terça-feira, novembro 11, 2008

4.

Um caule ou a linhagem ou uma pedra ou as águas de lima ou uma sílaba ou a imagem esculpida a navalha na madeira dos lódãos
ou ainda o vento nos ramos dos negrilhos
a lâmpada e a raiz da urze acesa no inverno
coisas assim que depois de irremediavelmente as termos perdido é que parecem regressar como se nos pertencessem desde sempre
como se nenhuma defesa resistisse a essa vocação incombustível dos desastres
ou o desejo exigisse o vórtice e a incineração
e a melancolia impusesse aos meteoros uma condição antecedente
como se não respirássemos do outro lado das margens dos incêndios enquanto não viesse o abandono e nos muros intransponíveis começassem a inscrever-se os mapas dos territórios obscuros da infância e a nervura mais íntima das suas quatro folhas desiguais
enquanto nos desenhos a lápis não emergissem as ilhas desertas dos primeiros nomes ou os enigmas de uma língua cuja aprendizagem exige o prévio desprendimento
de tudo.

quinta-feira, novembro 06, 2008

3.

Procurar então a raiz de que nos desligámos por inércia e no labirinto das linhas do ábaco ou nos sulcos das parcelas do cadastro a caligrafia trémula dos primeiros anos
a pedra do lagar e o esquecido rumor do vento nos arames das vinhas
o dia claro
a sombra nas paredes de cimento do telheiro do pátio
o aroma das amoras inverosímeis nos muros dos caminhos
a raiz de que nos desligámos por inércia enquanto a escassez acumulava a cinza em redor do lume.

quarta-feira, novembro 05, 2008

2.

O prazer sem as suas roldanas sobressaltadas
sem os seus fios erguidos e desatados entre o corpo e a nuvem
deixando aos poucos a luz das nascentes entregue à variação dos seus pronomes possessivos
como se a abundância e a claridade e a indiferença trouxessem o tédio por osmose
como se apenas tivéssemos frio e puxássemos a roupa e adormecêssemos misturando na água as sementes azuis da valeriana
ou o torpor das folhas da tília
ou o incandescente ramo vagaroso da hipnose
como se a inquietação tivesse já desmoronado em si mesma
uma a uma
as barreiras precárias da exaltação
sem os seus fios erguidos e desatados entre o corpo e a nuvem.

terça-feira, novembro 04, 2008

Capítulo XIII
.
(Onde, em vez de continuar em prosa escorreita este folhetim que começava a ter algum interesse, se cede à tentação de transcrever, sem edição nem emendas, alguns textos de Aline)
.
1.
.
Uma casa
como se não existisse
como se nunca pudesse ter existido
como se a ninguém pertencesse ou pudesse pertencer-lhe
como se a memória não sobreviesse às primeiras chuvas ou à poeira das tardes muito quentes de julho e as suas paredes ruíssem de não haver um gesto que as defendesse
de não haver um rumor sobressaltado a entrar por dentro da idade
de não haver um cântaro com água
a mesa comum
a pedra da lareira
um retrato na sala de jantar nos dias de cerimónia
como se não houvesse o vento nos telhados e a chave e um pátio e uma varanda de onde se viam as encostas e as cumeadas e daí o mundo e as suas desconhecidas frases
como se não houvesse o amor e o desejo
como se não houvesse uma tília com as suas folhas em forma de coração
como se os alicerces e os púcaros e as rosas não pudessem misturar-se
como se a luz do verão não abrisse por dentro os frutos guardados nos tabuleiros de vime
como se não existisse
como se nunca pudesse ter existido
como se a ninguém pertencesse ou pudesse pertencer-lhe.

segunda-feira, novembro 03, 2008

9.

Bem vê. Já sabe. João Pequeno veio do Brasil fugindo, se assim se pode dizer, de si mesmo. Veio quando a sua vida parecia enovelar-se irremediavelmente e correr sem rumo, e quando as imagens antigas lhe foram devolvidas no alarme da sua irreparável ausência. João Pequeno, então, não sabia que Catarina Ribeiro da Conceição ficara grávida; à espera de um filho seu. Talvez nunca o tivesse chegado a saber. A verdade é que Catarina regressou a Portugal, a Lamego, à casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal, e teve uma criança a que deram o nome de Margarida. Margarida é a minha mãe. Poupo-lhe pormenores. O avô de Aline e o meu avô não são senão uma e a mesma pessoa. O destino acabou por juntar-me a Aline numa noite de copos e por descobrir-nos como primas irmãs. Compreende agora porque lhe disse que falar de Aline era falar de mim? 

domingo, novembro 02, 2008

8.

Veja; veja como são as coisas; os caminhos que levam. A história é nebulosa, como lhe disse. Mas sabe-se que Luísa teve o seu filho no Porto; em casa de Fernanda, dona Fernanda, e do professor com ar de maricas que tinha chegado à Vila na camioneta da carreira numa manhã de Outubro de mil novecentos e dezanove. Pouco mais se sabe de Luísa. Fernanda tinha setenta e cinco anos e morreu em Julho desse ano em que Mário Pequeno chegou e abriu a porta da Pensão e estendeu colchas na varanda. E talvez tivesse ficado como guardiã única dos segredos e dos mistérios desses obscuros anos.

7.

Numa sexta-feira, no dia catorze de Agosto de mil novecentos e quarenta e nove, um jovem chegou à Vila, subiu os três degraus da escaleira da entrada da Pensão Americana, abriu a porta e entrou. E, no dia seguinte, às seis e meia da tarde, quando a procissão seguia a caminho do Alto da Ribeira, estendeu as colchas coloridas no parapeito da varanda e ficou assim, belo, iluminado por dentro, quase como uma aparição, a olhar os anjinhos e os andores. O filho de Luísa chamava-se Mário e o seu rosto era quase uma cópia do rosto da mãe.

6.

É uma história nebulosa. Ninguém sabe como Luísa saiu da Vila. Ninguém a viu sair. Ninguém a viu a descer a escaleira da Pensão, ninguém a viu a esperar a camioneta da carreira no largo do Toural, ninguém a viu na rua Vinte e Oito de Maio, ninguém a viu a atravessar a Senhora da Livração. Ninguém a viu. Desapareceu. Simplesmente. Nunca mais ninguém a viu depois do almoço desse sábado à tarde de Julho. Contaram-se histórias, claro. Que a luz duma vela acesa se desenhava, em algumas noites, contra a janela do seu quarto da Pensão Americana; que uma mulher atravessava as poldras da Presa das Tílias em havendo lua, e que só podia ser ela. O certo é que Luísa desapareceu como se nunca tivesse existido ou como se o seu nome tivesse sido riscado das folhas das árvores do Noro e do jardim dos Correios.

sábado, novembro 01, 2008

5.

Mas, depois do almoço, Luísa fechou a porta, correu as cortinas das janelas do piso térreo, cerrou as portadas, puxou o trinco das cancelas de ferro do pátio. E desapareceu. Para sempre. E a casa ficou fechada; e ninguém entrou por essa porta, galgando os três degraus da escaleira, atravessando a sala da entrada da Pensão Americana, olhando a gravura do Rapto de Europa pendurada na parede do fundo, subindo depois até ao andar dos quartos, abrindo uma janela, chegando-se à varanda que dava para o Largo do Toural, até à sexta-feira do dia dezanove de Agosto de mil novecentos e quarenta e nove.

4.

Fernando Lalice, Agenor e Arnaldo Adão, o Lindinho, almoçaram na sala da entrada da Pensão Americana. Era um sábado de Julho, de finais de Julho de mil novecentos e trinta e um. O calor poisava na abóbada do vale como uma nuvem espessa: agarrada à pele das crianças, agarrada às folhas das árvores, misturada no ar incandescente. Ninguém sabe ao certo o que se passou nesse dia e nos dias e nos meses que se sucederam a esse dia em que Lalice comemorava a empreitada de remodelação do mobiliário do colégio do Eiró. Imagino o Lindinho a lamentar para si mesmo que Luísa já não lhe pedisse ajuda na preparação do clafouti de maçã reineta; que Agenor, sabendo embora da gravidez de Luísa, a olhasse ainda como se um rio desaguasse no seu corpo; e imagino que Lalice, muito dado à farinheira frita e à truta de escabeche, fosse pedindo «vinho, minha querida, até lhe chegarmos com um dedo». Era, como lhe digo, uma tarde quente de finais de Julho. O povo, claro, falava da gravidez de Luísa; dessa «vergonha»; e ligava o sexo (e a desonra, e a infâmia) ao desaparecimento de João Pequeno e Adriano numa noite de chuva e vento sobre os telhados e os vidoeiros e os pinheiros bravos. Porque o sexo decorria da ideia de prazer; e o prazer representava o pecado supremo de sentir-se o corpo por dentro dele. O certo é que Luísa estava feliz; ria; falava em voz alta. Lalice é assim que a recorda durante o almoço, trazendo as sobremesas, o café, o medronho de Fiães: «Cheguei a pensar que o filho da puta do João Pequeno nunca tinha saído do seu quarto da Pensão e que Luísa se ria de nós a esconder um segredo.» 

sexta-feira, outubro 31, 2008

3.

Eu disse uma nuvem poisada nos telhados; talvez fosse mais correcto dizer o silêncio escondido no fundo da terra. Porque é esse pressentido rumor que faz deslocar as placas dos pequenos lugares da província; porque é esse alvoroço sem rosto que se mistura à água das nascentes para sentirmos, depois de tocá-la e recolhê-la com as mãos em concha, a perturbação da passagem do tempo; porque é o silêncio que traz o esquecimento e a memória do que esquecemos assim. 

quarta-feira, outubro 22, 2008

2.

Luísa começou por não dar ouvidos ao mundo. Como se João apenas demorasse a chegar ao almoço e em breve estivessem juntos a mostrar ao povo e à sua língua bífida que o amor se sobrepõe a tudo. E haveriam então de falar do futuro e da luz da primavera a entrar nas copas e a poisar nas folhas do ano dos negrilhos dos quintais. Mas depressa uma nuvem pareceu ficar poisada sobre os telhados da Pensão Americana e o jardim dos Correios e as ruas quando descia ou subia as ruas da Vila. E o azul do céu, aos poucos, distanciava-se; e não era já distante: diluía-se no acinzentado das manhãs e das tardes de Maio e Junho até desaparecer e ser a memória vaga de um tempo que, tudo indicava, não poderia regressar mais aos seus nomes. 

quarta-feira, outubro 15, 2008

Capítulo XII

(Onde Maria Teresa continua a puxar os fios da história, já que mais ninguém, começando pelo A., parece interessado em fazê-lo)

1.

Ao povo não se lhe entaramelou a língua na boca; a complexidade do caso só parece tê-la acirrado. As estranhas circunstâncias do desaparecimento de João e Adriano, de resto, assumiam carácter secundário; porque em havendo sexo à mistura, ou a suspeita dele, é tiro e queda. A isso, desde sempre, a língua do povo não renuncia. E de Luísa, como imagina, o menos que se disse na Vila foram coisas do género «ai esta a mim nunca me enganou a filha da puta». 

domingo, outubro 12, 2008

31.

Choveu durante dias a fio. As ribeiras galgaram as margens, as águas correram no vale, subiram as linhas das encostas. Nunca mais se soube de João Pequeno; nem de Américo Fontes. Até que chegou à Vila a notícia de um carro encalhado nas pedras a seguir ao gralheiro da Presa do Lameiro Grande. Só podia ser que tivesse caído da Ponte de Arame e o arrastasse a correnteza; as tábuas, a meio da ponte, estavam partidas. Mas era impossível compreender o que levara um Fiat Balilla, numa madrugada chuvosa de Abril, a aventurar-se sobre uma ponte pedonal que ligava, é certo, uma parte do mundo a outra parte do mundo, o estradão da Aldeia às estradas de macadame e às luzes das cidades longínquas.


A Ponte de Arame vista a partir da curva do Lameiro Grande. Fotografia de 1999. Autor: Maria Teresa.

30.

Luísa deitou-se. Já era tarde. João e Adriano Fontes ficaram na sala de entrada da Pensão Americana. «Fechem-me as portas; não se esqueçam de me apagar as luzes.» Comiam presunto, bebiam canecas sucessivas de vinho de Anelhe. Não havia uma nuvem no fim de tarde; estava um calor quase insuportável. E, de súbito, uma aragem anunciou-se nas folhas minúsculas do espinheiro-da-virgínia do largo do Toural. E, como se o Inverno voltasse de novo, começou a chover. Luísa acordou com as mãos de João a tocar-lhe a pele muito devagar; acordou na surpresa de sentir o seu corpo regressar a si mesmo. A chuva, lá fora: sobre os telhados e a copa das árvores e o zinco dos anexos. Luísa quase não se movia. As mãos de João Pequeno tocavam a sua pele como se apenas a pressentissem; como se a procurassem, um poro e depois outro, desde um tempo antigo; como se, procurando o seu corpo, o desenhassem pela primeira vez. A chuva, lá fora: o barulho da chuva sobre os telhados e a copa das árvores e o zinco dos anexos. Até à vertigem ou à certeza de que o amor existe num único momento para sempre. E, com a chuva ainda nos telhados, acordou; a luz indecisa a entrar no quarto. Estendeu as mãos. João não estava a seu lado. Chovia ainda. Chovia sempre. E Luísa temeu que tudo (o mundo, o prazer, o amor) não passasse de um sonho.

29.

Luísa sentia-se confusa. Havia dois tempos que pareciam sobrepor-se e afastar-se. E, entre eles, as interrogações; as dúvidas. Luísa ouvia apenas a espaços os diálogos de João e Adriano. «Isto, como você sabe, é uma máquina; vai onde se quiser, amigo João; ao fim do mundo.» O tempo, a passagem do tempo, era o objecto de reflexão. Luísa compreendia finalmente que o prazer não está no que julgamos ter mas no que se teme perder do que se dá e recebe. Luísa conhecia o prazer de o procurar em si mesma; e de o receber dos outros. Mas só agora compreendia que o prazer verdadeiro se desenha na fronteira dos desastres; na precariedade dos seus excessos e das suas iluminações. Talvez o amor e o prazer pudessem confundir-se. Talvez fosse preciso o tempo (a passagem do tempo) para que o prazer (o amor) alumiasse as suas falhas, as suas ausências. «O mundo, amigo João. Oh, o mundo. O mundo é o que quisermos que nos possa pertencer. A Vila, claro, como sabe…» Porque o amor (o prazer) não existe se a conquista não for a sua permanente definição. E Luísa sentia o prazer pela primeira vez. Procurando-se; lutando por ele; na certeza de que o hedonismo não é senão a máscara do que verdadeiramente procuramos em nós mesmos. «Sim, o Brasil. O Brasil. A imensa Europa. A música, as cidades, as mulheres, amigo João.» O Fiat avançava por dentro da tarde quente; entre a poeira levantada e a sombra que começava a descer. E Luísa sentia-se confusa: descobrira finalmente o amor; e intuía o quanto esse momento era raro entre a terra e o céu.

sábado, outubro 11, 2008

28.

Eram quase cinco horas quando chegaram ao largo do Meio da Aldeia. Os cromados do Fiat Balilla reluziam na tarde que declinava como se o pó do estradão, horas antes, não tivesse coberto a carroçaria em várias camadas e não se tivesse entranhado nas juntas e nos prumos metálicos da protecção do motor, nos aros, nos globos dos faróis; e como se o pó, já a seguir, não voltasse a recobrir tudo. Adriano, ainda assim, sorria. «Que belo passeio, ah?» João olhou a casa do padrinho, a cancela do pátio, a escaleira que dá ao terraço, os vidros da janela onde bateu com o nó dos dedos na madrugada longínqua de Julho de mil novecentos e dezanove. Um momento breve; porque de imediato entrou no carro. Sem uma palavra. E, como Luísa haveria de dizer mais tarde, «não olhou para trás uma única vez.»

quinta-feira, outubro 09, 2008

27.

Talvez tivesse sido plantada em mil oitocentos e sessenta e cinco. Porque foi nessa altura que Américo Fontes deixou a Aldeia e começou a limpar o terreno da Mina e, aos poucos, a erguer muros e paredes. As casas têm um cheiro que não se repete. Esta casa está impregnada do aroma da tília de folhas pequenas em forma de coração. João vagueia pelo perímetro dessa parte do mundo; sobe a escaleira exterior e, da pedra da varanda, olha o pátio onde a árvore continua a erguer-se como se o seu papel fosse o de testemunhar a ruína e guardar os segredos. Por entre caliça e poeira, por entre pedra miúda e restos dos travejamentos, João vê uma lata de conservas enferrujada, a moldura de um retrato, cacos de loiça e de vidros de espelho, um pente, um bacio de esmalte, uma boneca de plástico sem pernas nem braços, os sinais de fogo onde foi a lareira, cinza calcinada no chão do forno, ferros da cabeceira das camas, um garfo, uma trempe retorcida, um alguidar partido. João vagueia pela casa como se o odor da tília trouxesse o passado e o misturasse ao tempo presente. Mas tudo são restos, pedaços, resíduos. Luísa repete: «vai sendo tarde, João». E enfim regressam. Caminham em silêncio. Até que João pára por um instante como se fizesse um resumo: «Vou reconstruir a casa. Ainda haveremos de viver aqui. Amanhã mesmo começo a tratar das coisas.» A copa da árvore desenhava-se ainda sobre a ruína quando retomaram o caminho de regresso à Aldeia; as águas do rio, ao fundo, desciam o muro da presa, corriam por entre as poldras do gralheiro da curva do Lameiro Grande; o rumor da corrente ouvia-se como o eco de coisas distantes no tempo; e depois o silêncio caiu de novo sobre a montanha.

Casa a Jusante da Ponte de Arame. Fotografia de meados dos anos 60 do século XX. Autor: dr. João Marcos.