2.
Não deixará nunca de nos surpreender o carácter único de cada ser humano. Não deixará nunca, no ser humano, de nos surpreender a diferença, a dissemelhança, a diversidade: nenhum gesto se repete; nenhum rosto se repete. Talvez seja isso, o reconhecimento dessa diversidade, que nos faz mais iguais. Digo eu. Mas Catarina Ribeiro da Conceição nasceu numa pequena aldeia de não mais que sessenta casas; no ano de mil oitocentos e noventa e nove. E nesse lugar, e nesse tempo, a diferença era um agravo, um ultraje. A Moura, eis como Catarina era conhecida antes de ser a Brasileira de Lamego; desde a infância. A sua tez era demasiado escura para os padrões do sítio; o seu nariz demasiado arqueado e erguido; as suas sobrancelhas demasiado altivas; a linha horizontal dos seus lábios demasiado longa e demasiado bem desenhada; e o seu olhar ficava marcado pela imposição do imenso e intimidatório branco em redor da íris. A Moura, assim lhe chamavam. Também, provavelmente, por isso mesmo: por essa divergência fisionómica. Mas havia raízes onde fundar o preconceito: a mãe de Catarina usava uns vestidos de pano de Granada que insistia em designar por alfoleimes; e nos serões em sua casa, nas noites de vindima, nas desfolhadas, nas espadeladas, em vez da concertina e do bombo ouviam-se gaitas, adufes e arabis. Onde quero chegar? A isto: a vida toda de Catarina haveria de ficar condicionada pelas diferenças do seu rosto e pelas histórias (num universo dominado por superstições e fantasias) que essa diferença (essa distância) convocava. Quando chegou ao Brasil, muitos anos depois, João Pequeno gabou-lhe o moreno da tez e os «olhos imensos como se uma estrela os protegesse» (assim escreveu o mariola, a tinta permanente, num bilhetinho que ficou no espólio breve, atado num laço, de meia dúzia de papéis guardados no fundo duma gaveta da casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal); talvez Catarina permanecesse indiferente ao elogio, e de pé atrás, se não tivesse conhecido sempre, primeiro na aldeia, depois em Lamego, o peso insustentável da distância e dessa espécie de proscrição. Mas isto (diz Maria Teresa) já sou eu a inventar.
quarta-feira, julho 16, 2008
Capítulo X
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(Onde Maria Teresa fala de Catarina e do mais que se verá)
.
1.
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É curioso (diz Maria Teresa) como você foi escolhendo a sua história dentro da história. Como privilegiou alguns nomes, como deixou que outros fossem desaparecendo, como seguiu caminhos que supostamente não havia interesse em percorrer. É curioso, ainda, como abdicou da preocupação da cronologia e da descrição factual dos acontecimentos; como, enfim, compreendeu que os eventos secundários, marginais, esses de que chegamos a nem falar, são as mais das vezes os que deixaram as marcas na pele ou mais profundamente mudaram as nossas vidas. O padrinho de João Pequeno, por exemplo; o padrinho de João Pequeno dava um romance. E no entanto você deixou-o na casa do Meio da Aldeia, junto à igreja, e decidiu seguir o afilhado até ao Brasil para me perguntar agora o que sei eu da Brasileira de Lamego.
terça-feira, julho 15, 2008
20.
E então, quase doze anos depois de chegar ao porto de Santos, algumas imagens antigas foram-lhe devolvidas no alarme da sua irremediável ausência: os muros do cadastro, a escaleira de pedra e a varanda sobre o pátio onde crescia uma figueira, a névoa erguendo-se por entre os salgueiros do rio, o telheiro onde se guardava a lenha do Inverno, a lareira acesa, a luz excessiva dos meses de Julho derramada na água dos açudes. João Pequeno julgava ter apagado, uma a uma, todas as imagens desse tempo antigo. A própria ideia de tempo presente começou, quase imediatamente após a sua chegada ao Brasil, a não fazer sentido. O presente era já o futuro que a cada instante o tocava e o invocava Os negócios, o amor, as viagens de barco cruzando os mares do continente, as noites de Buenos Aires, o movimento das ruas, o teatro, a velocidade dos automóveis de corrida a deslizar e a desaparecer por entre o pavimento e uma nuvem: tudo o afastava da noção de tempo e permanência. A invocação duma suposta memória devolvida sem aviso (as folhas dos negrilhos, o arame das vinhas, os pátios, o caminho de terra subindo às colinas por entre bosques de bétulas) não era mais que um pé, um pretexto, um subterfúgio, uma tentativa de justificar a desistência. A verdade é que os negócios corriam mal, as paixões corriam desastrosas e as relações de confiança se deterioravam a olhos vistos numa meada sem fio. Resolveu, portanto, regressar a Portugal. Caía a noite quando o navio saiu do porto de Santos. João Pequeno fugia de si mesmo mais ainda do que, nesse preciso momento, lhe era possível adivinhar.
E então, quase doze anos depois de chegar ao porto de Santos, algumas imagens antigas foram-lhe devolvidas no alarme da sua irremediável ausência: os muros do cadastro, a escaleira de pedra e a varanda sobre o pátio onde crescia uma figueira, a névoa erguendo-se por entre os salgueiros do rio, o telheiro onde se guardava a lenha do Inverno, a lareira acesa, a luz excessiva dos meses de Julho derramada na água dos açudes. João Pequeno julgava ter apagado, uma a uma, todas as imagens desse tempo antigo. A própria ideia de tempo presente começou, quase imediatamente após a sua chegada ao Brasil, a não fazer sentido. O presente era já o futuro que a cada instante o tocava e o invocava Os negócios, o amor, as viagens de barco cruzando os mares do continente, as noites de Buenos Aires, o movimento das ruas, o teatro, a velocidade dos automóveis de corrida a deslizar e a desaparecer por entre o pavimento e uma nuvem: tudo o afastava da noção de tempo e permanência. A invocação duma suposta memória devolvida sem aviso (as folhas dos negrilhos, o arame das vinhas, os pátios, o caminho de terra subindo às colinas por entre bosques de bétulas) não era mais que um pé, um pretexto, um subterfúgio, uma tentativa de justificar a desistência. A verdade é que os negócios corriam mal, as paixões corriam desastrosas e as relações de confiança se deterioravam a olhos vistos numa meada sem fio. Resolveu, portanto, regressar a Portugal. Caía a noite quando o navio saiu do porto de Santos. João Pequeno fugia de si mesmo mais ainda do que, nesse preciso momento, lhe era possível adivinhar.
domingo, julho 06, 2008
19.
No início dos anos vinte, em São Paulo, a rua pertencia aos pobres e às putas. A riqueza do café fazia-se no campo, nas fazendas, num tempo antigo de terreiros e tulhas, de casas-grandes e senzalas, de terraços e alpendres, de casas de escrivães e arreadores, de tropeiros e marceneiros, de paióis e quartos de selas, de enfermeiros, dos anexos de escravos, de engenhos e alambiques. Mas depois os senhores da terra rumaram à cidade com suas cédulas e havia que marcar diferenças, distâncias. Em São Paulo, por esse tempo, às mulheres das famílias ricas ficou-lhes destinada a casa e a gestão de cozinhas e eventos sociais, a redacção de papelinhos de convite e a discussão dos alinhamentos das sebes dos jardins. O espaço público foi sendo ganho, aos poucos, nas aulas de piano, no ensino, no estudo do direito ou da medicina; e, finalmente, pela frequência das salas de cinema, dos restaurantes, das alamedas e dos parques arborizados que o urbanismo levava aos bairros residenciais de palacetes e moradias com salões de pé direito duplo. As mulheres da sociedade iam ganhando terreno. E, de súbito, depois das alamedas e dos foiyeres dos teatros, o amor. As mulheres, ganho o espaço público, avançavam para o espaço afectivo. E acabaram por regressar à casa sem deixar a rua: exigindo a si mesmas um lugar de liberdade e escolha, um lugar sem grades onde as remetia, no tempo antigo, o preconceito e a impossibilidade de tocar os fios do desejo, da pele, do amor. Quando Catarina, à noite, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, passeou nas ruas de São Paulo o seu vestido de um amarelo claro, os seus colares excessivos, a sua pelerine de lã, era já vigente o entendimento de que a beleza e o desejo não deveriam fechar-se à chave entre paredes altas. Os casamentos por interesse comercial andavam arredados da moda. A boina de Catarina Ribeiro da Conceição, com os seus pormenores de flores e pétalas onde poisavam aves em ramos finos, e sobretudo o que representava, estava desajustada do seu tempo. João Pequeno, paciente, explicou-lhe isso mesmo; que o casamento exige o amor. E, de caminho, estando Paolo Piscicelli ausente por razão de negócios, levou-a pelas ruas do Ipiranga e acabaram a ver uma fita no Cine Theatro Brazil. Trocaram as mãos por um breve momento. E ela recordou-se do sobressalto dessa noite de Lamego, muitos anos antes, em que um moço desajeitado a olhou como se o mundo estivesse a começar.
No início dos anos vinte, em São Paulo, a rua pertencia aos pobres e às putas. A riqueza do café fazia-se no campo, nas fazendas, num tempo antigo de terreiros e tulhas, de casas-grandes e senzalas, de terraços e alpendres, de casas de escrivães e arreadores, de tropeiros e marceneiros, de paióis e quartos de selas, de enfermeiros, dos anexos de escravos, de engenhos e alambiques. Mas depois os senhores da terra rumaram à cidade com suas cédulas e havia que marcar diferenças, distâncias. Em São Paulo, por esse tempo, às mulheres das famílias ricas ficou-lhes destinada a casa e a gestão de cozinhas e eventos sociais, a redacção de papelinhos de convite e a discussão dos alinhamentos das sebes dos jardins. O espaço público foi sendo ganho, aos poucos, nas aulas de piano, no ensino, no estudo do direito ou da medicina; e, finalmente, pela frequência das salas de cinema, dos restaurantes, das alamedas e dos parques arborizados que o urbanismo levava aos bairros residenciais de palacetes e moradias com salões de pé direito duplo. As mulheres da sociedade iam ganhando terreno. E, de súbito, depois das alamedas e dos foiyeres dos teatros, o amor. As mulheres, ganho o espaço público, avançavam para o espaço afectivo. E acabaram por regressar à casa sem deixar a rua: exigindo a si mesmas um lugar de liberdade e escolha, um lugar sem grades onde as remetia, no tempo antigo, o preconceito e a impossibilidade de tocar os fios do desejo, da pele, do amor. Quando Catarina, à noite, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, passeou nas ruas de São Paulo o seu vestido de um amarelo claro, os seus colares excessivos, a sua pelerine de lã, era já vigente o entendimento de que a beleza e o desejo não deveriam fechar-se à chave entre paredes altas. Os casamentos por interesse comercial andavam arredados da moda. A boina de Catarina Ribeiro da Conceição, com os seus pormenores de flores e pétalas onde poisavam aves em ramos finos, e sobretudo o que representava, estava desajustada do seu tempo. João Pequeno, paciente, explicou-lhe isso mesmo; que o casamento exige o amor. E, de caminho, estando Paolo Piscicelli ausente por razão de negócios, levou-a pelas ruas do Ipiranga e acabaram a ver uma fita no Cine Theatro Brazil. Trocaram as mãos por um breve momento. E ela recordou-se do sobressalto dessa noite de Lamego, muitos anos antes, em que um moço desajeitado a olhou como se o mundo estivesse a começar.
quarta-feira, julho 02, 2008
18.
A João Pequeno não eram estranhos os cenários de crise. Por mais que uma vez se viu confrontado com esses cenários e com a necessidade de estabelecer estratégias de actuação. Sabia como proceder; conhecia os mecanismos adequados às diferentes circunstâncias: entrar no vórtice da crise e retirar dela oportunidades novas; adiar investimentos ou apostar em actividades de carácter não-produtivo; diversificar os investimentos; arriscar quando os outros hesitam; apostar onde os outros desistem. A João Pequeno não eram estranhas as estratégias de actuação empresarial em tempo de crise. É certo que agora, além da economia, a crise das empresas da família Ribeiro da Conceição revertia sobretudo de apostas políticas erradas. E isso é fodido: da política convém ficar à distância ou acertar nas apostas. Mas João já tinha atravessado o deserto em situações mais delicadas. E, não fora o amor, também desta vez os obstáculos haveriam de ser superados. O problema é sempre o amor. Nunca sabemos lidar com as coisas do amor. Não há algoritmos para o amor.
A João Pequeno não eram estranhos os cenários de crise. Por mais que uma vez se viu confrontado com esses cenários e com a necessidade de estabelecer estratégias de actuação. Sabia como proceder; conhecia os mecanismos adequados às diferentes circunstâncias: entrar no vórtice da crise e retirar dela oportunidades novas; adiar investimentos ou apostar em actividades de carácter não-produtivo; diversificar os investimentos; arriscar quando os outros hesitam; apostar onde os outros desistem. A João Pequeno não eram estranhas as estratégias de actuação empresarial em tempo de crise. É certo que agora, além da economia, a crise das empresas da família Ribeiro da Conceição revertia sobretudo de apostas políticas erradas. E isso é fodido: da política convém ficar à distância ou acertar nas apostas. Mas João já tinha atravessado o deserto em situações mais delicadas. E, não fora o amor, também desta vez os obstáculos haveriam de ser superados. O problema é sempre o amor. Nunca sabemos lidar com as coisas do amor. Não há algoritmos para o amor.
segunda-feira, junho 30, 2008
17.
Quando chegou ao porto de Santos, numa tarde estranhamente quente de princípios de Agosto de mil novecentos e dezanove, João Pequeno não fez a tradicional via-sacra dos imigrantes: não haveria de ficar na hospedaria do bairro do Brás entre o odor a azedo e a algaraviada ruidosa de espanhol e italiano; não haveria de sujeitar-se ao desconforto dos quartos minúsculos e apinhados de gente desconhecida; não haveria de sujeitar-se ao ágio que a miséria parece atrair como uma lâmpada acesa por entre o escuro da noite; não haveria de rumar às fazendas ou às fábricas e procurar depois, aos poucos, libertar-se de uma espécie de sevícia que tirava aos homens e às mulheres os fios de sonho e a dignidade que traziam no convés dos navios, pouco tempo antes, olhando a linha do horizonte. João Pequeno chegou ao porto de Santos e a família de José Ribeiro da Conceição esperava-o como se a amizade do padrinho com o velho empresário de Lamego revertesse de um juramento de sangue que assim, neste cuidado, acabava por cumprir-se. João, alguns dias depois, trabalhava já nos escritórios da empresa de importação; e, passado pouco mais que um ano, era o responsável pela gestão da Companhia de Transportes Luzitana. São Paulo, nos anos vinte, é uma metrópole com mais de meio milhão de habitantes; a vida oscila entre a crise do café e a expansão da indústria, a miséria e a riqueza, a escassez e as crescentes oportunidades de negócio. A Companhia Luzitana estava no prato certo da balança; não apenas lidera o sector dos transportes: é uma referência de sucesso empresarial. João Pequeno conhece a glória, vive num palácio da rua Barão de Itapetininga, frequenta o Teatro Municipal, é desejado pelas mulheres, convive com os artistas do movimento modernista, patrocina a Semana de Arte Moderna. Assim corria, sem graves variações de corrente, a água por debaixo das pontes. Mas essas mesmas águas, em mil novecentos e trinta, pareciam de súbito sobressaltar-se e ameaçar sair das margens. As dificuldades começaram com a crise da bolsa de valores de Nova Iorque, um ano antes; e, de súbito, ganhavam força com a revolta armada que acabava de levar à deposição de Washington Luís. Entretanto, João Pequeno apostou tudo em Júlio Prestes para a presidência da República; Júlio Prestes venceu as eleições; mas o golpe de estado de três de Outubro de mil novecentos e trinta levou-o ao exílio; Getúlio Vargas toma o poder; era o fim da República Velha e um duro golpe para os negócios das empresas da família Ribeiro da Conceição. E foi então, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, que Catarina Ribeiro da Conceição chegou a São Paulo; não era propriamente uma jovem: João Pequeno tinha-a visto em Lamego, quase doze anos antes, na casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal. Se o amor não fosse chamado a estas coisas, o mais certo é que haveriam todos de ficar felizes com a providencial aliança. Catarina, no dia seguinte, seria apresentada a Paolo Piscicelli, seu prometido noivo. E a família Piscicelli era ainda a mais poderosa de São Paulo: o fim da República Velha não bulira com os alicerces do seu empório; e os novos tempos, com Getúlio Vargas, anunciavam um ciclo de sucessos empresariais. O casamento, se não era movido pela conveniência, não se podia dizer que a prejudicasse. O mal é que João Pequeno tinha visto Catarina, por instantes, doze anos antes, em Lamego, na casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal, e jurara não mais esquecê-la durante o resto da vida.
Quando chegou ao porto de Santos, numa tarde estranhamente quente de princípios de Agosto de mil novecentos e dezanove, João Pequeno não fez a tradicional via-sacra dos imigrantes: não haveria de ficar na hospedaria do bairro do Brás entre o odor a azedo e a algaraviada ruidosa de espanhol e italiano; não haveria de sujeitar-se ao desconforto dos quartos minúsculos e apinhados de gente desconhecida; não haveria de sujeitar-se ao ágio que a miséria parece atrair como uma lâmpada acesa por entre o escuro da noite; não haveria de rumar às fazendas ou às fábricas e procurar depois, aos poucos, libertar-se de uma espécie de sevícia que tirava aos homens e às mulheres os fios de sonho e a dignidade que traziam no convés dos navios, pouco tempo antes, olhando a linha do horizonte. João Pequeno chegou ao porto de Santos e a família de José Ribeiro da Conceição esperava-o como se a amizade do padrinho com o velho empresário de Lamego revertesse de um juramento de sangue que assim, neste cuidado, acabava por cumprir-se. João, alguns dias depois, trabalhava já nos escritórios da empresa de importação; e, passado pouco mais que um ano, era o responsável pela gestão da Companhia de Transportes Luzitana. São Paulo, nos anos vinte, é uma metrópole com mais de meio milhão de habitantes; a vida oscila entre a crise do café e a expansão da indústria, a miséria e a riqueza, a escassez e as crescentes oportunidades de negócio. A Companhia Luzitana estava no prato certo da balança; não apenas lidera o sector dos transportes: é uma referência de sucesso empresarial. João Pequeno conhece a glória, vive num palácio da rua Barão de Itapetininga, frequenta o Teatro Municipal, é desejado pelas mulheres, convive com os artistas do movimento modernista, patrocina a Semana de Arte Moderna. Assim corria, sem graves variações de corrente, a água por debaixo das pontes. Mas essas mesmas águas, em mil novecentos e trinta, pareciam de súbito sobressaltar-se e ameaçar sair das margens. As dificuldades começaram com a crise da bolsa de valores de Nova Iorque, um ano antes; e, de súbito, ganhavam força com a revolta armada que acabava de levar à deposição de Washington Luís. Entretanto, João Pequeno apostou tudo em Júlio Prestes para a presidência da República; Júlio Prestes venceu as eleições; mas o golpe de estado de três de Outubro de mil novecentos e trinta levou-o ao exílio; Getúlio Vargas toma o poder; era o fim da República Velha e um duro golpe para os negócios das empresas da família Ribeiro da Conceição. E foi então, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, que Catarina Ribeiro da Conceição chegou a São Paulo; não era propriamente uma jovem: João Pequeno tinha-a visto em Lamego, quase doze anos antes, na casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal. Se o amor não fosse chamado a estas coisas, o mais certo é que haveriam todos de ficar felizes com a providencial aliança. Catarina, no dia seguinte, seria apresentada a Paolo Piscicelli, seu prometido noivo. E a família Piscicelli era ainda a mais poderosa de São Paulo: o fim da República Velha não bulira com os alicerces do seu empório; e os novos tempos, com Getúlio Vargas, anunciavam um ciclo de sucessos empresariais. O casamento, se não era movido pela conveniência, não se podia dizer que a prejudicasse. O mal é que João Pequeno tinha visto Catarina, por instantes, doze anos antes, em Lamego, na casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal, e jurara não mais esquecê-la durante o resto da vida.
quinta-feira, junho 26, 2008
16.
O tempo passou a correr. É quase sempre assim quando uma imagem antiga bruscamente nos é devolvida no alarme da sua irremediável ausência. A caminho do Brasil, a meio do mar oceano, sob as nuvens movendo-se ou entre as vagas erguidas pelo vento, João Pequeno foi deixando que a memória do passado se diluísse como a água que temos nas mãos em concha e vemos escorrer por entre os dedos. Ao chegar ao porto de Santos, ao respirar com dificuldade nessa tarde distante de calor insuportável por entre a turba de homens e mulheres arrastando malas vagarosas, João compreendeu que só o futuro existia; que um mundo novo, admirável, se abria diante de si; que o passado não era mais que uma abstracção sem densidade nem contornos. O padrinho haveria de morrer na tristeza desse silêncio; o pai haveria de perder o rumo e passar os dias à procura de um sinal que nem a camioneta da carreira nem o posto dos correios acabaram por lhe trazer; Serapião Afonso, primeiro fechado na cadeia civil, depois fechado em si mesmo no labirinto do ódio, deu-o como morto; a Vila esqueceu-o; os anos passaram; longe, fora do mundo que vivia, sucederam-se os dias de vento, a neve e o sincelo, a poeira levantada dos caminhos num fim de tarde de Verão. Só o futuro importava. E no entanto, imprevistamente, quase doze anos depois de chegar ao porto de Santos, algumas imagens antigas foram-lhe devolvidas no alarme da sua irremediável ausência: uma faca de cortar o pão; uma mesa de castanho com uma toalha de linho em dia festivo; um cântaro com água; um negrilho erguendo-se na encosta a caminho do Voluntário. O tempo, entretanto, passara a correr. Ou talvez não: não tão depressa que não deixasse a água circular, sucessiva, por debaixo das pontes.
O tempo passou a correr. É quase sempre assim quando uma imagem antiga bruscamente nos é devolvida no alarme da sua irremediável ausência. A caminho do Brasil, a meio do mar oceano, sob as nuvens movendo-se ou entre as vagas erguidas pelo vento, João Pequeno foi deixando que a memória do passado se diluísse como a água que temos nas mãos em concha e vemos escorrer por entre os dedos. Ao chegar ao porto de Santos, ao respirar com dificuldade nessa tarde distante de calor insuportável por entre a turba de homens e mulheres arrastando malas vagarosas, João compreendeu que só o futuro existia; que um mundo novo, admirável, se abria diante de si; que o passado não era mais que uma abstracção sem densidade nem contornos. O padrinho haveria de morrer na tristeza desse silêncio; o pai haveria de perder o rumo e passar os dias à procura de um sinal que nem a camioneta da carreira nem o posto dos correios acabaram por lhe trazer; Serapião Afonso, primeiro fechado na cadeia civil, depois fechado em si mesmo no labirinto do ódio, deu-o como morto; a Vila esqueceu-o; os anos passaram; longe, fora do mundo que vivia, sucederam-se os dias de vento, a neve e o sincelo, a poeira levantada dos caminhos num fim de tarde de Verão. Só o futuro importava. E no entanto, imprevistamente, quase doze anos depois de chegar ao porto de Santos, algumas imagens antigas foram-lhe devolvidas no alarme da sua irremediável ausência: uma faca de cortar o pão; uma mesa de castanho com uma toalha de linho em dia festivo; um cântaro com água; um negrilho erguendo-se na encosta a caminho do Voluntário. O tempo, entretanto, passara a correr. Ou talvez não: não tão depressa que não deixasse a água circular, sucessiva, por debaixo das pontes.
domingo, junho 15, 2008
15.
O escuro da taberna contrastava com o calor insuportável; um odor a óleo e a fermentação parecia ficar no ar em camadas espessas. João gostava de misturar-se a esta gente que trazia em si, a um tempo, as marcas da ruína e da exaltação; os sonhos ainda agarrados ao corpo mesmo quando a cinza definitivamente os trespassara. E então, numa noite de Outubro de mil novecentos e vinte e um, ouviu alguém a falar de um lugar onde os rios eram tão azuis como nos mapas das escolas; e os freixos desenhavam nas suas margens uma linha sinuosa de sombra iluminada por dentro. Não o reconheceu logo: Damásio Martins tinha envelhecido muito. E João Pequeno ficou por algum tempo interdito: Carminha, D. Carmo, recebia na Vila, todos os meses, uma renda da suposta árvore das patacas que lhe permitia comprar vestidos de Lisboa no Comércio Central; com o que lhe sobrava das remessas, Damásio Martins teria o suficiente para remendar a roupa, beber copos de cachaça e sonhar com uma casa nas margens do Terva, na presa das Tílias, entre a encosta de vidoeiros e o lameiro das águas sesserigas.
O escuro da taberna contrastava com o calor insuportável; um odor a óleo e a fermentação parecia ficar no ar em camadas espessas. João gostava de misturar-se a esta gente que trazia em si, a um tempo, as marcas da ruína e da exaltação; os sonhos ainda agarrados ao corpo mesmo quando a cinza definitivamente os trespassara. E então, numa noite de Outubro de mil novecentos e vinte e um, ouviu alguém a falar de um lugar onde os rios eram tão azuis como nos mapas das escolas; e os freixos desenhavam nas suas margens uma linha sinuosa de sombra iluminada por dentro. Não o reconheceu logo: Damásio Martins tinha envelhecido muito. E João Pequeno ficou por algum tempo interdito: Carminha, D. Carmo, recebia na Vila, todos os meses, uma renda da suposta árvore das patacas que lhe permitia comprar vestidos de Lisboa no Comércio Central; com o que lhe sobrava das remessas, Damásio Martins teria o suficiente para remendar a roupa, beber copos de cachaça e sonhar com uma casa nas margens do Terva, na presa das Tílias, entre a encosta de vidoeiros e o lameiro das águas sesserigas.
14.
São Paulo era uma cidade de contrastes. A guerra trouxe a riqueza e o progresso; e, como sempre que a riqueza cresce, a miséria foi ocupando espaços e erguendo muros. João Pequeno vivia a intensidade das contradições do seu tempo. Perdia-se em tabernas escusas onde os operários fabris adormeciam nas mesas a beber cachaça e a contar as sobras de salários miseráveis; frequentava os salões de dança e assistia às corridas de automóveis; fazia amigos nas periferias onde a gripe espanhola dizimara crianças e velhos; passeava nas alamedas do Palácio das Indústrias ou quedava-se, fascinado, a ver partidas de futebol ou exibições de voo de aeroplanos coloridos. Entretanto, dedicava-se a fundo aos negócios e subia na hierarquia da empresa de importação de José Ribeiro da Conceição. O sucesso acompanhava de perto a sua dedicação, a sua entrega, a sua inteligência, os seus dotes inesperados de liderança. Depressa deixa a empresa de importação e, dividido entre os escritórios de Santos e S. Paulo, José Ribeiro entrega-lhe as responsabilidades de gestão da Companhia de Transportes Luzitana. Em pouco tempo a Companhia lidera o sector da navegação; e João Pequeno viaja nos vapores que cruzam os mares, que ligam o Norte do Brasil a Buenos Aires, as penínsulas e os continentes do vasto e admirável mundo.
São Paulo era uma cidade de contrastes. A guerra trouxe a riqueza e o progresso; e, como sempre que a riqueza cresce, a miséria foi ocupando espaços e erguendo muros. João Pequeno vivia a intensidade das contradições do seu tempo. Perdia-se em tabernas escusas onde os operários fabris adormeciam nas mesas a beber cachaça e a contar as sobras de salários miseráveis; frequentava os salões de dança e assistia às corridas de automóveis; fazia amigos nas periferias onde a gripe espanhola dizimara crianças e velhos; passeava nas alamedas do Palácio das Indústrias ou quedava-se, fascinado, a ver partidas de futebol ou exibições de voo de aeroplanos coloridos. Entretanto, dedicava-se a fundo aos negócios e subia na hierarquia da empresa de importação de José Ribeiro da Conceição. O sucesso acompanhava de perto a sua dedicação, a sua entrega, a sua inteligência, os seus dotes inesperados de liderança. Depressa deixa a empresa de importação e, dividido entre os escritórios de Santos e S. Paulo, José Ribeiro entrega-lhe as responsabilidades de gestão da Companhia de Transportes Luzitana. Em pouco tempo a Companhia lidera o sector da navegação; e João Pequeno viaja nos vapores que cruzam os mares, que ligam o Norte do Brasil a Buenos Aires, as penínsulas e os continentes do vasto e admirável mundo.
13.
Algumas leituras davam-lhe a dimensão das cidades longínquas e dos continentes que se erguiam em plataformas sobre o mar e se perdiam na distância das florestas e dos imensos rios. Mas o mundo de João Pequeno não passara nunca as fronteiras da bacia hidrográfica do Terva; tudo o mais, além das cumeadas da Seixa, revertia de uma irrealidade feita de sonho e abstracção. E o mundo, no entanto, é vasto e admirável: com a água dos mares oceanos, as cordilheiras e os seus declives, as ilhas e as penínsulas; com as montanhas e os rios, a chuva e o vento; com a tempestade e o remanso, as manhãs de sincelo ou os fins de tarde iluminados por um lume vagaroso; com a rede infinita dos seus caminhos e veredas, os bosques e as árvores das avenidas, as casas, as pontes suspensas entre duas margens, as colinas, os palácios, as arcadas das praças, os navios, as estrelas, as mulheres, as nuvens, as marés, o crepúsculo. João Pequeno vivia num vórtice; um mundo novo, admirável, maior que o destino dos homens, abria-se diante de si. E era como se esse mundo admirável, o burburinho dos automóveis e das fábricas, os edifícios e os palácios, as avenidas e os jardins, o transportassem a uma dimensão de milagre.
Algumas leituras davam-lhe a dimensão das cidades longínquas e dos continentes que se erguiam em plataformas sobre o mar e se perdiam na distância das florestas e dos imensos rios. Mas o mundo de João Pequeno não passara nunca as fronteiras da bacia hidrográfica do Terva; tudo o mais, além das cumeadas da Seixa, revertia de uma irrealidade feita de sonho e abstracção. E o mundo, no entanto, é vasto e admirável: com a água dos mares oceanos, as cordilheiras e os seus declives, as ilhas e as penínsulas; com as montanhas e os rios, a chuva e o vento; com a tempestade e o remanso, as manhãs de sincelo ou os fins de tarde iluminados por um lume vagaroso; com a rede infinita dos seus caminhos e veredas, os bosques e as árvores das avenidas, as casas, as pontes suspensas entre duas margens, as colinas, os palácios, as arcadas das praças, os navios, as estrelas, as mulheres, as nuvens, as marés, o crepúsculo. João Pequeno vivia num vórtice; um mundo novo, admirável, maior que o destino dos homens, abria-se diante de si. E era como se esse mundo admirável, o burburinho dos automóveis e das fábricas, os edifícios e os palácios, as avenidas e os jardins, o transportassem a uma dimensão de milagre.
sexta-feira, junho 06, 2008
12.
João ouve o motor, ao longe, do Bugatti, e imagina um tempo em que não haverá tempo; um tempo em que tudo ficará dependente do despotismo do tempo: das suas amarras, das suas teias densas, dos seus elos e dos seus vínculos, das suas cadeias sucessivas. A velocidade, então, marcará o quotidiano; e as opções do quotidiano resultarão da ponderação de variáveis que se sobrepõem, acumulam, uma camada e depois outra, num processo em que a diacronia deixa de fazer sentido; um tempo em que a falta de tempo justificará tudo: a erosão do amor, os intervalos longos na publicação dos capítulos dos folhetins, as ausências, a deserção, o esquecimento. João Pequeno ouve o ruído fascinante do motor de quatro cilindros do Bugatti e imagina um tempo em que o relógio se sobrepõe ao calendário e tudo se vive ao segundo. Até que o automóvel aparece na recta final; acabou de fazer a última curva da pista: azul, tubular, com o motor protegido pela belíssima oval dianteira, com as onduladas curvas laterais a semelhar uma onda, veloz, admirável, deslizando entre o pavimento e uma nuvem, quase em voo, quase suspenso na vertigem de correr assim disparado em direcção ao futuro.
João ouve o motor, ao longe, do Bugatti, e imagina um tempo em que não haverá tempo; um tempo em que tudo ficará dependente do despotismo do tempo: das suas amarras, das suas teias densas, dos seus elos e dos seus vínculos, das suas cadeias sucessivas. A velocidade, então, marcará o quotidiano; e as opções do quotidiano resultarão da ponderação de variáveis que se sobrepõem, acumulam, uma camada e depois outra, num processo em que a diacronia deixa de fazer sentido; um tempo em que a falta de tempo justificará tudo: a erosão do amor, os intervalos longos na publicação dos capítulos dos folhetins, as ausências, a deserção, o esquecimento. João Pequeno ouve o ruído fascinante do motor de quatro cilindros do Bugatti e imagina um tempo em que o relógio se sobrepõe ao calendário e tudo se vive ao segundo. Até que o automóvel aparece na recta final; acabou de fazer a última curva da pista: azul, tubular, com o motor protegido pela belíssima oval dianteira, com as onduladas curvas laterais a semelhar uma onda, veloz, admirável, deslizando entre o pavimento e uma nuvem, quase em voo, quase suspenso na vertigem de correr assim disparado em direcção ao futuro.
quinta-feira, maio 22, 2008
11.
João Pequeno dormiu durante quase todo o dia. Acordou e pensou por instantes que estaria fechado numa cela da cadeia civil. Depois olhou na direcção da porta e viu a figura do padrinho recortada contra a luminosidade baça do corredor. Tudo se passou como num sonho em que as imagens se sucedem e sobrepõem até à incoerência cronológica. Quase doze anos depois, quando regressar de novo e olhar o rio, a insólita paisagem de pinheiros elevando-se nas colinas do outro lado do vale, os mesmos caminhos de terra batida, o casario de granito a descobrir-se por entre a neblina do fim de tarde de Fevereiro, João Pequeno terá a sensação estranha da impossibilidade da narrativa; como se os eventos desses dias de Julho de mil novecentos e dezanove tivessem ocorrido fora da sua vida; como se não houvesse coincidência temporal entre a sua vida e o tempo concreto; como se um fluido misturasse as suas memórias e as remetesse a um universo intangível: a figura do padrinho recortada à porta do quarto contra a luminosidade baça do corredor; o rumor dos pequenos fios de água descendo os alcantilados da serra; o odor das flores da urze pisadas pelas patas dos cavalos; a breve luz do quarto minguante a marcar no horizonte as cumeadas onduladas; os descampados onde faziam breves paragens para logo depois atravessarem a galope com o vento no rosto; uma escusa estalagem onde comeram e dormiram algumas horas; a casa de José Ribeiro da Conceição, em Lamego, erguendo-se imensa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal; uma mulher que haverá de jurar nunca esquecer durante o resto da vida; a viagem para o Porto; as despedidas; o embarque; e depois o mar oceano, um céu infinito, a tempestade, o calor insuportável, a chegada ao porto de Santos, a turba inverosímil de homens e mulheres a arrastar malas imensas como quem traz do passado todas as amarras de que se pretende libertar.
João Pequeno dormiu durante quase todo o dia. Acordou e pensou por instantes que estaria fechado numa cela da cadeia civil. Depois olhou na direcção da porta e viu a figura do padrinho recortada contra a luminosidade baça do corredor. Tudo se passou como num sonho em que as imagens se sucedem e sobrepõem até à incoerência cronológica. Quase doze anos depois, quando regressar de novo e olhar o rio, a insólita paisagem de pinheiros elevando-se nas colinas do outro lado do vale, os mesmos caminhos de terra batida, o casario de granito a descobrir-se por entre a neblina do fim de tarde de Fevereiro, João Pequeno terá a sensação estranha da impossibilidade da narrativa; como se os eventos desses dias de Julho de mil novecentos e dezanove tivessem ocorrido fora da sua vida; como se não houvesse coincidência temporal entre a sua vida e o tempo concreto; como se um fluido misturasse as suas memórias e as remetesse a um universo intangível: a figura do padrinho recortada à porta do quarto contra a luminosidade baça do corredor; o rumor dos pequenos fios de água descendo os alcantilados da serra; o odor das flores da urze pisadas pelas patas dos cavalos; a breve luz do quarto minguante a marcar no horizonte as cumeadas onduladas; os descampados onde faziam breves paragens para logo depois atravessarem a galope com o vento no rosto; uma escusa estalagem onde comeram e dormiram algumas horas; a casa de José Ribeiro da Conceição, em Lamego, erguendo-se imensa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal; uma mulher que haverá de jurar nunca esquecer durante o resto da vida; a viagem para o Porto; as despedidas; o embarque; e depois o mar oceano, um céu infinito, a tempestade, o calor insuportável, a chegada ao porto de Santos, a turba inverosímil de homens e mulheres a arrastar malas imensas como quem traz do passado todas as amarras de que se pretende libertar.
quarta-feira, maio 21, 2008
10.
O pequeno rumor da água ouvia-se na noite quente de Julho erguendo-se devagar em lâmina fina sobre o muro da presa do Noro. João Pequeno escondeu-se por algum tempo até acreditar que nenhum outro barulho se misturava ao cicio da corrente vagarosa. Tinha bebido muito; correra por entre os arames das vinhas e as árvores do pomar de macieiras; sentia o coração a bater como se o corpo se tivesse rendido ao domínio da eluviação das águas subterrâneas. E depois subiu ao Padrão, passou a Colina do Engenheiro, contornou o alto do Voluntário pelo caminho de saibro, atravessou o rio nas poldras, chegou ao Meio da Aldeia, abriu a cancela do pátio da casa junto à igreja, subiu a escaleira que dá ao terraço, bateu com os nós dos dedos nos vidros da janela. O padrinho de João Pequeno acordou; levantou-se; abriu a porta; olhou o afilhado contra a luz do quarto minguante poisada nas encostas do outro lado do vale; e disse-lhe que descansasse; que dormisse; que alguma solução haveria de topar-se por entre as desordens do mundo.
O pequeno rumor da água ouvia-se na noite quente de Julho erguendo-se devagar em lâmina fina sobre o muro da presa do Noro. João Pequeno escondeu-se por algum tempo até acreditar que nenhum outro barulho se misturava ao cicio da corrente vagarosa. Tinha bebido muito; correra por entre os arames das vinhas e as árvores do pomar de macieiras; sentia o coração a bater como se o corpo se tivesse rendido ao domínio da eluviação das águas subterrâneas. E depois subiu ao Padrão, passou a Colina do Engenheiro, contornou o alto do Voluntário pelo caminho de saibro, atravessou o rio nas poldras, chegou ao Meio da Aldeia, abriu a cancela do pátio da casa junto à igreja, subiu a escaleira que dá ao terraço, bateu com os nós dos dedos nos vidros da janela. O padrinho de João Pequeno acordou; levantou-se; abriu a porta; olhou o afilhado contra a luz do quarto minguante poisada nas encostas do outro lado do vale; e disse-lhe que descansasse; que dormisse; que alguma solução haveria de topar-se por entre as desordens do mundo.
segunda-feira, maio 19, 2008
9.
O doutor Magalhães sentia-se cansado do mundo; e cansado da avidez mercenária do amigo Américo Matias. A guerra veio ampliar desacertos, injustiças, diferenças: o pão e o açúcar eram bens escassos; e não faltavam os biscoitos ingleses e o champanhe. Américo, em silêncio, no escuro, mexia os cordelinhos da política local e enriquecia a olhos relapsos; o presidente da Comissão Administrativa, tocado irreversivelmente pelo tédio e pela indiferença, deixava seguir as modas. No Echos da Vila, apoiado e motivado pelo doutor Granjo, João Pequeno trazia à superfície a dimensão do embuste; da falcatrua. Arnaldo Adão, o Lindinho, passava-lhe em segredo a cópia dos delitos. João pôs em letra de forma os pontos nos is; demonstrou a condescendente e abjecta corrupção do quotidiano. E, claro, pôs-se a jeito. Foi o que foi. Era preciso arranjar um bode expiatório e limpar de passagem os vestígios dos crimes. O dia vinha a calhar: as confusões na feira com o Vicente de Curros; a tarde de rambóia na taberna da Emília. Armaram-lhe a estrangeirinha. E João Pequeno, de súbito, compreendeu que um laço lhe apertava os pulsos com força; e que o laço haveria de ser puxado em cada um dos seus fios. Por isso, nessa noite de Julho de mil novecentos e dezanove, estando a ser ouvido no posto da Guarda e sentindo os fios a serem puxados, correu na direcção da janela e saltou e correu por entre os troncos das árvores do pomar de macieiras e os arames das vinhas. Nunca haveria de esquecer o silvo metálico dos dois tiros disparados no escuro daquela noite quente e imensa e erguendo-se límpida na abóbada do vale.
O doutor Magalhães sentia-se cansado do mundo; e cansado da avidez mercenária do amigo Américo Matias. A guerra veio ampliar desacertos, injustiças, diferenças: o pão e o açúcar eram bens escassos; e não faltavam os biscoitos ingleses e o champanhe. Américo, em silêncio, no escuro, mexia os cordelinhos da política local e enriquecia a olhos relapsos; o presidente da Comissão Administrativa, tocado irreversivelmente pelo tédio e pela indiferença, deixava seguir as modas. No Echos da Vila, apoiado e motivado pelo doutor Granjo, João Pequeno trazia à superfície a dimensão do embuste; da falcatrua. Arnaldo Adão, o Lindinho, passava-lhe em segredo a cópia dos delitos. João pôs em letra de forma os pontos nos is; demonstrou a condescendente e abjecta corrupção do quotidiano. E, claro, pôs-se a jeito. Foi o que foi. Era preciso arranjar um bode expiatório e limpar de passagem os vestígios dos crimes. O dia vinha a calhar: as confusões na feira com o Vicente de Curros; a tarde de rambóia na taberna da Emília. Armaram-lhe a estrangeirinha. E João Pequeno, de súbito, compreendeu que um laço lhe apertava os pulsos com força; e que o laço haveria de ser puxado em cada um dos seus fios. Por isso, nessa noite de Julho de mil novecentos e dezanove, estando a ser ouvido no posto da Guarda e sentindo os fios a serem puxados, correu na direcção da janela e saltou e correu por entre os troncos das árvores do pomar de macieiras e os arames das vinhas. Nunca haveria de esquecer o silvo metálico dos dois tiros disparados no escuro daquela noite quente e imensa e erguendo-se límpida na abóbada do vale.
sexta-feira, maio 16, 2008
8.
O doutor Magalhães ainda resistiu; que ficava no hotel; que estava de passagem; que não queria ser cúmplice da farsa; que achava deplorável o espectáculo anunciado. Mas acabou por acompanhar o amigo Joaquim Moreira Falcão pelas ruas de Lisboa. Era um dia quente de Junho de mil novecentos e onze e tivera lugar a primeira reunião da Assembleia Nacional Constituinte; o doutor António Granjo, eleito em Maio último, partilhava com Sidónio Pais um lugar de deputado. O cortejo, ao som de filarmónicas, passava pelo Arsenal; ouvia-se A Portuguesa; havia girândolas de foguetes; desfilavam os corpos do exército; distribuíam-se folhetos com a proclamação da República; e o povo, nas ruas, nas janelas das casas, aos milhares, aclamava o desfile. O que acontecera entretanto? A República elege um Presidente de sangue azul (vigésimo quinto neto de um duque de França, neto da segunda neta de D. Fernando de Castela e com ascendência em Hugo Capeto, conde de Paris e de Orleães); o país é arrastado para a guerra e os seus jovens são arrastados para a morte nas margens de um rio perdido na Flandres; António Granjo escreve versos e conspira contra Sidónio Pais; a desordem cresce nas ruas e nas instituições; Sidónio Pais é assassinado; alguns heróis, como Paiva Couceiro, tentam em vão repor a velha ordem e restaurar a Pátria; e hoje, nesta tarde fria de princípios de mil novecentos e dezanove, António Granjo entra com João Pequeno na Pensão Americana, puxando as golas da gabardine inglesa comprada no Pires d' Almeida, cheio ainda da glória de ter participado em Vila Real no confronto com as tropas do major Alberto Margaride e feliz por poder anunciar que a Constituição de mil novecentos e onze regressou enfim à sua plena vigência.
O doutor Magalhães ainda resistiu; que ficava no hotel; que estava de passagem; que não queria ser cúmplice da farsa; que achava deplorável o espectáculo anunciado. Mas acabou por acompanhar o amigo Joaquim Moreira Falcão pelas ruas de Lisboa. Era um dia quente de Junho de mil novecentos e onze e tivera lugar a primeira reunião da Assembleia Nacional Constituinte; o doutor António Granjo, eleito em Maio último, partilhava com Sidónio Pais um lugar de deputado. O cortejo, ao som de filarmónicas, passava pelo Arsenal; ouvia-se A Portuguesa; havia girândolas de foguetes; desfilavam os corpos do exército; distribuíam-se folhetos com a proclamação da República; e o povo, nas ruas, nas janelas das casas, aos milhares, aclamava o desfile. O que acontecera entretanto? A República elege um Presidente de sangue azul (vigésimo quinto neto de um duque de França, neto da segunda neta de D. Fernando de Castela e com ascendência em Hugo Capeto, conde de Paris e de Orleães); o país é arrastado para a guerra e os seus jovens são arrastados para a morte nas margens de um rio perdido na Flandres; António Granjo escreve versos e conspira contra Sidónio Pais; a desordem cresce nas ruas e nas instituições; Sidónio Pais é assassinado; alguns heróis, como Paiva Couceiro, tentam em vão repor a velha ordem e restaurar a Pátria; e hoje, nesta tarde fria de princípios de mil novecentos e dezanove, António Granjo entra com João Pequeno na Pensão Americana, puxando as golas da gabardine inglesa comprada no Pires d' Almeida, cheio ainda da glória de ter participado em Vila Real no confronto com as tropas do major Alberto Margaride e feliz por poder anunciar que a Constituição de mil novecentos e onze regressou enfim à sua plena vigência.
quinta-feira, maio 15, 2008
7.
A doença chegava-lhe. O doutor Magalhães vinha à varanda, em havendo sol, sentava-se na cadeirinha de lona, arregaçava as mangas da camisa em dobras simétricas, puxava as calças acima dos joelhos, enfiava os pés no enxofre da água das caldas santas. Pouco o preocupavam já monárquicos ou republicanos, democratas ou evolucionistas; pouco o preocupava o rodar de um mundo que parecia ter perdido os seus eixos para sempre; pouco o preocupava o ruir das paredes de uma velha ordem que se resumia em manter as coisas antigas nos seus devidos lugares. Por isso, por esses primeiros dias do ano de mil novecentos e dezanove, quando o doutor António Granjo, mais uma vez, entrou na Pensão Americana para falar de um mundo novo, sorriu apenas entre a melancolia e o cansaço. E, estirando-se na cadeirinha de lona, pensou nas ironias e nos desacertos do mundo.
A doença chegava-lhe. O doutor Magalhães vinha à varanda, em havendo sol, sentava-se na cadeirinha de lona, arregaçava as mangas da camisa em dobras simétricas, puxava as calças acima dos joelhos, enfiava os pés no enxofre da água das caldas santas. Pouco o preocupavam já monárquicos ou republicanos, democratas ou evolucionistas; pouco o preocupava o rodar de um mundo que parecia ter perdido os seus eixos para sempre; pouco o preocupava o ruir das paredes de uma velha ordem que se resumia em manter as coisas antigas nos seus devidos lugares. Por isso, por esses primeiros dias do ano de mil novecentos e dezanove, quando o doutor António Granjo, mais uma vez, entrou na Pensão Americana para falar de um mundo novo, sorriu apenas entre a melancolia e o cansaço. E, estirando-se na cadeirinha de lona, pensou nas ironias e nos desacertos do mundo.
6.
«Não há crimes de opinião; o conceito é absurdo», dizia o advogado. João Pequeno, extasiado, ouvia-o falar sobre um tempo em que não seria mais aceitável impor regras ou limitações aos discursos. «A liberdade começa pelo direito de exprimir opiniões em público sem restrições de ordem moral ou política». O doutor Granjo vinha à Vila, deixava o Tribunal e rumava à Pensão Americana a beber um palhete do Crasto. Dona Fernanda, em vendo-o chegar, fazia um sinal e Luísa descia à adega, cortava as fatias de presunto e desenterrava uma garrafa do chão de terra; trazia-a cuidadosamente para que não bulisse; para que o pé não levantasse do fundo; para que o cristal do vinho, olhado à transparência, não reflectisse senão a luz e a água das encostas viradas ao nascente. O doutor Magalhães, da varanda, via-o a atravessar o largo na companhia de João Pequeno. E o que sentia era apenas cansaço; tédio; melancolia.
«Não há crimes de opinião; o conceito é absurdo», dizia o advogado. João Pequeno, extasiado, ouvia-o falar sobre um tempo em que não seria mais aceitável impor regras ou limitações aos discursos. «A liberdade começa pelo direito de exprimir opiniões em público sem restrições de ordem moral ou política». O doutor Granjo vinha à Vila, deixava o Tribunal e rumava à Pensão Americana a beber um palhete do Crasto. Dona Fernanda, em vendo-o chegar, fazia um sinal e Luísa descia à adega, cortava as fatias de presunto e desenterrava uma garrafa do chão de terra; trazia-a cuidadosamente para que não bulisse; para que o pé não levantasse do fundo; para que o cristal do vinho, olhado à transparência, não reflectisse senão a luz e a água das encostas viradas ao nascente. O doutor Magalhães, da varanda, via-o a atravessar o largo na companhia de João Pequeno. E o que sentia era apenas cansaço; tédio; melancolia.
quinta-feira, maio 08, 2008
5.
João Pequeno não haveria de esquecer nunca a desolação desse lugar varrido pela tormenta. Era uma criança. Mas a imagem do desastre ficou gravada no imperscrutável lugar da memória que guarda os momentos e os lugares da infância de que nunca nos livramos durante uma vida: um cântaro com água, o arame das vinhas, os pátios, um caminho de terra subindo às colinas por entre bosques de bétulas, a aparição de um corpo nu, a página de um livro, as folhas dos negrilhos, a água das presas, um relâmpago no mês de Novembro iluminando a noite para sempre. Às vezes damos connosco a dizer «é incrível como o tempo passa». O que nos surpreende não é o facto de estarmos mais velhos; não é a distância a que ficaram as coisas antigas. O que nos surpreende é a inexistência de uma fita com marcas regulares ou de um pêndulo a definir por igual a duração de cada um dos dias, a duração de cada um dos anos das nossas vidas. É como se o tempo nos fosse devolvido pela reverberação de sentimentos extremos; é como se a sua espiral tivesse descontinuidades ou sobreposições; é como se a memória do que vivemos não guardasse senão alguns momentos e algumas imagens: e o resto fosse o desperdício de estarmos vivos. Numa madrugada de Julho de mil novecentos e dezanove, ainda escuro, João Pequeno regressou à Aldeia; atravessou o rio nas poldras, subiu a escaleira que dá para o terraço de uma casa junto à igreja e bateu com os nós dos dedos nos vidros da janela. Que memória da sua vida tem João Pequeno nesse preciso instante? Algumas imagens da infância; o ano dos desastres, o calor, a chuva, o vento, um negrume feito de palhas e poeiras; a ida para a Vila e a nova casa no Alto da Ribeira; um bosque; os textos escritos no quinzenário local contra as trapalhadas financeiras da Comissão Administrativa; uma noite clandestina num quarto da Pensão Americana; alguns momentos em que a amizade e o mundo pareciam sobrepor-se; e os dois tiros nervosos disparados no escuro no momento em que fugira do posto da Guarda por entre os arames das vinhas e as árvores do pomar de macieiras.
João Pequeno não haveria de esquecer nunca a desolação desse lugar varrido pela tormenta. Era uma criança. Mas a imagem do desastre ficou gravada no imperscrutável lugar da memória que guarda os momentos e os lugares da infância de que nunca nos livramos durante uma vida: um cântaro com água, o arame das vinhas, os pátios, um caminho de terra subindo às colinas por entre bosques de bétulas, a aparição de um corpo nu, a página de um livro, as folhas dos negrilhos, a água das presas, um relâmpago no mês de Novembro iluminando a noite para sempre. Às vezes damos connosco a dizer «é incrível como o tempo passa». O que nos surpreende não é o facto de estarmos mais velhos; não é a distância a que ficaram as coisas antigas. O que nos surpreende é a inexistência de uma fita com marcas regulares ou de um pêndulo a definir por igual a duração de cada um dos dias, a duração de cada um dos anos das nossas vidas. É como se o tempo nos fosse devolvido pela reverberação de sentimentos extremos; é como se a sua espiral tivesse descontinuidades ou sobreposições; é como se a memória do que vivemos não guardasse senão alguns momentos e algumas imagens: e o resto fosse o desperdício de estarmos vivos. Numa madrugada de Julho de mil novecentos e dezanove, ainda escuro, João Pequeno regressou à Aldeia; atravessou o rio nas poldras, subiu a escaleira que dá para o terraço de uma casa junto à igreja e bateu com os nós dos dedos nos vidros da janela. Que memória da sua vida tem João Pequeno nesse preciso instante? Algumas imagens da infância; o ano dos desastres, o calor, a chuva, o vento, um negrume feito de palhas e poeiras; a ida para a Vila e a nova casa no Alto da Ribeira; um bosque; os textos escritos no quinzenário local contra as trapalhadas financeiras da Comissão Administrativa; uma noite clandestina num quarto da Pensão Americana; alguns momentos em que a amizade e o mundo pareciam sobrepor-se; e os dois tiros nervosos disparados no escuro no momento em que fugira do posto da Guarda por entre os arames das vinhas e as árvores do pomar de macieiras.
terça-feira, maio 06, 2008
4.
Não havia memória de terem assim secado as nascentes. Os dias de calor sucediam-se; um calor insuportável que diluía os contornos dos objectos e que parecia erguer-se em espadana sobre os arbustos e o chão ressequido onde as cobras de escada largavam as suas peles claras da muda e desenhavam uma linha ondulada no saibro. Os finais de Agosto deveriam já ter trazido as brisas do crepúsculo e o frio nocturno; mas quase não se podia sair à rua; dormia-se com as janelas abertas. O braseiro durou todo o mês de Setembro e entrou em Outubro; até o rio deixar de correr e o leito do estio se reduzir a minúsculos charcos verdes de água e limos no fundo das presas. Não se regaram os milhos; secaram as pastagens das águas de lima; acabou-se a provisão de forragens; e os bagos das uvas crestaram numa mistura de lume e açúcar. E foi então que um vento desusado se anunciou primeiro nas copas das árvores da encosta e depois atravessou as ruas da Aldeia e ergueu no ar um negrume feito de palhas e poeiras; semanas a fio. E então em Dezembro, nos primeiros dias de Dezembro, o céu ficou carregado de nuvens; nuvens densas, escuras, que vinham do nascente, sendo certo que as nuvens do Inverno nunca chegavam pela banda do nascente. E ficaram assim; suspensas como uma ameaça de tormenta e um castigo. Até que começou a chover; na noite da passagem do ano; e choveu durante três meses. No dia primeiro de Março, quando o céu finalmente se abriu de novo sem uma nuvem, a Aldeia estava transformada num deserto.
Não havia memória de terem assim secado as nascentes. Os dias de calor sucediam-se; um calor insuportável que diluía os contornos dos objectos e que parecia erguer-se em espadana sobre os arbustos e o chão ressequido onde as cobras de escada largavam as suas peles claras da muda e desenhavam uma linha ondulada no saibro. Os finais de Agosto deveriam já ter trazido as brisas do crepúsculo e o frio nocturno; mas quase não se podia sair à rua; dormia-se com as janelas abertas. O braseiro durou todo o mês de Setembro e entrou em Outubro; até o rio deixar de correr e o leito do estio se reduzir a minúsculos charcos verdes de água e limos no fundo das presas. Não se regaram os milhos; secaram as pastagens das águas de lima; acabou-se a provisão de forragens; e os bagos das uvas crestaram numa mistura de lume e açúcar. E foi então que um vento desusado se anunciou primeiro nas copas das árvores da encosta e depois atravessou as ruas da Aldeia e ergueu no ar um negrume feito de palhas e poeiras; semanas a fio. E então em Dezembro, nos primeiros dias de Dezembro, o céu ficou carregado de nuvens; nuvens densas, escuras, que vinham do nascente, sendo certo que as nuvens do Inverno nunca chegavam pela banda do nascente. E ficaram assim; suspensas como uma ameaça de tormenta e um castigo. Até que começou a chover; na noite da passagem do ano; e choveu durante três meses. No dia primeiro de Março, quando o céu finalmente se abriu de novo sem uma nuvem, a Aldeia estava transformada num deserto.
sexta-feira, maio 02, 2008
3.
Leonor nasceu na casa a jusante da Ponte de Arame no dia seis de Junho de mil oitocentos e setenta. A casa tinha sido erguida alguns anos antes; oito anos mais tarde ficaria entregue ao abandono; até que foi arranjada para guardar um segredo e para que Leonor desse um filho à luz e ao mundo. A memória permanece dentro das casas durante algum tempo; num baixo-relevo dos caibros esculpido a navalha, nas pedras das lareiras, nos fornos de lenha, nos alpendres, nas prensas dos lagares, nos móveis velhos, nos beirados derruídos, num traço indelével no pavimento, nas manchas da parede de cal onde se penduraram retratos dos dias felizes de Verão. Mas depois vem a ruína e a tempestade; a chuva e o gelo, a luz, o vento, a sombra. Na casa a jusante da Ponte de Arame, quando a família de Américo Fontes a deixou e rumou à Vila à procura de um novo destino, a hera e a vinha-virgem subiram as empenas e as colunas de pedra dos pátios, os conchelos invadiram os muros, as giestas e os silvedos acompanharam as bermas dos caminhos e viam-se à distância, os dentes-de-leão misturaram-se à dedaleira, às moitas de parietária, à avoadinha, às urtigas, à serradela, ao trevo, aos malmequeres. A casa ficou assim, vazia, abandonada até esse dia de meados de Maio de mil novecentos e sessenta e sete em que o pai de Aline chegou e cortou as ervas, arroteou o pequeno vale confinante, despedregou a encosta, semeou centeio e um milho de regadio, fez uma horta, reconstruiu paredes, construiu anexos. Mas isso foi muito tempo depois. No dia seis de Junho de mil oitocentos e noventa e um, nessa manhã em que Leonor morreu com um sorriso enigmático nos lábios, sem que se lhe ouvisse um lamento, o soalho estava encerado e havia cortinas nas janelas e lírios numa jarra alta; nessa mesma manhã em que João, recém-nascido, foi levado aos cuidados de Lúcia e Manuel Pequeno, à casa do largo do meio da Aldeia contígua ao tanque das águas de nascente onde se enchiam os cântaros.
Leonor nasceu na casa a jusante da Ponte de Arame no dia seis de Junho de mil oitocentos e setenta. A casa tinha sido erguida alguns anos antes; oito anos mais tarde ficaria entregue ao abandono; até que foi arranjada para guardar um segredo e para que Leonor desse um filho à luz e ao mundo. A memória permanece dentro das casas durante algum tempo; num baixo-relevo dos caibros esculpido a navalha, nas pedras das lareiras, nos fornos de lenha, nos alpendres, nas prensas dos lagares, nos móveis velhos, nos beirados derruídos, num traço indelével no pavimento, nas manchas da parede de cal onde se penduraram retratos dos dias felizes de Verão. Mas depois vem a ruína e a tempestade; a chuva e o gelo, a luz, o vento, a sombra. Na casa a jusante da Ponte de Arame, quando a família de Américo Fontes a deixou e rumou à Vila à procura de um novo destino, a hera e a vinha-virgem subiram as empenas e as colunas de pedra dos pátios, os conchelos invadiram os muros, as giestas e os silvedos acompanharam as bermas dos caminhos e viam-se à distância, os dentes-de-leão misturaram-se à dedaleira, às moitas de parietária, à avoadinha, às urtigas, à serradela, ao trevo, aos malmequeres. A casa ficou assim, vazia, abandonada até esse dia de meados de Maio de mil novecentos e sessenta e sete em que o pai de Aline chegou e cortou as ervas, arroteou o pequeno vale confinante, despedregou a encosta, semeou centeio e um milho de regadio, fez uma horta, reconstruiu paredes, construiu anexos. Mas isso foi muito tempo depois. No dia seis de Junho de mil oitocentos e noventa e um, nessa manhã em que Leonor morreu com um sorriso enigmático nos lábios, sem que se lhe ouvisse um lamento, o soalho estava encerado e havia cortinas nas janelas e lírios numa jarra alta; nessa mesma manhã em que João, recém-nascido, foi levado aos cuidados de Lúcia e Manuel Pequeno, à casa do largo do meio da Aldeia contígua ao tanque das águas de nascente onde se enchiam os cântaros.
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