quarta-feira, novembro 26, 2008
10.
Adormeces devagar
lá fora os automóveis correm disparados nas avenidas da cidade
no sonho sobes a escada íngreme do coreto e tens uma folha à tua frente
será o mês de novembro será o verão
raramente escolhemos os papéis que representamos
dizes a tua deixa e estranhas o silêncio de súbito quebrado como um vidro numa tarde de domingo
«talvez na minha vida nunca tivesse perdido nada que tivesse tido»
e sentes que só então regressas a ti mesma
será o mês de novembro será o verão
na verdade só então adormeces.
9.
Há uma casa e o mais certo é que seja em novembro
que é quando o inverno irrompe nos pátios sem ser ainda o seu tempo
e no entanto há um caminho a correr na orla do rio e todas as águas nascem desse rio
e nesse rio desaguam todas as águas
e a memória devolve-te as grinaldas e o alecrim nas ruas e os mapas da infância e o largo onde haveria de ser verão se ainda lá estivesses
porque novembro podava com minúcia as roseiras bravas e no entanto as mulheres das fotografias exerciam ainda o ofício de misturar em tabuleiros de vime as flores sucessivas enquanto os homens viravam os fenos à lâmina e as cantigas de trabalho eram copiadas dos registos de michel giacometti
há uma casa e por instantes imaginaste o verão
o mais certo é que seja em novembro
que é quando o inverno irrompe nos pátios sem ser ainda o seu tempo.
sexta-feira, novembro 21, 2008
uma avenida e outra avenida correm disparadas contra os automóveis da cidade
o néon reflecte nos charcos de água de novembro um estranho movimento oscilatório
depois das chuvas é preciso repor os sobretudos e as gabardines nas lojas
depois das chuvas e do vento os dirigentes bancários trazem nas disquetes embrulhadas em laços de seda e nos nós de windsor as máquinas automáticas das crises contra os vendavais
passando ausente dos palcos e dos coretos e da flor única e última do agave uma criança pára por instantes a caminho da escola a olhar o vórtice repercussivo dos escritórios do comércio e das repartições de finanças
os semáforos variam entre o verde e o vermelho nos bares e nas praças interditas à demasia ou ao recreio
há um tumulto [e quase passam as aves] que parece queimar por dentro a alucinação das montras iluminadas
adormeces
adormeces devagar entre a torrente e a conciliação e o trânsito
e o domínio sempre presente da passagem do tempo
às vezes é tarde
não é tarde nem é cedo são
quatro da manhã
e um automóvel corre disparado nas avenidas da cidade.
terça-feira, novembro 18, 2008
deixar as folhas da hera ou a trepadeira do sono com as cinco pétalas de cobre nos muros de pedra e as raízes atadas à sombra dos meses frios
que nenhum rumor se acrescente às fendas de circulação das águas minerais ou dos depósitos de vertente para que a erosão exerça o ofício de retirar as palavras uma a uma dos seus leitos inclinados repondo apenas à superfície os materiais mais leves da lenta deposição aluvial
deixar o tempo misturar-se às folhas do chão da floresta até rasurar nas fotografias de satélite as linhas antigas do cadastro
os muros das culturas temporárias
a luz errada dos encontros
deixar assim o vento adormecido sobre a urze e o tojo
deixar que o silêncio seja a única reverberação das paredes da casa e os dias apenas amanheçam como se alguma coisa estivesse ainda para acontecer
e então chegasses com a memória da vara de lódão
em vez dos milagres
e não procurasses nada.
segunda-feira, novembro 17, 2008
como se não houvesse palavras para nomear as coisas
deixa adormecer as mãos sobre o corpo até não teres uma biografia
dias sucessivos devolvidos por imagens vagas
é do outro lado de ti que tudo acontece
uma criança corre sozinha numa estrada de terra batida que não vem ainda desenhada nos mapas
é no inverno
há-de ser inverno por muitos meses e estações que o tempo acrescente aos calendários das paredes das tabernas
é no inverno e tocas vagarosamente a labareda azul da insónia como se fosse possível adormecer as mãos sobre o corpo até não ter uma biografia.
sábado, novembro 15, 2008
5.
Os muros intransponíveis é um modo de dizer
confesso que nunca fui muito dada à inventariação dos escombros
que nunca foi o meu exercício preferido este de retirar as camadas sucessivas de sedimento
o entulho acumulado do lado de dentro das palavras e das fotografias dos aniversários
o de reconstruir a peça de cerâmica de renda
o de puxar por um fio e trazer de longe a memória dos fustes densos das árvores inclinadas nas margens antes do inverno
confesso
nunca a melancolia me comoveu da distância que vai do sonho à devolução das suas estilhaçadas imagens
eu olhava a chuva oblíqua dos poemas e via o retrato iluminado das searas pelo verão imenso
eu entrava nas represas e só ouvia o rumor das águas desenhando nas pedras o círculo imperfeito da passagem do tempo
confesso
dos paraísos às vezes é preciso fugir a sete pés
prefiro o veneno da transfiguração
prefiro ao júbilo o prodígio da ignorância ou o reconhecimento da precariedade do prazer
confesso que nunca fui muito dada à inventariação dos escombros
eu quero tudo e o seu contrário
às vezes apetecia-me dizer
«eu sou a deusa das contradições».
terça-feira, novembro 11, 2008
Um caule ou a linhagem ou uma pedra ou as águas de lima ou uma sílaba ou a imagem esculpida a navalha na madeira dos lódãos
ou ainda o vento nos ramos dos negrilhos
a lâmpada e a raiz da urze acesa no inverno
coisas assim que depois de irremediavelmente as termos perdido é que parecem regressar como se nos pertencessem desde sempre
como se nenhuma defesa resistisse a essa vocação incombustível dos desastres
ou o desejo exigisse o vórtice e a incineração
e a melancolia impusesse aos meteoros uma condição antecedente
como se não respirássemos do outro lado das margens dos incêndios enquanto não viesse o abandono e nos muros intransponíveis começassem a inscrever-se os mapas dos territórios obscuros da infância e a nervura mais íntima das suas quatro folhas desiguais
enquanto nos desenhos a lápis não emergissem as ilhas desertas dos primeiros nomes ou os enigmas de uma língua cuja aprendizagem exige o prévio desprendimento
de tudo.
quinta-feira, novembro 06, 2008
Procurar então a raiz de que nos desligámos por inércia e no labirinto das linhas do ábaco ou nos sulcos das parcelas do cadastro a caligrafia trémula dos primeiros anos
a pedra do lagar e o esquecido rumor do vento nos arames das vinhas
o dia claro
a sombra nas paredes de cimento do telheiro do pátio
o aroma das amoras inverosímeis nos muros dos caminhos
a raiz de que nos desligámos por inércia enquanto a escassez acumulava a cinza em redor do lume.
quarta-feira, novembro 05, 2008
O prazer sem as suas roldanas sobressaltadas
sem os seus fios erguidos e desatados entre o corpo e a nuvem
deixando aos poucos a luz das nascentes entregue à variação dos seus pronomes possessivos
como se a abundância e a claridade e a indiferença trouxessem o tédio por osmose
como se apenas tivéssemos frio e puxássemos a roupa e adormecêssemos misturando na água as sementes azuis da valeriana
ou o torpor das folhas da tília
ou o incandescente ramo vagaroso da hipnose
como se a inquietação tivesse já desmoronado em si mesma
uma a uma
as barreiras precárias da exaltação
sem os seus fios erguidos e desatados entre o corpo e a nuvem.
terça-feira, novembro 04, 2008
segunda-feira, novembro 03, 2008
9.
Bem vê. Já sabe. João Pequeno veio do Brasil fugindo, se assim se pode dizer, de si mesmo. Veio quando a sua vida parecia enovelar-se irremediavelmente e correr sem rumo, e quando as imagens antigas lhe foram devolvidas no alarme da sua irreparável ausência. João Pequeno, então, não sabia que Catarina Ribeiro da Conceição ficara grávida; à espera de um filho seu. Talvez nunca o tivesse chegado a saber. A verdade é que Catarina regressou a Portugal, a Lamego, à casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal, e teve uma criança a que deram o nome de Margarida. Margarida é a minha mãe. Poupo-lhe pormenores. O avô de Aline e o meu avô não são senão uma e a mesma pessoa. O destino acabou por juntar-me a Aline numa noite de copos e por descobrir-nos como primas irmãs. Compreende agora porque lhe disse que falar de Aline era falar de mim?
domingo, novembro 02, 2008
8.
Veja; veja como são as coisas; os caminhos que levam. A história é nebulosa, como lhe disse. Mas sabe-se que Luísa teve o seu filho no Porto; em casa de Fernanda, dona Fernanda, e do professor com ar de maricas que tinha chegado à Vila na camioneta da carreira numa manhã de Outubro de mil novecentos e dezanove. Pouco mais se sabe de Luísa. Fernanda tinha setenta e cinco anos e morreu em Julho desse ano em que Mário Pequeno chegou e abriu a porta da Pensão e estendeu colchas na varanda. E talvez tivesse ficado como guardiã única dos segredos e dos mistérios desses obscuros anos.
7.
Numa sexta-feira, no dia catorze de Agosto de mil novecentos e quarenta e nove, um jovem chegou à Vila, subiu os três degraus da escaleira da entrada da Pensão Americana, abriu a porta e entrou. E, no dia seguinte, às seis e meia da tarde, quando a procissão seguia a caminho do Alto da Ribeira, estendeu as colchas coloridas no parapeito da varanda e ficou assim, belo, iluminado por dentro, quase como uma aparição, a olhar os anjinhos e os andores. O filho de Luísa chamava-se Mário e o seu rosto era quase uma cópia do rosto da mãe.
6.
É uma história nebulosa. Ninguém sabe como Luísa saiu da Vila. Ninguém a viu sair. Ninguém a viu a descer a escaleira da Pensão, ninguém a viu a esperar a camioneta da carreira no largo do Toural, ninguém a viu na rua Vinte e Oito de Maio, ninguém a viu a atravessar a Senhora da Livração. Ninguém a viu. Desapareceu. Simplesmente. Nunca mais ninguém a viu depois do almoço desse sábado à tarde de Julho. Contaram-se histórias, claro. Que a luz duma vela acesa se desenhava, em algumas noites, contra a janela do seu quarto da Pensão Americana; que uma mulher atravessava as poldras da Presa das Tílias em havendo lua, e que só podia ser ela. O certo é que Luísa desapareceu como se nunca tivesse existido ou como se o seu nome tivesse sido riscado das folhas das árvores do Noro e do jardim dos Correios.
sábado, novembro 01, 2008
5.
Mas, depois do almoço, Luísa fechou a porta, correu as cortinas das janelas do piso térreo, cerrou as portadas, puxou o trinco das cancelas de ferro do pátio. E desapareceu. Para sempre. E a casa ficou fechada; e ninguém entrou por essa porta, galgando os três degraus da escaleira, atravessando a sala da entrada da Pensão Americana, olhando a gravura do Rapto de Europa pendurada na parede do fundo, subindo depois até ao andar dos quartos, abrindo uma janela, chegando-se à varanda que dava para o Largo do Toural, até à sexta-feira do dia dezanove de Agosto de mil novecentos e quarenta e nove.
4.
Fernando Lalice, Agenor e Arnaldo Adão, o Lindinho, almoçaram na sala da entrada da Pensão Americana. Era um sábado de Julho, de finais de Julho de mil novecentos e trinta e um. O calor poisava na abóbada do vale como uma nuvem espessa: agarrada à pele das crianças, agarrada às folhas das árvores, misturada no ar incandescente. Ninguém sabe ao certo o que se passou nesse dia e nos dias e nos meses que se sucederam a esse dia em que Lalice comemorava a empreitada de remodelação do mobiliário do colégio do Eiró. Imagino o Lindinho a lamentar para si mesmo que Luísa já não lhe pedisse ajuda na preparação do clafouti de maçã reineta; que Agenor, sabendo embora da gravidez de Luísa, a olhasse ainda como se um rio desaguasse no seu corpo; e imagino que Lalice, muito dado à farinheira frita e à truta de escabeche, fosse pedindo «vinho, minha querida, até lhe chegarmos com um dedo». Era, como lhe digo, uma tarde quente de finais de Julho. O povo, claro, falava da gravidez de Luísa; dessa «vergonha»; e ligava o sexo (e a desonra, e a infâmia) ao desaparecimento de João Pequeno e Adriano numa noite de chuva e vento sobre os telhados e os vidoeiros e os pinheiros bravos. Porque o sexo decorria da ideia de prazer; e o prazer representava o pecado supremo de sentir-se o corpo por dentro dele. O certo é que Luísa estava feliz; ria; falava em voz alta. Lalice é assim que a recorda durante o almoço, trazendo as sobremesas, o café, o medronho de Fiães: «Cheguei a pensar que o filho da puta do João Pequeno nunca tinha saído do seu quarto da Pensão e que Luísa se ria de nós a esconder um segredo.»
sexta-feira, outubro 31, 2008
3.
Eu disse uma nuvem poisada nos telhados; talvez fosse mais correcto dizer o silêncio escondido no fundo da terra. Porque é esse pressentido rumor que faz deslocar as placas dos pequenos lugares da província; porque é esse alvoroço sem rosto que se mistura à água das nascentes para sentirmos, depois de tocá-la e recolhê-la com as mãos em concha, a perturbação da passagem do tempo; porque é o silêncio que traz o esquecimento e a memória do que esquecemos assim.
quarta-feira, outubro 22, 2008
2.
Luísa começou por não dar ouvidos ao mundo. Como se João apenas demorasse a chegar ao almoço e em breve estivessem juntos a mostrar ao povo e à sua língua bífida que o amor se sobrepõe a tudo. E haveriam então de falar do futuro e da luz da primavera a entrar nas copas e a poisar nas folhas do ano dos negrilhos dos quintais. Mas depressa uma nuvem pareceu ficar poisada sobre os telhados da Pensão Americana e o jardim dos Correios e as ruas quando descia ou subia as ruas da Vila. E o azul do céu, aos poucos, distanciava-se; e não era já distante: diluía-se no acinzentado das manhãs e das tardes de Maio e Junho até desaparecer e ser a memória vaga de um tempo que, tudo indicava, não poderia regressar mais aos seus nomes.
quarta-feira, outubro 15, 2008
Capítulo XII
(Onde Maria Teresa continua a puxar os fios da história, já que mais ninguém, começando pelo A., parece interessado em fazê-lo)
1.
Ao povo não se lhe entaramelou a língua na boca; a complexidade do caso só parece tê-la acirrado. As estranhas circunstâncias do desaparecimento de João e Adriano, de resto, assumiam carácter secundário; porque em havendo sexo à mistura, ou a suspeita dele, é tiro e queda. A isso, desde sempre, a língua do povo não renuncia. E de Luísa, como imagina, o menos que se disse na Vila foram coisas do género «ai esta a mim nunca me enganou a filha da puta».