segunda-feira, maio 18, 2009

Uma leitura

Ruy Ventura, a propósito de Os Sete Epígonos de Tebas: «Nos seus poemas contidos, meditativos, este livro tem contudo raros vestígios da narrativa mitológica dos “sete epígonos de Tebas” – da história dos sete chefes militares que vingaram a derrota dos seus ascendentes conquistando, em vez deles, a urbe fundada pelo introdutor mítico do alfabeto fenício no território grego. É, antes, uma reflexão alargada sobre a memória, sobre a passagem do tempo (…)»

Aqui.

Já lá estamos...


[Imagem retirada daqui]

domingo, maio 17, 2009

Escola pública, escola democrática

Há sempre os bons exemplos. São esses que contam. Além do Magalhães e da retórica política.

segunda-feira, maio 11, 2009

[Um poema sobre a crise económica]

Deve ser um manuscrito valioso: os planos
de viagem do zeppelin Hindenburgo que
sobrevoava os céus de Lisboa em
1936. Tenho-o diante de mim enquanto
escrevo um poema sobre a crise
económica e sei que um dia o haverei
de vender a bom preço.

domingo, maio 10, 2009

[Só existe]

Só existe um caminho que
depois se bifurca na multiplicidade
de veredas que levam ao único
caminho do mundo.

sábado, maio 09, 2009

[Os sonhos]

A lição maior que tiro do D. Quixote é
a de que o sonho é imprescindível 
a termos os pés bem assentes na terra.
Quem não acredita que as pás 
dos moinhos são ameaçadores gigantes 
acabará como Sancho a adormecer
com dificuldade a pensar nos decretos
de governação das ilhas fabulosas.

quinta-feira, maio 07, 2009

[A rarefacção]

Trabalhou 
seis meses
nas plataformas
de petróleo. Dizia 
que os helicópteros
pareciam suspensos
de uma nuvem
de poeira
de água
volátil. E que
nesse tempo
nem as mulheres
lhe lembravam.

Do livro (inédito) «Os Sete Epígonos de Tebas»

intervalo

Só um intervalo para lembrar que ele há muitas questões. Há questões terríveis. Há a prostituição... o pauperismo... Ele há muitas questões... Pois há. E todas elas de gravidade intermédia

sábado, maio 02, 2009

[Os noticiários da manhã]

Os noticiários da manhã abriram com essa imagem
fabulosa: dois poetas construíam um edifício.
Não era um edifício abstracto. Não
era o utópico edifício do coração das obras.
Era um edifício verdadeiro: alicerces,
paredes, telhado; pedra, tijolos,
cimento. Em vez do exercício habitual
de poetas procurando destruir os edifícios
todos da cidade, um a um, disparando canhões
de pólen, estes dois poetas erguiam
um edifício verdadeiro, concreto,
tangível. E isto é de uma humanidade
comovente. E isto chego a pensar
que quase merecia um poema.

[É verdade que sinto]

É verdade que sinto um imenso desprezo
pelos poetas. Por todos os poetas.
Esses seres ignóbeis que escrevem
a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,
nos queima os dedos distraídos. Uma
vez esteve aqui um poeta. Escreveu
a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas
do fogo sujam as paredes e os
mosaicos vidrados da sala de reuniões
do Conselho de Administração.

[Uma leitura pública num café de Punta Umbría]

Quando leio um poema em voz alta
sinto que as pessoas me olham
como se esperassem uma revelação.
Como se estivessem à espera dos milagres.
E hoje, finalmente, quase cedo à
tentação de explicar os mecanismos
dos milagres. Por exemplo:
eu posso fazer gelo escrevendo apenas
a palavra «gelo». E isso mesmo
faria neste momento
se não temesse que os mais distraídos
usassem o gelos nos copos
altos do gin tónico.

terça-feira, abril 28, 2009

[Casas novas]

Uma sombra fugidia atravessa o cenário
como se um amável fantasma
dos livros deambulasse por entre
os talos curtos de couve penca
e as casas novas com escaleira exterior
de granito e persianas de plástico.
A estrada do loteamento rasgou os campos
e as cancelas das traseiras dos
quintais abrem agora à frente urbana.

sábado, abril 25, 2009

[O Condestável]

Não precisavas
de ser santo 
para sê-lo.

Sê-lo-ás 
agora menos
que o és.

sexta-feira, abril 24, 2009

[Prémios]

O poeta laureado
não perguntou 
pela coroa 

de louros
ao entregarem-lhe 
o cheque.

[O sonho]

Quando acordei do sonho
de ter vencido nas olimpíadas
os quatrocentos metros barreiras

nenhum músculo me doía
e apenas me tocava
o desencanto

de ver que do pescoço
não pendia
nenhuma medalha de ouro.

[A traça]

O bicho dos livros analfabeto
só come
nos cantos 

da página
fora do corpo 
do texto.

quinta-feira, abril 23, 2009

[O pão]

Não queiras saber da roça
e do mato levado em gabelas
aos pátios e aos currais.
Não queiras saber do estrume
que a fertilidade dos campos
exige. Olha o pão a ser retirado
do forno e imagina que tudo
começou no fintar e no tender
e no calor das brasas varridas
com o matão da urzeira.

terça-feira, abril 21, 2009

[O uso dos venenos]

Desde sempre o direito agrário do reino
proíbe lançar-se o trovisco
nos rios e lagoas. O trovisco
retira o oxigénio das águas
e os seus ramos espetados nos linhares
afastam as bruxas. O direito
e a tradição dividem-se no uso
dos venenos. Por omissão legislativa
os cachos das flores aromáticas do trovisco
enlouquecem ainda as raparigas
que recolhem os arbustos em Abril
para fazer vassouras de varrer os pátios.

segunda-feira, abril 20, 2009

[O que não interessa]

Cresce desmesuradamente nos campos
o que não interessa.
Preparas a calda num pequeno
lagar de pedra e cortas as ervas
e depois com a mesma tesoura de sempre
os rebentos largos e inúteis
das videiras.

domingo, abril 19, 2009

[Os Sete Epígonos de Tebas]

OS QUE SE DEDICAM ÀS ARTES CÉNICAS

Agora me lembro –
do fundo das noras erguia-se
a labareda
das rosas
dos quintais.
Aprendera a respirar
abaixo
da linha de água.
Mas não era possível ainda
enlouquecer
pela perseverança
nas artes cénicas. E então as mulheres dos montes
viravam os estrados
para o lado de dentro
dos teatros
como se o luxo
da estreia
fosse quase insuportável
e irradiasse nos espelhos
das cerimónias. Agora me lembro –
do modo como o pêndulo
na imensa manhã desse tempo
oscilava
nos ensaios
e
ia e
vinha.


A VARA INCANDESCENTE

Mais que a tempestade ou o dilúvio
o crepúsculo
era o inverno. Porque no interior
da treva demorada
as roldanas dos poços
e a ferrugem
exerciam o ofício de trazer aos alguidares de barro
os rumorosos
óxidos
das nascentes:
e moviam as alavancas
de queimar a urze
nos pátios: e poisavam nas mesas
de pão
o brilho
estrangeiro
das missangas
preciosas. As crianças adormeciam – se o
vento varria nas varandas
a vagarosa vara
incandescente
do ulmeiro
jovem.

Nota: Estes dois poemas fazem parte do original vencedor do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2009. Em «Os Sete Epígonos de Tebas» estabelece-se um jogo de espelhos com a obra de Herberto Helder – com os riscos inerentes, claro, de o lume dessa poesia queimar os versos que a confrontam.