinhar
uma vida por detrás
dum rosto: uma infância, um rio,
o amor, uma dança
a meio da noite. Ela pára
no passeio, suspeitas
que te olha nos olhos, imaginas
que se decide a entrar
e a sentar-se a teu lado.
Estás sentado de frente
para a montra de vidro
e deixas o romance
a meio do capítulo IX.
Ergues o olhar e olhas a rua: lá fora
uma rapariga de jeans
atravessa a passadeira
do outro lado do vidro
e por um instante
não compreendes o que é
do mundo, o que é dos livros.
sexta-feira, junho 18, 2010
[algumas cidades muito bem explicadas ao luís por mor dos títulos dos poemas]
TODAS AS CIDADES
As cidades não têm nada por si mesmo
as cidades são sobretudo
o que lá deixamos.
PARIS E AS IMEDIAÇÕES DA ÓPERA
Que mal empregadas
esplanadas
quando não estás.
LEMVIG E A ÁGUA
Como explicar
que este poderia ter sido
para sempre o meu lugar.
ROMA E AS RUÍNAS DO IMPÉRIO
Assim de repente
quase me pareceu o teu nome em latim
gravado na pedra.
LISBOA E A QUESTÃO SOCIAL
A greve da Transtejo
de uma a outra breve margem
separa-nos para sempre.
MIRANDELA E UMA TARDE DE SÁBADO
Sem este espelho de água
o que seria hoje
de nós.
COPENHAGA E A PRIMAVERA
Oferecer uma rosa
à jovem de olhos de nuvem
que vendia flores.
ANTIGUA GUATEMALA E OS DESASTRES
Assim lá estivesses
o vulcão
era o menos.
MAPUTO NA ZONA ALTA
A embaixada
e o tédio da secretária da embaixada
de ter numa tarde
tão quente
perdido uma partida
de golfe.
LATINA E O AMOR
E quem nessa tarde Maria Manuel
me haveria de recordar o famoso edifício
com o M de Mussolini?
FLORENÇA E AS MÁQUINAS FOTOGRÁFICAS
Em vez da polícia
fumar um cigarro na varanda
do Palazzo Vecchio
e ser
apanhado
pelos japoneses.
CHAVES E O TEMPO
Percorro hoje os corredores do Liceu
como o único lugar do mundo
onde nunca estive.
As cidades não têm nada por si mesmo
as cidades são sobretudo
o que lá deixamos.
PARIS E AS IMEDIAÇÕES DA ÓPERA
Que mal empregadas
esplanadas
quando não estás.
LEMVIG E A ÁGUA
Como explicar
que este poderia ter sido
para sempre o meu lugar.
ROMA E AS RUÍNAS DO IMPÉRIO
Assim de repente
quase me pareceu o teu nome em latim
gravado na pedra.
LISBOA E A QUESTÃO SOCIAL
A greve da Transtejo
de uma a outra breve margem
separa-nos para sempre.
MIRANDELA E UMA TARDE DE SÁBADO
Sem este espelho de água
o que seria hoje
de nós.
COPENHAGA E A PRIMAVERA
Oferecer uma rosa
à jovem de olhos de nuvem
que vendia flores.
ANTIGUA GUATEMALA E OS DESASTRES
Assim lá estivesses
o vulcão
era o menos.
MAPUTO NA ZONA ALTA
A embaixada
e o tédio da secretária da embaixada
de ter numa tarde
tão quente
perdido uma partida
de golfe.
LATINA E O AMOR
E quem nessa tarde Maria Manuel
me haveria de recordar o famoso edifício
com o M de Mussolini?
FLORENÇA E AS MÁQUINAS FOTOGRÁFICAS
Em vez da polícia
fumar um cigarro na varanda
do Palazzo Vecchio
e ser
apanhado
pelos japoneses.
CHAVES E O TEMPO
Percorro hoje os corredores do Liceu
como o único lugar do mundo
onde nunca estive.
[e quase não haver]
E quase não haver um verso
para acolher a luz demorada a meio da tarde
nas folhas das amendoeiras jovens.
para acolher a luz demorada a meio da tarde
nas folhas das amendoeiras jovens.
quinta-feira, junho 10, 2010
[Testamento de M. L.]
Deixo-te
todos os meus bens
estas páginas de rascunho
dos incêndios
das florestas.
todos os meus bens
estas páginas de rascunho
dos incêndios
das florestas.
[O capitalismo e a infância]
O sol deixou de entrar na minha rua
a luz deixou de poisar nas folhas dos freixos dos quintais
um espesso lençol de sombra cobriu as paredes
e os telhados das casas
foi quando construíram as
avassaladoras chaminés da fábrica de rebuçados
chaminés imensas
erguendo-se sobre o horizonte como
catedrais góticas
ou torres de palácio de fábula
é assim quando
o capitalismo e a infância se misturam
eu é que nunca mais na minha vida
pude ver as guloseimas.
a luz deixou de poisar nas folhas dos freixos dos quintais
um espesso lençol de sombra cobriu as paredes
e os telhados das casas
foi quando construíram as
avassaladoras chaminés da fábrica de rebuçados
chaminés imensas
erguendo-se sobre o horizonte como
catedrais góticas
ou torres de palácio de fábula
é assim quando
o capitalismo e a infância se misturam
eu é que nunca mais na minha vida
pude ver as guloseimas.
[A memória do Verão]
Nos cafés da província
nas mesas de resina das esplanadas
nesse espaço de circulação
entre o jogo das damas e os copos de cerveja
o Verão é ainda a haste mais insustentável
das páginas dos livros.
Como numa história de romance
as ervas azuis dos venenos
misturavam-se
ao aroma antigo das araucárias
da praça
bebíamos
como se pudéssemos ficar para sempre
com a memória do Verão
agarrada
à inevitabilidade
de não podermos
deixar de ser jovens.
nas mesas de resina das esplanadas
nesse espaço de circulação
entre o jogo das damas e os copos de cerveja
o Verão é ainda a haste mais insustentável
das páginas dos livros.
Como numa história de romance
as ervas azuis dos venenos
misturavam-se
ao aroma antigo das araucárias
da praça
bebíamos
como se pudéssemos ficar para sempre
com a memória do Verão
agarrada
à inevitabilidade
de não podermos
deixar de ser jovens.
terça-feira, junho 08, 2010
quarta-feira, junho 02, 2010
[Às vezes o poema]
Às vezes o poema deveria
apenas ser uma vereda de silvas
uma cicatriz indelével de palavras.
apenas ser uma vereda de silvas
uma cicatriz indelével de palavras.
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