segunda-feira, abril 19, 2010

[quase os jardins]

jcb




[Palácio Bahia.]

[O que trazemos das cidades]

1.
É o que trazemos 
(tanto) das cidades: o empedrado 
largo da pequena praça, 
um rosto, a rua dos bares
onde o lixo é recolhido de manhã,
o milagre de uma promessa ou um nome
anotados em guardanapos de papel
nas mesas das esplanadas.

2.
A senhora 
da agência de viagens, já 
em desespero, insistia 
no arquipélago das Quirimbas, 
nas pirâmides 
e um jantar 
no Cairo à luz das velas, numa pescaria
no Bósforo, num programa
de seis noites no deserto
com os tuaregues. Mas
eu queria apenas fumar de novo 
um cigarro na varanda do Palazzo Vecchio
depois de quatro longas horas
de comunicações
sobre a requalificação 
das periferias urbanas. E 
isso não tinha.

3.
Na avenida,
sob as araucárias, chovia
e não havia um táxi.

sexta-feira, abril 16, 2010

[uma nuvem de cinza]

1.
encostas os teus olhos de fogo
à matéria
combustível

e uma nuvem
de cinza
cobre a europa

2.
é uma evidência desconcertante:
os teus olhos
fecharem os aeroportos

quinta-feira, abril 15, 2010

[a glória e o reconhecimento]

sei que devo ter cuidado
isso mo diz o Amigo de modo singular
lembrando-me que a glória e o reconhecimento são vacas muito esquivas
que não posso dar-me ao luxo de escrever sobre o João Moutinho
um poeta como eu que até começava a ser considerado
em lisboa. e eu que sim
contrito a lamentar-me enquanto lia as
seis páginas dele com as apreciações ao resumo da assírio
de perder assim as noites a ver jogos de bola e
a beber cerveja
e a invectivar arbitragens provavelmente sem que
a razão inteira esteja do meu lado
a citar a despropósito o dias da cunha e
as conversas sobre o sistema
a não escrever uma linha que se diga benza-te deus
e possa acrescentar um módico de mérito
ao que um dia escrevi.

quarta-feira, abril 14, 2010

terça-feira, abril 13, 2010

[5 poemas do derby]

1: Isto começa ligeiramente a irritar-me

Não há ninguém
que dê ao Moutinho
um alfinete de dama
de modo a não estar a
braçadeira de capitão sempre
a descair-lhe
distraindo-se assim o moço de
ter que puxá-la
procurando pô-la
sistematicamente
no sítio?


2: A chuva

(Nota: poema escrito entre os 47 e os 65 minutos de jogo ou de como se vê o quanto é certo o popular ditado algarvio que diz não limpes o cu antes de cagar.)

Dei uma volta
pela Venda Nova um pouco
antes do jogo a ver (assim o suspeitava)
as ruas já desertas como
se houvesse uma revolução e
os militares decretassem
o recolher obrigatório. Também
eu (não tardou) haveria
de sentar-me em frente à TV
e aqui estou depois do intervalo
a rir-me de mim
e de todos mas
sobretudo dos que pagaram
bilhete e foram ao estádio da Luz
com bandeirinhas vermelhas
a apanhar chuva e
a acenar ao boneco.


3: Nós é mais pelos vistos o meio da tabela

O Benfica a
jogar assim estaria ao intervalo
a levar dois zero
do Desportivo 
de Chaves. Mas calhou-lhe
em sorte
o meu Sporting
a evoluir no relvado
um cibo
(como hei-de dizer isto?)
fracote.


4: Isto dos apitos

Ai
que ladrão!


5: Enfim

É claro
se formos a ver
eu sei
isto é
sobretudo
dor 
de cotovelo.

[não é não temer]

Não é não temer  
a morte (dizia)  
mas a incompreensão  
de que possa ser de outro modo  

o sentirmo-nos vivos  
que não seja  
a morte não fazer sentido.  
Vocação que me não foi  

dada: defender-me dessa  
abstracção que a poder tocar-me  
não haveria de tocar  

senão o que  
em mim já não era  
e não poderia nunca ter sido.

segunda-feira, abril 12, 2010

Poesia Ilimitada

Uma nota no Poesia & Lda., aqui, a propósito de escolhas, com um poema de António Cabral e tudo:

OS NOSSOS GOVERNOS

Numa coisa os nossos governos têm sido escrupulosamente
cristãos: mantêm a agricultura pobre para cumprir a profecia de
Cristo que diz: pobres sempre os tereis convosco.

domingo, abril 11, 2010

[em voo]

menor que o de todas as suas penas
é o peso 
do pássaro em voo

[10 de Abril em Moreanes]

Devem estar marcadas eleições 
intercalares em Mértola 
para a Junta de Freguesia: uma carrinha 
com altifalantes e doze 
militantes de prospectos 
lutavam (quase me pareceu 
em vão) na manhã de sábado 
contra a indiferença das casas 
e dos largos. A caminho de Moreanes 
era ainda o som da propaganda 
que teimava em erguer-se 
abrindo-se o vidro do carro 
a deixar entrar o odor misturado 
dos matos. Mas depois esperava-nos 
na casa de pasto do Pires 
a exposição anual 
de pintura: o Rico Sequeira 
a relembrar a importância decisiva 
de Weimar para a história 
da civilização, o Eurico 
a falar da estranha ética 
de Tóquio, a perdiz 
da Graça Morais pendurada 
numa parede de cal, o António 
Inverno a trazer o seu sorriso 
de criança às mesas 
da esplanada. O certo é 
que a lampreia e o cozido de grão e 
os vinhos do Alentejo 
ocuparam quase sempre o 
lugar que estaria reservado 
às artes e à reflexão 
sobre as imperfeições do mundo.

terça-feira, março 30, 2010


[Fonte: Caderno de desenhos de Geninha]

segunda-feira, novembro 02, 2009

[Geninha]


quarta-feira, outubro 28, 2009

[o Posto da Guarda]

segunda-feira, agosto 24, 2009

[Que a literatura]

É verdade que a literatura se resume
a esse exercício de retirar as palavras a mais.
O haiku por exemplo não passa 
de uma tentativa falhada de reduzir ao silêncio
o que necessariamente deixa
atrás de si um excessivo rumor.

[É aquela coisa]

Há tatuagens que se nos impõem.
É aquela coisa (assim dizia o outro) 
do obscuro domínio.
Um dia acordamos com uma imprevista
tatuagem a cobrir-nos o corpo
todo. Como se tivesse que ser.
E nunca chegamos a compreender
como foi possível ficar-nos no corpo
essa marca indelével.

[A velocidade]

A velocidade é o lugar do Verão.
O lugar mais improvável
sendo certo que a lentidão
mistura às nascentes as suas raízes de fogo.
Mas temos pressa. E é no Verão
que procuramos a última
oportunidade das nossas vidas.

quarta-feira, agosto 19, 2009

[Do tempo]

As mulheres
deixavam as crianças
a raspar na pedra dos alicerces:
a procurar
com as palhas de centeio
o ouro
refractário. E
entravam nas presas dos linhares
a rasgar na ara
as sucessivas saias
de renda
que as atavam.
E se gritavam
era de si mesmas que recolhiam –
incombustíveis –
a pérola de vidro
iluminada
da passagem
do tempo.

quinta-feira, agosto 06, 2009

[O Texto]

Eu estava fascinado com o texto
por imaginar que
nenhum evento
repercutia
a sua abstracta
enunciação. Eu virava as páginas dos livros
e mudava
os parágrafos
e depois procurava no forno do povo
ou no tanque do largo
ou na balança dos alqueires do eido ou
na lenha de bétula arrumada nos telheiros
o eco da frase inaugural
dos romances. A província era propícia a este jogo
por ausência
de reverberação:
imensos vales
e sucessivas encostas
delimitadas
pelos cumes prodigiosos
e por figuras de estilo inscritas
nas tábuas
de esquadria
dos pátios. Mas depois
o fogo de novembro desenhava a nuvem dos labirintos
como
se nos afastados
corredores das livrarias
houvesse que disputar o espólio
futuro de nem
termos sido
jovens.

segunda-feira, agosto 03, 2009

[Um exame do Liceu]

Imagino, agora à distância, poucas conjugações mais adversas: eu tinha acabado de fazer dezassete anos, de saber a data do exame de matemática e de me apaixonar por uma rapariga belíssima do décimo primeiro ano de letras.

Lembro-me: o Notícias de Chaves aberto no suplemento do Florêncio. Ansioso, nervoso, à espera que ela saísse da aula de Filosofia. E, enfim, a mostrar-lhe o poema acabado de publicar. Era o começo da minha glória literária. Matilde (nome de código) leu vagarosamente. Depois olhou-me. «Que achas?», perguntei. Impaciente. Já a medo. E ela a ler de novo. Vagarosamente. E só então, num tom de opereta, num tom de falsete: «As obras de arte são de uma solidão infinita: para as abordar, nada pior que a crítica.» Eu fiquei a olhá-la, ela riu-se. «Anda», disse. Subimos à Rua Direita, descemos, entrámos na Ana Maria. «Acho que isto te vai fazer bem.» E ofereceu-me as Cartas a um Jovem Poeta, do Rilke.

Não me era estranha a aura intelectual que Matilde (nome de código) ganhara dia após dia nos corredores do Liceu. Os seus interesses, os seus conhecimentos, pareciam não ter fronteiras, limites. O Sebou, em compreendendo que havia ali uma chispa, avisou-me logo: «Ui, onde te vais meter.»

A matemática, portanto. Essa parecia a maior preocupação de Matilde. O meu exame. Como se os meus desassossegos lhe pertencessem. Uma preocupação a crescer à medida que o meu desinteresse se tornava mais óbvio.

Tínhamos combinado passar a tarde a estudar. Em casa dela. E ali estávamos nós, sozinhos, pela primeira vez. Sozinhos. Sentei-me, puxei do caderno de exercícios, do livro de matéria. Ela demorou-se na cozinha. Trouxe, enfim, chá e bolachas champagne, poisou o tabuleiro num canto da mesa redonda. Eu a olhá-la. Interdito. Deslumbrado. A morrer de desejo. Sentou-se. Eu continuava a olhá-la. A imaginar a curva finíssima dos seus ombros sob a blusa leve. «Quero tanto beijar-te, Matilde.» E ela a sorrir como se eu fosse parvo. E eu a respirar com dificuldade. A sentir-me parvo.

Matilde quebrou o gelo súbito, encheu duas chávenas com o chá ainda quente. «Bom. Vamos lá então a ver os teus grandes desafios, os teus grandes dramas.» Disse. Decidida, quase a impor uma ordem, a estender a mão esquerda ao livro de matemática. Não disfarcei um sorriso, a ironia, uma certa sobranceria. «Isto é complicado, Matilde. Isto não é filosofiazinha, os pré-socráticos a zimbrar conceitos, o Heraclito, o Zenão. Isto é senos e cossenos, tangentes. As chamadas funções complexas, Matilde.» E ela a corrigir-me: «Funções complexas elementares.» Não queria crer. Mau. Tu não queres ver que à gaja não lhe era estranha a trigonometria? Puxei dos galões. Fiz um ar sério. Abri o livro quase ao acaso. E disparei, pomposo, a arredondar as sílabas: «Pois muito bem: qual o valor máximo da função ípsilon igual a dez mais cinco cosseno vinte xis?» E ela a olhar-me como se me desarmasse. Como se me apanhasse em falso. Eu sem rectaguardas, sem defesas. E respondeu: «Quinze, claro. Dez mais cinco vezes um. É só fazer as contas. Quando é que o factor cosseno vinte xis é máximo? Quando, claro, é igual a um.»

A camioneta da carreira de Boticas saía do Jardim do Bacalhau às sete menos vinte. Sentei-me, sozinho, num dos bancos da frente. Sentia-me a pessoa mais infeliz à face da terra. Colei a cabeça ao vidro grande da janela, deixei que passassem por mim os telhados do Santo Amaro, a linha dos amieiros da margem do Tâmega, as valetas da subida de Curalha, os pinheiros da Pastoria, o castanheiro imenso no fim da recta de seiscentos metros que levava de Curalha às curvas fechadas de Casas Novas. E puxei do livro que Matilde (nome de código) me tinha oferecido em resposta a uma solicitação de crítica literária.

Foi então que o Sebou se aproximou e se sentou a meu lado. «Então aquilo lá deu em águas de bacalhau.» Continuei em silêncio. Sentia-me triste. «Mau. Já vi que te fodeu a molécula. E que livro é esse?» Abri as Cartas a um Jovem Poeta. De Rainer Maria Rilke. Ao calhas. E comecei a ler:

«Ninguém o pode aconselhar ou ajudar: ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende as suas raízes pelos recantos mais profundos da sua alma; confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila da sua noite: ‘Sou forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar aquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade.»

A camioneta da carreira descia agora da Curva do Leite à Ponte Pedrinha. «Estás bonito, estás», disse o Sebou. E levantou-se.

Saí na paragem da Granja. Sentia-me triste, confuso. Nesse tempo eu vivia na Granja. Ia pela estrada, a caminho de casa, quando o Jeremias me acenou lá do fundo, das quatro mesas de plástico da esplanada do café das Sobreiras: «Tudo bem, campeão?» E eu que sim, a inventar um sorriso, a erguer a mão com o polegar esticado.


Publicado originalmente aqui.

sexta-feira, julho 31, 2009

[Junho]

Eles diziam «as intempéries» e a ondulação
recomeçava na água dos tanques.