
A Ponte de Arame vista a partir da curva do Lameiro Grande. Fotografia de 1999. Autor: Maria Teresa.
Textos e imagens de José Carlos Barros. Perguntas: blogcacela@gmail.com
30.
Luísa deitou-se. Já era tarde. João e Adriano Fontes ficaram na sala de entrada da Pensão Americana. «Fechem-me as portas; não se esqueçam de me apagar as luzes.» Comiam presunto, bebiam canecas sucessivas de vinho de Anelhe. Não havia uma nuvem no fim de tarde; estava um calor quase insuportável. E, de súbito, uma aragem anunciou-se nas folhas minúsculas do espinheiro-da-virgínia do largo do Toural. E, como se o Inverno voltasse de novo, começou a chover. Luísa acordou com as mãos de João a tocar-lhe a pele muito devagar; acordou na surpresa de sentir o seu corpo regressar a si mesmo. A chuva, lá fora: sobre os telhados e a copa das árvores e o zinco dos anexos. Luísa quase não se movia. As mãos de João Pequeno tocavam a sua pele como se apenas a pressentissem; como se a procurassem, um poro e depois outro, desde um tempo antigo; como se, procurando o seu corpo, o desenhassem pela primeira vez. A chuva, lá fora: o barulho da chuva sobre os telhados e a copa das árvores e o zinco dos anexos. Até à vertigem ou à certeza de que o amor existe num único momento para sempre. E, com a chuva ainda nos telhados, acordou; a luz indecisa a entrar no quarto. Estendeu as mãos. João não estava a seu lado. Chovia ainda. Chovia sempre. E Luísa temeu que tudo (o mundo, o prazer, o amor) não passasse de um sonho.
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Luísa sentia-se confusa. Havia dois tempos que pareciam sobrepor-se e afastar-se. E, entre eles, as interrogações; as dúvidas. Luísa ouvia apenas a espaços os diálogos de João e Adriano. «Isto, como você sabe, é uma máquina; vai onde se quiser, amigo João; ao fim do mundo.» O tempo, a passagem do tempo, era o objecto de reflexão. Luísa compreendia finalmente que o prazer não está no que julgamos ter mas no que se teme perder do que se dá e recebe. Luísa conhecia o prazer de o procurar em si mesma; e de o receber dos outros. Mas só agora compreendia que o prazer verdadeiro se desenha na fronteira dos desastres; na precariedade dos seus excessos e das suas iluminações. Talvez o amor e o prazer pudessem confundir-se. Talvez fosse preciso o tempo (a passagem do tempo) para que o prazer (o amor) alumiasse as suas falhas, as suas ausências. «O mundo, amigo João. Oh, o mundo. O mundo é o que quisermos que nos possa pertencer. A Vila, claro, como sabe…» Porque o amor (o prazer) não existe se a conquista não for a sua permanente definição. E Luísa sentia o prazer pela primeira vez. Procurando-se; lutando por ele; na certeza de que o hedonismo não é senão a máscara do que verdadeiramente procuramos em nós mesmos. «Sim, o Brasil. O Brasil. A imensa Europa. A música, as cidades, as mulheres, amigo João.» O Fiat avançava por dentro da tarde quente; entre a poeira levantada e a sombra que começava a descer. E Luísa sentia-se confusa: descobrira finalmente o amor; e intuía o quanto esse momento era raro entre a terra e o céu.
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O mundo, em grande parte, era o rio: as casas da encosta descendo na direcção do rio; a pesca às trutas; o pequeno vale da Casa a Jusante da Ponte de Arame subindo-se das margens do Beça; os montes e as suas veredas e os seus bosques em declive reflectidos na água das presas; os freixos e os salgueiros das margens; as ervas secas do Verão e os paus arrastados pela enxurrada deixando nos ramos dos amieiros as marcas dos anéis da enchente. Mas a casa, agora [e o rio, e a árvore], não era apenas uma ruína: mas a ruína sem o mundo desse tempo. E João recorda a copa imensa da tília silvestre quase arredondada e a surpresa do avermelhado na parte superior dos raminhos jovens; e as folhas em forma de coração; e as suas flores aromáticas e quase transparentes no mês de Junho. A tília, portanto, era a mesma de sempre; metáfora do mundo; árvore dos segredos. O mais certo é que tivesse sido plantada no ano de mil oitocentos e sessenta e cinco. Porque foi em mil oitocentos e sessenta e cinco que Américo Fontes decidiu deixar a Aldeia. Nessa manhã de Março, depois da missa de sétimo dia em memória de Irene Custódio, Américo viu Joaquim Gomes sentado na pedra do adro; as golas da samarra puxadas; um cigarro vagaroso; um sorriso irónico de quem é credor das coisas do mundo. Américo sentiu o sangue a correr-lhe nas veias; lesto. E foi então que
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João olhou os alpendres derruídos e as paredes quase tapadas pela hera e a vinha-virgem. Mas, antes, descendo o talude coberto de avoadinha e trevo, a memória do lugar foi-lhe devolvida pelo odor da tília do pátio erguendo-se na manhã clara de Abril. As jornadas de pesca quase sempre (João teria dezasseis, dezassete, dezoito anos) terminavam à sombra daquela árvore; estendendo-se a merenda na tábua de carvalho assente sobre duas pedras fincadas. João, por essa altura, desconhecia [e sabia] que tinha nascido ali. E também o mundo, então, era ainda jovem. Como se as coisas fossem nascendo à medida que se lhes dava um nome; como se fossem sendo desenhadas, uma a uma, para que o futuro as guardasse, intactas, na voragem do tempo.
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João acordou; olhou Luísa nos seus olhos claros; sorriu; e adormeceu de novo. E depois dormiu durante doze dias seguidos, acordando apenas a breves espaços em que dizia coisas aparentemente sem sentido. E Luísa pensou que talvez houvesse uma diferença fundamental entre o que foi e o que sentimos que foi; e que talvez, a ser assim, João tivesse apenas memórias do que sentiu (não do que viveu) durante o curso dos anos vividos. Porque falava de coisas misturadas, sem cronologia, sem arrumação dos factos. O seu rosto (dela, Luísa), por exemplo (e a sua pele, e os seus olhos «iluminados por dentro», e as suas mãos), ganhavam nas palavras de João Pequeno (na memória que retinha do tempo antigo) um espaço que o tempo real e verdadeiro não lhe concedera (a ela) nunca. João Pequeno, durante esse estado febril, falava do mundo como se o mundo não pudesse deixar de ser o que sentimos que deveria ter sido.
16.
O mundo é um novelo de fios que desenham a trama; que se unem e desprendem; que se ligam e desligam; que se perdem e encontram. É assim o mundo: quase um rumor: a descer as encostas e os caminhos de terra e o espírito dos declives; a ficar suspenso nas árvores dos bosques; a entrar nas casas; a misturar-se na luz da manhã; a atravessar o mar oceano; a regressar sobre as águas; a ficar para sempre entre os dedos como a memória de tudo. É assim o mundo: um espelho a reflectir o que não existe.
14.
Luísa ficou durante o fim de tarde e toda a noite à cabeceira da cama; a olhar o rosto adormecido de João Pequeno. Chamado a correr quando o seu corpo tombou na terra batida do Largo, a dois metros da porta de entrada da Pensão Americana, o doutor Nogueira recomendou «sopas e descanso». Que ele o que estaria era «terrivelmente cansado». E, filósofo, enigmático, teatral, como se recitasse o excerto de um poema ou de um romance, acrescentou: «cansado, talvez, de não se dissolver continuamente em cada instante da vida, ou das pessoas, ou de si mesmo, ou de tudo». Sopas e descanso, portanto. Por isso o levaram a um quarto e ela ficou assim, durante toda a noite, à cabeceira da cama; a olhar o seu rosto adormecido e a ver reflectir-se nele uma inusitada melancolia da passagem do tempo. Até que, de súbito, algo em Luísa vibrou como uma revelação: a revelação do medo e da ausência; da impossibilidade dos regressos; da inevitabilidade do adeus. A manhã entrava devagar na janela do quarto quando João Pequeno acordou. E era sobretudo melancolia o que o olhar de um parecia espelhar no olhar do outro.