segunda-feira, março 16, 2009

[Exemplos. 1: Aquele que ficou]

Em sua casa os panos sobre
as mesas faziam duvidar que a flor
azul ou a bagarela fossem as mesmas
dos outros ou igual a medida
dos nove dias na água ou das nove
noites e nove manhãs do linho a
secar. Diversas de todas as restantes
haveriam de ser ainda as varas de
salgueiro entrançadas nos seus perfeitos
cestos vindimos com o conjunto das pontas
atadas. E sem precisar de terras
centieiras como nenhum assim crescia
o cereal do inverno que semeava em cavadas
de pedra desmontada e pouco chão.
jcb

domingo, março 15, 2009

[Para acabar esta série]

O mar trazia de longe as anémonas
da infância a literatura
traz as anémonas
de onde quisermos.

sábado, março 14, 2009

[Outro]

Assim também eu pintava
parece-me que tudo se resumia a três faixas
horizontais de cores primárias sobre tela 
e um título a verdade

é que o inverno nunca mais acaba.
Tem chovido que só visto
as alterações climáticas a deflação
é uma consequência da crise dos mercados

financeiros. Não vislumbro um critério 
objectivo nunca mais hei-de esquecer a recensão 
em que a propósito de um 
quadro abstracto se escrevia 

na sua génese a guerra civil nos estados 
unidos o estado de israel. Se visses 
o preço que a obra atingiu em leilão 
as baixas pressões são responsáveis 

por esta instabilidade. Tudo depende 
da resposta do gerente do banco 
o crédito não é como antes
apetecia-me tanto abrir uma galeria de arte.

[E agora, finalmente, um Poema a sério]

Vínhamos de longe e depois
é mentira que os caminhos de terra batida
levassem às cidades das palavras
a criança corria desamparada

nas fasquias dos andaimes
das obras. Juro que é verdade
nenhum de nós tinha roubado os candeeiros de
querosene nos faróis da fronteira 

em outubro de mil novecentos
e oitenta e seis a chuva
fez sair os rios das margens.
E foi então que regressaste e começaste

por dizer a literatura é uma convenção
eu posso alinhar as frases sem a preocupação
do sentido. A própria sintaxe
pode ser subvertida se soubesses

como me custou o desmoronamento
das barreiras de saibro. Só
te peço que se chegares tarde não
me telefones a avisar.

sexta-feira, março 13, 2009

[Repetir as imagens: pátio, infância]

A água de nascente não é apenas a metáfora
do dia inicial ou das tardes imensas de domingo
em que a infância corria nos pátios 
e nas varandas como se os rios e a aluvião 

só então começassem a desenhar-se 
nos mapas. Mas é quanto basta para efeitos 
do poema e nem chega a ser relevante 
a questão do grau de pureza da água.

[De tudo o que perdeste]

De tudo o que perdeste é apenas
a memória da luz de julho 
adormecida nos pátios da infância
o que não te deixa adormecer.

[Ainda o exílio]

Ajoelham-te para a humilhação de reconheceres 
a soberania do príncipe que mudou 
as linhas de fronteira dos teus domínios 
anteriores: o trono elevado num estrado 

e os vassalos em duas alas a olhar-te 
como se a vergonha não tivesse pátria. A ironia 
é que conheces cada um deles e houve um tempo 
em que todos te juraram fidelidade e protecção.

[O inimigo]

O inimigo levou-o a ver as adagas 
e as lanças expostas na praça: o espólio 
dos desastres. Mas nada 
lhe custou no exílio tanto como saber 

que alguns dos que lhe estendiam alecrim 
no chão dos caminhos agora juravam
nunca o alecrim ter
crescido nos seus jardins de aromáticas.

quinta-feira, março 12, 2009

[Ainda a propósito das catedrais]

Ele falava da palavra e do símbolo e de coisas
grandes como a abstracção e o pensamento.
E no entanto é com pedras e com o trabalho das mãos
que se ergue a casa e se constrói o templo.

[Os livros]

O rumor da ondulação parece vir de um tempo
anterior ao próprio movimento das águas. É antes 
da tempestade que a nuvem do silêncio
rebenta por dentro das páginas dos livros.

[As catedrais]

Sobre todas as pedras e sobre todos os andaimes
e sobre todos os guindastes e roldanas hidráulicas
o que vale é uma palavra ou um símbolo.

quarta-feira, março 11, 2009

[As florestas]

É um pleonasmo dizer que alguém se perde nas florestas.
As florestas foram feitas para essa arte de nos perdermos do mundo
e nos encontrarmos depois do outro lado do mundo
por entre os troncos erguidos das árvores das florestas.

[«Um daqueles caderninhos»]

Uma vez perdi o meu caderno de andar
preocupado e ocupado com a lírica. E passei
a andar preocupado
de ter perdido o caderno
e ocupado a ver se o encontrava.

[«Rumor branco»]

De um ao outro lado do bosque de bétulas
há uma árvore a cuja sombra
nunca adormeceste.

terça-feira, março 10, 2009

[A pesca à linha]

Tão vasto
é o mundo: com suas penínsulas e arquipélagos,
com as suas florestas de caducifólias, com os seus rios
a correr em meandros erosionados
pelo tempo. Tão vasto
é o mundo: entre constelações
e nebulosas, meteoritos, órbitas
planetárias, cinturas
de asteróides.

E tu, olhando a meio da tarde a ondulação
favorável do levante, perguntas-me
a hora da maré.

[Limites]

Nós, que continuamos a discutir
os limites do universo, acreditamos
na infinitude do número de grãos
de areia das praias.

sexta-feira, março 06, 2009

[Ponto de situação]

O texto que correu aqui entre 3 de Fevereiro de 2008 e 3 de Janeiro de 2009, sob três diferentes títulos, vai ser publicado em livro. Não estava à espera disso. Mas são assim os acasos do mundo. Houve, portanto, que fazer umas correcções - e, sobretudo, dar-lhe a coerência genealógica que não tinha. E, assim, perder o pouco tempo que não tenho - e quase ninguém, hoje por hoje, tem. Está, espero, explicada a ausência. 

Por outras razões que não vêm ao caso, não se prosseguirá aqui com o novo folhetim - de que, de qualquer modo, em devido tempo se dará conta. O blog, pois, prosseguirá como em determinado tempo corria - com poemas de circunstância, fotografias e desenhos. 

Quanto à edição do folhetim - também disso se dará conta: será na Oficina do Livro. E, eu sei, há oito leitores desta página que ficarão contentes de saber como será.

Quanto aos outros (e a todos) - cá nos continuaremos a ir vendo.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

[Intervalo]

Com um pedido de desculpas aos leitores ocasionais (e, sobretudo, à meia dúzia de leitores frequentes), informo que só a partir do próximo dia 5 de Março haverá actualizações: isto, até lá, fica de pousio. O intervalo, num certo sentido, está relacionado com o próprio blogue, e nomeadamente com o folhetim anterior. Em devido tempo se explicará melhor. Bom resto de Inverno – e até breve.

JCB

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

10.

O dia amanhecera sem uma nuvem, sem uma névoa. O ar lavado à transparência. Uma linha precisa delimitava o horizonte. As águas do mar pareciam derramar-se no vácuo. João imaginava-se a caminhar sobre esse muro estreito e a olhar na direcção do infinito no momento em que lhe seriam devolvidas todas as imagens do mundo. Mas a meio da tarde ergueu-se uma aragem ligeira que vinha do Norte e trazia consigo uma nuvem cinzenta. E quando entrou no automóvel, já escuro, a chuva começou a cair. Virou à direita na estrada nacional. A caminho de casa, com os movimentos lentos do limpa pára-brisas a trazer-lhe o torpor, sorriu a pensar nos acontecimentos desse dia. Na coincidência desses desencontros quase simultâneos, dessa troca de nomes. Duas pessoas, em momentos diferentes, dirigiram-se-lhe como se o conhecessem desde sempre. Uma jovem, Ana Leonardo, belíssima, a saia muito curta de golfe com os bolsos cortados quase na vertical, saía do club house quando João seguia a caminho do gabinete de trabalho. «Como é possível que não te recordes de mim?» Depois, ao almoço, enquanto comia uma tosta mista e bebia cerveja, percebeu que alguém, sentado no banco alto do balcão, o olhava com insistência. Cruzaram o olhar por um breve instante. O homem era-lhe completamente desconhecido. Mas aproximou-se da mesa do canto e abordou-o cerimoniosamente: «Como vai, António? Então deixou o teatro?» João virou de novo à direita na rotunda do Monte Pequeno, os movimentos lentos do limpa pára-brisas a acompanhar a cadência da noite. Que coincidência era essa de, num mesmo dia, lhe confundirem o rosto, o nome, a identidade? Subiu ao quarto e ligou o computador. Mas estava cansado, com sono. Deitou-se. Adormeceu. Quando acordou subiu a persiana. Chovia ainda. Tatiana, corpórea, concreta, desenhava-se, além da janela, do outro lado da rua, nua, no quarto iluminado. Sorriu de novo ao lembrar-se que tinham combinado sair juntos no fim de semana. Uma chuva miúda, uma indecisa bátega, erguia uma cortina entre as duas casas. João sentiu uma tontura quando abriu o mail, quando imaginou que todas as coisas do mundo se misturavam nesse preciso momento num vórtice devolvido pela cortina translúcida do aguaceiro de Outono, quando compreendeu que continuava ligado, desde manhã, à mesma irrealidade. Tinha uma mensagem de Paola Natucci: «Che cosa sei disposto a fare per me?» João não compreendia como podia estar apaixonado por um nome sem rosto, como podia tocá-lo assim a intranquilidade. E ao fundo, contínuo, sobressaltado, continuava a ouvir-se o rumor do levante.