quarta-feira, maio 05, 2010

[Como se lhe fosse permitido tanto]

Como se lhe fosse permitido tanto: perder
tudo: um nome os bens uma reputação 
uma biografia e estar isento 
da compaixão.

[Os teus amigos enviam mensagens a gabar os versos]

Olhas os guindastes das obras esse
movimento quase perfeito da economia
a construir a sua tão densa e apertada teia não chove
há quase uma semana isto não deve

estar ainda devidamente estudado a meteorologia
às vezes parece uma ciência vacilante à procura
de objecto. Despedimentos: a arte valoriza-se nos mercados
quando os guindastes ficam parados como catedrais

suspensas da evolução das margens de lucro os
teus amigos enviam mensagens a gabar os versos
a dizer que curiosamente estão a aprender
a gostar de poesia lá vêm de novo as nuvens

desenhadas no mapa das previsões logo
vi. O melhor é desarmá-los não vá o consenso
e a falta de obscuridade metê-los a todos e mal que ficavam
no retrato de mãos dadas com a lírica.
[Acrílico sobre madeira. 2.20*0.50 m]



terça-feira, maio 04, 2010

[Também eu quero tanto ser um poeta moderno]

Juro que nunca
mais escrevo pedra
nem álamo.

domingo, maio 02, 2010

[Chamo-me Luísa]

Chamo-me Luísa. Sou uma personagem de ficção. Devem conhecer-me, pelo menos, do Primo Basílio. Mas sou também a drª Luísa Fragoso duma novela reles do Manuel Arouca, a Maria Luísa dum romance notável e esquecido de José Lins do Rego, a mulher do conto do Onésimo que saiu dos Açores na ilusão de que é possível fugir ao destino que o acaso nos ditou, a personagem obscura ou exaltante de um outro livro cujas páginas nunca te será dado leres. Já fui concubina e princesa, criada de servir, engenheira electrotécnica, assalariada rural no Alentejo. Já vivi no Iémen, numa cidadezinha da Bretanha rodeada por um bosque, em Angra do Heroísmo, em Portimão. Já fiz de tudo. Só nunca fiz de mim mesma. E por isso nunca soube o que era (de facto) acordar ou sentir o desejo ou o cheiro da terra molhada, ter frio, ter medo, amar, ser feliz. É verdade que já caminhei sobre o fogo, que já morri, que já ressuscitei, que já fui condenada ao degredo, que já conheci a glória, que já traí, que já dormi no deserto, que já fui heroína numa batalha em que os guerreiros mais corajosos acabaram por desertar. Mas fui sempre, senti sempre, por interposta pessoa. Por isso chego a pensar que trocaria tudo, sei lá, por um instante em que pudesse (de facto) sentir. Podia ser a dor, tudo bem. A dor que me trouxesse as lágrimas mais concretas. E que essas lágrimas me corressem na cara, sim, mesmo que então me descobrisse a mais desgraçada das mulheres à face da terra.

sexta-feira, abril 30, 2010

[Fronteira]

Sim: não desconhecia que às vezes é muito estreita a fronteira que separa as muralhas e as ruínas.

quarta-feira, abril 28, 2010

[Um livro]

Uma jovem desapareceu nas imediações de Tavira no comboio que saiu de Faro ao fim da tarde a caminho de Vila Real de Santo António no dia 22 de Dezembro de 2009. O revisor (que permanece internado no Hospital Distrital num estado de apatia interrompido por momentos duma perturbante lucidez) garante que ela segurava na mão esquerda um livro de Constantino Paustovsky, de capa cor de laranja, intitulado «Chuva na Madrugada»; que a jovem desapareceu no instante preciso em que ele lhe devolvia o bilhete e lhe desejava boa viagem; e que nesse instante preciso é como se o sol, a sua luz imensa, se tivesse despenhado na Ria Formosa enquanto uma súbita labareda muito azul se desprendia da ligeira ondulação das suas águas.


[Originalmente publicado em http://umpoucomaisdesul.blogspot.com]

terça-feira, abril 27, 2010

[As páginas dos romances]

Arriscávamos o salto mortal
voando com uma venda nos olhos
dos andaimes para o monte de areia da póvoa.
As obras da escola eram a nossa perdição:

as fasquias de alumínio, o ondulado de luzalite
das coberturas, o entulho, o ressalto
exacto do encaixe das tijoleiras, o pó quase de talco
dos sacos de cimento da cimpor. Nos sábados

à tarde erguíamos muros no combarro com tijolo
de quinze, marcávamos com estacas de pinho
o perímetro exterior do pavilhão, ligávamos a betoneira
a olhar em sobressalto os movimentos oscilatórios

do balde. Penso que era assim. Às vezes
pergunto o que fica dos livros, o que pertence
e não pertence à literatura, o que acrescentaram
à nossa vida as páginas dos romances.

segunda-feira, abril 26, 2010

[Um diário antigo: das notas de A. S., 1]

É sobretudo silêncio o que ficará de todos estes anos. Mas à ignomínia nada há-de dever tanto como saber-se um dia que nos apagámos de nós; que chegámos a nem responder quando alguém nos chamava pelo nome.

domingo, abril 25, 2010

[As barragens, 3]

Foto: MJV (em telemóvel). Março 2010.



Estes são (ainda) os rios.

[As barragens, 2]

Custa apenas saber
que a ignorância 
e também (ou sobretudo) os interesses
é que farão subir 
a esta cota as águas do rio

e não o curso das nascentes 
ou a nuvem
ou o modo como 
nos talvegues se desenham (e inscrevem) 
as vertentes das encostas.

sábado, abril 24, 2010

[25: uma fotografia antiga]


jcb

[As barragens, 1]


Fotografia: MJV

sexta-feira, abril 23, 2010

[Fragmento]

... precisava de um espaço onde o ruído do mundo ficasse do lado de fora das paredes das casas. Procurava encontrar-se; procurava, portanto, o contrário da solidão.

quinta-feira, abril 22, 2010

«Tão raro»

Tão raro é o tempo no jardim
que os pássaros não cantam
só de olhos fechados voam.


poema de leitor; enviado por mail.

Dos leitores

Alguns leitores usam o mail em vez das caixas de comentários. Mas raramente nos enviam poemas. E mais raramente, enviando-os, nos surpreendem; como é agora dar-se o caso. Por isso, na entrada imediatamente acima, segue o poema de um leitor – que o escreve no contexto temático das mais recentes entradas.

[Demasiado tarde]

Demasiado tarde descobriu que
o fio de Ariadne
era o próprio labirinto.

quarta-feira, abril 21, 2010

[O paraíso perdido]

O jardim («a que outros 
chamam paraíso») 
é construído contra o quotidiano
e o deserto. Com

a certeza de que nunca perdemos
o que um dia
tanto nos pertenceu.

[entre a casa e os jardins]

jcb

[Uma fotografia antiga do Rio Tâmega e do Bairro da Madalena]

i.
O barco está errado: o fotógrafo
(anónimo?) o terá pressentido no exacto momento
do disparo. A vela, esse belíssimo triângulo
isósceles, deveria inscrever-se no estrito
espaço escuro entre as duas casas
e separar-se dos elementos verticais do fundo
de que acaba por parecer
fazer parte: ligeiramente mais à direita.
E o seu reflexo na água, assim,
cortaria a mancha de sombra
como uma afectuosa cicatriz ténue.

ii.
Há um momento de angústia: esse em que o fotógrafo
acredita ter-se encontrado ele mesmo
com o momento único e irrepetível.
O autor deste retrato o pressentiu
por um instante: mas disparou tarde: quando
já o barco avançara. Bem certo é
que chegamos quase sempre tarde
às coisas perfeitas que nos esperam.

iii.
O jovem está errado: há uma identidade
que se perde, uma individualidade
que se esbate: a sombra vertical
de uma das árvores, reflectida no rio, não deveria
tocar a sua cabeça e misturar-se nela.

iv.
O barco e o observador são apenas um
e mesmo elemento da composição: o barco
não existe sem o jovem que o surpreende
num lento movimento à superfície
das águas; e o olhar do jovem não existe
sem a imagem de espelho devolvida
aos seus olhos pela vela muito branca, leve,
esguia, quase imaterial.

v.
O círculo e o quadrado de luz, à direita,
sob o último arco da ponte, estão
errados: rasuram o fulgor da estreita linha
iluminada do tronco da árvore em primeiro plano:
como se a não deixassem erguer-se inteira
para o céu do fim de tarde;
como se lhe impedissem a delimitação
da pressentida fronteira; como se o fogo irrompesse
por dentro da fotografia
onde mais não deveria existir
que um lume vagaroso.

vi.
Tudo o mais está certo: a ponte
que parece continuar para onde já não está
à força de aterros sucessivos
e alicerces; o volume dos edifícios num dinâmico
equilíbrio de vãos e coberturas, empenas
cegas, trapézios; e o rio,
claro, que vem de Espanha
e resiste aos erros de um retrato em que,
como quase sempre, não foi possível unir o tempo
e os fios todos
das múltiplas variáveis em jogo.


(Poema originalmente publicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt)