segunda-feira, junho 30, 2008

17.

Quando chegou ao porto de Santos, numa tarde estranhamente quente de princípios de Agosto de mil novecentos e dezanove, João Pequeno não fez a tradicional via-sacra dos imigrantes: não haveria de ficar na hospedaria do bairro do Brás entre o odor a azedo e a algaraviada ruidosa de espanhol e italiano; não haveria de sujeitar-se ao desconforto dos quartos minúsculos e apinhados de gente desconhecida; não haveria de sujeitar-se ao ágio que a miséria parece atrair como uma lâmpada acesa por entre o escuro da noite; não haveria de rumar às fazendas ou às fábricas e procurar depois, aos poucos, libertar-se de uma espécie de sevícia que tirava aos homens e às mulheres os fios de sonho e a dignidade que traziam no convés dos navios, pouco tempo antes, olhando a linha do horizonte. João Pequeno chegou ao porto de Santos e a família de José Ribeiro da Conceição esperava-o como se a amizade do padrinho com o velho empresário de Lamego revertesse de um juramento de sangue que assim, neste cuidado, acabava por cumprir-se. João, alguns dias depois, trabalhava já nos escritórios da empresa de importação; e, passado pouco mais que um ano, era o responsável pela gestão da Companhia de Transportes Luzitana. São Paulo, nos anos vinte, é uma metrópole com mais de meio milhão de habitantes; a vida oscila entre a crise do café e a expansão da indústria, a miséria e a riqueza, a escassez e as crescentes oportunidades de negócio. A Companhia Luzitana estava no prato certo da balança; não apenas lidera o sector dos transportes: é uma referência de sucesso empresarial. João Pequeno conhece a glória, vive num palácio da rua Barão de Itapetininga, frequenta o Teatro Municipal, é desejado pelas mulheres, convive com os artistas do movimento modernista, patrocina a Semana de Arte Moderna. Assim corria, sem graves variações de corrente, a água por debaixo das pontes. Mas essas mesmas águas, em mil novecentos e trinta, pareciam de súbito sobressaltar-se e ameaçar sair das margens. As dificuldades começaram com a crise da bolsa de valores de Nova Iorque, um ano antes; e, de súbito, ganhavam força com a revolta armada que acabava de levar à deposição de Washington Luís. Entretanto, João Pequeno apostou tudo em Júlio Prestes para a presidência da República; Júlio Prestes venceu as eleições; mas o golpe de estado de três de Outubro de mil novecentos e trinta levou-o ao exílio; Getúlio Vargas toma o poder; era o fim da República Velha e um duro golpe para os negócios das empresas da família Ribeiro da Conceição. E foi então, em Janeiro de mil novecentos e trinta e um, que Catarina Ribeiro da Conceição chegou a São Paulo; não era propriamente uma jovem: João Pequeno tinha-a visto em Lamego, quase doze anos antes, na casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal. Se o amor não fosse chamado a estas coisas, o mais certo é que haveriam todos de ficar felizes com a providencial aliança. Catarina, no dia seguinte, seria apresentada a Paolo Piscicelli, seu prometido noivo. E a família Piscicelli era ainda a mais poderosa de São Paulo: o fim da República Velha não bulira com os alicerces do seu empório; e os novos tempos, com Getúlio Vargas, anunciavam um ciclo de sucessos empresariais. O casamento, se não era movido pela conveniência, não se podia dizer que a prejudicasse. O mal é que João Pequeno tinha visto Catarina, por instantes, doze anos antes, em Lamego, na casa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal, e jurara não mais esquecê-la durante o resto da vida.

quinta-feira, junho 26, 2008

16.

O tempo passou a correr. É quase sempre assim quando uma imagem antiga bruscamente nos é devolvida no alarme da sua irremediável ausência. A caminho do Brasil, a meio do mar oceano, sob as nuvens movendo-se ou entre as vagas erguidas pelo vento, João Pequeno foi deixando que a memória do passado se diluísse como a água que temos nas mãos em concha e vemos escorrer por entre os dedos. Ao chegar ao porto de Santos, ao respirar com dificuldade nessa tarde distante de calor insuportável por entre a turba de homens e mulheres arrastando malas vagarosas, João compreendeu que só o futuro existia; que um mundo novo, admirável, se abria diante de si; que o passado não era mais que uma abstracção sem densidade nem contornos. O padrinho haveria de morrer na tristeza desse silêncio; o pai haveria de perder o rumo e passar os dias à procura de um sinal que nem a camioneta da carreira nem o posto dos correios acabaram por lhe trazer; Serapião Afonso, primeiro fechado na cadeia civil, depois fechado em si mesmo no labirinto do ódio, deu-o como morto; a Vila esqueceu-o; os anos passaram; longe, fora do mundo que vivia, sucederam-se os dias de vento, a neve e o sincelo, a poeira levantada dos caminhos num fim de tarde de Verão. Só o futuro importava. E no entanto, imprevistamente, quase doze anos depois de chegar ao porto de Santos, algumas imagens antigas foram-lhe devolvidas no alarme da sua irremediável ausência: uma faca de cortar o pão; uma mesa de castanho com uma toalha de linho em dia festivo; um cântaro com água; um negrilho erguendo-se na encosta a caminho do Voluntário. O tempo, entretanto, passara a correr. Ou talvez não: não tão depressa que não deixasse a água circular, sucessiva, por debaixo das pontes.

domingo, junho 15, 2008

15.

O escuro da taberna contrastava com o calor insuportável; um odor a óleo e a fermentação parecia ficar no ar em camadas espessas. João gostava de misturar-se a esta gente que trazia em si, a um tempo, as marcas da ruína e da exaltação; os sonhos ainda agarrados ao corpo mesmo quando a cinza definitivamente os trespassara. E então, numa noite de Outubro de mil novecentos e vinte e um, ouviu alguém a falar de um lugar onde os rios eram tão azuis como nos mapas das escolas; e os freixos desenhavam nas suas margens uma linha sinuosa de sombra iluminada por dentro. Não o reconheceu logo: Damásio Martins tinha envelhecido muito. E João Pequeno ficou por algum tempo interdito: Carminha, D. Carmo, recebia na Vila, todos os meses, uma renda da suposta árvore das patacas que lhe permitia comprar vestidos de Lisboa no Comércio Central; com o que lhe sobrava das remessas, Damásio Martins teria o suficiente para remendar a roupa, beber copos de cachaça e sonhar com uma casa nas margens do Terva, na presa das Tílias, entre a encosta de vidoeiros e o lameiro das águas sesserigas.
14.

São Paulo era uma cidade de contrastes. A guerra trouxe a riqueza e o progresso; e, como sempre que a riqueza cresce, a miséria foi ocupando espaços e erguendo muros. João Pequeno vivia a intensidade das contradições do seu tempo. Perdia-se em tabernas escusas onde os operários fabris adormeciam nas mesas a beber cachaça e a contar as sobras de salários miseráveis; frequentava os salões de dança e assistia às corridas de automóveis; fazia amigos nas periferias onde a gripe espanhola dizimara crianças e velhos; passeava nas alamedas do Palácio das Indústrias ou quedava-se, fascinado, a ver partidas de futebol ou exibições de voo de aeroplanos coloridos. Entretanto, dedicava-se a fundo aos negócios e subia na hierarquia da empresa de importação de José Ribeiro da Conceição. O sucesso acompanhava de perto a sua dedicação, a sua entrega, a sua inteligência, os seus dotes inesperados de liderança. Depressa deixa a empresa de importação e, dividido entre os escritórios de Santos e S. Paulo, José Ribeiro entrega-lhe as responsabilidades de gestão da Companhia de Transportes Luzitana. Em pouco tempo a Companhia lidera o sector da navegação; e João Pequeno viaja nos vapores que cruzam os mares, que ligam o Norte do Brasil a Buenos Aires, as penínsulas e os continentes do vasto e admirável mundo.
13.

Algumas leituras davam-lhe a dimensão das cidades longínquas e dos continentes que se erguiam em plataformas sobre o mar e se perdiam na distância das florestas e dos imensos rios. Mas o mundo de João Pequeno não passara nunca as fronteiras da bacia hidrográfica do Terva; tudo o mais, além das cumeadas da Seixa, revertia de uma irrealidade feita de sonho e abstracção. E o mundo, no entanto, é vasto e admirável: com a água dos mares oceanos, as cordilheiras e os seus declives, as ilhas e as penínsulas; com as montanhas e os rios, a chuva e o vento; com a tempestade e o remanso, as manhãs de sincelo ou os fins de tarde iluminados por um lume vagaroso; com a rede infinita dos seus caminhos e veredas, os bosques e as árvores das avenidas, as casas, as pontes suspensas entre duas margens, as colinas, os palácios, as arcadas das praças, os navios, as estrelas, as mulheres, as nuvens, as marés, o crepúsculo. João Pequeno vivia num vórtice; um mundo novo, admirável, maior que o destino dos homens, abria-se diante de si. E era como se esse mundo admirável, o burburinho dos automóveis e das fábricas, os edifícios e os palácios, as avenidas e os jardins, o transportassem a uma dimensão de milagre.

sexta-feira, junho 06, 2008

12.

João ouve o motor, ao longe, do Bugatti, e imagina um tempo em que não haverá tempo; um tempo em que tudo ficará dependente do despotismo do tempo: das suas amarras, das suas teias densas, dos seus elos e dos seus vínculos, das suas cadeias sucessivas. A velocidade, então, marcará o quotidiano; e as opções do quotidiano resultarão da ponderação de variáveis que se sobrepõem, acumulam, uma camada e depois outra, num processo em que a diacronia deixa de fazer sentido; um tempo em que a falta de tempo justificará tudo: a erosão do amor, os intervalos longos na publicação dos capítulos dos folhetins, as ausências, a deserção, o esquecimento. João Pequeno ouve o ruído fascinante do motor de quatro cilindros do Bugatti e imagina um tempo em que o relógio se sobrepõe ao calendário e tudo se vive ao segundo. Até que o automóvel aparece na recta final; acabou de fazer a última curva da pista: azul, tubular, com o motor protegido pela belíssima oval dianteira, com as onduladas curvas laterais a semelhar uma onda, veloz, admirável, deslizando entre o pavimento e uma nuvem, quase em voo, quase suspenso na vertigem de correr assim disparado em direcção ao futuro.

quinta-feira, maio 22, 2008

11.

João Pequeno dormiu durante quase todo o dia. Acordou e pensou por instantes que estaria fechado numa cela da cadeia civil. Depois olhou na direcção da porta e viu a figura do padrinho recortada contra a luminosidade baça do corredor. Tudo se passou como num sonho em que as imagens se sucedem e sobrepõem até à incoerência cronológica. Quase doze anos depois, quando regressar de novo e olhar o rio, a insólita paisagem de pinheiros elevando-se nas colinas do outro lado do vale, os mesmos caminhos de terra batida, o casario de granito a descobrir-se por entre a neblina do fim de tarde de Fevereiro, João Pequeno terá a sensação estranha da impossibilidade da narrativa; como se os eventos desses dias de Julho de mil novecentos e dezanove tivessem ocorrido fora da sua vida; como se não houvesse coincidência temporal entre a sua vida e o tempo concreto; como se um fluido misturasse as suas memórias e as remetesse a um universo intangível: a figura do padrinho recortada à porta do quarto contra a luminosidade baça do corredor; o rumor dos pequenos fios de água descendo os alcantilados da serra; o odor das flores da urze pisadas pelas patas dos cavalos; a breve luz do quarto minguante a marcar no horizonte as cumeadas onduladas; os descampados onde faziam breves paragens para logo depois atravessarem a galope com o vento no rosto; uma escusa estalagem onde comeram e dormiram algumas horas; a casa de José Ribeiro da Conceição, em Lamego, erguendo-se imensa junto ao Seminário e ao Paço Episcopal; uma mulher que haverá de jurar nunca esquecer durante o resto da vida; a viagem para o Porto; as despedidas; o embarque; e depois o mar oceano, um céu infinito, a tempestade, o calor insuportável, a chegada ao porto de Santos, a turba inverosímil de homens e mulheres a arrastar malas imensas como quem traz do passado todas as amarras de que se pretende libertar.

quarta-feira, maio 21, 2008

10.

O pequeno rumor da água ouvia-se na noite quente de Julho erguendo-se devagar em lâmina fina sobre o muro da presa do Noro. João Pequeno escondeu-se por algum tempo até acreditar que nenhum outro barulho se misturava ao cicio da corrente vagarosa. Tinha bebido muito; correra por entre os arames das vinhas e as árvores do pomar de macieiras; sentia o coração a bater como se o corpo se tivesse rendido ao domínio da eluviação das águas subterrâneas. E depois subiu ao Padrão, passou a Colina do Engenheiro, contornou o alto do Voluntário pelo caminho de saibro, atravessou o rio nas poldras, chegou ao Meio da Aldeia, abriu a cancela do pátio da casa junto à igreja, subiu a escaleira que dá ao terraço, bateu com os nós dos dedos nos vidros da janela. O padrinho de João Pequeno acordou; levantou-se; abriu a porta; olhou o afilhado contra a luz do quarto minguante poisada nas encostas do outro lado do vale; e disse-lhe que descansasse; que dormisse; que alguma solução haveria de topar-se por entre as desordens do mundo.

segunda-feira, maio 19, 2008

9.

O doutor Magalhães sentia-se cansado do mundo; e cansado da avidez mercenária do amigo Américo Matias. A guerra veio ampliar desacertos, injustiças, diferenças: o pão e o açúcar eram bens escassos; e não faltavam os biscoitos ingleses e o champanhe. Américo, em silêncio, no escuro, mexia os cordelinhos da política local e enriquecia a olhos relapsos; o presidente da Comissão Administrativa, tocado irreversivelmente pelo tédio e pela indiferença, deixava seguir as modas. No Echos da Vila, apoiado e motivado pelo doutor Granjo, João Pequeno trazia à superfície a dimensão do embuste; da falcatrua. Arnaldo Adão, o Lindinho, passava-lhe em segredo a cópia dos delitos. João pôs em letra de forma os pontos nos is; demonstrou a condescendente e abjecta corrupção do quotidiano. E, claro, pôs-se a jeito. Foi o que foi. Era preciso arranjar um bode expiatório e limpar de passagem os vestígios dos crimes. O dia vinha a calhar: as confusões na feira com o Vicente de Curros; a tarde de rambóia na taberna da Emília. Armaram-lhe a estrangeirinha. E João Pequeno, de súbito, compreendeu que um laço lhe apertava os pulsos com força; e que o laço haveria de ser puxado em cada um dos seus fios. Por isso, nessa noite de Julho de mil novecentos e dezanove, estando a ser ouvido no posto da Guarda e sentindo os fios a serem puxados, correu na direcção da janela e saltou e correu por entre os troncos das árvores do pomar de macieiras e os arames das vinhas. Nunca haveria de esquecer o silvo metálico dos dois tiros disparados no escuro daquela noite quente e imensa e erguendo-se límpida na abóbada do vale.

sexta-feira, maio 16, 2008

8.

O doutor Magalhães ainda resistiu; que ficava no hotel; que estava de passagem; que não queria ser cúmplice da farsa; que achava deplorável o espectáculo anunciado. Mas acabou por acompanhar o amigo Joaquim Moreira Falcão pelas ruas de Lisboa. Era um dia quente de Junho de mil novecentos e onze e tivera lugar a primeira reunião da Assembleia Nacional Constituinte; o doutor António Granjo, eleito em Maio último, partilhava com Sidónio Pais um lugar de deputado. O cortejo, ao som de filarmónicas, passava pelo Arsenal; ouvia-se A Portuguesa; havia girândolas de foguetes; desfilavam os corpos do exército; distribuíam-se folhetos com a proclamação da República; e o povo, nas ruas, nas janelas das casas, aos milhares, aclamava o desfile. O que acontecera entretanto? A República elege um Presidente de sangue azul (vigésimo quinto neto de um duque de França, neto da segunda neta de D. Fernando de Castela e com ascendência em Hugo Capeto, conde de Paris e de Orleães); o país é arrastado para a guerra e os seus jovens são arrastados para a morte nas margens de um rio perdido na Flandres; António Granjo escreve versos e conspira contra Sidónio Pais; a desordem cresce nas ruas e nas instituições; Sidónio Pais é assassinado; alguns heróis, como Paiva Couceiro, tentam em vão repor a velha ordem e restaurar a Pátria; e hoje, nesta tarde fria de princípios de mil novecentos e dezanove, António Granjo entra com João Pequeno na Pensão Americana, puxando as golas da gabardine inglesa comprada no Pires d' Almeida, cheio ainda da glória de ter participado em Vila Real no confronto com as tropas do major Alberto Margaride e feliz por poder anunciar que a Constituição de mil novecentos e onze regressou enfim à sua plena vigência.

quinta-feira, maio 15, 2008

7.

A doença chegava-lhe. O doutor Magalhães vinha à varanda, em havendo sol, sentava-se na cadeirinha de lona, arregaçava as mangas da camisa em dobras simétricas, puxava as calças acima dos joelhos, enfiava os pés no enxofre da água das caldas santas. Pouco o preocupavam já monárquicos ou republicanos, democratas ou evolucionistas; pouco o preocupava o rodar de um mundo que parecia ter perdido os seus eixos para sempre; pouco o preocupava o ruir das paredes de uma velha ordem que se resumia em manter as coisas antigas nos seus devidos lugares. Por isso, por esses primeiros dias do ano de mil novecentos e dezanove, quando o doutor António Granjo, mais uma vez, entrou na Pensão Americana para falar de um mundo novo, sorriu apenas entre a melancolia e o cansaço. E, estirando-se na cadeirinha de lona, pensou nas ironias e nos desacertos do mundo.
6.

«Não há crimes de opinião; o conceito é absurdo», dizia o advogado. João Pequeno, extasiado, ouvia-o falar sobre um tempo em que não seria mais aceitável impor regras ou limitações aos discursos. «A liberdade começa pelo direito de exprimir opiniões em público sem restrições de ordem moral ou política». O doutor Granjo vinha à Vila, deixava o Tribunal e rumava à Pensão Americana a beber um palhete do Crasto. Dona Fernanda, em vendo-o chegar, fazia um sinal e Luísa descia à adega, cortava as fatias de presunto e desenterrava uma garrafa do chão de terra; trazia-a cuidadosamente para que não bulisse; para que o pé não levantasse do fundo; para que o cristal do vinho, olhado à transparência, não reflectisse senão a luz e a água das encostas viradas ao nascente. O doutor Magalhães, da varanda, via-o a atravessar o largo na companhia de João Pequeno. E o que sentia era apenas cansaço; tédio; melancolia.

quinta-feira, maio 08, 2008

5.

João Pequeno não haveria de esquecer nunca a desolação desse lugar varrido pela tormenta. Era uma criança. Mas a imagem do desastre ficou gravada no imperscrutável lugar da memória que guarda os momentos e os lugares da infância de que nunca nos livramos durante uma vida: um cântaro com água, o arame das vinhas, os pátios, um caminho de terra subindo às colinas por entre bosques de bétulas, a aparição de um corpo nu, a página de um livro, as folhas dos negrilhos, a água das presas, um relâmpago no mês de Novembro iluminando a noite para sempre. Às vezes damos connosco a dizer «é incrível como o tempo passa». O que nos surpreende não é o facto de estarmos mais velhos; não é a distância a que ficaram as coisas antigas. O que nos surpreende é a inexistência de uma fita com marcas regulares ou de um pêndulo a definir por igual a duração de cada um dos dias, a duração de cada um dos anos das nossas vidas. É como se o tempo nos fosse devolvido pela reverberação de sentimentos extremos; é como se a sua espiral tivesse descontinuidades ou sobreposições; é como se a memória do que vivemos não guardasse senão alguns momentos e algumas imagens: e o resto fosse o desperdício de estarmos vivos. Numa madrugada de Julho de mil novecentos e dezanove, ainda escuro, João Pequeno regressou à Aldeia; atravessou o rio nas poldras, subiu a escaleira que dá para o terraço de uma casa junto à igreja e bateu com os nós dos dedos nos vidros da janela. Que memória da sua vida tem João Pequeno nesse preciso instante? Algumas imagens da infância; o ano dos desastres, o calor, a chuva, o vento, um negrume feito de palhas e poeiras; a ida para a Vila e a nova casa no Alto da Ribeira; um bosque; os textos escritos no quinzenário local contra as trapalhadas financeiras da Comissão Administrativa; uma noite clandestina num quarto da Pensão Americana; alguns momentos em que a amizade e o mundo pareciam sobrepor-se; e os dois tiros nervosos disparados no escuro no momento em que fugira do posto da Guarda por entre os arames das vinhas e as árvores do pomar de macieiras.

terça-feira, maio 06, 2008

4.

Não havia memória de terem assim secado as nascentes. Os dias de calor sucediam-se; um calor insuportável que diluía os contornos dos objectos e que parecia erguer-se em espadana sobre os arbustos e o chão ressequido onde as cobras de escada largavam as suas peles claras da muda e desenhavam uma linha ondulada no saibro. Os finais de Agosto deveriam já ter trazido as brisas do crepúsculo e o frio nocturno; mas quase não se podia sair à rua; dormia-se com as janelas abertas. O braseiro durou todo o mês de Setembro e entrou em Outubro; até o rio deixar de correr e o leito do estio se reduzir a minúsculos charcos verdes de água e limos no fundo das presas. Não se regaram os milhos; secaram as pastagens das águas de lima; acabou-se a provisão de forragens; e os bagos das uvas crestaram numa mistura de lume e açúcar. E foi então que um vento desusado se anunciou primeiro nas copas das árvores da encosta e depois atravessou as ruas da Aldeia e ergueu no ar um negrume feito de palhas e poeiras; semanas a fio. E então em Dezembro, nos primeiros dias de Dezembro, o céu ficou carregado de nuvens; nuvens densas, escuras, que vinham do nascente, sendo certo que as nuvens do Inverno nunca chegavam pela banda do nascente. E ficaram assim; suspensas como uma ameaça de tormenta e um castigo. Até que começou a chover; na noite da passagem do ano; e choveu durante três meses. No dia primeiro de Março, quando o céu finalmente se abriu de novo sem uma nuvem, a Aldeia estava transformada num deserto.

sexta-feira, maio 02, 2008

3.

Leonor nasceu na casa a jusante da Ponte de Arame no dia seis de Junho de mil oitocentos e setenta. A casa tinha sido erguida alguns anos antes; oito anos mais tarde ficaria entregue ao abandono; até que foi arranjada para guardar um segredo e para que Leonor desse um filho à luz e ao mundo. A memória permanece dentro das casas durante algum tempo; num baixo-relevo dos caibros esculpido a navalha, nas pedras das lareiras, nos fornos de lenha, nos alpendres, nas prensas dos lagares, nos móveis velhos, nos beirados derruídos, num traço indelével no pavimento, nas manchas da parede de cal onde se penduraram retratos dos dias felizes de Verão. Mas depois vem a ruína e a tempestade; a chuva e o gelo, a luz, o vento, a sombra. Na casa a jusante da Ponte de Arame, quando a família de Américo Fontes a deixou e rumou à Vila à procura de um novo destino, a hera e a vinha-virgem subiram as empenas e as colunas de pedra dos pátios, os conchelos invadiram os muros, as giestas e os silvedos acompanharam as bermas dos caminhos e viam-se à distância, os dentes-de-leão misturaram-se à dedaleira, às moitas de parietária, à avoadinha, às urtigas, à serradela, ao trevo, aos malmequeres. A casa ficou assim, vazia, abandonada até esse dia de meados de Maio de mil novecentos e sessenta e sete em que o pai de Aline chegou e cortou as ervas, arroteou o pequeno vale confinante, despedregou a encosta, semeou centeio e um milho de regadio, fez uma horta, reconstruiu paredes, construiu anexos. Mas isso foi muito tempo depois. No dia seis de Junho de mil oitocentos e noventa e um, nessa manhã em que Leonor morreu com um sorriso enigmático nos lábios, sem que se lhe ouvisse um lamento, o soalho estava encerado e havia cortinas nas janelas e lírios numa jarra alta; nessa mesma manhã em que João, recém-nascido, foi levado aos cuidados de Lúcia e Manuel Pequeno, à casa do largo do meio da Aldeia contígua ao tanque das águas de nascente onde se enchiam os cântaros.

terça-feira, abril 29, 2008

2.

No dia seis de Junho de mil oitocentos e noventa e um, numa casa a jusante da Ponte de Arame, nascia uma criança a que deram o nome de João. E deram-lhe um nome pela razão simples de que a um homem ou a uma mulher, sejam quais forem as circunstâncias que irremediavelmente lhe marcam logo à nascença o futuro curso dos seus dias, não se nega um nome. João, apenas. João, sem mais, sem patronímico, sem nenhum rasto ou vestígio da genealogia, como se a memória avassaladora do tempo pudesse apagar-se na recusa da única herança de que é legítimo esperar nesse momento mágico em que a vida e o mundo coincidem. Leonor, em circunstâncias nunca muito esclarecidas, morreu durante o parto. Desde que a gravidez se anunciara, desde o momento em que não podia mais ocultar o segredo do delito grave do amor, tinha sido afastada do convívio público; e dali, da Vila, a levaram seus pais a um lugar mais afastado do mundo. Aí ficou, meses, nessa casa com um pátio onde lhe era dado sentar-se à sombra de uma tília centenar. Não lhe ouviram uma lamentação; não deixou de sorrir: um sorriso enigmático em que pareciam misturar-se a tragédia e a melancolia. Leonor não poderia chegar a saber que o recém-nascido, nesse mesmo dia seis de Junho, seria entregue aos cuidados de um casal da Aldeia; não poderia chegar a saber, também, que o filho do seu encontro com o engenheiro das florestas haveria de nascer com uma mancha escura desenhada na palma da mão esquerda representando com nitidez os contornos, a nervura, os lóbulos sulcados duma folha de carvalho-negral. Um silêncio fundo, interrompido apenas por um ou outro breve rumor manifesto, haveria de guardar esses segredos ao longo dos anos.
Capítulo IX
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(Onde se apresentam resumos do que é possível por agora dizer-se ligando fios dispersos e se acaba por seguir um caminho imprevisto)
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1.
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O engenheiro das florestas morreu nessa noite de dezassete de Novembro de mil oitocentos e noventa. Supõe-se que Fernando Lalice (nessa altura não era ainda Lalice) o surpreendeu no quarto com Fernanda, o arrastou à Colina da Raia, o dependurou num ramo do carvalho grande, suspenso por uma corda carral enrolada ao pescoço, e lhe queimou o rosto com um archote aceso até o deixar irreconhecível. À Vila demorou a chegar essa normalidade que apenas o Pai Ventura parecia anunciar, finalmente de paz consigo, com o mundo e com a memória dos cães afogados num gralheiro abaixo da Presa do Moinho Velho. Os trabalhos na floresta acabaram pouco tempo depois: ainda veio gente de Lisboa, ainda se chegou a imaginar que o plano antigo haveria de manter-se; mas a falta de colaboração de Fernando, primeiro, e depois a sua oposição ostensiva, revelaram-se decisivas e precipitaram o fim do processo. É verdade que se tratava de uma fase experimental. O mau, no entanto, é começar: o mais certo, conhecendo a gente os políticos como conhece, é que a continuação do programa de transformação da paisagem fosse apenas uma questão de tempo.

sábado, abril 26, 2008

18.

Encontrei Leonor várias vezes depois dessa noite. Um segredo juntáva-nos e delimitava um território que nos separava do mundo. Escrevo estas notas no dia 17 de Novembro de mil oitocentos e noventa. Cheguei à Vila (parece mentira) exactamente há um ano. Tudo, entretanto, mudou. A minha vida mudou. O mundo mudou, como muda sempre, à medida que as nossas vidas mudam e as mudanças das nossas vidas mudam o mundo em que vivemos. O Inverno trouxe a chuva, de novo, e o barulho da chuva caindo nos telhados e nas coberturas de latão dos anexos; o Inverno trouxe a geada e esse silêncio quase mágico das coisas suspensas das folhas e dos ramos dos arbustos da serra; o Inverno trouxe a primeira nevada do ano, esse branco quase azul de tão branco que cobre as ruas e as casas, os taludes dos caminhos e os muros, as margens das ribeiras que descem dos montes entre o sobressalto e a quietação dos vales. Estava frio. Uma nuvem densa anunciava a tempestade. Eu tinha-me metido a caminho das pastagens por baixo do Voluntário. Era ao fim da tarde. Subi pelo carreiro do Lajedo, cheguei ao bosquete de carvalho-negral, segui arrumado à vedação do muro de pedras. E foi então que a vi. Ela sorriu; como se me esperasse; como se me esperasse desde o fundo do tempo. Sorriu. Eu disse «boa tarde». Embaraçado, confuso. «Como está, Leonor?» Não me respondeu. Tinha uma navalha nas mãos. Virou-se ligeiramente e esculpiu um coração trémulo no tronco branco de um vidoeiro. Só então me olhou de frente. Eu via a tarde a descer as encostas, uma nuvem de sombra a poisar na copa mais alta das árvores. Aproximei-me. E compreendi que esse coração trémulo haveria de ficar gravado na minha pele como uma cicatriz ou uma doença do corpo.

sexta-feira, abril 25, 2008

17.

Sentia-me confuso. Sinto-me perdido à medida que o tempo avança e aumenta o fascínio por um lugar que tarda em pertencer-me. Há uma contiguidade dos homens, dos seus gestos, das suas memórias, com a terra onde nasceram e ergueram as árvores, lavraram os campos ou abriram valas de rega. Há um fio que liga o coração e as raízes dos negrilhos. Eu vinha de fora. E, aos poucos, imaginei poder vir a fazer parte desta geografia. Eu vinha de fora com a missão de criar uma paisagem. O mundo acaba por pertencer-nos quando uma espiga nos entrega, múltiplo, o primeiro grão que semeámos. Imaginava as encostas desenhadas pelos meus cadernos de campo e pelos planos de plantação. Imaginava um território a que começaria a pertencer à medida que esse mesmo território, devolvido por um espelho de palavras, me fosse pertencendo. Mas cedo compreendi a extensão do logro. A paisagem é sempre a consequência do modo como os canais construídos regulam a circulação das águas da chuva ou de nascente; dessa relação antiga entre o lugar e a mão. Como se alguém dissesse: aqui um rio, aqui uma árvore. E só então o mundo fizesse sentido.

quinta-feira, abril 24, 2008

16.

É tarde da noite; entro no quarto; deito-me; custa-me adormecer; sinto-me perdido no mundo. E penso que só me faltava isto: Leonor; os seus olhos fundos; o modo como anda sem quase tocar as tijoleiras dos pátios, o saibro dos caminhos.