sábado, janeiro 03, 2009

[Cacela, Gardunho, Segirei. 3 de Fevereiro de 2008, 3 de Janeiro de 2009]

7.

E foi então que Manuela lhe tocou no ombro. As suas mãos a iluminar a tarde.

6. 

Aline quase não reconheceu a Aldeia. Mas talvez a mudança mais em si estivesse e menos nos terraplenos do largo, no anúncio luminoso e nos cartazes de papel brilhante do café, nos hambúrgueres e nos bitoques, no parque de máquinas, nos estradões rasgados pelo meio dos campos lavrados do nascente. O ondulado dos montes, das linhas de cumeada sucedendo-se na distância, devolviam-lhe aos poucos o tempo antigo e aproximavam os lugares e a memória que ficara deles. E então, na curva do caminho que levava à Colina das Pedras Amarelas, ficou por instantes a olhar a Ponte de Arame e o rio subindo e quase tocando as suas tábuas velhas e os cabos metálicos que a suspendiam de um ao outro lado do vale. Aline e Manuela olhavam em redor; e, de súbito, a Casa desenhou-se no seu perfil inconfundível. As águas da albufeira, represadas por uma barragem de cimento erguida a mais de cem metros de altura, subiam vagarosamente as curvas de nível, avançavam pelos degraus da entrada, cobriam já os muros que ligavam o pátio e a adega da Mina. O silêncio parecia reverter dos lençóis subterrâneos. E Aline, também ela em silêncio, olhava esse mundo antigo que desaparecia para sempre no fundo das águas. 

5.

E sabe-se lá.

4.

D. Francisco Manuel alertava que da formosura deve folgar cada um de a ter, mas não que a mostre. Perigosa mercadoria é esta tão propícia ao que de pior levará: ao desejo que nasce e irrompe e nos perde de nos perdermos nele em nós mesmos. Aline conhece os avisos: excessivamente os teve consigo. E sente que as páginas da Carta de Guia, ou outras por elas, demasiado tempo ficaram poisadas no tempo e nas cómodas de casa, nas tábuas dos escanos, nas mesinhas de cabeceira dos quartos fechados por dentro. Um dia, há muitos anos, o desejo irrompera como se o lume das águas e da terra se concentrasse nas suas mãos desprotegidas; um jovem, no movimento exacto de cortar a lenha, no momento exacto do preciso golpe repercutido na abóbada do vale, despertara em si o que a Carta de Guia censurava por revelar essa perigosa mercadoria do corpo a conhecer-se e a libertar-se das amarras do mundo. 

3.

«Mulher néscia, coisa é pesada, mas não insofrível. Procure o marido emprestar de seu juízo às acções de sua mulher aquela discrição que vir lhe falta. Assim o fará entendido, e se ele também o não for, pouca pena lhe dará que ela o não seja.»

2.

«A feia é pena ordinária, porém que muitas vezes ao dia se pode aliviar, tantas quantas seu marido sair de sua presença, ou ela da do marido. Considere que mais vale viver seguro no coração, que contente nos olhos; e desta segurança viva contente; que pouco mais importa haver perdido por junto a formosura, que vê-la ir perdendo cada dia, com lástima de quem a ama. Isto sucede sempre nas mulheres, já pela idade, já pelos achaques, a que toda a formosura vive sujeita. Donde com muita razão se queixava um discreto, não de que a natureza acabasse as formosas, mas de que as envelhecesse.»

Capítulo XVII
.
(Onde se conclui que uma história podia começar no preciso momento em que se decide ser o tempo de findá-la)
.
1.
«Eu considero dois amores entre a gente: o primeiro é aquele comum afecto com que, sem mais causa que a sua própria violência, nos movemos a amar, não sabendo o que, nem o por que amamos; o segundo é aquele com que prosseguimos em amar o que tratamos e conhecemos. O primeiro acaba na posse do que se desejou; o segundo começa nela, mas de tal sorte, que nem sempre o primeiro engendra o segundo, nem sempre o segundo procede do primeiro.»

10.

Aline estava desolada; e persistia em desfazer o negócio, em devolver-me o dinheiro que recebera por uma casa condenada à submersão. Expliquei-lhe que não me devia nada; que a nenhum de nós era dado adivinhar este desfecho infeliz. Mas Aline insistia. E acabei por compreender que a questão tinha a ver essencialmente com ela mesma: com a necessidade de que lhe pertencesse a casa de família no momento em que a barragem começasse a represar as águas; no momento em que os soalhos, e as paredes antigas de perpianho, e a empena de cimento, e as cornijas, e a tília imensa do pátio, e os muros, e as lágrimas, e os sonhos, ficassem soterrados para sempre no fundo do vale.

terça-feira, dezembro 30, 2008

9.

O engenheiro não me parecia mau tipo e eu começava a lamentar tê-lo conhecido nestas circunstâncias. «Acho que merecemos uma imperial. Que lhe parece?» Já passava da hora de fecho do expediente: anoitecera. Atravessámos a rua, entrámos no Arsénio, sentámo-nos em silêncio. Eu continuava confuso. E foi ele a quebrar o gelo: «Veja isto pelo lado bom: pelo menos o projecto não vai ser reprovado à mor da teimosia do arquitecto Leonardo em manter a empena de cimento.» E acabei por sorrir.
8.

O engenheiro, portanto, gaguejava, abanava os ombros, arrumava e desarrumava os papéis na secretária de mogno. Que nunca lhe ocorrera que a coisa se viesse a precipitar assim de repente. Que havia rumores, claro: mas que já ninguém acreditava na concretização de planos que vinham do tempo da outra senhora. Fosse como fosse: que, enfim, pouco haveria a fazer em face do óbvio interesse público da iniciativa já anunciada pelo Governo. Em resumo: as operações urbanísticas estavam suspensas na zona de influência da albufeira de (ao engenheiro não ocorria assim de repente o nome de código da albufeira) prevista no Programa Nacional das Barragens com Elevado Potencial Eléctrico. Preparavam-se já, de resto, os procedimentos relativos à instauração das respectivas medidas preventivas. «Achei que lhe devia dizer isto em primeira mão.» Agradeci. Ainda confuso. A Casa a Jusante da Ponte de Arame, se bem compreendia, iria ser sacrificada em nome do protocolo de Kioto e do esforço de redução das emissões globais do dióxido de carbono.
7.

A baixa densidade deu os terrenos ao Estado Novo que lhe permitiu, entre outros objectivos edificantes ao serviço do vasto interesse público, «reafirmar [pelo pinheiro bravo e a eliminação dos baldios] a continuidade da alma nacional». É só um exemplo. A baixa densidade sempre se pôs a jeito: tivesse gente, poluísse, produzisse dióxido de carbono, contasse nas estatísticas. Mas não: uma consabida desgraça sem densidade nem peso. Por isso a legislação, sempre muito prevenida, se apraz de costume em defendê-la ou em dar-lhe, para que não fique à margem dos contributos, a possibilidade de concorrer para o interesse público geral e abstracto.
6.

A racionalidade fascina os telejornais menos que os gráficos da predição da catástrofe. E há uma imagem que nos seduz; que o nosso tempo privilegia: a do paraíso perdido e do sentimento de culpa que nos ficará para sempre agarrado à pele. O sentimento de culpa reverte duma ordem moral: regressamos nele, portanto, a uma menoridade de que o exercício da razão supostamente nos libertara há trezentos anos. O prejuízo (e a desonra) de tutelas assim subordinadas foi há muito descrito por Kant. Mas a ordem moral precisa de símbolos: o espectáculo e a catástrofe possibilitam-nos abundantemente: catástrofes naturais, de preferência, em que o homem se constitua como causa e vítima potencial. É por estas e outras que as previsões climáticas de longo prazo ficaram a cargo dos políticos e dos ambientalistas (que o arauto do aquecimento global seja um político, e não um cientista, deveria dar-nos que pensar): os meteorologistas são sisudos e a ponderação de que usam é desconforme à velocidade e à vertigem do nosso tempo.

domingo, dezembro 28, 2008

5.

Temi logo o pior quando o engenheiro da Câmara me telefonou com falinhas mansas. Eu a perguntar «mas então os gajos da Reserva Agrícola Nacional?», e ele que não, que «isso era o menos». Enrolava, exagerava nos advérbios e nos diminutivos, não atava nem desatava. Combinámos uma reunião para essa tarde. Lá fui do Porto numa corrida. O engenheiro não sabia como encetar a conversa. Gaguejava. As faces muito vermelhas, as mãos nos bolsos, encolhido; abanava os ombros, arrumava e desarrumava os papéis na secretária de mogno.

4.

O pesadelo começara há um ano.

sábado, dezembro 27, 2008

3.

Eu conhecia a devastação dos incêndios. Mas nada podia comparar-se a este cenário depois da desmatação, da desarborização, dos caminhos rasgados a eito pelo meio dos montes e dos vales, descendo às linhas de água, subindo às colinas, das nuvens de poeira levantadas à passagem das máquinas de rastos, dos jipes, dos tractores. Em vão procurei reconhecer os lugares onde passeara por entre um bosque de bétulas, pelo carreiro ladeado de freixos, pela cavada com seus muros derruídos a demarcar o cadastro antigo, pelas ribanceiras de mato rasteiro, pelas margens onde cresciam os fetos e as giestas, pelas clareiras planas dos carvalhais, pela sombra dos pinheiros bravos cobrindo a terra de caruma. As cicatrizes do aterro e da escavação anunciavam o plano onde haveriam de estender-se, de encosta a encosta, contra um paredão imenso de cimento, as águas da albufeira; e delimitavam já, em redor, perdendo-se no curso sinuoso dos talvegues, a linha de nível do regolfo.

2.

Tinha jurado não regressar. Tinha jurado esquecer de vez o sonho da casa na margem do rio. Mas precisava de confrontar-me com a realidade. Por isso regressei nesse fim de manhã de Maio. A Aldeia estava diferente. As obras trouxeram gente e o café transformara-se num restaurante de comida instantânea e pratos económicos. Um terrapleno permitira a instalação de um parque de máquinas no largo da escola, entre a Casa do Morgado e o forno do povo. E um estradão de tout-venant, correndo de nível por entre os campos agrícolas e os montes, largo, deixando taludes instáveis nas bermas cortadas a pique, levava à zona do paredão.

Capítulo XVI

(Onde se procuram reconhecer os limites das cavadas e se reflecte sobre o rifão dos tolos que se enganam com papas e bolos)

1.

«Deixe arder.» Isto dissera Leonardo da primeira vez que me acompanhara à Casa a Jusante da Ponte de Arame quando eu me lamentava da paisagem das encostas devastadas pelo fogo. «Se é duma verdadeira floresta que se trata, os incêndios fazem parte dessa procura constante de equilíbrios; porque a floresta é um organismo vivo que se desenvolve por etapas sucessivas; porque o fogo faz parte desse processo evolutivo natural. Não é o caso, como sabe: estes pinheiros são um arremedo das antigas matas de folhosas; o fogo, neste caso, não representa uma fase nos estádios de sucessão do seu desenvolvimento. Seja como for: o homem parece ter desenhado estas florestas de resina combustível para isso mesmo: para os incêndios como um fim em si mesmo. Deixe arder, portanto, que algo acabará por renascer das cinzas» – dizia Leonardo. E, de facto, pouco tempo depois, os matos pareciam emergir da terra queimada como se apenas esperassem o fogo para afundar as suas raízes e erguer na tarde as flores amarelas e azuis. A verdade é que não passei a olhar os incêndios de um modo diferente. A tristeza de ver a floresta reduzida a cinzas, a galhos retorcidos, a carvão, a troncos queimados, permanecia em mim de cada vez que o fogo deixava nos montes esse rasto de desolação e inquietude; como se o mundo se rendesse assim, e nós com ele, à fuligem e à devastação.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

 6.

A Aline desta história, confrontada com a possibilidade do regresso, acabou por decidir vender a casa e apagar as memórias antigas. Era uma noite de Inverno. Lá fora, por dentro da noite, os automóveis corriam nas avenidas da cidade a caminho de lugar nenhum. Manuela adormecera no seu colo. E Aline olhava-a sabendo que a vida exige escolhas; e que tudo se decidiria entre o tédio e o sobressalto.

5.

Esta história (este capítulo duma história que não é possível contar) começou pelas contingências da blogosfera: meter um ou outro texto disperso, em prosa, por entre poemas e desenhos. Os textos, no entanto, foram convocando a necessidade da narrativa. Foi pena não ter-se optado por contar a história verdadeira que um dia o narrador se propõe contar. A de uma Aline que não estudou à noite; que não arranjou um emprego de secretariado; que nunca se entendeu com os talheres dos restaurantes e que sempre se sentiu ridícula nos saltos altos dos casamentos e nos vestidos de alças; que nunca se interrogou sobre as diferenças entre o tédio e a melancolia; que sempre se sentiu usada no amor; que, cedo, confundiu o desejo com a ternura e a ternura com o momento em que um homem é capaz de dizer o seu nome a tremer de frio. Esta Aline verdadeira não sentiria nunca o sobressalto do desejo até o desejo reverter da ternura e da protecção do amor. E, no fundo, quase nada as separa. A história de uma é a história de outra. Ambas saíram de casa e ambas sentiram a impossibilidade do regresso. Ambas se perderam em si mesmas. Ambas procuram ainda, sempre, a seu modo, o amor.