domingo, agosto 31, 2008

5.

Desceu do Alto da Ribeira, passou o largo do Toural, subiu a rua Direita, bateu à porta de casa do velho amigo Serapião Afonso. A mãe de Serapião olhou João Pequeno sem disfarçar a mágoa e a censura. Que o filho tinha saído da cadeia no dia vinte e nove de Julho de mil novecentos e vinte e três; que chegou a casa só para juntar a roupa numa mala e sair de novo, sem quase despedir-se, e entrar na camioneta da carreira das três e um quarto e deixar a Vila sem uma lágrima; que nos últimos tempos têm recebido notícias do filho em cartas enviadas de Moçambique com selos de girafas nos sobrescritos; e que tudo estaria certo com a ordem das coisas se não fosse meterem-se (eles) onde não eram chamados e quererem mudar o que está certo por ser assim que o mundo desde sempre naturalmente roda; e que tivesse um bom dia e que agradecia que nunca mais lhe batesse à porta de casa.

4.

João subia ao Alto da Ribeira e viu as aves a deixar a lagoa e a rumar à Veiga, aos leitos de cheia, procurando a precária luz da manhã de Março. E chegou a sorrir. Um sorriso breve: a casa, de telhados derruídos, de paredes escalavradas, devolveu-lhe o pesadelo recente, recorrente, num espelho em que o seu rosto se confundia e misturava no rosto do pai adoptivo e num outro rosto indefinido que parecia reverter dos demónios das ausências.

3. 

Uma vizinha, por caridade, socorria Manuel Pequeno; e foi-o mantendo vivo: chegando-lhe uma sopa, lavando-o, mudando-lhe a roupa da cama. Vivo é como quem diz: deitado, imóvel, como se não respirasse; na casa em ruínas; sozinho; sem que um ciciar se desprendesse dos seus lábios secos, crestados, em ferida; os olhos parados num tempo antigo com a sombra a fazer de venda e a descer e a poisar-lhe na íris.

sexta-feira, agosto 29, 2008

2.

Há uma diferença entre regressar ao passado e ficar preso nos fios do seu intangível labirinto, ou regressar para vivermos nele o futuro. João Pequeno, em fins de Fevereiro de mil novecentos e trinta e um, nesse preciso instante em que a noite caía no porto de Santos, fugia mais de si e do seu tempo do que procurava um tempo novo. As imagens antigas, esses retratos devolvidos de modo imprevisto, o caminho de terra batida ou um rosto, a luz excessiva ou a varanda sobre o pátio onde crescia uma figueira, não haveriam de servir-lhe para fundar um novo tempo e encontrar-se ou procurar um novo caminho que a memória dos caminhos antigos ajudam apenas a definir melhor nos traçados novos. João Pequeno fugia de si e regressava ao que não existe; fugia de si mesmo mais ainda do que, nesse preciso instante em que caía a noite e o navio saía do porto de Santos a caminho do largo mar oceano, lhe era possível adivinhar. E foi assim que chegou à Casa do Meio da Aldeia que o padrinho lhe deixara em herança; e foi assim que chegou à Vila, numa manhã muito fria de Março, e achou, quase doze anos depois de ter fugido do posto da Guarda por entre dois tiros indecisos, que tudo estava igual e tudo era diferente. 

Capítulo XI
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(Onde, em mil novecentos e trinta e um, mais de uma década depois, se regressa à Vila)
 
1.

Atravessar o mar, regressar, subir e descer os caminhos em sentido inverso. A fugir de novo. A fugir sempre. Naquela noite, em Julho de mil novecentos e dezanove, João fugia dos outros; agora, quase doze anos depois, fugia sobretudo de si mesmo.

sexta-feira, agosto 22, 2008

12.

É curioso. Toda esta história começou porque você propôs a Aline comprar-lhe a Casa em ruínas a Jusante da Ponte de Arame e ela lhe pediu que primeiro falasse comigo. Bem certo é que as palavras são como as cerejas, e que uma leva sempre a outra como brincos de cereja.
11.

De Catarina, portanto, se um dia decidir dar a público esta história, conte o pouco que se sabe de ciência certa e deixe que sejam os leitores, com base nas suas experiências e vivências próprias, a preencher os intervalos do que foi público ou se depreende. Muito já se disse. Acrescente apenas que uma criada de branco avental vigiava todos os seus movimentos de criança; e que, se adormecesse à lareira, a recolheria, a ergueria nos seus braços redondos e a deitaria no quarto «da menina», garantindo que a botija de água aqueceu os lençóis no ponto e que a bambinela corrida não deixará a luz da manhã perturbar o seu sono. Explique como a ausência do pai, cortada por breves regressos à Casa do Corgo, e logo depois (tinha Catarina dez anos) ao palacete de Lamego, necessariamente a deixou com esse sentimento de orfandade que a levou a mais refugiar-se e guardar-se em si mesma. Conte que não frequentou os bailes das romarias e o quanto desejou, em determinadas alturas, sair de casa durante a noite e misturar-se no alvoroço da Senhora dos Remédios e ter um homem que a apertasse contra si e sentisse as suas mãos nas suas e o seu corpo agarrado ao seu enquanto as girândolas iluminavam as encostas em redor. Conte, se quiser, o episódio do primo seminarista e da tragédia de Catarina não sentir o desejo e se ver grávida e fazer um desmancho no Porto, refugiando-se da boca do povo e do escândalo em casa da tia Custódia na Avenida dos Aliados. E passe daí para uma mulher de trinta anos a quem a família propõe um casamento no Brasil com o filho mais velho dos Piscicelli. E conte como João Pequeno, na ausência breve de Paolo Piscicelli, à mor de negócios, a levou a passear pelas ruas do Ipiranga e a ver uma fita no Cine Theatro Brazil; e de como a convidou para uma limonada em sua casa e de como ela, de súbito recordada do sobressalto dessa noite de Lamego, muitos anos antes, em que um moço desajeitado a olhou como se o mundo estivesse a começar, tocou um corpo pela primeira vez em toda a sua vida como se esse corpo estivesse dentro de si desde sempre à sua espera. O resto é consigo. Já se sabe que Catarina ficou grávida de João Pequeno. Relate como entender o escândalo e a tragédia desses dias; o casamento que não chegou a consumar-se; o seu regresso a Lamego; o nascimento do filho (neto, pela banda do pai, de Leonor e do engenheiro das florestas, bisneto de Américo Fontes) na Casa do Corgo, num segredo que se foi aos poucos transformando em alarido e vozear; a morte de Catarina, dois anos depois, deitando-se de braços abertos, num voo de anjo trágico, do varandim do primeiro andar para o lajedo de granito do pátio. Já sabe que esta criança haverá de ser levada à Aldeia logo após a morte da mãe. Mas o resto é consigo. Você (diz Maria Teresa) é que saberá se é já o tempo de se dizer que o filho dos amores clandestinos de João Pequeno e Catarina Ribeiro da Conceição, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, viria a ser nem mais nem menos que o avô de Aline.
10.

O que sabemos de uma vida (continua Maria Teresa) é sempre tão pouco: o que publicamente se expôs; o que nos contam; o que acabamos por intuir do que não nos contaram. Bem vê a precariedade de tudo isto. Porque só expomos publicamente o que decidimos, de um complexo novelo de coisas, que se soubesse; ou o que não nos foi possível ocultar. O que decidimos dar assim aos outros é, as mais das vezes, o que menos interessa de tudo quanto nos fez estremecer ou se nos gravou na pele, nos músculos, no imperscrutável coração. E mesmo que soubéssemos tudo; mesmo que nos não fosse estranho o mínimo segredo da vida de alguém; mesmo que nos fosse dado conhecer todos os seus pensamentos e sentimentos, todos os seus movimentos, todos os seus desejos, todas as suas ambições; mesmo que soubéssemos dessa pessoa as mais íntimas coisas; mesmo que conhecêssemos tudo da sua vida. Mesmo assim: mal sabemos nós do que vivemos nós e do que significou isso que vivemos. Mas, desculpe insistir, mesmo que soubéssemos tudo: há sempre uma membrana que separa o que foi e o que sabemos ou supomos ter sido; há sempre uma fronteira entre o que sentimos e o que julgamos ter sentido ou conseguimos contar do que sentimos ou fomos verdadeiramente no mais profundo de nós. Nunca sabemos nada da vida de ninguém (nem de nós mesmos) mesmo quando supomos saber tudo.

terça-feira, agosto 12, 2008

9.

Catarina nasceu num mundo marcado pelo sexo (quase sempre presente de tão reprimido), pelo sobrenatural e a reserva. A mãe, no entanto, entrava pouco nos códigos comuns do lugar. Nunca o gado da Casa do Corgo deu três voltas à capela, recebida a bênção do padre, no quinto domingo da Quaresma; nunca as mulheres da família correram as voltas da peregrinação à Senhora da Esperança rumando de seguida, devotas, compadecidas, lentas, à capela de São Lázaro; nunca se rezou ao Espírito Santo, juntando-se todos em romaria, no domingo de Pentecostes; e não se dançava, nunca se dançou nos seus pátios, ao som de bombos e concertinas. Também nunca se cortou o coxo ou se meteu chumbo derretido em alguidares, nem se correram as contas do terço em redor da lareira cobrindo, em final de fogo, as brasas com pratas de chocolate; nem se tratou da espinhela caída, da névoa, da incebela, do cobrão ou do cobranto; nem, noite adentro, houve nunca ladainhas; nem se tirou, em segredo, o mau-olhado ou o sarnão, o fanico ou as eripselas, o tricicol, a gota ou o treçolho. Catarina era «a Moura» (continua Maria Teresa). Bem vê: não lhe bastava a desdita de ser mulher, de crescer numa redoma (nunca jogou à cocha ou à pedrinha, ao bom-barqueiro, à peçonha ou à corda podre) – haveria ainda de ser diferente das outras. Ou assim (vai dar ao mesmo) as outras, e os outros, a viam.

segunda-feira, agosto 04, 2008

8.

Já conhece a história de José Ribeiro da Conceição; já sabe que o filho mais velho de Francisco abandonou o sonho de produzir o melhor vinho do mundo e rumou ao Brasil; já sabe que a casa se recompôs e que os negócios de importação e a entrada no universo da navegação de longo curso trouxeram à família não apenas a antiga prosperidade como uma riqueza que se confundiu no entendimento do povo com a árvore mítica das patacas; já sabe que José obteve de um amigo de seu pai o necessário financiamento e a abertura de caminhos que lhe permitiram a aventura do desconhecido; já sabe que Catarina, nascida muito depois da morte do avô, não ficou com a memória do pai senão a de surtidas breves à terra pátria misturadas no fausto de jantares onde o padrinho de João Pequeno chegou a estar presente e a que jurou não mais regressar incomodado com a afectação e a vanglória do mundo; já sabe que Catarina nasceu num universo onde se sentia confundida entre a proximidade das coisas quotidianas e a distância que pareciam reservar-lhe como se houvesse uma diferença no seu rosto ou na sua ascendência que obrigasse os outros a uma atitude de permanente e (para ela sempre incompreensível) reserva; já sabe o quanto ela, Catarina, se sentiu crescer numa redoma, afastada de todos e, portanto, sobretudo, de si mesma; já sabe que a fortuna e a ostentação acabariam por levar à construção de uma residência mais adequada aos novos estatutos da família, em Lamego, junto ao Seminário e ao Paço Episcopal. Mas ninguém lhe falou, nem eu, da viúva de Francisco, da mãe de José Ribeiro da Conceição, da avó de Catarina: Madalena. Porque só os homens ficam nas crónicas (continua Maria Teresa); porque as mulheres não contam. E no entanto são as mulheres que carregam os pesos das casas; são elas que abrem as portadas das janelas quando a sombra começa a coagular e a fazer vibrar a água dos cântaros. E no entanto, quando Francisco morreu, quando a crise chegou à Casa do Corgo, depois de espalhar-se por uma e outra e todas as quintas do Vale do Douro, foi Madalena quem primeiro deixou de lado as lágrimas; a definir estratégias; a avançar contra o remanso. Havia nela uma nobreza sem ostentação que você nunca compreenderá; uma distante humildade; e uma força e uma perseverança características destas mulheres altivas e simultaneamente ausentes, imperativas, que, passada a tempestade, se acolhem de novo à candura e à obscuridade. Como sei eu estas coisas? Isto, se o não soubesse de outro modo, sabê-lo-ia de ciência certa por saber que é sempre assim que o mundo roda.

quarta-feira, julho 30, 2008

7.

Uma maldição parecia ter sido lançada sobre o Douro. O oídio, primeiro; a filoxera, depois; e agora uma ameaça maior e definitiva (a burla, a fraude) que não iria lá com enxofre, sulfuretos de carbono, porta-enxertos americanos a substituir o plantio em pé-franco ou alargamentos da área do benefício. Já se viu (continua Maria Teresa) que Francisco soube tirar proveitos da crise de meados de sessenta. Mas em mil oitocentos e oitenta e sete o negócio de exportação atingia limiares de insustentabilidade. Francisco, doente, quase falido, morria no Brasil, em Santos, no mês de Outubro; o filho mais velho acabava de produzir um dos melhores vinhos do século, nesse Verão de dias quentes e noites frescas que suspendia nas encostas uma luminosidade e uma fina leveza do ar que pareciam já embriagar antes da fermentação do mosto; e, de súbito, num tempo em que a fraude e as imitações do vinho do Porto se generalizam nos principais mercados internacionais e espalham a miséria em todo o perímetro do Vale, as responsabilidades do futuro da família ficam sobre os ombros de José Ribeiro da Conceição. Descapitalizada a empresa, sem recursos financeiros, não seria ainda o tempo de saborear o Queen Victoria’s Jubilee, um vintage como há mais de cinquenta anos não havia memória no Douro.

domingo, julho 27, 2008

6.

Não sei se lhe devia dizer isto (diz Maria Teresa). Você nasceu e viveu sempre na cidade de que o vinho do Douro tomou o nome. Mas eu não posso falar-lhe do Douro sem ligar as coisas. Você ficou fascinado com a Casa a Jusante da Ponte de Arame; com a memória das pedras arrumadas do alicerce à cumeeira; com as árvores dispersas em redor do pátio; com o rumor das águas do rio descendo os gralheiros; com as bétulas da vertente e com o bosque de carvalhos que o avanço dos pinhais não afastou de todo; com a sedução evocadora dos caminhos de terra que levam à Aldeia e correm junto à margem e depois sobem à colina antes de descer de novo ao terraço breve da encosta onde meia dúzia de casas e um tanque se erguem em redor do largo e da igreja. Você, e queira desculpar-me, traz agarrado à pele o sonho dos pequenos burgueses do nosso tempo. Não há mal nenhum em que seja assim. As coisas são o que são. Mas os pequenos burgueses do nosso tempo não desejam mais que reunir bens materiais, enriquecer, para depois se darem ao luxo de viver como pobres: andando a pé por caminhos de terra ou de bicicleta pelo meio dos montes; sem rede de telemóvel; com painéis solares ou outro qualquer sistema ecológico que venha nos manuais da Quercus e substitua a energia convencional; comendo sopas de feijão ou açordas de coentros ou grelhando peças da vazia (certificação D.O.C.) em carvão vegetal; num lugar afastado da auto-estrada onde os automóveis não cheguem sem foder as jantes. Você quer comprar a Casa, em Terras do Barroso, a Jusante da Ponte de Arame. Conheceu Aline. Fez-lhe uma proposta irrecusável. E não compreendeu a sua (dela) estranheza; o seu sobressalto. Mas há bens que não vêm nos inventários; isso você demorará a compreender; ou não compreenderá nunca. É muito fácil para si descrever a chegada de Catarina a São Paulo falando da pelerine desajustada ou da boina com pormenores de flores e pétalas onde poisavam aves em ramos finos; e do modo como o lapardeiro do João Pequeno a enganou e a deixou prenha recitando-lhe uns versos e gabando-lhe a beleza do olhar. Mas que sabe você da história que precede e explica a sua vida? É sempre tudo tão complexo. Habituámo-nos a olhar as coisas a preto e branco: é assim ou não é. E no entanto há sempre uma história por detrás que baralha e confunde e só depois, finalmente, aclara se tivermos a disponibilidade de ver. Francisco, o avô de Catarina, comprou terras no Douro Superior onde a filoxera quase não atacava; meteu-se no negócio da exportação; ergueu uma casa com porta carral e até se deu ao luxo de produzir um azeite fino com medalhas em Bordéus; enriqueceu. Mas Francisco Ribeiro da Conceição tinha consciência do que está por detrás do vinho engarrafado. Sabia que era preciso, primeiro, rasgar o calhau dos vinhedos com picaretas e alavancas; e depois abrir as valas e firmar os calços; e depois, nessa espécie de tabuleiros de nível, alinhar os geios; e depois, muito mais tarde, desmadeirar e cavar em redor das videiras para guardar a água do Inverno e não deixar os fertilizantes serem arrastados na encosta; e, mais tarde ainda, podar; e depois cavar de novo para que a luz entre por igual nos torrões assim revolvidos da camada estreita acima da pedra; e depois arrimar a vide e redrar e enxofrar e sulfatar; e, então, avançar para a vindima; e escolher e eleger e separar a uva; e pisar com os pés, em lagares de pedra, os cachos ainda iluminados pelo Verão; e depurar e trasfegar; e depois, finalmente, apurar o bouquet e envelhecer e só depois, mais tarde, muito depois, olhar o vinho e bebê-lo de um copo alto. Não sei se isto acrescenta ou atrasa ao que me pediu. Porque você me pediu apenas que lhe falasse da Brasileira de Lamego. Sei lá; peço desculpa. O certo é que as palavras são como as cerejas, e uma coisa leva sempre a outra.

sexta-feira, julho 25, 2008

5.

[Não sei (diz Maria Teresa) que preocupação é esta minha de falar escorreito, de medir as frases: você há-de subverter tudo. Sei como é. O mais certo é que um dia venha a ler o seu folhetim e não reconheça nessas páginas nada do que lhe conto.]
4.

Um insecto minúsculo atravessou o mar oceano e desenhou na Europa uma nebulosa cartografia. A existência de vinhedos e a direcção dos ventos dominantes pareciam determinar a sua progressão: Gard e Floirac, Orléans e Côte-d’Or, Cognac, La Crau de Châteaurenard, Cadarache, Castries e Tain-l’Hermitage, Valmadrera, Imperia e Caltanissetta, Málaga, Gerona, Vale do Douro. Um insecto minúsculo que parecia mudar a sua forma a cada instante e não ter um padrão de comportamento: amarelo, ocre, castanho claro, muito escuro, dourado, sem asas, com asas transparentes, maior que formigas, menor que um grão de areia, semelhando pequenas moscas domésticas; escalavrando as páginas inferiores das folhas ou permanecendo escondido a atacar as raízes sem vir à superfície; emergindo à luz clara, já com as asas que o subsolo não lhe pedia, a depositar os ovos nas galhas previamente cortadas; ninfas a esfacelar de novo as folhas, em Abril, depois da eclosão e depois duma espécie de hibernação nas células mortas da casca; criando nódulos nas raízes até ao advento dos fungos e à impossibilidade de circulação dos nutrientes; infestando as folhas até ao ocre, reduzindo a área foliar, agredindo os elos e os caules jovens; migrando; formando novas colónias; resistindo ao transporte do plantio; levando, enfim, à morte das videiras, da vinha, do vinhedo. Depois do oídio, uma década antes, um pequeno insecto, minúsculo, insignificante, atravessava agora o mar oceano, chegava às encostas declivosas do rio Douro e arruinava a produção de vinho fino na mais antiga região do mundo demarcada. Num jantar reservado em Britiande, na Quinta de Santa Cruz, com um regenerador que pouco tempo depois soçobraria pastas no Governo da Fusão chefiado por António Augusto de Aguiar, o avô de Catarina ficou a saber da iminente saída de um decreto de liberdade comercial que estenderia os marcos do vinho do Porto na direcção do Douro Superior. A ruína ameaçava; o tempo era de crise. Mas Francisco Ribeiro da Conceição, entretanto, comprava terras a eito onde a filoxera quase não atacava e o benefício se alargaria por diploma legislativo. Em mil oitocentos e sessenta e sete, numa pequena aldeia distante não mais que meia légua de Lamego, começava a erguer-se uma casa de porta carral e paredes de perpianho de tal modo aparelhado que nem uma agulha entrava nas juntas da pedra. Um olival, nas imediações da casa, estendia-se a perder de vista em linhas direitas. Mas a riqueza, entretanto, vinha do Douro Superior; das terras por onde os marcos da delimitação tinham avançado e o minúsculo insecto americano quase não atacava os plantios.

quarta-feira, julho 23, 2008

3.

Catarina nasceu numa aldeia distante de Lamego não mais que uma légua: casa de porta carral, pátio ladeado no segundo piso por uma varanda corrida em três lanços e paredes de perpianho aparelhado de modo a que um alfinete não entrasse nas juntas da pedra. Um baixo-relevo talhado no granito, a encimar a porta, ostentava a data de construção: 1867. Na envolvente da casa e da pequena horta, depois do nabal, a juzante da cortinha do Corgo, estendia-se um olival de árvores alinhadas a perder de vista. Mas a riqueza que permitira construir a casa não vinha da azeitona nem do repolho temporão.

terça-feira, julho 22, 2008

2.

Não deixará nunca de nos surpreender o carácter único de cada ser humano. Não deixará nunca, no ser humano, de nos surpreender a diferença, a dissemelhança, a diversidade: nenhum gesto se repete; nenhum rosto se repete. Talvez seja isso, o reconhecimento dessa diversidade, que nos faz mais iguais. Digo eu. Mas Catarina Ribeiro da Conceição nasceu numa pequena aldeia de não mais que sessenta casas; no ano de mil oitocentos e noventa e nove. E nesse lugar, e nesse tempo, a diferença era um agravo, um ultraje. A Moura, eis como Catarina era conhecida antes de ser a Brasileira de Lamego; desde a infância. A sua tez era demasiado escura para os padrões do sítio; o seu nariz demasiado arqueado e erguido; as suas sobrancelhas demasiado altivas; a linha horizontal dos seus lábios demasiado longa e demasiado bem desenhada; e o seu olhar ficava marcado pela imposição do imenso e intimidatório branco em redor da íris. A Moura, assim lhe chamavam. Também, provavelmente, por isso mesmo: por essa divergência fisionómica. Mas havia raízes onde fundar o preconceito: a mãe de Catarina usava uns vestidos de pano de Granada que insistia em designar por alfoleimes; e nos serões em sua casa, nas noites de vindima, nas desfolhadas, nas espadeladas, em vez da concertina e do bombo ouviam-se gaitas, adufes e arabis. Onde quero chegar? A isto: a vida toda de Catarina haveria de ficar condicionada pelas diferenças do seu rosto e pelas histórias (num universo dominado por superstições e fantasias) que essa diferença (essa distância) convocava. Quando chegou ao Brasil, muitos anos depois, João Pequeno gabou-lhe o moreno da tez e os «olhos imensos como se uma estrela os protegesse» (assim escreveu o mariola, a tinta permanente, num bilhetinho que ficou no espólio breve, atado num laço, de meia dúzia de papéis guardados no fundo duma gaveta da casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal); talvez Catarina permanecesse indiferente ao elogio, e de pé atrás, se não tivesse conhecido sempre, primeiro na aldeia, depois em Lamego, o peso insustentável da distância e dessa espécie de proscrição. Mas isto (diz Maria Teresa) já sou eu a inventar.

quarta-feira, julho 16, 2008

Capítulo X
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(Onde Maria Teresa fala de Catarina e do mais que se verá)
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1.
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É curioso (diz Maria Teresa) como você foi escolhendo a sua história dentro da história. Como privilegiou alguns nomes, como deixou que outros fossem desaparecendo, como seguiu caminhos que supostamente não havia interesse em percorrer. É curioso, ainda, como abdicou da preocupação da cronologia e da descrição factual dos acontecimentos; como, enfim, compreendeu que os eventos secundários, marginais, esses de que chegamos a nem falar, são as mais das vezes os que deixaram as marcas na pele ou mais profundamente mudaram as nossas vidas. O padrinho de João Pequeno, por exemplo; o padrinho de João Pequeno dava um romance. E no entanto você deixou-o na casa do Meio da Aldeia, junto à igreja, e decidiu seguir o afilhado até ao Brasil para me perguntar agora o que sei eu da Brasileira de Lamego.

terça-feira, julho 15, 2008

20.

E então, quase doze anos depois de chegar ao porto de Santos, algumas imagens antigas foram-lhe devolvidas no alarme da sua irremediável ausência: os muros do cadastro, a escaleira de pedra e a varanda sobre o pátio onde crescia uma figueira, a névoa erguendo-se por entre os salgueiros do rio, o telheiro onde se guardava a lenha do Inverno, a lareira acesa, a luz excessiva dos meses de Julho derramada na água dos açudes. João Pequeno julgava ter apagado, uma a uma, todas as imagens desse tempo antigo. A própria ideia de tempo presente começou, quase imediatamente após a sua chegada ao Brasil, a não fazer sentido. O presente era já o futuro que a cada instante o tocava e o invocava Os negócios, o amor, as viagens de barco cruzando os mares do continente, as noites de Buenos Aires, o movimento das ruas, o teatro, a velocidade dos automóveis de corrida a deslizar e a desaparecer por entre o pavimento e uma nuvem: tudo o afastava da noção de tempo e permanência. A invocação duma suposta memória devolvida sem aviso (as folhas dos negrilhos, o arame das vinhas, os pátios, o caminho de terra subindo às colinas por entre bosques de bétulas) não era mais que um pé, um pretexto, um subterfúgio, uma tentativa de justificar a desistência. A verdade é que os negócios corriam mal, as paixões corriam desastrosas e as relações de confiança se deterioravam a olhos vistos numa meada sem fio. Resolveu, portanto, regressar a Portugal. Caía a noite quando o navio saiu do porto de Santos. João Pequeno fugia de si mesmo mais ainda do que, nesse preciso momento, lhe era possível adivinhar.

domingo, julho 06, 2008

19.

No início dos anos vinte, em São Paulo, a rua pertencia aos pobres e às putas. A riqueza do café fazia-se no campo, nas fazendas, num tempo antigo de terreiros e tulhas, de casas-grandes e senzalas, de terraços e alpendres, de casas de escrivães e arreadores, de tropeiros e marceneiros, de paióis e quartos de selas, de enfermeiros, dos anexos de escravos, de engenhos e alambiques. Mas depois os senhores da terra rumaram à cidade com suas cédulas e havia que marcar diferenças, distâncias. Em São Paulo, por esse tempo, às mulheres das famílias ricas ficou-lhes destinada a casa e a gestão de cozinhas e eventos sociais, a redacção de papelinhos de convite e a discussão dos alinhamentos das sebes dos jardins. O espaço público foi sendo ganho, aos poucos, nas aulas de piano, no ensino, no estudo do direito ou da medicina; e, finalmente, pela frequência das salas de cinema, dos restaurantes, das alamedas e dos parques arborizados que o urbanismo levava aos bairros residenciais de palacetes e moradias com salões de pé direito duplo. As mulheres da sociedade iam ganhando terreno. E, de súbito, depois das alamedas e dos foiyeres dos teatros, o amor. As mulheres, ganho o espaço público, avançavam para o espaço afectivo. E acabaram por regressar à casa sem deixar a rua: exigindo a si mesmas um lugar de liberdade e escolha, um lugar sem grades onde as remetia, no tempo antigo, o preconceito e a impossibilidade de tocar os fios do desejo, da pele, do amor. Quando Catarina, à noite, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, passeou nas ruas de São Paulo o seu vestido de um amarelo claro, os seus colares excessivos, a sua pelerine de lã, era já vigente o entendimento de que a beleza e o desejo não deveriam fechar-se à chave entre paredes altas. Os casamentos por interesse comercial andavam arredados da moda. A boina de Catarina Ribeiro da Conceição, com os seus pormenores de flores e pétalas onde poisavam aves em ramos finos, e sobretudo o que representava, estava desajustada do seu tempo. João Pequeno, paciente, explicou-lhe isso mesmo; que o casamento exige o amor. E, de caminho, estando Paolo Piscicelli ausente por razão de negócios, levou-a pelas ruas do Ipiranga e acabaram a ver uma fita no Cine Theatro Brazil. Trocaram as mãos por um breve momento. E ela recordou-se do sobressalto dessa noite de Lamego, muitos anos antes, em que um moço desajeitado a olhou como se o mundo estivesse a começar.

quarta-feira, julho 02, 2008

18.

A João Pequeno não eram estranhos os cenários de crise. Por mais que uma vez se viu confrontado com esses cenários e com a necessidade de estabelecer estratégias de actuação. Sabia como proceder; conhecia os mecanismos adequados às diferentes circunstâncias: entrar no vórtice da crise e retirar dela oportunidades novas; adiar investimentos ou apostar em actividades de carácter não-produtivo; diversificar os investimentos; arriscar quando os outros hesitam; apostar onde os outros desistem. A João Pequeno não eram estranhas as estratégias de actuação empresarial em tempo de crise. É certo que agora, além da economia, a crise das empresas da família Ribeiro da Conceição revertia sobretudo de apostas políticas erradas. E isso é fodido: da política convém ficar à distância ou acertar nas apostas. Mas João já tinha atravessado o deserto em situações mais delicadas. E, não fora o amor, também desta vez os obstáculos haveriam de ser superados. O problema é sempre o amor. Nunca sabemos lidar com as coisas do amor. Não há algoritmos para o amor.