Deixavam as bicicletas na praia
caminhavam nas dunas a sentir a passagem do tempo
nas nuvens de cinza
no modo
como as areias são arrastadas pelo vento
desenhando um ondulado
roubado
às vagas sucessivas
do levante.
Deixavam as bicicletas
como se pudessem não as encontrar de novo
como se fosse possível ficar para sempre
no labirinto dos meses depois do Verão
até perder-se a chave de casa
e a memória do que
nem chegámos a ser.
domingo, maio 23, 2010
sábado, maio 22, 2010
[Escolhia as folhas]
Escolhia as folhas do
loureiro imunes ao relâmpago
a vagarosa elipse da semente do ácer
as represadas águas dos açudes
a mobilidade apenas do olhar
como se lhe fosse dado o fabuloso
e intangível e pacificado
poder das inércias.
loureiro imunes ao relâmpago
a vagarosa elipse da semente do ácer
as represadas águas dos açudes
a mobilidade apenas do olhar
como se lhe fosse dado o fabuloso
e intangível e pacificado
poder das inércias.
terça-feira, maio 18, 2010
[Quase não se ouvia]
Quase não se ouvia sobre os telhados
esse vento
dos primeiros meses
a desatar os nós dos fios
a desarrumar as
pedras das amuradas
tanto é às vezes o
que separa a lentidão e o erro
a glória e o talento.
esse vento
dos primeiros meses
a desatar os nós dos fios
a desarrumar as
pedras das amuradas
tanto é às vezes o
que separa a lentidão e o erro
a glória e o talento.
segunda-feira, maio 17, 2010
[O que procuramos]
O que procuramos
é a incerteza ou a obscuridade
o rosto que está por detrás do rosto
a palavra além da palavra
o segredo das mesas
de jogo quando vamos
no escuro.
Foi num dia de Novembro igual
a quase todos os dias de Novembro
partimos por estradas secundárias
sabemos hoje que algumas
das vitórias
são a melhor evidência
dos naufrágios.
é a incerteza ou a obscuridade
o rosto que está por detrás do rosto
a palavra além da palavra
o segredo das mesas
de jogo quando vamos
no escuro.
Foi num dia de Novembro igual
a quase todos os dias de Novembro
partimos por estradas secundárias
sabemos hoje que algumas
das vitórias
são a melhor evidência
dos naufrágios.
domingo, maio 16, 2010
[Quero também regressar]
Quero também regressar
mas deixar
de lado a imagem
da luz poisada
nos pátios.
Anoitecia cedo
era já depois do Verão
tu acendias o lume
como se alguém pudesse aparecer
e trazer
de longe
o livro
das perguntas.
mas deixar
de lado a imagem
da luz poisada
nos pátios.
Anoitecia cedo
era já depois do Verão
tu acendias o lume
como se alguém pudesse aparecer
e trazer
de longe
o livro
das perguntas.
[Estávamos desprotegidos]
Estávamos desprotegidos
tínhamos quase tudo
um território imenso separava-nos
dos afectos
nenhum mapa nos guiava pelos caminhos de asfalto
riscados a meio da noite
nas curvas de nível
das florestas.
Uma coisa apenas nos faltava
lembro-me:
a consciência de que
tínhamos quase tudo.
tínhamos quase tudo
um território imenso separava-nos
dos afectos
nenhum mapa nos guiava pelos caminhos de asfalto
riscados a meio da noite
nas curvas de nível
das florestas.
Uma coisa apenas nos faltava
lembro-me:
a consciência de que
tínhamos quase tudo.
quarta-feira, maio 12, 2010
[5: Outra versão]
para MF
É na simetria
e na tijoleira dos pátios
ou na iluminada cal
que começa a poesia:
entre o azul e a pedra
da água; entre
a migração eluvial
e a nascente.
O resto é coisa
de geração nova
que confunde o verso
com a prosa.
terça-feira, maio 11, 2010
[2: Outra versão]
Em vez da simetria
é a desordem natural das coisas
o que mais leva ao poema.
Ou a usura e a arbitrariedade
da pedra disparada
contra o remanso
dos açudes dos livros.
é a desordem natural das coisas
o que mais leva ao poema.
Ou a usura e a arbitrariedade
da pedra disparada
contra o remanso
dos açudes dos livros.
segunda-feira, maio 10, 2010
[Obviamente tudo isto]
Pouco poderá ser o que leva ao poema se não
for a desordem natural das coisas. À simetria
ou à claridade extrema de um céu azul
só deveria ser dado entrar nos versos por
oposição à injustiça de poderes
devassados. De qualquer modo: em
vez de loa aos remansos
antes o poema ao serviço
da usura: onde possamos
abrir a cicatriz da intranquilidade
ou adormecermos vencidos de já nos
bastar a deserção.
Obviamente tudo isto se
o poema obedecesse a uma regra de estilo.
for a desordem natural das coisas. À simetria
ou à claridade extrema de um céu azul
só deveria ser dado entrar nos versos por
oposição à injustiça de poderes
devassados. De qualquer modo: em
vez de loa aos remansos
antes o poema ao serviço
da usura: onde possamos
abrir a cicatriz da intranquilidade
ou adormecermos vencidos de já nos
bastar a deserção.
Obviamente tudo isto se
o poema obedecesse a uma regra de estilo.
[Tudo é um novelo]
É antes do povoamento
que o povoamento
começa? Na água ou na aluvião
ou nos relevos
que levam a uma
e não outra realidade
territorial?
Nos bosques densos de caducifólias
laboriosos animais enterram
no húmus as folhas pretéritas
da mesma
transformada
terra vegetal.
Que correspondência existe
entre os muros
das propriedades
e as paredes das casas
e esta antiquíssima
matéria inflamável?
Uma criança
corre a caminho dos largos
e ergue a sua voz
como um clamor
a invocar os astros
na manhã de cinza.
Tudo é um novelo indecifrável
de relações que ligam tudo
a coisa nenhuma?
que o povoamento
começa? Na água ou na aluvião
ou nos relevos
que levam a uma
e não outra realidade
territorial?
Nos bosques densos de caducifólias
laboriosos animais enterram
no húmus as folhas pretéritas
da mesma
transformada
terra vegetal.
Que correspondência existe
entre os muros
das propriedades
e as paredes das casas
e esta antiquíssima
matéria inflamável?
Uma criança
corre a caminho dos largos
e ergue a sua voz
como um clamor
a invocar os astros
na manhã de cinza.
Tudo é um novelo indecifrável
de relações que ligam tudo
a coisa nenhuma?
quinta-feira, maio 06, 2010
[O Verão quente]
Ficaram primeiro rendidos ao fascínio das frases,
à melancólica exultação das pausas, à capacidade
de evocação de coisas e lugares. Foi no ano em
que as águas desceram até às curvas de nível
da raiz do junco e os retornados ergueram nos
pátios o desenho das periferias urbanas,
as fasquias e os caixotes de contraplacado,
os panos de tenda, as tábuas encostadas
às paredes de cimento dos anexos. Em cima dos
palcos, nas varandas, nos muros dos tanques,
os acrobatas ágeis moviam archotes e
iluminavam as plateias com o fascínio das frases.
Os altifalantes do largo, a música das fitas de
plástico e a cerveja a correr nos balcões metálicos
dos bares, os discursos na escola primária,
os cartazes afixados na porta dos armazéns
ou distribuídos à mão em dias de mercado. E só
depois o Verão. E eles rendidos ao lume
avassalador dos archotes, ao fascínio das frases.
à melancólica exultação das pausas, à capacidade
de evocação de coisas e lugares. Foi no ano em
que as águas desceram até às curvas de nível
da raiz do junco e os retornados ergueram nos
pátios o desenho das periferias urbanas,
as fasquias e os caixotes de contraplacado,
os panos de tenda, as tábuas encostadas
às paredes de cimento dos anexos. Em cima dos
palcos, nas varandas, nos muros dos tanques,
os acrobatas ágeis moviam archotes e
iluminavam as plateias com o fascínio das frases.
Os altifalantes do largo, a música das fitas de
plástico e a cerveja a correr nos balcões metálicos
dos bares, os discursos na escola primária,
os cartazes afixados na porta dos armazéns
ou distribuídos à mão em dias de mercado. E só
depois o Verão. E eles rendidos ao lume
avassalador dos archotes, ao fascínio das frases.
quarta-feira, maio 05, 2010
[Como se lhe fosse permitido tanto]
Como se lhe fosse permitido tanto: perder
tudo: um nome os bens uma reputação
uma biografia e estar isento
da compaixão.
tudo: um nome os bens uma reputação
uma biografia e estar isento
da compaixão.
[Os teus amigos enviam mensagens a gabar os versos]
Olhas os guindastes das obras esse
movimento quase perfeito da economia
a construir a sua tão densa e apertada teia não chove
há quase uma semana isto não deve
estar ainda devidamente estudado a meteorologia
às vezes parece uma ciência vacilante à procura
de objecto. Despedimentos: a arte valoriza-se nos mercados
quando os guindastes ficam parados como catedrais
suspensas da evolução das margens de lucro os
teus amigos enviam mensagens a gabar os versos
a dizer que curiosamente estão a aprender
a gostar de poesia lá vêm de novo as nuvens
desenhadas no mapa das previsões logo
vi. O melhor é desarmá-los não vá o consenso
e a falta de obscuridade metê-los a todos e mal que ficavam
no retrato de mãos dadas com a lírica.
movimento quase perfeito da economia
a construir a sua tão densa e apertada teia não chove
há quase uma semana isto não deve
estar ainda devidamente estudado a meteorologia
às vezes parece uma ciência vacilante à procura
de objecto. Despedimentos: a arte valoriza-se nos mercados
quando os guindastes ficam parados como catedrais
suspensas da evolução das margens de lucro os
teus amigos enviam mensagens a gabar os versos
a dizer que curiosamente estão a aprender
a gostar de poesia lá vêm de novo as nuvens
desenhadas no mapa das previsões logo
vi. O melhor é desarmá-los não vá o consenso
e a falta de obscuridade metê-los a todos e mal que ficavam
no retrato de mãos dadas com a lírica.
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