Podar as videiras é
um exercício em que a estética
prevalece sobre o princípio
dos ramos produtivos. Um
arado corre a direito
para que a geometria
e o comum da terra
possam encontrar-se no fim
das manhãs de Fevereiro.
domingo, abril 19, 2009
sexta-feira, abril 17, 2009
[O que vem dos poemas]
É no fim das manhãs de Abril
e não sabes já o que vem dos poemas
ou do que lhes trouxe as iluminadas
e precárias sílabas: o voo das aves a regressar
aos campos lavrados; o odor
da hortelã pisada pelas crianças
nas veredas das bouças.
e não sabes já o que vem dos poemas
ou do que lhes trouxe as iluminadas
e precárias sílabas: o voo das aves a regressar
aos campos lavrados; o odor
da hortelã pisada pelas crianças
nas veredas das bouças.
quarta-feira, abril 15, 2009
[Novembro]
Esperava-se a chuva ou o frio
como um sinal de que tudo
estava certo. Fechava-se sobre os campos
um ciclo que finda e logo
recomeça. Mas então
era o domínio do fogo da lareira
mesmo que os dias
depois das chuvas devolvessem
às ruas a claridade das folhas dos carvalhais
e alguém fosse desatando
os pedaços de ráfia que ficam
a apodrecer nos arames das vinhas.
como um sinal de que tudo
estava certo. Fechava-se sobre os campos
um ciclo que finda e logo
recomeça. Mas então
era o domínio do fogo da lareira
mesmo que os dias
depois das chuvas devolvessem
às ruas a claridade das folhas dos carvalhais
e alguém fosse desatando
os pedaços de ráfia que ficam
a apodrecer nos arames das vinhas.
terça-feira, abril 14, 2009
segunda-feira, abril 13, 2009
[Conhecemos às vezes]
Conhecemos às vezes as cidades
apenas pelo que não vem nos roteiros
nem chegávamos a
supor: do Rio de Janeiro
não recordas mais que o fim
de tarde no aterro do Flamengo
a ver um jogo na TV
e a discutir com um velho
a meio de sucessivos chopes
o ataque do Vasco da Gama.
apenas pelo que não vem nos roteiros
nem chegávamos a
supor: do Rio de Janeiro
não recordas mais que o fim
de tarde no aterro do Flamengo
a ver um jogo na TV
e a discutir com um velho
a meio de sucessivos chopes
o ataque do Vasco da Gama.
quinta-feira, abril 09, 2009
[No Junqueira]
Víamos os jogos do mundial
no Junqueira em dois grupos
separados por mesas de madeira
cobertas com toalhas de plástico de
um lado com quadrados brancos
e vermelhos e brancos e azuis
do outro. Uns a favor
do Brasil a gabar a criatividade
do jogo e o mais certo a imaginarem-se
estendidos no Leblon com as gajas
bronzeadas das telenovelas
a mamar um chope ou a pagar-lhes
caipirinhas. Outros a favor
da Itália a realçar a organização
defensiva que nem por
hipótese académica as Chaves
do Areeiro a preparar-se
para uma acção inspectiva aos
cofres. Da cerveja muito fresca
é que partilhávamos todos contra
o calor excessivo e invulgar
dessa tarde de cinco de Julho
de mil novecentos e oitenta e dois.
no Junqueira em dois grupos
separados por mesas de madeira
cobertas com toalhas de plástico de
um lado com quadrados brancos
e vermelhos e brancos e azuis
do outro. Uns a favor
do Brasil a gabar a criatividade
do jogo e o mais certo a imaginarem-se
estendidos no Leblon com as gajas
bronzeadas das telenovelas
a mamar um chope ou a pagar-lhes
caipirinhas. Outros a favor
da Itália a realçar a organização
defensiva que nem por
hipótese académica as Chaves
do Areeiro a preparar-se
para uma acção inspectiva aos
cofres. Da cerveja muito fresca
é que partilhávamos todos contra
o calor excessivo e invulgar
dessa tarde de cinco de Julho
de mil novecentos e oitenta e dois.
[O teu quarto da residência universitária]
Fechavas as gelosias às luzes
da cidade que não andavam longe
e na aparelhagem (nesse
tempo dizia-se assim) ouvia-se a
inevitável música brasileira
romântica. Nem chegavam a irritar-me
os pauzinhos de incenso e
aquelas sedas que pareciam
da Índia compradas na feira
da ladra suspensas de varões
torneados de plástico a imitar
a madeira de carvalho. Éramos todos
tão modernos que a porta
do quarto ficava aberta a noite
toda e podia dar-se o caso de alguém
entrar e perguntar à duas
da manhã se o 4ac da fórmula
resolvente tinha
que vir entre parêntesis.
da cidade que não andavam longe
e na aparelhagem (nesse
tempo dizia-se assim) ouvia-se a
inevitável música brasileira
romântica. Nem chegavam a irritar-me
os pauzinhos de incenso e
aquelas sedas que pareciam
da Índia compradas na feira
da ladra suspensas de varões
torneados de plástico a imitar
a madeira de carvalho. Éramos todos
tão modernos que a porta
do quarto ficava aberta a noite
toda e podia dar-se o caso de alguém
entrar e perguntar à duas
da manhã se o 4ac da fórmula
resolvente tinha
que vir entre parêntesis.
[Esses dois anos]
Olhamos a labareda concentrados nesse
rumor que parece ser
de oxigénio a consumir-se e
pela primeira vez depois de tantos anos
ouso puxar a conversa sobre as raparigas estrangeiras
de que não chegámos nunca a saber o nome
por responderem sempre a um outro nome
que lhes dávamos. Pergunto então
se te recordas. E tu manténs
o silêncio que a memória trazia de longe e tão perto
do vento nos ramos dos salgueiros das margens
da neve descendo as encostas
até responderes vagarosamente sem erguer a cabeça
continuando a olhar a labareda
e a ouvir o seu rumor: não me lembro
de ter havido inverno durante esses dois anos
em boa verdade nunca
chegámos a acender a lareira.
rumor que parece ser
de oxigénio a consumir-se e
pela primeira vez depois de tantos anos
ouso puxar a conversa sobre as raparigas estrangeiras
de que não chegámos nunca a saber o nome
por responderem sempre a um outro nome
que lhes dávamos. Pergunto então
se te recordas. E tu manténs
o silêncio que a memória trazia de longe e tão perto
do vento nos ramos dos salgueiros das margens
da neve descendo as encostas
até responderes vagarosamente sem erguer a cabeça
continuando a olhar a labareda
e a ouvir o seu rumor: não me lembro
de ter havido inverno durante esses dois anos
em boa verdade nunca
chegámos a acender a lareira.
terça-feira, abril 07, 2009
domingo, abril 05, 2009
[Às vezes é preciso não compreender]
Às vezes é preciso não compreender.
Às vezes é preciso deixar as palavras entregues
à interrogação e (por essa via)
ao sobressalto. Às vezes
em vez das páginas dos livros
é preciso deixar que as palavras devolvam
o centro imaterial dos seus obscuros
significados. E deixá-las assim.
Nas aldeias o tempo difere os eventos
como se a cronologia subvertesse
a realidade objectiva
e o futuro e a memória se confundissem
na poeira levantada dos caminhos
que levam aos largos. Eu e tu procuramos
o que julgámos ter ficado suspenso
da árvore incombustível dos pronomes
possessivos. Eu e tu regressamos à procura
do rumor antigo das águas de nascente
a correr nos tanques. E só então nos apercebemos
de como as horas correm
e de como as sebes altíssimas da adolescência
erguidas nos limites da propriedade
nos entregam a cúpula insignificante
do grande vazio das nossas vidas.
Às vezes é preciso deixar as palavras entregues
à interrogação e (por essa via)
ao sobressalto. Às vezes
em vez das páginas dos livros
é preciso deixar que as palavras devolvam
o centro imaterial dos seus obscuros
significados. E deixá-las assim.
Nas aldeias o tempo difere os eventos
como se a cronologia subvertesse
a realidade objectiva
e o futuro e a memória se confundissem
na poeira levantada dos caminhos
que levam aos largos. Eu e tu procuramos
o que julgámos ter ficado suspenso
da árvore incombustível dos pronomes
possessivos. Eu e tu regressamos à procura
do rumor antigo das águas de nascente
a correr nos tanques. E só então nos apercebemos
de como as horas correm
e de como as sebes altíssimas da adolescência
erguidas nos limites da propriedade
nos entregam a cúpula insignificante
do grande vazio das nossas vidas.
quinta-feira, abril 02, 2009
[Modalidades olímpicas. 5: Natação]
Dissesses-me
uma única
palavra
e eu fazia os duzentos metros
mariposa
debaixo de água.
uma única
palavra
e eu fazia os duzentos metros
mariposa
debaixo de água.
quarta-feira, abril 01, 2009
[Modalidades olímpicas. 4: Salto em altura]
Em voo sobre a
fasquia há um momento
em que o céu
e a memória
dos teus olhos
se confundem.
fasquia há um momento
em que o céu
e a memória
dos teus olhos
se confundem.
terça-feira, março 31, 2009
[Modalidades olímpicas. 2: Lançamento do peso]
Assim como tu
às leis da gravidade
não estivesse
sujeita
a esfera
arremessada.
às leis da gravidade
não estivesse
sujeita
a esfera
arremessada.
segunda-feira, março 30, 2009
quinta-feira, março 26, 2009
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