Da rua via-se até ao fundo
a oficina
e a parede onde se penduravam as ferramentas
com os desenhos
delas.
As carroçarias dos automóveis
riscavam a sombra
na manhã de outubro
de se altear o brilho dos metais
por ali fora
com sucessivas camadas
de tinta.
E tudo se transformava
em permanência
por via do desembaraço: alavancas motrizes,
bielas, parafusos,
embraiagens. E circulavam
sempre nas ruas
muito azuis ou vermelhos
com a música alta
e sorrisos de quantos
lá cabiam dentro
nos bancos corridos
dos estados unidos
dos anos
cinquenta. E
nas alamedas
a seiva das árvores procurava ascender
das raízes
aos ramos altos
por entre o rumor e o fumo
da gasolina
incombustível
dos motores
modificados: assim
o socialismo
ancorava com dificuldade à sua base
os pressupostos
dele.
E as fotografias
dos turistas
repetiam apenas o brilho dos cromados
e as camadas de tinta
dos automóveis
que corriam na cidade
como se a revolução tivesse ainda
num entroncamento
com semáforos acesos
uma questão
digamos assim
mal
resolvida
consigo mesma.
quinta-feira, maio 21, 2009
terça-feira, maio 19, 2009
Está quase
segunda-feira, maio 18, 2009
[A Noite]
É no preciso momento em que uma membrana
fina
de plasma
separa o lume da lareira
e o oxigénio. O tempo
e a luz trémula
do querosene. As peças
de cerâmica
e a heráldica.
E as mulheres
sustêm a respiração
para que as crianças do inverno
adormeçam
nos retratos
das salas. E a noite do inverno
fica suspensa
sobre os telhados
e as ruas.
E ninguém diz uma palavra.
E ninguém se move em redor do lume
com medo
da repercussão
dos desastres.
fina
de plasma
separa o lume da lareira
e o oxigénio. O tempo
e a luz trémula
do querosene. As peças
de cerâmica
e a heráldica.
E as mulheres
sustêm a respiração
para que as crianças do inverno
adormeçam
nos retratos
das salas. E a noite do inverno
fica suspensa
sobre os telhados
e as ruas.
E ninguém diz uma palavra.
E ninguém se move em redor do lume
com medo
da repercussão
dos desastres.
in «Os Sete Epígonos de Tebas» (inédito)
Uma leitura
Ruy Ventura, a propósito de Os Sete Epígonos de Tebas: «Nos seus poemas contidos, meditativos, este livro tem contudo raros vestígios da narrativa mitológica dos “sete epígonos de Tebas” – da história dos sete chefes militares que vingaram a derrota dos seus ascendentes conquistando, em vez deles, a urbe fundada pelo introdutor mítico do alfabeto fenício no território grego. É, antes, uma reflexão alargada sobre a memória, sobre a passagem do tempo (…)»
Aqui.
domingo, maio 17, 2009
Escola pública, escola democrática
Há sempre os bons exemplos. São esses que contam. Além do Magalhães e da retórica política.
segunda-feira, maio 11, 2009
[Um poema sobre a crise económica]
Deve ser um manuscrito valioso: os planos
de viagem do zeppelin Hindenburgo que
sobrevoava os céus de Lisboa em
1936. Tenho-o diante de mim enquanto
escrevo um poema sobre a crise
económica e sei que um dia o haverei
de vender a bom preço.
de viagem do zeppelin Hindenburgo que
sobrevoava os céus de Lisboa em
1936. Tenho-o diante de mim enquanto
escrevo um poema sobre a crise
económica e sei que um dia o haverei
de vender a bom preço.
domingo, maio 10, 2009
[Só existe]
Só existe um caminho que
depois se bifurca na multiplicidade
de veredas que levam ao único
caminho do mundo.
depois se bifurca na multiplicidade
de veredas que levam ao único
caminho do mundo.
sábado, maio 09, 2009
[Os sonhos]
A lição maior que tiro do D. Quixote é
a de que o sonho é imprescindível
a termos os pés bem assentes na terra.
Quem não acredita que as pás
dos moinhos são ameaçadores gigantes
acabará como Sancho a adormecer
com dificuldade a pensar nos decretos
de governação das ilhas fabulosas.
a de que o sonho é imprescindível
a termos os pés bem assentes na terra.
Quem não acredita que as pás
dos moinhos são ameaçadores gigantes
acabará como Sancho a adormecer
com dificuldade a pensar nos decretos
de governação das ilhas fabulosas.
quinta-feira, maio 07, 2009
[A rarefacção]
Trabalhou
seis meses
nas plataformas
de petróleo. Dizia
que os helicópteros
pareciam suspensos
de uma nuvem
de poeira
de água
volátil. E que
nesse tempo
nem as mulheres
lhe lembravam.
seis meses
nas plataformas
de petróleo. Dizia
que os helicópteros
pareciam suspensos
de uma nuvem
de poeira
de água
volátil. E que
nesse tempo
nem as mulheres
lhe lembravam.
Do livro (inédito) «Os Sete Epígonos de Tebas»
intervalo
Só um intervalo para lembrar que ele há muitas questões. Há questões terríveis. Há a prostituição... o pauperismo... Ele há muitas questões... Pois há. E todas elas de gravidade intermédia.
sábado, maio 02, 2009
[Os noticiários da manhã]
Os noticiários da manhã abriram com essa imagem
fabulosa: dois poetas construíam um edifício.
Não era um edifício abstracto. Não
era o utópico edifício do coração das obras.
Era um edifício verdadeiro: alicerces,
paredes, telhado; pedra, tijolos,
cimento. Em vez do exercício habitual
de poetas procurando destruir os edifícios
todos da cidade, um a um, disparando canhões
de pólen, estes dois poetas erguiam
um edifício verdadeiro, concreto,
tangível. E isto é de uma humanidade
comovente. E isto chego a pensar
que quase merecia um poema.
fabulosa: dois poetas construíam um edifício.
Não era um edifício abstracto. Não
era o utópico edifício do coração das obras.
Era um edifício verdadeiro: alicerces,
paredes, telhado; pedra, tijolos,
cimento. Em vez do exercício habitual
de poetas procurando destruir os edifícios
todos da cidade, um a um, disparando canhões
de pólen, estes dois poetas erguiam
um edifício verdadeiro, concreto,
tangível. E isto é de uma humanidade
comovente. E isto chego a pensar
que quase merecia um poema.
[É verdade que sinto]
É verdade que sinto um imenso desprezo
pelos poetas. Por todos os poetas.
Esses seres ignóbeis que escrevem
a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,
nos queima os dedos distraídos. Uma
vez esteve aqui um poeta. Escreveu
a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas
do fogo sujam as paredes e os
mosaicos vidrados da sala de reuniões
do Conselho de Administração.
pelos poetas. Por todos os poetas.
Esses seres ignóbeis que escrevem
a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,
nos queima os dedos distraídos. Uma
vez esteve aqui um poeta. Escreveu
a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas
do fogo sujam as paredes e os
mosaicos vidrados da sala de reuniões
do Conselho de Administração.
[Uma leitura pública num café de Punta Umbría]
Quando leio um poema em voz alta
sinto que as pessoas me olham
como se esperassem uma revelação.
Como se estivessem à espera dos milagres.
E hoje, finalmente, quase cedo à
tentação de explicar os mecanismos
dos milagres. Por exemplo:
eu posso fazer gelo escrevendo apenas
a palavra «gelo». E isso mesmo
faria neste momento
se não temesse que os mais distraídos
usassem o gelos nos copos
altos do gin tónico.
sinto que as pessoas me olham
como se esperassem uma revelação.
Como se estivessem à espera dos milagres.
E hoje, finalmente, quase cedo à
tentação de explicar os mecanismos
dos milagres. Por exemplo:
eu posso fazer gelo escrevendo apenas
a palavra «gelo». E isso mesmo
faria neste momento
se não temesse que os mais distraídos
usassem o gelos nos copos
altos do gin tónico.
terça-feira, abril 28, 2009
[Casas novas]
Uma sombra fugidia atravessa o cenário
como se um amável fantasma
dos livros deambulasse por entre
os talos curtos de couve penca
e as casas novas com escaleira exterior
de granito e persianas de plástico.
A estrada do loteamento rasgou os campos
e as cancelas das traseiras dos
quintais abrem agora à frente urbana.
como se um amável fantasma
dos livros deambulasse por entre
os talos curtos de couve penca
e as casas novas com escaleira exterior
de granito e persianas de plástico.
A estrada do loteamento rasgou os campos
e as cancelas das traseiras dos
quintais abrem agora à frente urbana.
sábado, abril 25, 2009
sexta-feira, abril 24, 2009
quinta-feira, abril 23, 2009
[O pão]
Não queiras saber da roça
e do mato levado em gabelas
aos pátios e aos currais.
Não queiras saber do estrume
que a fertilidade dos campos
exige. Olha o pão a ser retirado
do forno e imagina que tudo
começou no fintar e no tender
e no calor das brasas varridas
com o matão da urzeira.
e do mato levado em gabelas
aos pátios e aos currais.
Não queiras saber do estrume
que a fertilidade dos campos
exige. Olha o pão a ser retirado
do forno e imagina que tudo
começou no fintar e no tender
e no calor das brasas varridas
com o matão da urzeira.
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