terça-feira, junho 23, 2009

[Dos Anos de Glória]

1.
O baterista queixava-se:
nas alturas 
decisivas tinha 

quase 
sempre as mãos
ocupadas.

2.
A Diva até
a olhar-nos de
frente 

até olhos nos olhos
a víamos
de lado.

3.
Em digressão perdíamo-nos 
era muito nas
rotundas.

4.
O vocalista dizia
oh a Diva
e ficava 

mudo
quase quinze
dias.

5.
O nosso maior
sucesso não 
chegou 

a ser gravado
por falta
de vinil.

6.
Quando ele
e a Diva
desapareceram

a grande questão era
como arranjar um novo
baterista.

quinta-feira, junho 18, 2009

[Lamento do autor antigo]

para a Tatiana F., com amizade

A métrica é um chão que já deu uvas.
A rima é o outro chão. E agora é in
diferente o decassílabo ter vinte
ou doze ou quatro sílabas. Oh musas

de versos tão antigos: vá de retro!
Eu quero é ser moderno em estilo livre
e ter a liberdade que não tive
ao respeitar a norma, a rima, o metro.

Calhava-me ter outras companhias.
Talvez frequentar mais livrarias
e ter noção dos crimes que cometo.

Enfim, eu já merecia outro destaque:
autor tão consagrado na FNAC
e nem assim me livro do soneto.

quarta-feira, junho 17, 2009

[A contar o tempo]

Não dobres as páginas 
dos livros
no princípio 
dos romances. Não escrevas  
as promessas 
nas folhas das árvores 
do inverno. 
Não fiques a contar o tempo que passa entre uma nuvem
e outra – 
entre uma luz
e outra 
dos astros que acendem no céu
os seus demorados 
nomes. 

segunda-feira, junho 15, 2009

Convite


Terça-feira, 16 de Junho, 18h30. Em Lisboa. Na FNAC Chiado.

domingo, junho 14, 2009

[Objectos de cort/ ar]

Ele dizia eu às vezes parece
me que trago nos pulsos 
uma hélice ou uma navalha
de gelo. Objectos de cort
ar. Uma lâmina. A água fresca
dos púcaros. A toalha fi
na de linho. E depois
o movimento sucessivo das
coisas contra a ordem
do mundo e a cronologia. 

[As pedras]

As pedras que eu tirava dos bolsos 
para depois rasá-las no espelho
dos açudes. A ver na tarde 
a quase aleatória repercussão
da sombra. O silêncio a descer
de novo após os incêndios
da reverberação. E outra
vez a quietude do mundo suspensa
do arremesso das pedras
guardadas nos bolsos.

sexta-feira, junho 12, 2009

Os mais jovens


No lançamento do livro, no passado dia seis. Os mais jovens.

[Fotografia: João Pinto]

quinta-feira, junho 11, 2009

[Se a não tivesse]

Chegar ao coração das coisas
tocando-as: a pedra da varanda
e a nuvem das metáforas dos tanques;
a cerâmica dos jarros
de vinho; a página dos livros
das águas de aviação; o tampo da mesa
da cozinha se
a não tivesse levado
o tempo.

domingo, junho 07, 2009

[Avô Francisco]

O que mais lembro dele? O modo
delicado como espremia os favos? Ou 
esse gesto de censura
de subir os colarinhos
simultaneamente a dizer «as
correntes de ar são piores
que facas»? Não esquecerei nunca
o sabor exacto do mel das colmeias de Ribas
como não esquecerei nunca
o ranger da porta que eu então lhe fechava
até não ficar uma frincha
que o incomodasse.

quinta-feira, junho 04, 2009

{Elíptica}

Um dia descobrimos 
que também nos pertencem (eles 
e todos os outros) os planetas refractários
às promessas. Não 
nos livramos disso: dessas órbitas difusas
ou excêntricas; dessa característica
falta de luz própria que nem a nós mesmos 
chega a iluminar por dentro.
Talvez seja tarde. Talvez
seja apenas o tempo 
de desenharmos uma nova elíptica
geoestacionária 
no afastado lugar indefeso
do coração.

quarta-feira, junho 03, 2009

[A água]

O vedor
sentiu que a vara
apontava ao céu:
a nuvem
em vez 
das nascentes.

terça-feira, junho 02, 2009

[Pub]

O «Prazer e o Tédio», além de disponível na Feira do Livro do Porto, começa a chegar às livrarias. À Pátio de Letras, em Faro, por exemplo.

Jogar em Casa


No próximo sábado. Às 18.00 h. Em Vila Nova de Cacela.

domingo, maio 31, 2009

{Oh se não te conhecêssemos}

Desculpa
mas tens que continuar a atender o telemóvel
a dizer onde deixaste a chave da Casa 
quando vier o granizo e a tempestade.

Desculpa
mas não te safas com esta facilidade
ninguém acredita que não estás à nossa espera
quando começar a chover.

Desculpa
mas não é possível acender o fogo da lareira
se não fores tu a trazer os guiços de lenha
se não fores tu a estender na mesa do escano
as cinquenta e duas cartas da árvore dos segredos.

Desculpa
mas estamos todos à tua espera
com a certeza de que apenas resolveste chegar mais tarde
porque decidiste trocar-nos as voltas
oh se não te conhecêssemos.

sábado, maio 30, 2009

[Em segredo]

É este o lugar: no silêncio 
das águas do fiord
a sudoeste 
de honningsvag. A cabana 
é minúscula
e a mobília quase se reduz à cama e 
a uma
mesa de madeira de bétula
junto à lareira.
Mas temos o vinho 
e temos as cartas:
essas que uma vez marcámos 
em segredo
para que ambos perdêssemos
quando jogássemos 
um 
contra o outro. 

in «Os Sete Epígonos de Tebas» (inédito)

quarta-feira, maio 27, 2009

O começo

«Há um momento que pertence ao olhar. Corria o frio mês de Março de mil oitocentos e sessenta e cinco e Américo Fontes olhou a encosta e imaginou a casa a desenhar-se nas paredes alinhadas, nos prumos de sustentação dos alpendres, no pátio onde as folhas horizontais de uma tília futura estendiam já a sua sombra.»

«O Prazer e o Tédio». Edição Oficina do Livro. 

segunda-feira, maio 25, 2009

A capa

quinta-feira, maio 21, 2009

[Os países mudam]

Da rua via-se até ao fundo
a oficina
e a parede onde se penduravam as ferramentas
com os desenhos
delas.
As carroçarias dos automóveis
riscavam a sombra
na manhã de outubro
de se altear o brilho dos metais
por ali fora
com sucessivas camadas
de tinta.
E tudo se transformava
em permanência
por via do desembaraço: alavancas motrizes,
bielas, parafusos,
embraiagens. E circulavam
sempre nas ruas
muito azuis ou vermelhos
com a música alta
e sorrisos de quantos
lá cabiam dentro
nos bancos corridos
dos estados unidos
dos anos 
cinquenta. E
nas alamedas
a seiva das árvores procurava ascender
das raízes
aos ramos altos
por entre o rumor e o fumo
da gasolina
incombustível
dos motores
modificados: assim 
o socialismo
ancorava com dificuldade à sua base
os pressupostos
dele.
E as fotografias
dos turistas
repetiam apenas o brilho dos cromados
e as camadas de tinta
dos automóveis
que corriam na cidade
como se a revolução tivesse ainda 
num entroncamento 
com semáforos acesos
uma questão
digamos assim
mal 
resolvida
consigo mesma. 

terça-feira, maio 19, 2009

Está quase


«O Prazer e o Tédio» é o título definitivo do texto que aqui mesmo correu entre Fevereiro de 2008 e Janeiro de 2009. O romance, em edição da Oficina do Livro, chegará às livrarias no próximo mês de Junho.

segunda-feira, maio 18, 2009

[A Noite]

É no preciso momento em que uma membrana 
fina
de plasma
separa o lume da lareira
e o oxigénio. O tempo
e a luz trémula
do querosene. As peças 
de cerâmica
e a heráldica.
E as mulheres
sustêm a respiração
para que as crianças do inverno 
adormeçam 
nos retratos
das salas. E a noite do inverno 
fica suspensa
sobre os telhados
e as ruas. 
E ninguém diz uma palavra.
E ninguém se move em redor do lume
com medo
da repercussão
dos desastres.

in «Os Sete Epígonos de Tebas» (inédito)