quinta-feira, dezembro 25, 2008

4.

Aline dividia-se. Sabia que não era possível regressar à casa da infância (passara o resto da vida a tentar libertar-se da memória desse tempo) e sabia que não era possível fazer de conta que uma história começa quando decidimos que é tempo de começar. A história de uma vida começa sempre muito antes. Uma história, qualquer história, começa sempre muito antes ou muito depois das primeiras frases. Por isso se diz às vezes que não existe senão uma única história no mundo; e que não é possível contar essa história.

3.

Desaprender. Procurar um nome para cada uma das coisas. Esquecer as evidências. Procurar desde o princípio. Desde os alicerces da casa. Procurar desde a raiz e construir as frases de novo. O que liga e separa a ternura e o desejo? Não sabia. Mas Manuela ficava no seu colo, aninhada no seu corpo, como se o desejo começasse num gesto de trazer de longe a memória da chuva, da lareira acesa, do pó levantado nos caminhos de Verão: antes do sexo, antes do lume erguido nos ombros, nas mãos, na pele inteira dum corpo desprotegido no meio da tempestade. Aline tocava a pele adormecida, abandonada às suas mãos vagarosas. Como se a não despertasse o desejo, o amor: mas a memória de um lugar onde o desejo, então, haveria de erguer-se por dentro da noite. 

segunda-feira, dezembro 15, 2008

2.

Lembra-se de tocar a pele de Manuela. Era uma noite de Inverno e Manuela adormecera no seu colo. Aline olhava a mulher que tanto continuava a fasciná-la pelos segredos que ocultava (a si mesma?) na suposta transparência do que dizia; como se, despindo-se, ficasse cada vez com mais roupa a tapar-lhe o corpo que desnudava ou procurava despir. Manuela desconhecia o desejo. E Aline não compreendia como era possível alguém não sentir, não ter sentido jamais na sua pele a erupção demorada da água. E foi então que lhe tocou a curva do ombro e olhou esse rosto adormecido: essa estranha sombra num rosto adormecido. Era uma noite de Inverno. E Aline imaginava que o tédio poisara nos pulsos de Manuela a sua teia incombustível.

sábado, dezembro 13, 2008

Capítulo XV

(Onde regressa Aline e se regressa às reflexões sobre o tédio e o mais que se verá)

1.

Aline conhece a diferença entre a melancolia e o tédio. Sabe que do tédio nunca se regressa; que o tédio é o fogo apagado ou a labareda incombustível; a indiferença sem a ostentação que tantas vezes decorre dela. A melancolia, por sua vez, é um fogo ainda por arder; um vagaroso lume a meio de reacender ou apagar-se. E é disso que Aline se sente trespassada: da espada melancólica do tempo.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

10.

Sentia-me, de um modo inexplicável, um intruso: a olhar as árvores distantes, o ondulado dos montes reflectido no espelho invertido das águas do rio. O processo de licenciamento já tinha entrado na Câmara. E desci, talvez pela última vez, o carreiro que levava à Casa a Jusante da Ponte de Arame. Era uma tarde de Verão; ouvia o rumor do fio de água a correr nas poldras; e o resto era um silêncio que vinha do fundo do tempo e que parecia afastar-me de cada uma das pedras da casa e de cada uma das folhas da tília do pátio.

9.

Leonardo despediu-se dos técnicos da Câmara com uma daquelas suas frases enigmáticas: «Só gostaria que compreendessem que uma casa é o lugar antes de todas as coisas que haverão de existir; que uma casa é o lugar onde se cruzam as memórias do que haverá de ser.» Saí da reunião antevendo como certa uma proposta técnica de indeferimento à consideração superior. Mas já estava por tudo.

8.

Acordámos em eliminar as intervenções previstas no exterior: o suporte de terras no talude erosionado e a reconstrução de muros além do pequeno troço onde as pedras arrumadas eram ainda visíveis e não se exigiam mais que intervenções de manutenção. Acordámos em eliminar o alpendre; e acordámos, com Leonardo a dizer-me nos olhos a sua objecção, em abdicar, mantendo-se a madeira à vista, da tinta vermelha no portão do pátio. Mas não chegámos a acordo quanto à parede do corpo central. E decidimos que o projecto não abdicaria da empena de cimento. 

sábado, dezembro 06, 2008

7.

Leonardo teve que acompanhar-me e defender o projecto que parecia condenado a não passar o primeiro crivo: o da «integração paisagística na envolvente». Aos técnicos do município causava-lhes particular maçada «a empena de cimento à vista», para não falar do portão vermelho do pátio que, «está a ver, não se coaduna». Eu ainda perguntei: «Mas não se coaduna com o quê?» A resposta pareceu-me sábia, defensiva, evasiva: «Bem, desde logo com o espírito do legislador; é ver o RGEU.» Impunha-se um resumo: a casa (eles diziam «a ruína») localizava-se em Reserva Ecológica Nacional e não existiam evidências de que o alpendre fosse uma pré-existência, o que obrigava a uma «consulta interna do ponto de vista jurídico», ponderando-se melhor a letra exacta da mais recente alteração ao diploma – «porque antes, oh, era taxativo: proibição de quaisquer novas áreas impermeabilizadas»; e, por outro lado, prevendo-se a reconstrução de muros no exterior, e sobretudo uma intervenção de suporte de terras no talude erosionado, exigia-se a obtenção de prévio parecer favorável da Comissão Regional da Reserva Agrícola Nacional. Bem. Cada coisa a seu tempo. «Comecemos então pelas questões específicas do projecto.» O chefe de divisão urbanística, numa voz calma, num tom pedagógico, ligeiramente enfadado com a nossa incompreensão das leis, explica: «Está a ver, isto é uma intervenção em meio rural; e lá diz o artigo centésimo vigésimo primeiro do RGEU, na sua actual redacção, que uma nova construção não pode prejudicar a beleza das paisagens; trata-se dum princípio liminar de indeferimento; isto para não invocar a conjugação com as disposições genéricas do PDM sobre as áreas rurais ou com o número dois do artigo vigésimo quarto do sessenta de dois mil e sete no que respeita às condições especiais relativas à estética das edificações. Ora, a ruína [eu, em vão, procurava corrigir: a casa] localiza-se em área de especial relevância paisagística e na proximidade [eu, em vão, procurava corrigir: a mais de cinco quilómetros por um caminho de pé posto] de uma aldeia preservada – para usar, se me permitem, a terminologia legal. Tudo o que seja cimento nas empenas ou pinturas nos vãos em vez de madeira à vista, está a ver, é contrariar o espírito, ou mesmo a letra, do legislador. Veja se me compreende: estas objecções prévias que levantamos é no seu interesse; não vá dar-se o caso de o processo, dando entrada oficial nos serviços com tantas pontas desligadas, levar a um indeferimentozinho que nunca mais, não sei se está a ver.» Leonardo, as faces vermelhas, crispado, movia-se na cadeira da sala de reuniões. Em silêncio, tocando-lhe no braço, olhando-o nos olhos, encareci que se acalmasse. E disse: «pois muito bem: vamos então, ponto por ponto, ver no que concluímos. Se houver alterações a fazer, fazem-se. E não quero ser, acreditem, o responsável pela destruição das paisagens, pelo incumprimento do artigo centésimo vigésimo primeiro do RGEU ou pelo desrespeito ao espírito do legislador.» A coisa corria assim há três meses; esta era já a terceira reunião; eu, confesso, começava a ficar um bocadinho cansado.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

6.

Dois dias depois, quando regressávamos, quando chegávamos à linha de festo, parámos e olhámos mais uma vez a curva do rio, a casa encaixada no limite da plataforma que subia a encosta, a tília erguida no pátio, os pinheiros bravos, os salgueiros com o verde ténue das suas folhas, os troncos brancos dos vidoeiros, os musgos dos ramos dos carvalhos, o azul e o amarelo e o vermelho e o castanho e outra vez o verde escuro da serra. E o que víamos era uma construção humana; feita do riso, da tragédia, da tristeza, do sonho. Leonardo olhava o fim de tarde, a luz de Junho a estender as suas sombras nas cumeadas sucessivas, como se a paisagem e os desenhos dos seus blocos de papel cavalinho se misturassem. Eu dividia-me perante a imagem dos milagres. E, de súbito, pela primeira vez, de um modo inexplicável, sentia-me ali um intruso: a olhar as árvores distantes, a olhar o ondulado dos montes reflectido no espelho invertido das águas do rio.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

5.

É incrível imaginar que há pouco mais de cem anos não existia aqui um único pinheiro; e que hoje não haveria outra espécie por estes montes e vales se os incêndios não fossem devastando as matas contínuas de resinosas feitas para isso mesmo: para a combustão e o avanço do deserto. Essa foi a maior transformação de todas. O Estado, na sua acção, não visa a felicidade do indivíduo concreto: move-o a ideia abstracta de um interesse «superior». Tão superior e geral e abrangente que, vai-se a ver, acaba por vogar muito acima (e portanto fora) dos interesses específicos das pessoas comuns. O interior sempre foi vítima desta desvelada atenção do Estado. Porque o impulso da acção governativa reverte do princípio de que é preciso acudir ao todo. Ora um Estado centralizador nunca compreendeu que o todo é, ou deveria ser, a soma das partes. E, portanto, em nome do todo abstracto fodeu o todo concreto ao derruir as partes que o constituem. Foi o bem comum que justificou o envio a estas longes terras de topógrafos e engenheiros florestais por finais do século dezanove. As experiências com o pinheiro bravo participavam do desígnio de revitalização económica da Nação «como um todo». O obscuro bem comum, no entanto, como cedo se verificou, começava pela lesão do interesse particular. Ora a densidade populacional sempre foi um conceito a que o Estado não soube nunca ficar imune. Pelas razões óbvias de sobrevivência política, claro. Mas por uma outra decisiva razão: o Estado é uma cortina por detrás da qual há sempre um rosto ou vários rostos e essa necessidade tão humana do reconhecimento e do aplauso. E o interior não dava, nunca deu, notícias, visibilidade, votos, vivas ou sinais de aclamação. Fomos sempre poucos; e esquecidos na exacta proporção desse número. Não contávamos; não contamos. E o bem comum mais vasto que o Estado prossegue não vai agora empancar numa família ou numa comunidade dispersa e sem outra voz que a do silêncio. Por isso a gente da província temia a intervenção do Estado. A ideia era a de que onde metesse a pata ou vinha foda ou canelada. Viu-se com esse exercício experimental de finais do século dezanove a que apenas não se deu seguimento por mor das crises e das trapalhadas políticas que se sucederam até chegar, tantos anos depois, o salvador da Pátria e do interesse público. E o que começou então por fazer-se foi apenas o que os sucessivos distúrbios governativos impediram que mais cedo se fizesse. O Estado (a sua pata) veio de novo às periferias e à baixa densidade. Vários objectivos pretendiam atingir-se com o Plano de Fomento Florestal de mil novecentos e trinta e oito; múltiplos, menos o de salvaguardar os interesses dos que viviam nos lugares onde a floresta haveria de avançar sobre baldios e terrenos comunitários. «Reafirmar a continuidade da alma nacional», «desenvolvimento industrial», «exportação», «reconstruir bosques que os antepassados não separaram nunca da sua aldeia distante quando dela se lembravam em terras de outros continentes» – eis os termos e as considerações preambulares de um Plano em que o Estado garantia o progresso da indústria por via da condenação à fome de quem assistia assim ao avanço do abstracto interesse nacional, do bem comum, a roubar-lhe os pastos concretos e a lenha e os matos e a madeira e o direito a usar o que lhe pertencia. Mas a transformação da paisagem, claro, começou muito antes. E teve sempre a mão do homem. Com a diferença de que, ausente a pata estatal, os equilíbrios se garantiam. Passámos ontem no crasto da Cidadela e você não se teve, olhando os restos das casas circulares e as escadas interiores por onde se acedia às muralhas defensivas, que não dissesse: «até aqui os pinheiros chegaram, os filhos da puta». E olhou o pequeno bosque de carvalhos na vertente cortada quase a pique sobre o ribeiro que desagua no Beça, e as duas ou três linhas de salgueiros e freixos serpenteando na margem, como se essa, multiplicada pelas encostas e pelas cumeadas e pelos terraços das vertentes, fosse a imagem que a sua memória do paraíso lhe devolve. Mas não é assim: nós, há uns cinco milénios, chegámos aqui e cortámos as árvores antigas e queimámos os matos. E se deixámos esses carvalhos e esses vidoeiros foi apenas porque não davam terrenos de pastagem ou o declive não justificava a empreitada. O homem fixava-se ao território e precisava de mel e cereais e lameiros e carqueja e tojo e carvão. O que lhe quero dizer é que a paisagem é uma construção humana. E que esta tília foi plantada por alguém que procurou, contra a inclemência, o prazer de uma sombra no Verão. O que lhe quero dizer é que aquela parede de cimento deveria ser mantida no projecto de reconstrução da casa. Sei que vai contra os seus princípios de manter ou recuperar a memória original do perpianho, das padieiras de pedra, dos tabiques, das empenas sem emparelhamento. Mas há uma história. Há sempre uma história. Que inscrição é aquela na parede de cimento a indicar uma data? O que aconteceu aqui que levou alguém a deixar na parede a inscrição do ano de mil novecentos e sessenta e oito? Seja o que for. É tudo uma construção do homem: a natureza, um bosque, uma casa, uma tília erguida num pátio. Até esta mancha contínua de pinheiros que a pata do Estado trouxe de longe para que hoje possamos sentir, apesar de tudo, o odor da resina a atravessar o rio e a poisar nesta mesa feita com uma tábua das bobines dos cabos eléctricos dos anos cinquenta.

domingo, novembro 30, 2008

4.

Leonardo fala da paisagem como uma construção humana:

sábado, novembro 29, 2008

3.

Calcorreámos a envolvência como se preparássemos uma minuciosa cartografia em que a emoção e o território se confundissem. Subimos e descemos os caminhos de pé posto onde cresceram, por mor da ausência repetida, a urze e o tojo; caminhámos nas margens do rio a ouvir o rumor antigo das águas correntes e a pisar as ervas e os fentos que se alargavam nas plataformas sombrias de pequeno declive; atravessámos, a medo, vagarosamente, a ponte suspensa na garganta cortada na pedra, a direito, ligando assim as duas encostas por tirantes metálicos e pranchas de castanho partidas ou apodrecidas; guardámos folhas de bétulas em cadernos de apontamentos; lamentámos as manchas contínuas de pinheiro bravo; e regressámos atravessando o rio mais uma vez, nas poldras, um pé e depois o outro sobre as pedras erguidas no gralheiro como esculturas mágicas a devolver-nos a memória do tempo.

quarta-feira, novembro 26, 2008

2.

As minhas indicações eram simples (o costume; o lugar-comum): respeitar o objecto a reconstruir; guardar, tanto quanto possível, as memórias antigas. Leonardo é um arquitecto jovem. O lugar fascinou-o, sobressaltou-o. E propôs passarmos ali um fim-de-semana. Era em Junho. Dormimos ao relento, em sacos-cama, sob os ramos imensos da tília do pátio. E só então senti verdadeiramente que a casa começava a pertencer-me e eu a pertencer-lhe.

Capítulo XIV
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(Onde, além do mais, se dá conta dos eventos associados à restauração da casa)
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1.
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O telefone acordou-me por volta das quatro da manhã. Era Aline. Numa urgência a dizer que afinal sempre vendia a casa; se continuava interessado. Uma conversa estranha a meia da noite, a meio dos sonhos. Eu, ensonado, a insistir que falássemos depois; e ela que não: «quero resolver isto o mais depressa possível». Foi uma conversa breve. Repeti os termos da proposta que lhe fizera há uns meses. Aceitou sem reservas. «Há é que tratar dos papéis. Amanhã podemos encontrar-nos?». Marcámos um encontro para o dia seguinte; ao almoço. Eu ainda sem saber muito bem o que pensar de tudo; ela como se estivesse febril e tivesse que desfazer-se da casa para livrar-se da febre.

10.

Adormeces devagar 
lá fora os automóveis correm disparados nas avenidas da cidade
no sonho sobes a escada íngreme do coreto e tens uma folha à tua frente
será o mês de novembro será o verão
raramente escolhemos os papéis que representamos
dizes a tua deixa e estranhas o silêncio de súbito quebrado como um vidro numa tarde de domingo
«talvez na minha vida nunca tivesse perdido nada que tivesse tido»
e sentes que só então regressas a ti mesma
será o mês de novembro será o verão
na verdade só então adormeces.

9.

Há uma casa e o mais certo é que seja em novembro
que é quando o inverno irrompe nos pátios sem ser ainda o seu tempo
e no entanto há um caminho a correr na orla do rio e todas as águas nascem desse rio
e nesse rio desaguam todas as águas
e a memória devolve-te as grinaldas e o alecrim nas ruas e os mapas da infância e o largo onde haveria de ser verão se ainda lá estivesses
porque novembro podava com minúcia as roseiras bravas e no entanto as mulheres das fotografias exerciam ainda o ofício de misturar em tabuleiros de vime as flores sucessivas enquanto os homens viravam os fenos à lâmina e as cantigas de trabalho eram copiadas dos registos de michel giacometti 
há uma casa e por instantes imaginaste o verão
o mais certo é que seja em novembro
que é quando o inverno irrompe nos pátios sem ser ainda o seu tempo.

sexta-feira, novembro 21, 2008

8.
.
Um automóvel corre disparado nas avenidas da cidade
uma avenida e outra avenida correm disparadas contra os automóveis da cidade
o néon reflecte nos charcos de água de novembro um estranho movimento oscilatório
depois das chuvas é preciso repor os sobretudos e as gabardines nas lojas
depois das chuvas e do vento os dirigentes bancários trazem nas disquetes embrulhadas em laços de seda e nos nós de windsor as máquinas automáticas das crises contra os vendavais
passando ausente dos palcos e dos coretos e da flor única e última do agave uma criança pára por instantes a caminho da escola a olhar o vórtice repercussivo dos escritórios do comércio e das repartições de finanças
os semáforos variam entre o verde e o vermelho nos bares e nas praças interditas à demasia ou ao recreio 
há um tumulto [e quase passam as aves] que parece queimar por dentro a alucinação das montras iluminadas
adormeces
adormeces devagar entre a torrente e a conciliação e o trânsito
e o domínio sempre presente da passagem do tempo 
às vezes é tarde
não é tarde nem é cedo são
quatro da manhã
e um automóvel corre disparado nas avenidas da cidade.

terça-feira, novembro 18, 2008

7.

Deixar assim o vento adormecido sobre a urze e o tojo onde os caminhos foram perdendo o seu desenho de serpente nas encostas
deixar as folhas da hera ou a trepadeira do sono com as cinco pétalas de cobre nos muros de pedra e as raízes atadas à sombra dos meses frios
que nenhum rumor se acrescente às fendas de circulação das águas minerais ou dos depósitos de vertente para que a erosão exerça o ofício de retirar as palavras uma a uma dos seus leitos inclinados repondo apenas à superfície os materiais mais leves da lenta deposição aluvial
deixar o tempo misturar-se às folhas do chão da floresta até rasurar nas fotografias de satélite as linhas antigas do cadastro
os muros das culturas temporárias
a luz errada dos encontros
deixar assim o vento adormecido sobre a urze e o tojo
deixar que o silêncio seja a única reverberação das paredes da casa e os dias apenas amanheçam como se alguma coisa estivesse ainda para acontecer
e então chegasses com a memória da vara de lódão
em vez dos milagres
e não procurasses nada.

segunda-feira, novembro 17, 2008

6.

Como se não houvesse tempo nem movimento
como se não houvesse palavras para nomear as coisas
deixa adormecer as mãos sobre o corpo até não teres uma biografia
dias sucessivos devolvidos por imagens vagas
é do outro lado de ti que tudo acontece
uma criança corre sozinha numa estrada de terra batida que não vem ainda desenhada nos mapas
é no inverno
há-de ser inverno por muitos meses e estações que o tempo acrescente aos calendários das paredes das tabernas
é no inverno e tocas vagarosamente a labareda azul da insónia como se fosse possível adormecer as mãos sobre o corpo até não ter uma biografia.

sábado, novembro 15, 2008

5.

Os muros intransponíveis é um modo de dizer
confesso que nunca fui muito dada à inventariação dos escombros
que nunca foi o meu exercício preferido este de retirar as camadas sucessivas de sedimento
o entulho acumulado do lado de dentro das palavras e das fotografias dos aniversários
o de reconstruir a peça de cerâmica de renda
o de puxar por um fio e trazer de longe a memória dos fustes densos das árvores inclinadas nas margens antes do inverno
confesso
nunca a melancolia me comoveu da distância que vai do sonho à devolução das suas estilhaçadas imagens 
eu olhava a chuva oblíqua dos poemas e via o retrato iluminado das searas pelo verão imenso
eu entrava nas represas e só ouvia o rumor das águas desenhando nas pedras o círculo imperfeito da passagem do tempo
confesso
dos paraísos às vezes é preciso fugir a sete pés 
prefiro o veneno da transfiguração 
prefiro ao júbilo o prodígio da ignorância ou o reconhecimento da precariedade do prazer
confesso que nunca fui muito dada à inventariação dos escombros
eu quero tudo e o seu contrário
às vezes apetecia-me dizer 
«eu sou a deusa das contradições».