sexta-feira, março 13, 2009

[De tudo o que perdeste]

De tudo o que perdeste é apenas
a memória da luz de julho 
adormecida nos pátios da infância
o que não te deixa adormecer.

[Ainda o exílio]

Ajoelham-te para a humilhação de reconheceres 
a soberania do príncipe que mudou 
as linhas de fronteira dos teus domínios 
anteriores: o trono elevado num estrado 

e os vassalos em duas alas a olhar-te 
como se a vergonha não tivesse pátria. A ironia 
é que conheces cada um deles e houve um tempo 
em que todos te juraram fidelidade e protecção.

[O inimigo]

O inimigo levou-o a ver as adagas 
e as lanças expostas na praça: o espólio 
dos desastres. Mas nada 
lhe custou no exílio tanto como saber 

que alguns dos que lhe estendiam alecrim 
no chão dos caminhos agora juravam
nunca o alecrim ter
crescido nos seus jardins de aromáticas.

quinta-feira, março 12, 2009

[Ainda a propósito das catedrais]

Ele falava da palavra e do símbolo e de coisas
grandes como a abstracção e o pensamento.
E no entanto é com pedras e com o trabalho das mãos
que se ergue a casa e se constrói o templo.

[Os livros]

O rumor da ondulação parece vir de um tempo
anterior ao próprio movimento das águas. É antes 
da tempestade que a nuvem do silêncio
rebenta por dentro das páginas dos livros.

[As catedrais]

Sobre todas as pedras e sobre todos os andaimes
e sobre todos os guindastes e roldanas hidráulicas
o que vale é uma palavra ou um símbolo.

quarta-feira, março 11, 2009

[As florestas]

É um pleonasmo dizer que alguém se perde nas florestas.
As florestas foram feitas para essa arte de nos perdermos do mundo
e nos encontrarmos depois do outro lado do mundo
por entre os troncos erguidos das árvores das florestas.

[«Um daqueles caderninhos»]

Uma vez perdi o meu caderno de andar
preocupado e ocupado com a lírica. E passei
a andar preocupado
de ter perdido o caderno
e ocupado a ver se o encontrava.

[«Rumor branco»]

De um ao outro lado do bosque de bétulas
há uma árvore a cuja sombra
nunca adormeceste.

terça-feira, março 10, 2009

[A pesca à linha]

Tão vasto
é o mundo: com suas penínsulas e arquipélagos,
com as suas florestas de caducifólias, com os seus rios
a correr em meandros erosionados
pelo tempo. Tão vasto
é o mundo: entre constelações
e nebulosas, meteoritos, órbitas
planetárias, cinturas
de asteróides.

E tu, olhando a meio da tarde a ondulação
favorável do levante, perguntas-me
a hora da maré.

[Limites]

Nós, que continuamos a discutir
os limites do universo, acreditamos
na infinitude do número de grãos
de areia das praias.

sexta-feira, março 06, 2009

[Ponto de situação]

O texto que correu aqui entre 3 de Fevereiro de 2008 e 3 de Janeiro de 2009, sob três diferentes títulos, vai ser publicado em livro. Não estava à espera disso. Mas são assim os acasos do mundo. Houve, portanto, que fazer umas correcções - e, sobretudo, dar-lhe a coerência genealógica que não tinha. E, assim, perder o pouco tempo que não tenho - e quase ninguém, hoje por hoje, tem. Está, espero, explicada a ausência. 

Por outras razões que não vêm ao caso, não se prosseguirá aqui com o novo folhetim - de que, de qualquer modo, em devido tempo se dará conta. O blog, pois, prosseguirá como em determinado tempo corria - com poemas de circunstância, fotografias e desenhos. 

Quanto à edição do folhetim - também disso se dará conta: será na Oficina do Livro. E, eu sei, há oito leitores desta página que ficarão contentes de saber como será.

Quanto aos outros (e a todos) - cá nos continuaremos a ir vendo.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

[Intervalo]

Com um pedido de desculpas aos leitores ocasionais (e, sobretudo, à meia dúzia de leitores frequentes), informo que só a partir do próximo dia 5 de Março haverá actualizações: isto, até lá, fica de pousio. O intervalo, num certo sentido, está relacionado com o próprio blogue, e nomeadamente com o folhetim anterior. Em devido tempo se explicará melhor. Bom resto de Inverno – e até breve.

JCB

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

10.

O dia amanhecera sem uma nuvem, sem uma névoa. O ar lavado à transparência. Uma linha precisa delimitava o horizonte. As águas do mar pareciam derramar-se no vácuo. João imaginava-se a caminhar sobre esse muro estreito e a olhar na direcção do infinito no momento em que lhe seriam devolvidas todas as imagens do mundo. Mas a meio da tarde ergueu-se uma aragem ligeira que vinha do Norte e trazia consigo uma nuvem cinzenta. E quando entrou no automóvel, já escuro, a chuva começou a cair. Virou à direita na estrada nacional. A caminho de casa, com os movimentos lentos do limpa pára-brisas a trazer-lhe o torpor, sorriu a pensar nos acontecimentos desse dia. Na coincidência desses desencontros quase simultâneos, dessa troca de nomes. Duas pessoas, em momentos diferentes, dirigiram-se-lhe como se o conhecessem desde sempre. Uma jovem, Ana Leonardo, belíssima, a saia muito curta de golfe com os bolsos cortados quase na vertical, saía do club house quando João seguia a caminho do gabinete de trabalho. «Como é possível que não te recordes de mim?» Depois, ao almoço, enquanto comia uma tosta mista e bebia cerveja, percebeu que alguém, sentado no banco alto do balcão, o olhava com insistência. Cruzaram o olhar por um breve instante. O homem era-lhe completamente desconhecido. Mas aproximou-se da mesa do canto e abordou-o cerimoniosamente: «Como vai, António? Então deixou o teatro?» João virou de novo à direita na rotunda do Monte Pequeno, os movimentos lentos do limpa pára-brisas a acompanhar a cadência da noite. Que coincidência era essa de, num mesmo dia, lhe confundirem o rosto, o nome, a identidade? Subiu ao quarto e ligou o computador. Mas estava cansado, com sono. Deitou-se. Adormeceu. Quando acordou subiu a persiana. Chovia ainda. Tatiana, corpórea, concreta, desenhava-se, além da janela, do outro lado da rua, nua, no quarto iluminado. Sorriu de novo ao lembrar-se que tinham combinado sair juntos no fim de semana. Uma chuva miúda, uma indecisa bátega, erguia uma cortina entre as duas casas. João sentiu uma tontura quando abriu o mail, quando imaginou que todas as coisas do mundo se misturavam nesse preciso momento num vórtice devolvido pela cortina translúcida do aguaceiro de Outono, quando compreendeu que continuava ligado, desde manhã, à mesma irrealidade. Tinha uma mensagem de Paola Natucci: «Che cosa sei disposto a fare per me?» João não compreendia como podia estar apaixonado por um nome sem rosto, como podia tocá-lo assim a intranquilidade. E ao fundo, contínuo, sobressaltado, continuava a ouvir-se o rumor do levante.

terça-feira, janeiro 27, 2009

9.

A estranheza não vinha tanto de tudo parecer novo. Diferente. Mas de tudo parecer contrário à realidade. Como se João tivesse entrado num universo com leis imponderáveis. Como se a ordem do mundo tivesse sucumbido ao odor das alfarrobeiras a ser varejadas, ao vento do levante e ao seu rumor, à salsugem misturada à resina dos pinheiros bravos litorais, ao labirinto de ruas que começava e acabava num mesmo pátio comum. O restaurante do Castro ficava onde antigamente deveria ser a duna. Onde o mar e o vento acumularam areias ao longo dos anos, erguendo barreiras com inclinação diversa, com pendentes suaves ou rampas declivosas, com recuos por erosão, com avanços pela reposição sazonal dos sedimentos. Até à terraplenagem por usos contínuos da cumeada e do flanco da duna. Porque o restaurante parecia enterrado na praia. Com o areal a subir em redor e os grãos persistentes a ser varridos do chão de blocos da esplanada e das passadeiras contíguas de cimento. E tudo parecia irreal: as cervejas poisadas na mesa de resina, os jarros de vinho da serra, a panela com esse molho ligeiramente espesso e o odor a alho e coentros, as vozes misturadas a falar de tempestades e tumultos, do silêncio subterrâneo de noites sem uma aragem nem outra luz que a da lua poisando nas águas, de ventos que enlouquecem ou fazem perder a memória de tudo o que não ficou inscrito na infância do lado de dentro da pele. A tarde a vir do mar e a perder-se no mar. O crepúsculo a descer na linha do horizonte, e depois a noite, Tatiana e uma saia muito curta, a música num outro bar onde a cerveja continuava a suceder-se sobre as mesas. Paola. Uma dedicatória. Três versos. Os ombros nus de Tatiana, concretos, a iluminar o espaço minúsculo do quarto. A iluminar o mundo entre realidade e ficção.  

domingo, janeiro 25, 2009

8.

Vicente bateu à porta. Repetidas vezes. Não o tinha visto sair. Estranhara. Estava preocupado. Eram onze da manhã. João apareceu ainda vestido, pálido, o olhar cavado. «Me quase pareces o demo, mó.» Que estava doente. Que uma tontura, desde o fim de tarde do dia anterior, o atravessava como um gume de navalha. «Tu me estás é almariado. Hoje temos raia alhada no Castro. É à uma.» A irrealidade. As conversas sem sentido, as ruas a entrar nos quartos, as janelas de uma casa e outra a misturarem vozes, silêncios, segredos. «Pois foi assim, numa tarde de levante, que descobri a Espanha. Não sabe o amigo engenheiro? É o almareio. Me andava à procura de estrume e atravessei o rio. Ninguém sabia o que estava do lado de lá. Não havia ponte, isso foi só com os dinheiros da Europa. E depois perguntaram-me: e há estrume? E eu que sim: há e a monte. O certo é que agora todos vão a Ayamonte em havendo falta de estrume.» Vicente ria com todos os seus dentes à mostra; até às lágrimas. A olhar o meu espanto, a incompreensão. A medir-me. A ver até onde o Sertão começava ou não a pertencer-me. A espuma, a ondulação, as águas revolvidas a trazer os limos à praia. «O segredo é esmagar os alhos com o fígado.» A raia. O vinho da serra. Tatiana a aparecer para o café: a saia muito curta, os pés descalços no areal, um sorriso de distâncias, intimidades, promessas. O almareio do vento do levante como se apenas a linha ondulada do horizonte separasse as coisas da terra e as coisas do céu.

7.

Ti amo come se tutti i miei fiumi
avessero bisogno del tuo volto riflesso
nelle loro acque.

6.

João não conhecia ainda essa sensação estranha entre a náusea e o torpor: o almareio do levante. Chegou a casa, era ainda cedo. Ouvia o rumor contínuo que atravessava paredes e divisórias: mas não ligava esse rumor à rarefacção do ar. Adormeceu. Acordou a pensar que a cama rodava sobre um eixo imaginário. Uma tontura feita do tempo suspenso de fios invisíveis atados aos pulsos. E foi então que uma luz se acendeu e apagou por três vezes na casa do outro lado da rua; dessa espécie de pátio comum. Um código, talvez. A noite atravessada apenas por esse rumor da ondulação sucessiva. E um quarto iluminado: as cortinas abertas a diluir as fronteiras entre público e privado, intimidade e alarido. E ela, Tatiana, a atravessar o quarto da casa do outro lado da rua. Os contornos do seu corpo a desenhar-se como uma aparição: a sobrepor-se ao permanente marulhar e à irrealidade do mundo. E João reflectia sobre as fronteiras difusas; sobre a membrana fina que separa ficção e realidade, sonho e chão lavrado. Estava confuso. Olhava esse corpo nu e a imagem do desejo a incendiar-se por dentro da noite, a misturar-se ao rumor do levante. João não conhecia ainda essa sensação estranha entre a náusea e o torpor. Paola. Tatiana. Três versos. Um corpo nu. O sueste. A noite a correr, vagarosa, por entre realidade e ficção, sonho e chão de areias depositadas pelo tempo.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

5.

O anexo dava para uma espécie de pequeno pátio perdido no dédalo de ruas. O espaço público e o espaço privado misturavam-se em limites difusos. João, à noite, gostava de passear por este labirinto a sentir-se livre e intruso. A pisar o pavimento comum e a desviar-se de uma corda com roupa pendurada; a ver, ao fundo, por uma abertura vertical entre duas casas, o mar parado com a lua poisada nas águas; a olhar o interior das casas através das janelas sem cortinas; a confrontar-se com o escuro de um recanto ou com a luz de um candeeiro e com as figuras geométricas desenhadas pela sombra nos degraus ou no resguardo das açoteias. João abriu a porta metálica do anexo, subiu ao quarto, ligou o computador, sentou-se. Tinha uma mensagem de Paola Natucci. Acendeu um cigarro, recostou-se na cadeira, olhou as volutas de fumo. Só então leu o mail. Num inquietamento confuso. Três versos. Uma dedicatória. E não compreendia o sobressalto de receber mensagens de alguém que não conhecia, cujas mãos não tocara nunca, cujo rosto era ainda uma abstracção. Como se às vezes fosse preciso rever tudo o que pensamos sobre um determinado assunto.

domingo, janeiro 18, 2009

4.

Nessa altura, antes ainda do Verão, não eram nítidas as fronteiras. João saía de casa, do labirinto de ruas, e olhava o mar. O automóvel corria então na estrada por entre as casas dispersas e as vinhas, as alfarrobeiras, os pomares de citrinos, os terrenos lavrados. No Golf Atlântico, na divisão de infraestruturas, partilhava com o encarregado geral um pequeno gabinete no tardoz do club house. Uma janela larga devolvia-lhe a paisagem dos campos em redor: alfarrobeiras e oliveiras a erguer-se por entre os relvados dos greens. Como se, apesar de tudo, a paisagem se repetisse. Os personagens, claro, vinham de universos diversos: a frontalidade quase ostensiva dos homens do Sertão a jogar à sueca em voz alta, pedindo rodadas sucessivas de cerveja ou cálices de aguardente de figo, discutindo uma balda ou uma renúncia como se os astros rodassem em função de quarenta cartas batidas numa mesa de fórmica; ou a atenção, feita de reservas e regras dos livros de estilo, dos jogadores de roupas de marcas repetidas e sorrisos prontos. Pequenas diferenças a demarcar as fronteiras. De um lado o cuidado, a delicadeza de catálogo: «I didn’t see you here yesterday. Is everything fine with you?» Do outro lado a crueza desarmante, espontânea: João tinha ido ao cinema, ao Fórum, com o Vicente. E quando, emocionado, deixou no rosto o enunciado de uma furtiva lágrima, no momento em que o Titanic começava a afundar-se nas águas, o companheiro não se teve que não lhe dissesse: «E choras de quê, mó? Me até parece que o barco é teu.» Quase já as fronteiras, portanto, a definir-se. Mas o Verão não irrompera ainda nas paisagens litorais. E João ficava em casa, uma e outra noite, ligado ao mundo pelo computador portátil.