quinta-feira, setembro 18, 2008

13.

Luísa sabe como os dias e os anos correm devagar por entre os montes; subindo encostas a pique, descendo as vertentes da umbria, atravessando as poldras das enchentes, correndo em caminhos de lama ou na poeira muito fina do saibro dos meses de Julho. Como se tudo fosse tão antigo que parecesse recente; como se a cronologia não fizesse sentido; como se não houvesse tempo na passagem do tempo; como se cada aniversário ou evocação não devolvessem senão o eco do que um dia já foram na memória dos seus risos e das suas lágrimas. Até ao momento em que pressentimos ou compreendemos que tudo já foi. E a lentidão se desenha de novo nos relógios e nas ruas e nos largos e nos pátios e nos corredores das casas.

12.

São poucas as coisas que regressam do passado quando sentimos que tudo seria pouco para que nos pudéssemos de novo erguer e olhar em frente: a memória de alguém que nos abraçasse ou nos tocasse no ombro e nos falasse com uma voz que saberíamos vir necessariamente do fundo do tempo; a memória de um lugar, de um objecto, de uma noite em que os amigos juraram que haveria sempre uma noite assim. E o desejo: isso que, livrando-nos do amor, nos reconduz ao amor.

sábado, setembro 13, 2008

11.

«Sei muito bem o que quero e para onde vou.» Uma tontura, uma vertigem. Um exemplar do Diário de Notícias aberto nas páginas centrais. O Rapto de Europa. A sublevação pela arte. «A incorrecção que o faz mover.» O mundo. Um mundo novo, um homem novo. Na tarde fria de Março. Lá fora não havia uma aragem, não se ouvia o rumor das folhas das árvores ou dos seus ramos suspensos e recortados contra a encosta. «No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando chegar à altura de mandar.» Uma tontura. Uma forte dor de cabeça. A náusea. «Não acha você, João, que este Professor Salazar?» O passado e o presente. Uma voz e outra, partidas, regressos, viagens, a vertigem do tempo. Sentado na mesa da Pensão Americana. Quem fala? Fernando Lalice? Di Cavalcanti? A sublevação. O respeitinho. Obedecer. Subverter. Regressado de longe a um lugar que não existe. Na tarde fria de Março de mil novecentos e trinta e um. «Sente-se bem?» Uma ligeira tontura. Os quatro companheiros de mesa mergulhados em irrealidade e abstracção. Pede desculpa. Olha mais uma vez a reprodução do Rapto de Europa. Pensa em Luísa. Mas Luísa não aparece na sala. João levanta-se. Sai. É já noite cerrada quando chega à rua. Uma tontura. O Professor de Finanças parece que vai salvar a Pátria.

10.

João Pequeno tinha conhecido Mário de Andrade em Novembro de mil novecentos e vinte e um: pouco mais de dois anos depois de deixar a Vila, de atravessar o imenso mar oceano, de chegar ao porto de Santos, de passar enfim a viver em S. Paulo. João ficou fascinado com o poeta e com o grupo de amigos; e rendido a essa ideia de provocação permanente, de subversão cultural como princípio de insubordinação ao mundo. Não mais deixou de acompanhá-los sempre que o tempo lhe permitia o abandono das contas e das estratégias de expansão do negócio. E foi assim, tantos anos depois de ver pela primeira vez a gravura pendurada na parede do fundo da Pensão Americana, que João Pequeno se confrontou de novo com uma reprodução do Rapto de Europa. Um jovem pintor falava com entusiasmo do verdadeiro precursor do modernismo e de toda a arte moderna e espalhava estampas numa mesa. «Atenção: estamos em meados do século XVI; e no entanto veja-se como Ticiano se libertou da tirania da linha, da precisa delimitação das formas; reparem nas pinceladas largas e livres; imaginem as marcas dos seus dedos espalhando a tinta, pressionando a tela; e compreendam como a verdadeira arte não imita a perfeição do mundo mas lhe acrescenta a incorrecção que o faz mover na direcção do futuro.» O espaço e o tempo misturam-se. Uma tontura. O eco das palavras antigas de Di Cavalcanti. O cérebro a estalar. Um regresso. João Pequeno recorda: por várias vezes dona Fernanda fizera tenção de retirar a gravura da parede. As manas Custódias, por exemplo, não se coibiam de falar em escândalo. E o padre Pedro chegou a pedir-lhe («não por ele, que sabia o que era a arte») que substituísse o painel por uma paisagem marinha ou uma natureza morta. João Pequeno recorda: os rapazes procuravam uma distracção para atravessar a porta e ficar assim, extasiados, a olhar o seio e as pernas opulentas da mulher deitada no dorso de um touro branco que parecia caminhar à flor das águas; e os comentários sobre o «pedaço de mulher» eram recorrentes. O quadro, nesse tempo, era isso: anjinhos a abençoar com setas de Cupido a mulher quase nua que lhes acenava com um lenço vermelho enquanto fugia no dorso de um touro.

9.

João sentou-se. O mais jovem do grupo falava sobre as drásticas alterações climáticas dos últimos anos e para o efeito «que só poderá ser nefasto» do fumo das fábricas das cidades sobre a meteorologia: «antigamente havia o Verão e o Inverno; agora anda tudo misturado e já ninguém percebe a ponta dum corno». Mas a sua atenção, aos poucos, desviava-se da mesa. A velha reprodução do Rapto de Europa continuava no mesmo lugar de sempre; pendurada na parede do fundo. E João sentia-se amarrado às figuras do quadro. A estremecer por dentro. Porque a gravura era a mesma e era agora completamente diferente. E nessa diferença se marcava também, decisiva, imperativa, a distância de si às coisas a que julgava regressar.



quinta-feira, setembro 11, 2008

8.

Luísa entrou pela porta do balcão e saiu de novo, apressada, ausente, num mesmo e quase imperceptível movimento. João ficou a olhá-la, e depois a olhar o espaço vazio como se a presença de Luísa ainda o enchesse de tudo o que a sua memória recordava desse corpo. E assim ficou ainda durante algum tempo; até regressar ao silêncio a que os quatro homens sentados na mesa do canto se haviam remetido. E então virou-se desajeitadamente, disse «boa tarde», esboçou um sorriso que percebeu ter-lhe saído frio e dissimulado. Uma luz baça entrava pelo vidro da janela rasgada ao nascente. Lá fora não havia uma aragem, não se ouvia o rumor das folhas das árvores ou dos seus ramos suspensos e recortados contra a encosta; um estranho remanso invadia as ruas, o largo, poisava nos telhados das casas. Como se o mundo estivesse a começar; ou como se começasse a fechar-se, vagarosamente, sobre si mesmo. João Pequeno continuava de pé e sentia-se estrangeiro do mundo que lhe era devolvido em irrealidade e abstracção. E então, sem que a memória de um tempo antigo vibrasse em si verdadeiramente, reconheceu Fernando Lalice. E também o velho amigo o olhou e o reconheceu sem surpresa nem sobressalto; e apenas se ergueu em cortesia e o convidou a sentar-se. «Ora então de regresso, João?». Que sim. Mas João Pequeno pressentia já que o mundo se começava a fechar sobre si mesmo, descendo as suas sombras sobre as ruas e as casas, sobre as árvores e o largo, sobre os rostos irreais dos companheiros de mesa.

domingo, setembro 07, 2008

7.

Na sala da Pensão Americana tinha mudado tudo e ficado tudo na mesma. Fernanda, dona Fernanda, casara com o professor com ar de maricas que chegou à Vila na camioneta da carreira numa manhã de Setembro de mil novecentos e vinte e um e geria o negócio à distância por cartas remetidas do Porto e cada vez mais intervaladas visitas à Vila. Uma reprodução do Rapto de Europa pendurada na parede do fundo, o aparador em madeira de carvalho correndo sob a janela larga do nascente, o louceiro com vidrinhos biselados, as mesas com toalhas de quadrados vermelhos e azuis: João Pequeno entrou e ficou assim rendido à imagem dum tempo devolvido no absurdo da sua impossibilidade. E, de súbito, Luísa. Luísa entrando pela porta do balcão sem tocar o chão da sala da Pensão Americana e a breve luz de Março a atravessar a janela e a poisar nos seus cabelos soltos sobre os ombros.


terça-feira, setembro 02, 2008

6.

Carlos, o Alferes, mandou dizer que estava cansado, indisposto; que pedia desculpa; que João voltasse mais tarde; que teria todo o gosto em recebê-lo, em abraçá-lo, em recordar com ele as memórias comuns dos velhos tempos de rambóia. Carlos Magalhães, tantos anos depois, continuava fechado no quarto da Casa do Largo; deitado na cama de ferro a olhar pela janela a Encosta dos Matos, os pinheiros erguendo-se numa paisagem nova, os milhafres no seu voo circular planando contra o céu cinzento, contra o céu azul, contra o céu de chumbo, contra o céu distante dos caminhos de terra batida que subiam a Presa das Tílias, Onde Se Juntam Os Rios, o Noro, o Moinho do Cubo. Carlos, o Alferes, não se livraria nunca do pesadelo desses dias antigos de Abril de mil novecentos e dezoito. Ninguém vence uma guerra; ninguém a perde. Uma guerra não se extingue com o fim dos combates, com a rendição ou o erguer das bandeiras vitoriosas, com as negociações, os acordos de paz, os relatórios dos conflitos. Carlos, o Alferes, não se livraria nunca da memória desses dias entre a lama e a névoa, o frio e a humidade, as ratazanas e a sarna, os piolhos e o gás mostarda, as lágrimas e o riso de quem perdera já os seus nomes verdadeiros; o fosgénio a lembrar, na irrealidade do mundo, nas margens de um rio perdido no fim do mundo, o odor do feno cortado nos campos da infância; a roupa, dia após dia, colada ao corpo, entranhada no corpo, misturada no corpo. Há muito que o poder político abandonara os soldados ao acaso e à ruína; deposto Afonso Costa, Sidónio Pais tinha mais que fazer. Mas no dia oito de Abril, finalmente, chegavam as ordens de retirada; os soldados baixavam defesas; deixavam a linha da frente; comemoravam. E foi precisamente nessa noite, de oito para nove de Abril, que começou por se ouvir um ou outro disparo disperso; cortando a sombra devagar. Até que, de súbito, o céu ficou claro, iluminado, fosforescente. As barragens de artilharia alemã, primeiro; madrugada dentro; até que o princípio da manhã começou a deixar a descoberto os corpos amontoados, os restos, os rostos fechados em si mesmos como se nunca uma única luz os tivesse tocado ou adormecido devagar. Entre a deserção e a resistência, no flanco esquerdo das tropas, onde as forças portuguesas e britânicas partilhavam linhas dianteiras, Carlos Magalhães manteve-se no seu posto, com os seus homens, enquanto a artilharia alemã parecia varrer por inteiro as trincheiras e os campos abertos e um silêncio inverosímil presidia a tudo. Era já manhã; a névoa poisada no imenso vale; e as metralhadoras MG-08 corriam ainda as linhas de avanço; e os soldados começavam a disparar às cegas, em desespero, as suas espingardas Lee-Enfield; e Carlos, o Alferes, continuava de roda dos seus poucos homens, gritando, ouvindo o eco da sua voz devolvido pela distância e por esse silêncio que presidia a tudo. Ninguém vence uma guerra; ninguém perde uma guerra. Carlos, o Alferes, não se livraria nunca dessa irrealidade, dessa sombra espessa, desse silêncio feito de lágrimas e alarido, de ausência e deserção de tudo. Uma guerra continua depois da crónica dos conflitos. Carlos, talvez por isso mesmo, mandou dizer que estava cansado, indisposto; e que João Pequeno regressasse mais tarde, que gostaria imenso de recebê-lo, abraçá-lo, recordar as memórias comuns dos tempos de rambóia.

domingo, agosto 31, 2008

5.

Desceu do Alto da Ribeira, passou o largo do Toural, subiu a rua Direita, bateu à porta de casa do velho amigo Serapião Afonso. A mãe de Serapião olhou João Pequeno sem disfarçar a mágoa e a censura. Que o filho tinha saído da cadeia no dia vinte e nove de Julho de mil novecentos e vinte e três; que chegou a casa só para juntar a roupa numa mala e sair de novo, sem quase despedir-se, e entrar na camioneta da carreira das três e um quarto e deixar a Vila sem uma lágrima; que nos últimos tempos têm recebido notícias do filho em cartas enviadas de Moçambique com selos de girafas nos sobrescritos; e que tudo estaria certo com a ordem das coisas se não fosse meterem-se (eles) onde não eram chamados e quererem mudar o que está certo por ser assim que o mundo desde sempre naturalmente roda; e que tivesse um bom dia e que agradecia que nunca mais lhe batesse à porta de casa.

4.

João subia ao Alto da Ribeira e viu as aves a deixar a lagoa e a rumar à Veiga, aos leitos de cheia, procurando a precária luz da manhã de Março. E chegou a sorrir. Um sorriso breve: a casa, de telhados derruídos, de paredes escalavradas, devolveu-lhe o pesadelo recente, recorrente, num espelho em que o seu rosto se confundia e misturava no rosto do pai adoptivo e num outro rosto indefinido que parecia reverter dos demónios das ausências.

3. 

Uma vizinha, por caridade, socorria Manuel Pequeno; e foi-o mantendo vivo: chegando-lhe uma sopa, lavando-o, mudando-lhe a roupa da cama. Vivo é como quem diz: deitado, imóvel, como se não respirasse; na casa em ruínas; sozinho; sem que um ciciar se desprendesse dos seus lábios secos, crestados, em ferida; os olhos parados num tempo antigo com a sombra a fazer de venda e a descer e a poisar-lhe na íris.

sexta-feira, agosto 29, 2008

2.

Há uma diferença entre regressar ao passado e ficar preso nos fios do seu intangível labirinto, ou regressar para vivermos nele o futuro. João Pequeno, em fins de Fevereiro de mil novecentos e trinta e um, nesse preciso instante em que a noite caía no porto de Santos, fugia mais de si e do seu tempo do que procurava um tempo novo. As imagens antigas, esses retratos devolvidos de modo imprevisto, o caminho de terra batida ou um rosto, a luz excessiva ou a varanda sobre o pátio onde crescia uma figueira, não haveriam de servir-lhe para fundar um novo tempo e encontrar-se ou procurar um novo caminho que a memória dos caminhos antigos ajudam apenas a definir melhor nos traçados novos. João Pequeno fugia de si e regressava ao que não existe; fugia de si mesmo mais ainda do que, nesse preciso instante em que caía a noite e o navio saía do porto de Santos a caminho do largo mar oceano, lhe era possível adivinhar. E foi assim que chegou à Casa do Meio da Aldeia que o padrinho lhe deixara em herança; e foi assim que chegou à Vila, numa manhã muito fria de Março, e achou, quase doze anos depois de ter fugido do posto da Guarda por entre dois tiros indecisos, que tudo estava igual e tudo era diferente. 

Capítulo XI
.
(Onde, em mil novecentos e trinta e um, mais de uma década depois, se regressa à Vila)
 
1.

Atravessar o mar, regressar, subir e descer os caminhos em sentido inverso. A fugir de novo. A fugir sempre. Naquela noite, em Julho de mil novecentos e dezanove, João fugia dos outros; agora, quase doze anos depois, fugia sobretudo de si mesmo.

sexta-feira, agosto 22, 2008

12.

É curioso. Toda esta história começou porque você propôs a Aline comprar-lhe a Casa em ruínas a Jusante da Ponte de Arame e ela lhe pediu que primeiro falasse comigo. Bem certo é que as palavras são como as cerejas, e que uma leva sempre a outra como brincos de cereja.
11.

De Catarina, portanto, se um dia decidir dar a público esta história, conte o pouco que se sabe de ciência certa e deixe que sejam os leitores, com base nas suas experiências e vivências próprias, a preencher os intervalos do que foi público ou se depreende. Muito já se disse. Acrescente apenas que uma criada de branco avental vigiava todos os seus movimentos de criança; e que, se adormecesse à lareira, a recolheria, a ergueria nos seus braços redondos e a deitaria no quarto «da menina», garantindo que a botija de água aqueceu os lençóis no ponto e que a bambinela corrida não deixará a luz da manhã perturbar o seu sono. Explique como a ausência do pai, cortada por breves regressos à Casa do Corgo, e logo depois (tinha Catarina dez anos) ao palacete de Lamego, necessariamente a deixou com esse sentimento de orfandade que a levou a mais refugiar-se e guardar-se em si mesma. Conte que não frequentou os bailes das romarias e o quanto desejou, em determinadas alturas, sair de casa durante a noite e misturar-se no alvoroço da Senhora dos Remédios e ter um homem que a apertasse contra si e sentisse as suas mãos nas suas e o seu corpo agarrado ao seu enquanto as girândolas iluminavam as encostas em redor. Conte, se quiser, o episódio do primo seminarista e da tragédia de Catarina não sentir o desejo e se ver grávida e fazer um desmancho no Porto, refugiando-se da boca do povo e do escândalo em casa da tia Custódia na Avenida dos Aliados. E passe daí para uma mulher de trinta anos a quem a família propõe um casamento no Brasil com o filho mais velho dos Piscicelli. E conte como João Pequeno, na ausência breve de Paolo Piscicelli, à mor de negócios, a levou a passear pelas ruas do Ipiranga e a ver uma fita no Cine Theatro Brazil; e de como a convidou para uma limonada em sua casa e de como ela, de súbito recordada do sobressalto dessa noite de Lamego, muitos anos antes, em que um moço desajeitado a olhou como se o mundo estivesse a começar, tocou um corpo pela primeira vez em toda a sua vida como se esse corpo estivesse dentro de si desde sempre à sua espera. O resto é consigo. Já se sabe que Catarina ficou grávida de João Pequeno. Relate como entender o escândalo e a tragédia desses dias; o casamento que não chegou a consumar-se; o seu regresso a Lamego; o nascimento do filho (neto, pela banda do pai, de Leonor e do engenheiro das florestas, bisneto de Américo Fontes) na Casa do Corgo, num segredo que se foi aos poucos transformando em alarido e vozear; a morte de Catarina, dois anos depois, deitando-se de braços abertos, num voo de anjo trágico, do varandim do primeiro andar para o lajedo de granito do pátio. Já sabe que esta criança haverá de ser levada à Aldeia logo após a morte da mãe. Mas o resto é consigo. Você (diz Maria Teresa) é que saberá se é já o tempo de se dizer que o filho dos amores clandestinos de João Pequeno e Catarina Ribeiro da Conceição, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, viria a ser nem mais nem menos que o avô de Aline.
10.

O que sabemos de uma vida (continua Maria Teresa) é sempre tão pouco: o que publicamente se expôs; o que nos contam; o que acabamos por intuir do que não nos contaram. Bem vê a precariedade de tudo isto. Porque só expomos publicamente o que decidimos, de um complexo novelo de coisas, que se soubesse; ou o que não nos foi possível ocultar. O que decidimos dar assim aos outros é, as mais das vezes, o que menos interessa de tudo quanto nos fez estremecer ou se nos gravou na pele, nos músculos, no imperscrutável coração. E mesmo que soubéssemos tudo; mesmo que nos não fosse estranho o mínimo segredo da vida de alguém; mesmo que nos fosse dado conhecer todos os seus pensamentos e sentimentos, todos os seus movimentos, todos os seus desejos, todas as suas ambições; mesmo que soubéssemos dessa pessoa as mais íntimas coisas; mesmo que conhecêssemos tudo da sua vida. Mesmo assim: mal sabemos nós do que vivemos nós e do que significou isso que vivemos. Mas, desculpe insistir, mesmo que soubéssemos tudo: há sempre uma membrana que separa o que foi e o que sabemos ou supomos ter sido; há sempre uma fronteira entre o que sentimos e o que julgamos ter sentido ou conseguimos contar do que sentimos ou fomos verdadeiramente no mais profundo de nós. Nunca sabemos nada da vida de ninguém (nem de nós mesmos) mesmo quando supomos saber tudo.

terça-feira, agosto 12, 2008

9.

Catarina nasceu num mundo marcado pelo sexo (quase sempre presente de tão reprimido), pelo sobrenatural e a reserva. A mãe, no entanto, entrava pouco nos códigos comuns do lugar. Nunca o gado da Casa do Corgo deu três voltas à capela, recebida a bênção do padre, no quinto domingo da Quaresma; nunca as mulheres da família correram as voltas da peregrinação à Senhora da Esperança rumando de seguida, devotas, compadecidas, lentas, à capela de São Lázaro; nunca se rezou ao Espírito Santo, juntando-se todos em romaria, no domingo de Pentecostes; e não se dançava, nunca se dançou nos seus pátios, ao som de bombos e concertinas. Também nunca se cortou o coxo ou se meteu chumbo derretido em alguidares, nem se correram as contas do terço em redor da lareira cobrindo, em final de fogo, as brasas com pratas de chocolate; nem se tratou da espinhela caída, da névoa, da incebela, do cobrão ou do cobranto; nem, noite adentro, houve nunca ladainhas; nem se tirou, em segredo, o mau-olhado ou o sarnão, o fanico ou as eripselas, o tricicol, a gota ou o treçolho. Catarina era «a Moura» (continua Maria Teresa). Bem vê: não lhe bastava a desdita de ser mulher, de crescer numa redoma (nunca jogou à cocha ou à pedrinha, ao bom-barqueiro, à peçonha ou à corda podre) – haveria ainda de ser diferente das outras. Ou assim (vai dar ao mesmo) as outras, e os outros, a viam.

segunda-feira, agosto 04, 2008

8.

Já conhece a história de José Ribeiro da Conceição; já sabe que o filho mais velho de Francisco abandonou o sonho de produzir o melhor vinho do mundo e rumou ao Brasil; já sabe que a casa se recompôs e que os negócios de importação e a entrada no universo da navegação de longo curso trouxeram à família não apenas a antiga prosperidade como uma riqueza que se confundiu no entendimento do povo com a árvore mítica das patacas; já sabe que José obteve de um amigo de seu pai o necessário financiamento e a abertura de caminhos que lhe permitiram a aventura do desconhecido; já sabe que Catarina, nascida muito depois da morte do avô, não ficou com a memória do pai senão a de surtidas breves à terra pátria misturadas no fausto de jantares onde o padrinho de João Pequeno chegou a estar presente e a que jurou não mais regressar incomodado com a afectação e a vanglória do mundo; já sabe que Catarina nasceu num universo onde se sentia confundida entre a proximidade das coisas quotidianas e a distância que pareciam reservar-lhe como se houvesse uma diferença no seu rosto ou na sua ascendência que obrigasse os outros a uma atitude de permanente e (para ela sempre incompreensível) reserva; já sabe o quanto ela, Catarina, se sentiu crescer numa redoma, afastada de todos e, portanto, sobretudo, de si mesma; já sabe que a fortuna e a ostentação acabariam por levar à construção de uma residência mais adequada aos novos estatutos da família, em Lamego, junto ao Seminário e ao Paço Episcopal. Mas ninguém lhe falou, nem eu, da viúva de Francisco, da mãe de José Ribeiro da Conceição, da avó de Catarina: Madalena. Porque só os homens ficam nas crónicas (continua Maria Teresa); porque as mulheres não contam. E no entanto são as mulheres que carregam os pesos das casas; são elas que abrem as portadas das janelas quando a sombra começa a coagular e a fazer vibrar a água dos cântaros. E no entanto, quando Francisco morreu, quando a crise chegou à Casa do Corgo, depois de espalhar-se por uma e outra e todas as quintas do Vale do Douro, foi Madalena quem primeiro deixou de lado as lágrimas; a definir estratégias; a avançar contra o remanso. Havia nela uma nobreza sem ostentação que você nunca compreenderá; uma distante humildade; e uma força e uma perseverança características destas mulheres altivas e simultaneamente ausentes, imperativas, que, passada a tempestade, se acolhem de novo à candura e à obscuridade. Como sei eu estas coisas? Isto, se o não soubesse de outro modo, sabê-lo-ia de ciência certa por saber que é sempre assim que o mundo roda.