Nem um remo estendas
nem um leme
ao barco dos naufrágios.
quarta-feira, maio 12, 2010
terça-feira, maio 11, 2010
[2: Outra versão]
Em vez da simetria
é a desordem natural das coisas
o que mais leva ao poema.
Ou a usura e a arbitrariedade
da pedra disparada
contra o remanso
dos açudes dos livros.
é a desordem natural das coisas
o que mais leva ao poema.
Ou a usura e a arbitrariedade
da pedra disparada
contra o remanso
dos açudes dos livros.
segunda-feira, maio 10, 2010
[Obviamente tudo isto]
Pouco poderá ser o que leva ao poema se não
for a desordem natural das coisas. À simetria
ou à claridade extrema de um céu azul
só deveria ser dado entrar nos versos por
oposição à injustiça de poderes
devassados. De qualquer modo: em
vez de loa aos remansos
antes o poema ao serviço
da usura: onde possamos
abrir a cicatriz da intranquilidade
ou adormecermos vencidos de já nos
bastar a deserção.
Obviamente tudo isto se
o poema obedecesse a uma regra de estilo.
for a desordem natural das coisas. À simetria
ou à claridade extrema de um céu azul
só deveria ser dado entrar nos versos por
oposição à injustiça de poderes
devassados. De qualquer modo: em
vez de loa aos remansos
antes o poema ao serviço
da usura: onde possamos
abrir a cicatriz da intranquilidade
ou adormecermos vencidos de já nos
bastar a deserção.
Obviamente tudo isto se
o poema obedecesse a uma regra de estilo.
[Tudo é um novelo]
É antes do povoamento
que o povoamento
começa? Na água ou na aluvião
ou nos relevos
que levam a uma
e não outra realidade
territorial?
Nos bosques densos de caducifólias
laboriosos animais enterram
no húmus as folhas pretéritas
da mesma
transformada
terra vegetal.
Que correspondência existe
entre os muros
das propriedades
e as paredes das casas
e esta antiquíssima
matéria inflamável?
Uma criança
corre a caminho dos largos
e ergue a sua voz
como um clamor
a invocar os astros
na manhã de cinza.
Tudo é um novelo indecifrável
de relações que ligam tudo
a coisa nenhuma?
que o povoamento
começa? Na água ou na aluvião
ou nos relevos
que levam a uma
e não outra realidade
territorial?
Nos bosques densos de caducifólias
laboriosos animais enterram
no húmus as folhas pretéritas
da mesma
transformada
terra vegetal.
Que correspondência existe
entre os muros
das propriedades
e as paredes das casas
e esta antiquíssima
matéria inflamável?
Uma criança
corre a caminho dos largos
e ergue a sua voz
como um clamor
a invocar os astros
na manhã de cinza.
Tudo é um novelo indecifrável
de relações que ligam tudo
a coisa nenhuma?
quinta-feira, maio 06, 2010
[O Verão quente]
Ficaram primeiro rendidos ao fascínio das frases,
à melancólica exultação das pausas, à capacidade
de evocação de coisas e lugares. Foi no ano em
que as águas desceram até às curvas de nível
da raiz do junco e os retornados ergueram nos
pátios o desenho das periferias urbanas,
as fasquias e os caixotes de contraplacado,
os panos de tenda, as tábuas encostadas
às paredes de cimento dos anexos. Em cima dos
palcos, nas varandas, nos muros dos tanques,
os acrobatas ágeis moviam archotes e
iluminavam as plateias com o fascínio das frases.
Os altifalantes do largo, a música das fitas de
plástico e a cerveja a correr nos balcões metálicos
dos bares, os discursos na escola primária,
os cartazes afixados na porta dos armazéns
ou distribuídos à mão em dias de mercado. E só
depois o Verão. E eles rendidos ao lume
avassalador dos archotes, ao fascínio das frases.
à melancólica exultação das pausas, à capacidade
de evocação de coisas e lugares. Foi no ano em
que as águas desceram até às curvas de nível
da raiz do junco e os retornados ergueram nos
pátios o desenho das periferias urbanas,
as fasquias e os caixotes de contraplacado,
os panos de tenda, as tábuas encostadas
às paredes de cimento dos anexos. Em cima dos
palcos, nas varandas, nos muros dos tanques,
os acrobatas ágeis moviam archotes e
iluminavam as plateias com o fascínio das frases.
Os altifalantes do largo, a música das fitas de
plástico e a cerveja a correr nos balcões metálicos
dos bares, os discursos na escola primária,
os cartazes afixados na porta dos armazéns
ou distribuídos à mão em dias de mercado. E só
depois o Verão. E eles rendidos ao lume
avassalador dos archotes, ao fascínio das frases.
quarta-feira, maio 05, 2010
[Como se lhe fosse permitido tanto]
Como se lhe fosse permitido tanto: perder
tudo: um nome os bens uma reputação
uma biografia e estar isento
da compaixão.
tudo: um nome os bens uma reputação
uma biografia e estar isento
da compaixão.
[Os teus amigos enviam mensagens a gabar os versos]
Olhas os guindastes das obras esse
movimento quase perfeito da economia
a construir a sua tão densa e apertada teia não chove
há quase uma semana isto não deve
estar ainda devidamente estudado a meteorologia
às vezes parece uma ciência vacilante à procura
de objecto. Despedimentos: a arte valoriza-se nos mercados
quando os guindastes ficam parados como catedrais
suspensas da evolução das margens de lucro os
teus amigos enviam mensagens a gabar os versos
a dizer que curiosamente estão a aprender
a gostar de poesia lá vêm de novo as nuvens
desenhadas no mapa das previsões logo
vi. O melhor é desarmá-los não vá o consenso
e a falta de obscuridade metê-los a todos e mal que ficavam
no retrato de mãos dadas com a lírica.
movimento quase perfeito da economia
a construir a sua tão densa e apertada teia não chove
há quase uma semana isto não deve
estar ainda devidamente estudado a meteorologia
às vezes parece uma ciência vacilante à procura
de objecto. Despedimentos: a arte valoriza-se nos mercados
quando os guindastes ficam parados como catedrais
suspensas da evolução das margens de lucro os
teus amigos enviam mensagens a gabar os versos
a dizer que curiosamente estão a aprender
a gostar de poesia lá vêm de novo as nuvens
desenhadas no mapa das previsões logo
vi. O melhor é desarmá-los não vá o consenso
e a falta de obscuridade metê-los a todos e mal que ficavam
no retrato de mãos dadas com a lírica.
terça-feira, maio 04, 2010
domingo, maio 02, 2010
[Chamo-me Luísa]
Chamo-me Luísa. Sou uma personagem de ficção. Devem conhecer-me, pelo menos, do Primo Basílio. Mas sou também a drª Luísa Fragoso duma novela reles do Manuel Arouca, a Maria Luísa dum romance notável e esquecido de José Lins do Rego, a mulher do conto do Onésimo que saiu dos Açores na ilusão de que é possível fugir ao destino que o acaso nos ditou, a personagem obscura ou exaltante de um outro livro cujas páginas nunca te será dado leres. Já fui concubina e princesa, criada de servir, engenheira electrotécnica, assalariada rural no Alentejo. Já vivi no Iémen, numa cidadezinha da Bretanha rodeada por um bosque, em Angra do Heroísmo, em Portimão. Já fiz de tudo. Só nunca fiz de mim mesma. E por isso nunca soube o que era (de facto) acordar ou sentir o desejo ou o cheiro da terra molhada, ter frio, ter medo, amar, ser feliz. É verdade que já caminhei sobre o fogo, que já morri, que já ressuscitei, que já fui condenada ao degredo, que já conheci a glória, que já traí, que já dormi no deserto, que já fui heroína numa batalha em que os guerreiros mais corajosos acabaram por desertar. Mas fui sempre, senti sempre, por interposta pessoa. Por isso chego a pensar que trocaria tudo, sei lá, por um instante em que pudesse (de facto) sentir. Podia ser a dor, tudo bem. A dor que me trouxesse as lágrimas mais concretas. E que essas lágrimas me corressem na cara, sim, mesmo que então me descobrisse a mais desgraçada das mulheres à face da terra.
sexta-feira, abril 30, 2010
[Fronteira]
Sim: não desconhecia que às vezes é muito estreita a fronteira que separa as muralhas e as ruínas.
quarta-feira, abril 28, 2010
[Um livro]
Uma jovem desapareceu nas imediações de Tavira no comboio que saiu de Faro ao fim da tarde a caminho de Vila Real de Santo António no dia 22 de Dezembro de 2009. O revisor (que permanece internado no Hospital Distrital num estado de apatia interrompido por momentos duma perturbante lucidez) garante que ela segurava na mão esquerda um livro de Constantino Paustovsky, de capa cor de laranja, intitulado «Chuva na Madrugada»; que a jovem desapareceu no instante preciso em que ele lhe devolvia o bilhete e lhe desejava boa viagem; e que nesse instante preciso é como se o sol, a sua luz imensa, se tivesse despenhado na Ria Formosa enquanto uma súbita labareda muito azul se desprendia da ligeira ondulação das suas águas.
[Originalmente publicado em http://umpoucomaisdesul.blogspot.com]
[Originalmente publicado em http://umpoucomaisdesul.blogspot.com]
terça-feira, abril 27, 2010
[As páginas dos romances]
Arriscávamos o salto mortal
voando com uma venda nos olhos
dos andaimes para o monte de areia da póvoa.
As obras da escola eram a nossa perdição:
as fasquias de alumínio, o ondulado de luzalite
das coberturas, o entulho, o ressalto
exacto do encaixe das tijoleiras, o pó quase de talco
dos sacos de cimento da cimpor. Nos sábados
à tarde erguíamos muros no combarro com tijolo
de quinze, marcávamos com estacas de pinho
o perímetro exterior do pavilhão, ligávamos a betoneira
a olhar em sobressalto os movimentos oscilatórios
do balde. Penso que era assim. Às vezes
pergunto o que fica dos livros, o que pertence
e não pertence à literatura, o que acrescentaram
à nossa vida as páginas dos romances.
voando com uma venda nos olhos
dos andaimes para o monte de areia da póvoa.
As obras da escola eram a nossa perdição:
as fasquias de alumínio, o ondulado de luzalite
das coberturas, o entulho, o ressalto
exacto do encaixe das tijoleiras, o pó quase de talco
dos sacos de cimento da cimpor. Nos sábados
à tarde erguíamos muros no combarro com tijolo
de quinze, marcávamos com estacas de pinho
o perímetro exterior do pavilhão, ligávamos a betoneira
a olhar em sobressalto os movimentos oscilatórios
do balde. Penso que era assim. Às vezes
pergunto o que fica dos livros, o que pertence
e não pertence à literatura, o que acrescentaram
à nossa vida as páginas dos romances.
segunda-feira, abril 26, 2010
[Um diário antigo: das notas de A. S., 1]
É sobretudo silêncio o que ficará de todos estes anos. Mas à ignomínia nada há-de dever tanto como saber-se um dia que nos apagámos de nós; que chegámos a nem responder quando alguém nos chamava pelo nome.
domingo, abril 25, 2010
[As barragens, 2]
Custa apenas saber
que a ignorância
e também (ou sobretudo) os interesses
é que farão subir
a esta cota as águas do rio
e não o curso das nascentes
ou a nuvem
ou o modo como
nos talvegues se desenham (e inscrevem)
as vertentes das encostas.
que a ignorância
e também (ou sobretudo) os interesses
é que farão subir
a esta cota as águas do rio
e não o curso das nascentes
ou a nuvem
ou o modo como
nos talvegues se desenham (e inscrevem)
as vertentes das encostas.
sábado, abril 24, 2010
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