sexta-feira, agosto 22, 2008

10.

O que sabemos de uma vida (continua Maria Teresa) é sempre tão pouco: o que publicamente se expôs; o que nos contam; o que acabamos por intuir do que não nos contaram. Bem vê a precariedade de tudo isto. Porque só expomos publicamente o que decidimos, de um complexo novelo de coisas, que se soubesse; ou o que não nos foi possível ocultar. O que decidimos dar assim aos outros é, as mais das vezes, o que menos interessa de tudo quanto nos fez estremecer ou se nos gravou na pele, nos músculos, no imperscrutável coração. E mesmo que soubéssemos tudo; mesmo que nos não fosse estranho o mínimo segredo da vida de alguém; mesmo que nos fosse dado conhecer todos os seus pensamentos e sentimentos, todos os seus movimentos, todos os seus desejos, todas as suas ambições; mesmo que soubéssemos dessa pessoa as mais íntimas coisas; mesmo que conhecêssemos tudo da sua vida. Mesmo assim: mal sabemos nós do que vivemos nós e do que significou isso que vivemos. Mas, desculpe insistir, mesmo que soubéssemos tudo: há sempre uma membrana que separa o que foi e o que sabemos ou supomos ter sido; há sempre uma fronteira entre o que sentimos e o que julgamos ter sentido ou conseguimos contar do que sentimos ou fomos verdadeiramente no mais profundo de nós. Nunca sabemos nada da vida de ninguém (nem de nós mesmos) mesmo quando supomos saber tudo.

terça-feira, agosto 12, 2008

9.

Catarina nasceu num mundo marcado pelo sexo (quase sempre presente de tão reprimido), pelo sobrenatural e a reserva. A mãe, no entanto, entrava pouco nos códigos comuns do lugar. Nunca o gado da Casa do Corgo deu três voltas à capela, recebida a bênção do padre, no quinto domingo da Quaresma; nunca as mulheres da família correram as voltas da peregrinação à Senhora da Esperança rumando de seguida, devotas, compadecidas, lentas, à capela de São Lázaro; nunca se rezou ao Espírito Santo, juntando-se todos em romaria, no domingo de Pentecostes; e não se dançava, nunca se dançou nos seus pátios, ao som de bombos e concertinas. Também nunca se cortou o coxo ou se meteu chumbo derretido em alguidares, nem se correram as contas do terço em redor da lareira cobrindo, em final de fogo, as brasas com pratas de chocolate; nem se tratou da espinhela caída, da névoa, da incebela, do cobrão ou do cobranto; nem, noite adentro, houve nunca ladainhas; nem se tirou, em segredo, o mau-olhado ou o sarnão, o fanico ou as eripselas, o tricicol, a gota ou o treçolho. Catarina era «a Moura» (continua Maria Teresa). Bem vê: não lhe bastava a desdita de ser mulher, de crescer numa redoma (nunca jogou à cocha ou à pedrinha, ao bom-barqueiro, à peçonha ou à corda podre) – haveria ainda de ser diferente das outras. Ou assim (vai dar ao mesmo) as outras, e os outros, a viam.

segunda-feira, agosto 04, 2008

8.

Já conhece a história de José Ribeiro da Conceição; já sabe que o filho mais velho de Francisco abandonou o sonho de produzir o melhor vinho do mundo e rumou ao Brasil; já sabe que a casa se recompôs e que os negócios de importação e a entrada no universo da navegação de longo curso trouxeram à família não apenas a antiga prosperidade como uma riqueza que se confundiu no entendimento do povo com a árvore mítica das patacas; já sabe que José obteve de um amigo de seu pai o necessário financiamento e a abertura de caminhos que lhe permitiram a aventura do desconhecido; já sabe que Catarina, nascida muito depois da morte do avô, não ficou com a memória do pai senão a de surtidas breves à terra pátria misturadas no fausto de jantares onde o padrinho de João Pequeno chegou a estar presente e a que jurou não mais regressar incomodado com a afectação e a vanglória do mundo; já sabe que Catarina nasceu num universo onde se sentia confundida entre a proximidade das coisas quotidianas e a distância que pareciam reservar-lhe como se houvesse uma diferença no seu rosto ou na sua ascendência que obrigasse os outros a uma atitude de permanente e (para ela sempre incompreensível) reserva; já sabe o quanto ela, Catarina, se sentiu crescer numa redoma, afastada de todos e, portanto, sobretudo, de si mesma; já sabe que a fortuna e a ostentação acabariam por levar à construção de uma residência mais adequada aos novos estatutos da família, em Lamego, junto ao Seminário e ao Paço Episcopal. Mas ninguém lhe falou, nem eu, da viúva de Francisco, da mãe de José Ribeiro da Conceição, da avó de Catarina: Madalena. Porque só os homens ficam nas crónicas (continua Maria Teresa); porque as mulheres não contam. E no entanto são as mulheres que carregam os pesos das casas; são elas que abrem as portadas das janelas quando a sombra começa a coagular e a fazer vibrar a água dos cântaros. E no entanto, quando Francisco morreu, quando a crise chegou à Casa do Corgo, depois de espalhar-se por uma e outra e todas as quintas do Vale do Douro, foi Madalena quem primeiro deixou de lado as lágrimas; a definir estratégias; a avançar contra o remanso. Havia nela uma nobreza sem ostentação que você nunca compreenderá; uma distante humildade; e uma força e uma perseverança características destas mulheres altivas e simultaneamente ausentes, imperativas, que, passada a tempestade, se acolhem de novo à candura e à obscuridade. Como sei eu estas coisas? Isto, se o não soubesse de outro modo, sabê-lo-ia de ciência certa por saber que é sempre assim que o mundo roda.

quarta-feira, julho 30, 2008

7.

Uma maldição parecia ter sido lançada sobre o Douro. O oídio, primeiro; a filoxera, depois; e agora uma ameaça maior e definitiva (a burla, a fraude) que não iria lá com enxofre, sulfuretos de carbono, porta-enxertos americanos a substituir o plantio em pé-franco ou alargamentos da área do benefício. Já se viu (continua Maria Teresa) que Francisco soube tirar proveitos da crise de meados de sessenta. Mas em mil oitocentos e oitenta e sete o negócio de exportação atingia limiares de insustentabilidade. Francisco, doente, quase falido, morria no Brasil, em Santos, no mês de Outubro; o filho mais velho acabava de produzir um dos melhores vinhos do século, nesse Verão de dias quentes e noites frescas que suspendia nas encostas uma luminosidade e uma fina leveza do ar que pareciam já embriagar antes da fermentação do mosto; e, de súbito, num tempo em que a fraude e as imitações do vinho do Porto se generalizam nos principais mercados internacionais e espalham a miséria em todo o perímetro do Vale, as responsabilidades do futuro da família ficam sobre os ombros de José Ribeiro da Conceição. Descapitalizada a empresa, sem recursos financeiros, não seria ainda o tempo de saborear o Queen Victoria’s Jubilee, um vintage como há mais de cinquenta anos não havia memória no Douro.

domingo, julho 27, 2008

6.

Não sei se lhe devia dizer isto (diz Maria Teresa). Você nasceu e viveu sempre na cidade de que o vinho do Douro tomou o nome. Mas eu não posso falar-lhe do Douro sem ligar as coisas. Você ficou fascinado com a Casa a Jusante da Ponte de Arame; com a memória das pedras arrumadas do alicerce à cumeeira; com as árvores dispersas em redor do pátio; com o rumor das águas do rio descendo os gralheiros; com as bétulas da vertente e com o bosque de carvalhos que o avanço dos pinhais não afastou de todo; com a sedução evocadora dos caminhos de terra que levam à Aldeia e correm junto à margem e depois sobem à colina antes de descer de novo ao terraço breve da encosta onde meia dúzia de casas e um tanque se erguem em redor do largo e da igreja. Você, e queira desculpar-me, traz agarrado à pele o sonho dos pequenos burgueses do nosso tempo. Não há mal nenhum em que seja assim. As coisas são o que são. Mas os pequenos burgueses do nosso tempo não desejam mais que reunir bens materiais, enriquecer, para depois se darem ao luxo de viver como pobres: andando a pé por caminhos de terra ou de bicicleta pelo meio dos montes; sem rede de telemóvel; com painéis solares ou outro qualquer sistema ecológico que venha nos manuais da Quercus e substitua a energia convencional; comendo sopas de feijão ou açordas de coentros ou grelhando peças da vazia (certificação D.O.C.) em carvão vegetal; num lugar afastado da auto-estrada onde os automóveis não cheguem sem foder as jantes. Você quer comprar a Casa, em Terras do Barroso, a Jusante da Ponte de Arame. Conheceu Aline. Fez-lhe uma proposta irrecusável. E não compreendeu a sua (dela) estranheza; o seu sobressalto. Mas há bens que não vêm nos inventários; isso você demorará a compreender; ou não compreenderá nunca. É muito fácil para si descrever a chegada de Catarina a São Paulo falando da pelerine desajustada ou da boina com pormenores de flores e pétalas onde poisavam aves em ramos finos; e do modo como o lapardeiro do João Pequeno a enganou e a deixou prenha recitando-lhe uns versos e gabando-lhe a beleza do olhar. Mas que sabe você da história que precede e explica a sua vida? É sempre tudo tão complexo. Habituámo-nos a olhar as coisas a preto e branco: é assim ou não é. E no entanto há sempre uma história por detrás que baralha e confunde e só depois, finalmente, aclara se tivermos a disponibilidade de ver. Francisco, o avô de Catarina, comprou terras no Douro Superior onde a filoxera quase não atacava; meteu-se no negócio da exportação; ergueu uma casa com porta carral e até se deu ao luxo de produzir um azeite fino com medalhas em Bordéus; enriqueceu. Mas Francisco Ribeiro da Conceição tinha consciência do que está por detrás do vinho engarrafado. Sabia que era preciso, primeiro, rasgar o calhau dos vinhedos com picaretas e alavancas; e depois abrir as valas e firmar os calços; e depois, nessa espécie de tabuleiros de nível, alinhar os geios; e depois, muito mais tarde, desmadeirar e cavar em redor das videiras para guardar a água do Inverno e não deixar os fertilizantes serem arrastados na encosta; e, mais tarde ainda, podar; e depois cavar de novo para que a luz entre por igual nos torrões assim revolvidos da camada estreita acima da pedra; e depois arrimar a vide e redrar e enxofrar e sulfatar; e, então, avançar para a vindima; e escolher e eleger e separar a uva; e pisar com os pés, em lagares de pedra, os cachos ainda iluminados pelo Verão; e depurar e trasfegar; e depois, finalmente, apurar o bouquet e envelhecer e só depois, mais tarde, muito depois, olhar o vinho e bebê-lo de um copo alto. Não sei se isto acrescenta ou atrasa ao que me pediu. Porque você me pediu apenas que lhe falasse da Brasileira de Lamego. Sei lá; peço desculpa. O certo é que as palavras são como as cerejas, e uma coisa leva sempre a outra.

sexta-feira, julho 25, 2008

5.

[Não sei (diz Maria Teresa) que preocupação é esta minha de falar escorreito, de medir as frases: você há-de subverter tudo. Sei como é. O mais certo é que um dia venha a ler o seu folhetim e não reconheça nessas páginas nada do que lhe conto.]
4.

Um insecto minúsculo atravessou o mar oceano e desenhou na Europa uma nebulosa cartografia. A existência de vinhedos e a direcção dos ventos dominantes pareciam determinar a sua progressão: Gard e Floirac, Orléans e Côte-d’Or, Cognac, La Crau de Châteaurenard, Cadarache, Castries e Tain-l’Hermitage, Valmadrera, Imperia e Caltanissetta, Málaga, Gerona, Vale do Douro. Um insecto minúsculo que parecia mudar a sua forma a cada instante e não ter um padrão de comportamento: amarelo, ocre, castanho claro, muito escuro, dourado, sem asas, com asas transparentes, maior que formigas, menor que um grão de areia, semelhando pequenas moscas domésticas; escalavrando as páginas inferiores das folhas ou permanecendo escondido a atacar as raízes sem vir à superfície; emergindo à luz clara, já com as asas que o subsolo não lhe pedia, a depositar os ovos nas galhas previamente cortadas; ninfas a esfacelar de novo as folhas, em Abril, depois da eclosão e depois duma espécie de hibernação nas células mortas da casca; criando nódulos nas raízes até ao advento dos fungos e à impossibilidade de circulação dos nutrientes; infestando as folhas até ao ocre, reduzindo a área foliar, agredindo os elos e os caules jovens; migrando; formando novas colónias; resistindo ao transporte do plantio; levando, enfim, à morte das videiras, da vinha, do vinhedo. Depois do oídio, uma década antes, um pequeno insecto, minúsculo, insignificante, atravessava agora o mar oceano, chegava às encostas declivosas do rio Douro e arruinava a produção de vinho fino na mais antiga região do mundo demarcada. Num jantar reservado em Britiande, na Quinta de Santa Cruz, com um regenerador que pouco tempo depois soçobraria pastas no Governo da Fusão chefiado por António Augusto de Aguiar, o avô de Catarina ficou a saber da iminente saída de um decreto de liberdade comercial que estenderia os marcos do vinho do Porto na direcção do Douro Superior. A ruína ameaçava; o tempo era de crise. Mas Francisco Ribeiro da Conceição, entretanto, comprava terras a eito onde a filoxera quase não atacava e o benefício se alargaria por diploma legislativo. Em mil oitocentos e sessenta e sete, numa pequena aldeia distante não mais que meia légua de Lamego, começava a erguer-se uma casa de porta carral e paredes de perpianho de tal modo aparelhado que nem uma agulha entrava nas juntas da pedra. Um olival, nas imediações da casa, estendia-se a perder de vista em linhas direitas. Mas a riqueza, entretanto, vinha do Douro Superior; das terras por onde os marcos da delimitação tinham avançado e o minúsculo insecto americano quase não atacava os plantios.

quarta-feira, julho 23, 2008

3.

Catarina nasceu numa aldeia distante de Lamego não mais que uma légua: casa de porta carral, pátio ladeado no segundo piso por uma varanda corrida em três lanços e paredes de perpianho aparelhado de modo a que um alfinete não entrasse nas juntas da pedra. Um baixo-relevo talhado no granito, a encimar a porta, ostentava a data de construção: 1867. Na envolvente da casa e da pequena horta, depois do nabal, a juzante da cortinha do Corgo, estendia-se um olival de árvores alinhadas a perder de vista. Mas a riqueza que permitira construir a casa não vinha da azeitona nem do repolho temporão.

terça-feira, julho 22, 2008

2.

Não deixará nunca de nos surpreender o carácter único de cada ser humano. Não deixará nunca, no ser humano, de nos surpreender a diferença, a dissemelhança, a diversidade: nenhum gesto se repete; nenhum rosto se repete. Talvez seja isso, o reconhecimento dessa diversidade, que nos faz mais iguais. Digo eu. Mas Catarina Ribeiro da Conceição nasceu numa pequena aldeia de não mais que sessenta casas; no ano de mil oitocentos e noventa e nove. E nesse lugar, e nesse tempo, a diferença era um agravo, um ultraje. A Moura, eis como Catarina era conhecida antes de ser a Brasileira de Lamego; desde a infância. A sua tez era demasiado escura para os padrões do sítio; o seu nariz demasiado arqueado e erguido; as suas sobrancelhas demasiado altivas; a linha horizontal dos seus lábios demasiado longa e demasiado bem desenhada; e o seu olhar ficava marcado pela imposição do imenso e intimidatório branco em redor da íris. A Moura, assim lhe chamavam. Também, provavelmente, por isso mesmo: por essa divergência fisionómica. Mas havia raízes onde fundar o preconceito: a mãe de Catarina usava uns vestidos de pano de Granada que insistia em designar por alfoleimes; e nos serões em sua casa, nas noites de vindima, nas desfolhadas, nas espadeladas, em vez da concertina e do bombo ouviam-se gaitas, adufes e arabis. Onde quero chegar? A isto: a vida toda de Catarina haveria de ficar condicionada pelas diferenças do seu rosto e pelas histórias (num universo dominado por superstições e fantasias) que essa diferença (essa distância) convocava. Quando chegou ao Brasil, muitos anos depois, João Pequeno gabou-lhe o moreno da tez e os «olhos imensos como se uma estrela os protegesse» (assim escreveu o mariola, a tinta permanente, num bilhetinho que ficou no espólio breve, atado num laço, de meia dúzia de papéis guardados no fundo duma gaveta da casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal); talvez Catarina permanecesse indiferente ao elogio, e de pé atrás, se não tivesse conhecido sempre, primeiro na aldeia, depois em Lamego, o peso insustentável da distância e dessa espécie de proscrição. Mas isto (diz Maria Teresa) já sou eu a inventar.

quarta-feira, julho 16, 2008

Capítulo X
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(Onde Maria Teresa fala de Catarina e do mais que se verá)
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1.
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É curioso (diz Maria Teresa) como você foi escolhendo a sua história dentro da história. Como privilegiou alguns nomes, como deixou que outros fossem desaparecendo, como seguiu caminhos que supostamente não havia interesse em percorrer. É curioso, ainda, como abdicou da preocupação da cronologia e da descrição factual dos acontecimentos; como, enfim, compreendeu que os eventos secundários, marginais, esses de que chegamos a nem falar, são as mais das vezes os que deixaram as marcas na pele ou mais profundamente mudaram as nossas vidas. O padrinho de João Pequeno, por exemplo; o padrinho de João Pequeno dava um romance. E no entanto você deixou-o na casa do Meio da Aldeia, junto à igreja, e decidiu seguir o afilhado até ao Brasil para me perguntar agora o que sei eu da Brasileira de Lamego.

terça-feira, julho 15, 2008

20.

E então, quase doze anos depois de chegar ao porto de Santos, algumas imagens antigas foram-lhe devolvidas no alarme da sua irremediável ausência: os muros do cadastro, a escaleira de pedra e a varanda sobre o pátio onde crescia uma figueira, a névoa erguendo-se por entre os salgueiros do rio, o telheiro onde se guardava a lenha do Inverno, a lareira acesa, a luz excessiva dos meses de Julho derramada na água dos açudes. João Pequeno julgava ter apagado, uma a uma, todas as imagens desse tempo antigo. A própria ideia de tempo presente começou, quase imediatamente após a sua chegada ao Brasil, a não fazer sentido. O presente era já o futuro que a cada instante o tocava e o invocava Os negócios, o amor, as viagens de barco cruzando os mares do continente, as noites de Buenos Aires, o movimento das ruas, o teatro, a velocidade dos automóveis de corrida a deslizar e a desaparecer por entre o pavimento e uma nuvem: tudo o afastava da noção de tempo e permanência. A invocação duma suposta memória devolvida sem aviso (as folhas dos negrilhos, o arame das vinhas, os pátios, o caminho de terra subindo às colinas por entre bosques de bétulas) não era mais que um pé, um pretexto, um subterfúgio, uma tentativa de justificar a desistência. A verdade é que os negócios corriam mal, as paixões corriam desastrosas e as relações de confiança se deterioravam a olhos vistos numa meada sem fio. Resolveu, portanto, regressar a Portugal. Caía a noite quando o navio saiu do porto de Santos. João Pequeno fugia de si mesmo mais ainda do que, nesse preciso momento, lhe era possível adivinhar.

domingo, julho 06, 2008

19.

No início dos anos vinte, em São Paulo, a rua pertencia aos pobres e às putas. A riqueza do café fazia-se no campo, nas fazendas, num tempo antigo de terreiros e tulhas, de casas-grandes e senzalas, de terraços e alpendres, de casas de escrivães e arreadores, de tropeiros e marceneiros, de paióis e quartos de selas, de enfermeiros, dos anexos de escravos, de engenhos e alambiques. Mas depois os senhores da terra rumaram à cidade com suas cédulas e havia que marcar diferenças, distâncias. Em São Paulo, por esse tempo, às mulheres das famílias ricas ficou-lhes destinada a casa e a gestão de cozinhas e eventos sociais, a redacção de papelinhos de convite e a discussão dos alinhamentos das sebes dos jardins. O espaço público foi sendo ganho, aos poucos, nas aulas de piano, no ensino, no estudo do direito ou da medicina; e, finalmente, pela frequência das salas de cinema, dos restaurantes, das alamedas e dos parques arborizados que o urbanismo levava aos bairros residenciais de palacetes e moradias com salões de pé direito duplo. As mulheres da sociedade iam ganhando terreno. E, de súbito, depois das alamedas e dos foiyeres dos teatros, o amor. As mulheres, ganho o espaço público, avançavam para o espaço afectivo. E acabaram por regressar à casa sem deixar a rua: exigindo a si mesmas um lugar de liberdade e escolha, um lugar sem grades onde as remetia, no tempo antigo, o preconceito e a impossibilidade de tocar os fios do desejo, da pele, do amor. Quando Catarina, à noite, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, passeou nas ruas de São Paulo o seu vestido de um amarelo claro, os seus colares excessivos, a sua pelerine de lã, era já vigente o entendimento de que a beleza e o desejo não deveriam fechar-se à chave entre paredes altas. Os casamentos por interesse comercial andavam arredados da moda. A boina de Catarina Ribeiro da Conceição, com os seus pormenores de flores e pétalas onde poisavam aves em ramos finos, e sobretudo o que representava, estava desajustada do seu tempo. João Pequeno, paciente, explicou-lhe isso mesmo; que o casamento exige o amor. E, de caminho, estando Paolo Piscicelli ausente por razão de negócios, levou-a pelas ruas do Ipiranga e acabaram a ver uma fita no Cine Theatro Brazil. Trocaram as mãos por um breve momento. E ela recordou-se do sobressalto dessa noite de Lamego, muitos anos antes, em que um moço desajeitado a olhou como se o mundo estivesse a começar.

quarta-feira, julho 02, 2008

18.

A João Pequeno não eram estranhos os cenários de crise. Por mais que uma vez se viu confrontado com esses cenários e com a necessidade de estabelecer estratégias de actuação. Sabia como proceder; conhecia os mecanismos adequados às diferentes circunstâncias: entrar no vórtice da crise e retirar dela oportunidades novas; adiar investimentos ou apostar em actividades de carácter não-produtivo; diversificar os investimentos; arriscar quando os outros hesitam; apostar onde os outros desistem. A João Pequeno não eram estranhas as estratégias de actuação empresarial em tempo de crise. É certo que agora, além da economia, a crise das empresas da família Ribeiro da Conceição revertia sobretudo de apostas políticas erradas. E isso é fodido: da política convém ficar à distância ou acertar nas apostas. Mas João já tinha atravessado o deserto em situações mais delicadas. E, não fora o amor, também desta vez os obstáculos haveriam de ser superados. O problema é sempre o amor. Nunca sabemos lidar com as coisas do amor. Não há algoritmos para o amor.

segunda-feira, junho 30, 2008

17.

Quando chegou ao porto de Santos, numa tarde estranhamente quente de princípios de Agosto de mil novecentos e dezanove, João Pequeno não fez a tradicional via-sacra dos imigrantes: não haveria de ficar na hospedaria do bairro do Brás entre o odor a azedo e a algaraviada ruidosa de espanhol e italiano; não haveria de sujeitar-se ao desconforto dos quartos minúsculos e apinhados de gente desconhecida; não haveria de sujeitar-se ao ágio que a miséria parece atrair como uma lâmpada acesa por entre o escuro da noite; não haveria de rumar às fazendas ou às fábricas e procurar depois, aos poucos, libertar-se de uma espécie de sevícia que tirava aos homens e às mulheres os fios de sonho e a dignidade que traziam no convés dos navios, pouco tempo antes, olhando a linha do horizonte. João Pequeno chegou ao porto de Santos e a família de José Ribeiro da Conceição esperava-o como se a amizade do padrinho com o velho empresário de Lamego revertesse de um juramento de sangue que assim, neste cuidado, acabava por cumprir-se. João, alguns dias depois, trabalhava já nos escritórios da empresa de importação; e, passado pouco mais que um ano, era o responsável pela gestão da Companhia de Transportes Luzitana. São Paulo, nos anos vinte, é uma metrópole com mais de meio milhão de habitantes; a vida oscila entre a crise do café e a expansão da indústria, a miséria e a riqueza, a escassez e as crescentes oportunidades de negócio. A Companhia Luzitana estava no prato certo da balança; não apenas lidera o sector dos transportes: é uma referência de sucesso empresarial. João Pequeno conhece a glória, vive num palácio da rua Barão de Itapetininga, frequenta o Teatro Municipal, é desejado pelas mulheres, convive com os artistas do movimento modernista, patrocina a Semana de Arte Moderna. Assim corria, sem graves variações de corrente, a água por debaixo das pontes. Mas essas mesmas águas, em mil novecentos e trinta, pareciam de súbito sobressaltar-se e ameaçar sair das margens. As dificuldades começaram com a crise da bolsa de valores de Nova Iorque, um ano antes; e, de súbito, ganhavam força com a revolta armada que acabava de levar à deposição de Washington Luís. Entretanto, João Pequeno apostou tudo em Júlio Prestes para a presidência da República; Júlio Prestes venceu as eleições; mas o golpe de estado de três de Outubro de mil novecentos e trinta levou-o ao exílio; Getúlio Vargas toma o poder; era o fim da República Velha e um duro golpe para os negócios das empresas da família Ribeiro da Conceição. E foi então, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, que Catarina Ribeiro da Conceição chegou a São Paulo; não era propriamente uma jovem: João Pequeno tinha-a visto em Lamego, quase doze anos antes, na casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal. Se o amor não fosse chamado a estas coisas, o mais certo é que haveriam todos de ficar felizes com a providencial aliança. Catarina, no dia seguinte, seria apresentada a Paolo Piscicelli, seu prometido noivo. E a família Piscicelli era ainda a mais poderosa de São Paulo: o fim da República Velha não bulira com os alicerces do seu empório; e os novos tempos, com Getúlio Vargas, anunciavam um ciclo de sucessos empresariais. O casamento, se não era movido pela conveniência, não se podia dizer que a prejudicasse. O mal é que João Pequeno tinha visto Catarina, por instantes, doze anos antes, em Lamego, na casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal, e jurara não mais esquecê-la durante o resto da vida.

quinta-feira, junho 26, 2008

16.

O tempo passou a correr. É quase sempre assim quando uma imagem antiga bruscamente nos é devolvida no alarme da sua irremediável ausência. A caminho do Brasil, a meio do mar oceano, sob as nuvens movendo-se ou entre as vagas erguidas pelo vento, João Pequeno foi deixando que a memória do passado se diluísse como a água que temos nas mãos em concha e vemos escorrer por entre os dedos. Ao chegar ao porto de Santos, ao respirar com dificuldade nessa tarde distante de calor insuportável por entre a turba de homens e mulheres arrastando malas vagarosas, João compreendeu que só o futuro existia; que um mundo novo, admirável, se abria diante de si; que o passado não era mais que uma abstracção sem densidade nem contornos. O padrinho haveria de morrer na tristeza desse silêncio; o pai haveria de perder o rumo e passar os dias à procura de um sinal que nem a camioneta da carreira nem o posto dos correios acabaram por lhe trazer; Serapião Afonso, primeiro fechado na cadeia civil, depois fechado em si mesmo no labirinto do ódio, deu-o como morto; a Vila esqueceu-o; os anos passaram; longe, fora do mundo que vivia, sucederam-se os dias de vento, a neve e o sincelo, a poeira levantada dos caminhos num fim de tarde de Verão. Só o futuro importava. E no entanto, imprevistamente, quase doze anos depois de chegar ao porto de Santos, algumas imagens antigas foram-lhe devolvidas no alarme da sua irremediável ausência: uma faca de cortar o pão; uma mesa de castanho com uma toalha de linho em dia festivo; um cântaro com água; um negrilho erguendo-se na encosta a caminho do Voluntário. O tempo, entretanto, passara a correr. Ou talvez não: não tão depressa que não deixasse a água circular, sucessiva, por debaixo das pontes.

domingo, junho 15, 2008

15.

O escuro da taberna contrastava com o calor insuportável; um odor a óleo e a fermentação parecia ficar no ar em camadas espessas. João gostava de misturar-se a esta gente que trazia em si, a um tempo, as marcas da ruína e da exaltação; os sonhos ainda agarrados ao corpo mesmo quando a cinza definitivamente os trespassara. E então, numa noite de Outubro de mil novecentos e vinte e um, ouviu alguém a falar de um lugar onde os rios eram tão azuis como nos mapas das escolas; e os freixos desenhavam nas suas margens uma linha sinuosa de sombra iluminada por dentro. Não o reconheceu logo: Damásio Martins tinha envelhecido muito. E João Pequeno ficou por algum tempo interdito: Carminha, D. Carmo, recebia na Vila, todos os meses, uma renda da suposta árvore das patacas que lhe permitia comprar vestidos de Lisboa no Comércio Central; com o que lhe sobrava das remessas, Damásio Martins teria o suficiente para remendar a roupa, beber copos de cachaça e sonhar com uma casa nas margens do Terva, na presa das Tílias, entre a encosta de vidoeiros e o lameiro das águas sesserigas.
14.

São Paulo era uma cidade de contrastes. A guerra trouxe a riqueza e o progresso; e, como sempre que a riqueza cresce, a miséria foi ocupando espaços e erguendo muros. João Pequeno vivia a intensidade das contradições do seu tempo. Perdia-se em tabernas escusas onde os operários fabris adormeciam nas mesas a beber cachaça e a contar as sobras de salários miseráveis; frequentava os salões de dança e assistia às corridas de automóveis; fazia amigos nas periferias onde a gripe espanhola dizimara crianças e velhos; passeava nas alamedas do Palácio das Indústrias ou quedava-se, fascinado, a ver partidas de futebol ou exibições de voo de aeroplanos coloridos. Entretanto, dedicava-se a fundo aos negócios e subia na hierarquia da empresa de importação de José Ribeiro da Conceição. O sucesso acompanhava de perto a sua dedicação, a sua entrega, a sua inteligência, os seus dotes inesperados de liderança. Depressa deixa a empresa de importação e, dividido entre os escritórios de Santos e S. Paulo, José Ribeiro entrega-lhe as responsabilidades de gestão da Companhia de Transportes Luzitana. Em pouco tempo a Companhia lidera o sector da navegação; e João Pequeno viaja nos vapores que cruzam os mares, que ligam o Norte do Brasil a Buenos Aires, as penínsulas e os continentes do vasto e admirável mundo.
13.

Algumas leituras davam-lhe a dimensão das cidades longínquas e dos continentes que se erguiam em plataformas sobre o mar e se perdiam na distância das florestas e dos imensos rios. Mas o mundo de João Pequeno não passara nunca as fronteiras da bacia hidrográfica do Terva; tudo o mais, além das cumeadas da Seixa, revertia de uma irrealidade feita de sonho e abstracção. E o mundo, no entanto, é vasto e admirável: com a água dos mares oceanos, as cordilheiras e os seus declives, as ilhas e as penínsulas; com as montanhas e os rios, a chuva e o vento; com a tempestade e o remanso, as manhãs de sincelo ou os fins de tarde iluminados por um lume vagaroso; com a rede infinita dos seus caminhos e veredas, os bosques e as árvores das avenidas, as casas, as pontes suspensas entre duas margens, as colinas, os palácios, as arcadas das praças, os navios, as estrelas, as mulheres, as nuvens, as marés, o crepúsculo. João Pequeno vivia num vórtice; um mundo novo, admirável, maior que o destino dos homens, abria-se diante de si. E era como se esse mundo admirável, o burburinho dos automóveis e das fábricas, os edifícios e os palácios, as avenidas e os jardins, o transportassem a uma dimensão de milagre.

sexta-feira, junho 06, 2008

12.

João ouve o motor, ao longe, do Bugatti, e imagina um tempo em que não haverá tempo; um tempo em que tudo ficará dependente do despotismo do tempo: das suas amarras, das suas teias densas, dos seus elos e dos seus vínculos, das suas cadeias sucessivas. A velocidade, então, marcará o quotidiano; e as opções do quotidiano resultarão da ponderação de variáveis que se sobrepõem, acumulam, uma camada e depois outra, num processo em que a diacronia deixa de fazer sentido; um tempo em que a falta de tempo justificará tudo: a erosão do amor, os intervalos longos na publicação dos capítulos dos folhetins, as ausências, a deserção, o esquecimento. João Pequeno ouve o ruído fascinante do motor de quatro cilindros do Bugatti e imagina um tempo em que o relógio se sobrepõe ao calendário e tudo se vive ao segundo. Até que o automóvel aparece na recta final; acabou de fazer a última curva da pista: azul, tubular, com o motor protegido pela belíssima oval dianteira, com as onduladas curvas laterais a semelhar uma onda, veloz, admirável, deslizando entre o pavimento e uma nuvem, quase em voo, quase suspenso na vertigem de correr assim disparado em direcção ao futuro.

quinta-feira, maio 22, 2008

11.

João Pequeno dormiu durante quase todo o dia. Acordou e pensou por instantes que estaria fechado numa cela da cadeia civil. Depois olhou na direcção da porta e viu a figura do padrinho recortada contra a luminosidade baça do corredor. Tudo se passou como num sonho em que as imagens se sucedem e sobrepõem até à incoerência cronológica. Quase doze anos depois, quando regressar de novo e olhar o rio, a insólita paisagem de pinheiros elevando-se nas colinas do outro lado do vale, os mesmos caminhos de terra batida, o casario de granito a descobrir-se por entre a neblina do fim de tarde de Fevereiro, João Pequeno terá a sensação estranha da impossibilidade da narrativa; como se os eventos desses dias de Julho de mil novecentos e dezanove tivessem ocorrido fora da sua vida; como se não houvesse coincidência temporal entre a sua vida e o tempo concreto; como se um fluido misturasse as suas memórias e as remetesse a um universo intangível: a figura do padrinho recortada à porta do quarto contra a luminosidade baça do corredor; o rumor dos pequenos fios de água descendo os alcantilados da serra; o odor das flores da urze pisadas pelas patas dos cavalos; a breve luz do quarto minguante a marcar no horizonte as cumeadas onduladas; os descampados onde faziam breves paragens para logo depois atravessarem a galope com o vento no rosto; uma escusa estalagem onde comeram e dormiram algumas horas; a casa de José Ribeiro da Conceição, em Lamego, erguendo-se imensa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal; uma mulher que haverá de jurar nunca esquecer durante o resto da vida; a viagem para o Porto; as despedidas; o embarque; e depois o mar oceano, um céu infinito, a tempestade, o calor insuportável, a chegada ao porto de Santos, a turba inverosímil de homens e mulheres a arrastar malas imensas como quem traz do passado todas as amarras de que se pretende libertar.