quarta-feira, abril 15, 2009

[Novembro]

Esperava-se a chuva ou o frio
como um sinal de que tudo
estava certo. Fechava-se sobre os campos
um ciclo que finda e logo
recomeça. Mas então
era o domínio do fogo da lareira
mesmo que os dias
depois das chuvas devolvessem
às ruas a claridade das folhas dos carvalhais
e alguém fosse desatando
os pedaços de ráfia que ficam
a apodrecer nos arames das vinhas.

terça-feira, abril 14, 2009

[17/2]

Saímos muito cedo. A névoa
diluía os contornos das paredes das casas
e dos muros dos quintais. Nem olhámos
pelo retrovisor. A distância parecia começar
a proteger-nos. E no entanto
continuava a perseguir-nos
o odor das bagas ácidas do arando.

segunda-feira, abril 13, 2009

[Conhecemos às vezes]

Conhecemos às vezes as cidades
apenas pelo que não vem nos roteiros
nem chegávamos a
supor: do Rio de Janeiro
não recordas mais que o fim
de tarde no aterro do Flamengo
a ver um jogo na TV
e a discutir com um velho
a meio de sucessivos chopes
o ataque do Vasco da Gama.

quinta-feira, abril 09, 2009

[No Junqueira]

Víamos os jogos do mundial
no Junqueira em dois grupos
separados por mesas de madeira
cobertas com toalhas de plástico de
um lado com quadrados brancos
e vermelhos e brancos e azuis
do outro. Uns a favor
do Brasil a gabar a criatividade
do jogo e o mais certo a imaginarem-se
estendidos no Leblon com as gajas 
bronzeadas das telenovelas
a mamar um chope ou a pagar-lhes
caipirinhas. Outros a favor
da Itália a realçar a organização
defensiva que nem por 
hipótese académica as Chaves
do Areeiro a preparar-se 
para uma acção inspectiva aos
cofres. Da cerveja muito fresca
é que partilhávamos todos contra 
o calor excessivo e invulgar 
dessa tarde de cinco de Julho
de mil novecentos e oitenta e dois.

[O teu quarto da residência universitária]

Fechavas as gelosias às luzes 
da cidade que não andavam longe 
e na aparelhagem (nesse
tempo dizia-se assim) ouvia-se a 
inevitável música brasileira 
romântica. Nem chegavam a irritar-me 
os pauzinhos de incenso e 
aquelas sedas que pareciam
da Índia compradas na feira 
da ladra suspensas de varões 
torneados de plástico a imitar
a madeira de carvalho. Éramos todos 
tão modernos que a porta 
do quarto ficava aberta a noite
toda e podia dar-se o caso de alguém 
entrar e perguntar à duas
da manhã se o 4ac da fórmula 
resolvente tinha 
que vir entre parêntesis.

[Esses dois anos]

Olhamos a labareda concentrados nesse
rumor que parece ser 
de oxigénio a consumir-se e
pela primeira vez depois de tantos anos
ouso puxar a conversa sobre as raparigas estrangeiras
de que não chegámos nunca a saber o nome
por responderem sempre a um outro nome
que lhes dávamos. Pergunto então

se te recordas. E tu manténs
o silêncio que a memória trazia de longe e tão perto
do vento nos ramos dos salgueiros das margens
da neve descendo as encostas
até responderes vagarosamente sem erguer a cabeça
continuando a olhar a labareda 
e a ouvir o seu rumor: não me lembro 
de ter havido inverno durante esses dois anos
em boa verdade nunca
chegámos a acender a lareira.

terça-feira, abril 07, 2009

[Cicatrizes]

Guardei sem medo
a tua navalha
sabendo

que era ela
quem menos
poderia cortar-me.

domingo, abril 05, 2009

[Às vezes é preciso não compreender]

Às vezes é preciso não compreender.
Às vezes é preciso deixar as palavras entregues
à interrogação e (por essa via)
ao sobressalto. Às vezes 
em vez das páginas dos livros
é preciso deixar que as palavras devolvam
o centro imaterial dos seus obscuros
significados. E deixá-las assim.

Nas aldeias o tempo difere os eventos
como se a cronologia subvertesse
a realidade objectiva
e o futuro e a memória se confundissem
na poeira levantada dos caminhos

que levam aos largos. Eu e tu procuramos
o que julgámos ter ficado suspenso
da árvore incombustível dos pronomes
possessivos. Eu e tu regressamos à procura
do rumor antigo das águas de nascente
a correr nos tanques. E só então nos apercebemos
de como as horas correm

e de como as sebes altíssimas da adolescência
erguidas nos limites da propriedade
nos entregam a cúpula insignificante
do grande vazio das nossas vidas.

quinta-feira, abril 02, 2009

[Modalidades olímpicas. 5: Natação]

Dissesses-me 
uma única 
palavra 

e eu fazia os duzentos metros 
mariposa
debaixo de água.

quarta-feira, abril 01, 2009

[Modalidades olímpicas. 4: Salto em altura]

Em voo sobre a
fasquia há um momento
em que o céu

e a memória
dos teus olhos
se confundem.

terça-feira, março 31, 2009

[Modalidades olímpicas. 3: Fosso olímpico]

Por ti
eu parto
a loiça toda.

[Modalidades olímpicas. 2: Lançamento do peso]

Assim como tu
às leis da gravidade
não estivesse

sujeita
a esfera
arremessada.

segunda-feira, março 30, 2009

[Modalidades olímpicas. 1: Triplo salto]

A ti, pelo salto
de gazela
te conheço.

quinta-feira, março 26, 2009

[Metade de metade]

Metade de metade
do que te dou
é mais do que tenho.

[A pedra dos vocábulos]

A pedra dos vocábulos
repercutia
nas páginas dos livros.

[Ao jogo]

Só vou ao jogo
se me deixares
perder.

[A música]

Nas folhas dos salgueiros
a música é anterior
ao vento.

quarta-feira, março 25, 2009

[No deserto]

A memória
da tua pele
é que me matava

no deserto
e não
a falta de água.

[Exemplos. 4: A necrópole dos três Reis]

É como se a geometria e a proporção 
revertessem da ética e a eternidade obrigasse
a essa exigência tão próxima da música 
e da álgebra. Uma íntima cartografia tumular
ficou inscrita nos livros guardados 
para que ao público se expusesse apenas 
o remanescente dos corredores e das salas 
dos palácios onde a vida verdadeiramente 
se viveu: nos jardins encostados a paredes de taipa, 
nos azulejos minúsculos das tumbas
sem a gravação dos nomes ou o retrato
dos rostos que um dia foram a matéria sujeita
à infâmia contingente de que todos 
indistintamente somos feitos.

quinta-feira, março 19, 2009

[Exemplos. 3: Metáfora do labirinto das águas]

Perdido num outro e maior labirinto
olhas os canais de rega 
como se também a tua vida 
pudesse inscrever-se nos códigos 
de aviação da água: como se também 
os teus medos pudessem 
quebrar-se assim de um só golpe
oblíquo da lâmina nos torrões
aluviais: como se a tempestade fosse
riscada ao inventário dos terrenos
de herdeiros. O território e os gestos 
confundem-se para que os canais 
de rega e as sementes do trigo dividam
a luz abundante dos labirintos.