Custa apenas saber
que a ignorância
e também (ou sobretudo) os interesses
é que farão subir
a esta cota as águas do rio
e não o curso das nascentes
ou a nuvem
ou o modo como
nos talvegues se desenham (e inscrevem)
as vertentes das encostas.
domingo, abril 25, 2010
sábado, abril 24, 2010
sexta-feira, abril 23, 2010
[Fragmento]
... precisava de um espaço onde o ruído do mundo ficasse do lado de fora das paredes das casas. Procurava encontrar-se; procurava, portanto, o contrário da solidão.
quinta-feira, abril 22, 2010
«Tão raro»
Tão raro é o tempo no jardim
que os pássaros não cantam
só de olhos fechados voam.
poema de leitor; enviado por mail.
que os pássaros não cantam
só de olhos fechados voam.
poema de leitor; enviado por mail.
Dos leitores
Alguns leitores usam o mail em vez das caixas de comentários. Mas raramente nos enviam poemas. E mais raramente, enviando-os, nos surpreendem; como é agora dar-se o caso. Por isso, na entrada imediatamente acima, segue o poema de um leitor – que o escreve no contexto temático das mais recentes entradas.
quarta-feira, abril 21, 2010
[O paraíso perdido]
O jardim («a que outros
chamam paraíso»)
é construído contra o quotidiano
e o deserto. Com
a certeza de que nunca perdemos
o que um dia
tanto nos pertenceu.
chamam paraíso»)
é construído contra o quotidiano
e o deserto. Com
a certeza de que nunca perdemos
o que um dia
tanto nos pertenceu.
[Uma fotografia antiga do Rio Tâmega e do Bairro da Madalena]
i.O barco está errado: o fotógrafo
(anónimo?) o terá pressentido no exacto momento
do disparo. A vela, esse belíssimo triângulo
isósceles, deveria inscrever-se no estrito
espaço escuro entre as duas casas
e separar-se dos elementos verticais do fundo
de que acaba por parecer
fazer parte: ligeiramente mais à direita.
E o seu reflexo na água, assim,
cortaria a mancha de sombra
como uma afectuosa cicatriz ténue.
ii.
Há um momento de angústia: esse em que o fotógrafo
acredita ter-se encontrado ele mesmo
com o momento único e irrepetível.
O autor deste retrato o pressentiu
por um instante: mas disparou tarde: quando
já o barco avançara. Bem certo é
que chegamos quase sempre tarde
às coisas perfeitas que nos esperam.
iii.
O jovem está errado: há uma identidade
que se perde, uma individualidade
que se esbate: a sombra vertical
de uma das árvores, reflectida no rio, não deveria
tocar a sua cabeça e misturar-se nela.
iv.
O barco e o observador são apenas um
e mesmo elemento da composição: o barco
não existe sem o jovem que o surpreende
num lento movimento à superfície
das águas; e o olhar do jovem não existe
sem a imagem de espelho devolvida
aos seus olhos pela vela muito branca, leve,
esguia, quase imaterial.
v.
O círculo e o quadrado de luz, à direita,
sob o último arco da ponte, estão
errados: rasuram o fulgor da estreita linha
iluminada do tronco da árvore em primeiro plano:
como se a não deixassem erguer-se inteira
para o céu do fim de tarde;
como se lhe impedissem a delimitação
da pressentida fronteira; como se o fogo irrompesse
por dentro da fotografia
onde mais não deveria existir
que um lume vagaroso.
vi.
Tudo o mais está certo: a ponte
que parece continuar para onde já não está
à força de aterros sucessivos
e alicerces; o volume dos edifícios num dinâmico
equilíbrio de vãos e coberturas, empenas
cegas, trapézios; e o rio,
claro, que vem de Espanha
e resiste aos erros de um retrato em que,
como quase sempre, não foi possível unir o tempo
e os fios todos
das múltiplas variáveis em jogo.
(Poema originalmente publicado aqui: http://chaves.blogs.sapo.pt)
segunda-feira, abril 19, 2010
[Os jardins]
Nunca ninguém
no exílio o ouviu lamentar-se
dos desastres: a rasura das fronteiras
ou a distância
a que ficaram os frisos de cedro,
os azulejos dos palácios, a água
rumorosa dos tanques,
a tão concreta e abstracta
geometria
dos mosaicos dos pátios.
Num último momento
falou apenas dos jardins: do perfume
das laranjeiras em Abril.
no exílio o ouviu lamentar-se
dos desastres: a rasura das fronteiras
ou a distância
a que ficaram os frisos de cedro,
os azulejos dos palácios, a água
rumorosa dos tanques,
a tão concreta e abstracta
geometria
dos mosaicos dos pátios.
Num último momento
falou apenas dos jardins: do perfume
das laranjeiras em Abril.
[O que trazemos das cidades]
1.
É o que trazemos
(tanto) das cidades: o empedrado
largo da pequena praça,
um rosto, a rua dos bares
onde o lixo é recolhido de manhã,
o milagre de uma promessa ou um nome
anotados em guardanapos de papel
nas mesas das esplanadas.
2.
A senhora
da agência de viagens, já
em desespero, insistia
no arquipélago das Quirimbas,
nas pirâmides
e um jantar
no Cairo à luz das velas, numa pescaria
no Bósforo, num programa
de seis noites no deserto
com os tuaregues. Mas
eu queria apenas fumar de novo
um cigarro na varanda do Palazzo Vecchio
depois de quatro longas horas
de comunicações
sobre a requalificação
das periferias urbanas. E
isso não tinha.
3.
Na avenida,
sob as araucárias, chovia
e não havia um táxi.
É o que trazemos
(tanto) das cidades: o empedrado
largo da pequena praça,
um rosto, a rua dos bares
onde o lixo é recolhido de manhã,
o milagre de uma promessa ou um nome
anotados em guardanapos de papel
nas mesas das esplanadas.
2.
A senhora
da agência de viagens, já
em desespero, insistia
no arquipélago das Quirimbas,
nas pirâmides
e um jantar
no Cairo à luz das velas, numa pescaria
no Bósforo, num programa
de seis noites no deserto
com os tuaregues. Mas
eu queria apenas fumar de novo
um cigarro na varanda do Palazzo Vecchio
depois de quatro longas horas
de comunicações
sobre a requalificação
das periferias urbanas. E
isso não tinha.
3.
Na avenida,
sob as araucárias, chovia
e não havia um táxi.
sexta-feira, abril 16, 2010
[uma nuvem de cinza]
1.
encostas os teus olhos de fogo
à matéria
combustível
e uma nuvem
de cinza
cobre a europa
2.
é uma evidência desconcertante:
os teus olhos
fecharem os aeroportos
quinta-feira, abril 15, 2010
[a glória e o reconhecimento]
sei que devo ter cuidado
isso mo diz o Amigo de modo singular
lembrando-me que a glória e o reconhecimento são vacas muito esquivas
que não posso dar-me ao luxo de escrever sobre o João Moutinho
um poeta como eu que até começava a ser considerado
em lisboa. e eu que sim
contrito a lamentar-me enquanto lia as
seis páginas dele com as apreciações ao resumo da assírio
de perder assim as noites a ver jogos de bola e
a beber cerveja
e a invectivar arbitragens provavelmente sem que
a razão inteira esteja do meu lado
a citar a despropósito o dias da cunha e
as conversas sobre o sistema
a não escrever uma linha que se diga benza-te deus
e possa acrescentar um módico de mérito
ao que um dia escrevi.
isso mo diz o Amigo de modo singular
lembrando-me que a glória e o reconhecimento são vacas muito esquivas
que não posso dar-me ao luxo de escrever sobre o João Moutinho
um poeta como eu que até começava a ser considerado
em lisboa. e eu que sim
contrito a lamentar-me enquanto lia as
seis páginas dele com as apreciações ao resumo da assírio
de perder assim as noites a ver jogos de bola e
a beber cerveja
e a invectivar arbitragens provavelmente sem que
a razão inteira esteja do meu lado
a citar a despropósito o dias da cunha e
as conversas sobre o sistema
a não escrever uma linha que se diga benza-te deus
e possa acrescentar um módico de mérito
ao que um dia escrevi.
quarta-feira, abril 14, 2010
terça-feira, abril 13, 2010
[5 poemas do derby]
1: Isto começa ligeiramente a irritar-me
Não há ninguém
que dê ao Moutinho
um alfinete de dama
de modo a não estar a
braçadeira de capitão sempre
a descair-lhe
distraindo-se assim o moço de
ter que puxá-la
procurando pô-la
sistematicamente
no sítio?
2: A chuva
(Nota: poema escrito entre os 47 e os 65 minutos de jogo ou de como se vê o quanto é certo o popular ditado algarvio que diz não limpes o cu antes de cagar.)
Dei uma volta
pela Venda Nova um pouco
antes do jogo a ver (assim o suspeitava)
as ruas já desertas como
se houvesse uma revolução e
os militares decretassem
o recolher obrigatório. Também
eu (não tardou) haveria
de sentar-me em frente à TV
e aqui estou depois do intervalo
a rir-me de mim
e de todos mas
sobretudo dos que pagaram
bilhete e foram ao estádio da Luz
com bandeirinhas vermelhas
a apanhar chuva e
a acenar ao boneco.
3: Nós é mais pelos vistos o meio da tabela
O Benfica a
jogar assim estaria ao intervalo
a levar dois zero
do Desportivo
de Chaves. Mas calhou-lhe
em sorte
o meu Sporting
a evoluir no relvado
um cibo
(como hei-de dizer isto?)
fracote.
4: Isto dos apitos
Ai
que ladrão!
5: Enfim
É claro
se formos a ver
eu sei
isto é
sobretudo
dor
de cotovelo.
Não há ninguém
que dê ao Moutinho
um alfinete de dama
de modo a não estar a
braçadeira de capitão sempre
a descair-lhe
distraindo-se assim o moço de
ter que puxá-la
procurando pô-la
sistematicamente
no sítio?
2: A chuva
(Nota: poema escrito entre os 47 e os 65 minutos de jogo ou de como se vê o quanto é certo o popular ditado algarvio que diz não limpes o cu antes de cagar.)
Dei uma volta
pela Venda Nova um pouco
antes do jogo a ver (assim o suspeitava)
as ruas já desertas como
se houvesse uma revolução e
os militares decretassem
o recolher obrigatório. Também
eu (não tardou) haveria
de sentar-me em frente à TV
e aqui estou depois do intervalo
a rir-me de mim
e de todos mas
sobretudo dos que pagaram
bilhete e foram ao estádio da Luz
com bandeirinhas vermelhas
a apanhar chuva e
a acenar ao boneco.
3: Nós é mais pelos vistos o meio da tabela
O Benfica a
jogar assim estaria ao intervalo
a levar dois zero
do Desportivo
de Chaves. Mas calhou-lhe
em sorte
o meu Sporting
a evoluir no relvado
um cibo
(como hei-de dizer isto?)
fracote.
4: Isto dos apitos
Ai
que ladrão!
5: Enfim
É claro
se formos a ver
eu sei
isto é
sobretudo
dor
de cotovelo.
[não é não temer]
Não é não temer
a morte (dizia)
mas a incompreensão
de que possa ser de outro modo
o sentirmo-nos vivos
que não seja
a morte não fazer sentido.
Vocação que me não foi
dada: defender-me dessa
abstracção que a poder tocar-me
não haveria de tocar
senão o que
em mim já não era
e não poderia nunca ter sido.
segunda-feira, abril 12, 2010
Poesia Ilimitada
Uma nota no Poesia & Lda., aqui, a propósito de escolhas, com um poema de António Cabral e tudo:
OS NOSSOS GOVERNOS
Numa coisa os nossos governos têm sido escrupulosamente
cristãos: mantêm a agricultura pobre para cumprir a profecia de
Cristo que diz: pobres sempre os tereis convosco.
OS NOSSOS GOVERNOS
Numa coisa os nossos governos têm sido escrupulosamente
cristãos: mantêm a agricultura pobre para cumprir a profecia de
Cristo que diz: pobres sempre os tereis convosco.
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