quarta-feira, maio 21, 2008

10.

O pequeno rumor da água ouvia-se na noite quente de Julho erguendo-se devagar em lâmina fina sobre o muro da presa do Noro. João Pequeno escondeu-se por algum tempo até acreditar que nenhum outro barulho se misturava ao cicio da corrente vagarosa. Tinha bebido muito; correra por entre os arames das vinhas e as árvores do pomar de macieiras; sentia o coração a bater como se o corpo se tivesse rendido ao domínio da eluviação das águas subterrâneas. E depois subiu ao Padrão, passou a Colina do Engenheiro, contornou o alto do Voluntário pelo caminho de saibro, atravessou o rio nas poldras, chegou ao Meio da Aldeia, abriu a cancela do pátio da casa junto à igreja, subiu a escaleira que dá ao terraço, bateu com os nós dos dedos nos vidros da janela. O padrinho de João Pequeno acordou; levantou-se; abriu a porta; olhou o afilhado contra a luz do quarto minguante poisada nas encostas do outro lado do vale; e disse-lhe que descansasse; que dormisse; que alguma solução haveria de topar-se por entre as desordens do mundo.

segunda-feira, maio 19, 2008

9.

O doutor Magalhães sentia-se cansado do mundo; e cansado da avidez mercenária do amigo Américo Matias. A guerra veio ampliar desacertos, injustiças, diferenças: o pão e o açúcar eram bens escassos; e não faltavam os biscoitos ingleses e o champanhe. Américo, em silêncio, no escuro, mexia os cordelinhos da política local e enriquecia a olhos relapsos; o presidente da Comissão Administrativa, tocado irreversivelmente pelo tédio e pela indiferença, deixava seguir as modas. No Echos da Vila, apoiado e motivado pelo doutor Granjo, João Pequeno trazia à superfície a dimensão do embuste; da falcatrua. Arnaldo Adão, o Lindinho, passava-lhe em segredo a cópia dos delitos. João pôs em letra de forma os pontos nos is; demonstrou a condescendente e abjecta corrupção do quotidiano. E, claro, pôs-se a jeito. Foi o que foi. Era preciso arranjar um bode expiatório e limpar de passagem os vestígios dos crimes. O dia vinha a calhar: as confusões na feira com o Vicente de Curros; a tarde de rambóia na taberna da Emília. Armaram-lhe a estrangeirinha. E João Pequeno, de súbito, compreendeu que um laço lhe apertava os pulsos com força; e que o laço haveria de ser puxado em cada um dos seus fios. Por isso, nessa noite de Julho de mil novecentos e dezanove, estando a ser ouvido no posto da Guarda e sentindo os fios a serem puxados, correu na direcção da janela e saltou e correu por entre os troncos das árvores do pomar de macieiras e os arames das vinhas. Nunca haveria de esquecer o silvo metálico dos dois tiros disparados no escuro daquela noite quente e imensa e erguendo-se límpida na abóbada do vale.

sexta-feira, maio 16, 2008

8.

O doutor Magalhães ainda resistiu; que ficava no hotel; que estava de passagem; que não queria ser cúmplice da farsa; que achava deplorável o espectáculo anunciado. Mas acabou por acompanhar o amigo Joaquim Moreira Falcão pelas ruas de Lisboa. Era um dia quente de Junho de mil novecentos e onze e tivera lugar a primeira reunião da Assembleia Nacional Constituinte; o doutor António Granjo, eleito em Maio último, partilhava com Sidónio Pais um lugar de deputado. O cortejo, ao som de filarmónicas, passava pelo Arsenal; ouvia-se A Portuguesa; havia girândolas de foguetes; desfilavam os corpos do exército; distribuíam-se folhetos com a proclamação da República; e o povo, nas ruas, nas janelas das casas, aos milhares, aclamava o desfile. O que acontecera entretanto? A República elege um Presidente de sangue azul (vigésimo quinto neto de um duque de França, neto da segunda neta de D. Fernando de Castela e com ascendência em Hugo Capeto, conde de Paris e de Orleães); o país é arrastado para a guerra e os seus jovens são arrastados para a morte nas margens de um rio perdido na Flandres; António Granjo escreve versos e conspira contra Sidónio Pais; a desordem cresce nas ruas e nas instituições; Sidónio Pais é assassinado; alguns heróis, como Paiva Couceiro, tentam em vão repor a velha ordem e restaurar a Pátria; e hoje, nesta tarde fria de princípios de mil novecentos e dezanove, António Granjo entra com João Pequeno na Pensão Americana, puxando as golas da gabardine inglesa comprada no Pires d' Almeida, cheio ainda da glória de ter participado em Vila Real no confronto com as tropas do major Alberto Margaride e feliz por poder anunciar que a Constituição de mil novecentos e onze regressou enfim à sua plena vigência.

quinta-feira, maio 15, 2008

7.

A doença chegava-lhe. O doutor Magalhães vinha à varanda, em havendo sol, sentava-se na cadeirinha de lona, arregaçava as mangas da camisa em dobras simétricas, puxava as calças acima dos joelhos, enfiava os pés no enxofre da água das caldas santas. Pouco o preocupavam já monárquicos ou republicanos, democratas ou evolucionistas; pouco o preocupava o rodar de um mundo que parecia ter perdido os seus eixos para sempre; pouco o preocupava o ruir das paredes de uma velha ordem que se resumia em manter as coisas antigas nos seus devidos lugares. Por isso, por esses primeiros dias do ano de mil novecentos e dezanove, quando o doutor António Granjo, mais uma vez, entrou na Pensão Americana para falar de um mundo novo, sorriu apenas entre a melancolia e o cansaço. E, estirando-se na cadeirinha de lona, pensou nas ironias e nos desacertos do mundo.
6.

«Não há crimes de opinião; o conceito é absurdo», dizia o advogado. João Pequeno, extasiado, ouvia-o falar sobre um tempo em que não seria mais aceitável impor regras ou limitações aos discursos. «A liberdade começa pelo direito de exprimir opiniões em público sem restrições de ordem moral ou política». O doutor Granjo vinha à Vila, deixava o Tribunal e rumava à Pensão Americana a beber um palhete do Crasto. Dona Fernanda, em vendo-o chegar, fazia um sinal e Luísa descia à adega, cortava as fatias de presunto e desenterrava uma garrafa do chão de terra; trazia-a cuidadosamente para que não bulisse; para que o pé não levantasse do fundo; para que o cristal do vinho, olhado à transparência, não reflectisse senão a luz e a água das encostas viradas ao nascente. O doutor Magalhães, da varanda, via-o a atravessar o largo na companhia de João Pequeno. E o que sentia era apenas cansaço; tédio; melancolia.

quinta-feira, maio 08, 2008

5.

João Pequeno não haveria de esquecer nunca a desolação desse lugar varrido pela tormenta. Era uma criança. Mas a imagem do desastre ficou gravada no imperscrutável lugar da memória que guarda os momentos e os lugares da infância de que nunca nos livramos durante uma vida: um cântaro com água, o arame das vinhas, os pátios, um caminho de terra subindo às colinas por entre bosques de bétulas, a aparição de um corpo nu, a página de um livro, as folhas dos negrilhos, a água das presas, um relâmpago no mês de Novembro iluminando a noite para sempre. Às vezes damos connosco a dizer «é incrível como o tempo passa». O que nos surpreende não é o facto de estarmos mais velhos; não é a distância a que ficaram as coisas antigas. O que nos surpreende é a inexistência de uma fita com marcas regulares ou de um pêndulo a definir por igual a duração de cada um dos dias, a duração de cada um dos anos das nossas vidas. É como se o tempo nos fosse devolvido pela reverberação de sentimentos extremos; é como se a sua espiral tivesse descontinuidades ou sobreposições; é como se a memória do que vivemos não guardasse senão alguns momentos e algumas imagens: e o resto fosse o desperdício de estarmos vivos. Numa madrugada de Julho de mil novecentos e dezanove, ainda escuro, João Pequeno regressou à Aldeia; atravessou o rio nas poldras, subiu a escaleira que dá para o terraço de uma casa junto à igreja e bateu com os nós dos dedos nos vidros da janela. Que memória da sua vida tem João Pequeno nesse preciso instante? Algumas imagens da infância; o ano dos desastres, o calor, a chuva, o vento, um negrume feito de palhas e poeiras; a ida para a Vila e a nova casa no Alto da Ribeira; um bosque; os textos escritos no quinzenário local contra as trapalhadas financeiras da Comissão Administrativa; uma noite clandestina num quarto da Pensão Americana; alguns momentos em que a amizade e o mundo pareciam sobrepor-se; e os dois tiros nervosos disparados no escuro no momento em que fugira do posto da Guarda por entre os arames das vinhas e as árvores do pomar de macieiras.

terça-feira, maio 06, 2008

4.

Não havia memória de terem assim secado as nascentes. Os dias de calor sucediam-se; um calor insuportável que diluía os contornos dos objectos e que parecia erguer-se em espadana sobre os arbustos e o chão ressequido onde as cobras de escada largavam as suas peles claras da muda e desenhavam uma linha ondulada no saibro. Os finais de Agosto deveriam já ter trazido as brisas do crepúsculo e o frio nocturno; mas quase não se podia sair à rua; dormia-se com as janelas abertas. O braseiro durou todo o mês de Setembro e entrou em Outubro; até o rio deixar de correr e o leito do estio se reduzir a minúsculos charcos verdes de água e limos no fundo das presas. Não se regaram os milhos; secaram as pastagens das águas de lima; acabou-se a provisão de forragens; e os bagos das uvas crestaram numa mistura de lume e açúcar. E foi então que um vento desusado se anunciou primeiro nas copas das árvores da encosta e depois atravessou as ruas da Aldeia e ergueu no ar um negrume feito de palhas e poeiras; semanas a fio. E então em Dezembro, nos primeiros dias de Dezembro, o céu ficou carregado de nuvens; nuvens densas, escuras, que vinham do nascente, sendo certo que as nuvens do Inverno nunca chegavam pela banda do nascente. E ficaram assim; suspensas como uma ameaça de tormenta e um castigo. Até que começou a chover; na noite da passagem do ano; e choveu durante três meses. No dia primeiro de Março, quando o céu finalmente se abriu de novo sem uma nuvem, a Aldeia estava transformada num deserto.

sexta-feira, maio 02, 2008

3.

Leonor nasceu na casa a jusante da Ponte de Arame no dia seis de Junho de mil oitocentos e setenta. A casa tinha sido erguida alguns anos antes; oito anos mais tarde ficaria entregue ao abandono; até que foi arranjada para guardar um segredo e para que Leonor desse um filho à luz e ao mundo. A memória permanece dentro das casas durante algum tempo; num baixo-relevo dos caibros esculpido a navalha, nas pedras das lareiras, nos fornos de lenha, nos alpendres, nas prensas dos lagares, nos móveis velhos, nos beirados derruídos, num traço indelével no pavimento, nas manchas da parede de cal onde se penduraram retratos dos dias felizes de Verão. Mas depois vem a ruína e a tempestade; a chuva e o gelo, a luz, o vento, a sombra. Na casa a jusante da Ponte de Arame, quando a família de Américo Fontes a deixou e rumou à Vila à procura de um novo destino, a hera e a vinha-virgem subiram as empenas e as colunas de pedra dos pátios, os conchelos invadiram os muros, as giestas e os silvedos acompanharam as bermas dos caminhos e viam-se à distância, os dentes-de-leão misturaram-se à dedaleira, às moitas de parietária, à avoadinha, às urtigas, à serradela, ao trevo, aos malmequeres. A casa ficou assim, vazia, abandonada até esse dia de meados de Maio de mil novecentos e sessenta e sete em que o pai de Aline chegou e cortou as ervas, arroteou o pequeno vale confinante, despedregou a encosta, semeou centeio e um milho de regadio, fez uma horta, reconstruiu paredes, construiu anexos. Mas isso foi muito tempo depois. No dia seis de Junho de mil oitocentos e noventa e um, nessa manhã em que Leonor morreu com um sorriso enigmático nos lábios, sem que se lhe ouvisse um lamento, o soalho estava encerado e havia cortinas nas janelas e lírios numa jarra alta; nessa mesma manhã em que João, recém-nascido, foi levado aos cuidados de Lúcia e Manuel Pequeno, à casa do largo do meio da Aldeia contígua ao tanque das águas de nascente onde se enchiam os cântaros.

terça-feira, abril 29, 2008

2.

No dia seis de Junho de mil oitocentos e noventa e um, numa casa a jusante da Ponte de Arame, nascia uma criança a que deram o nome de João. E deram-lhe um nome pela razão simples de que a um homem ou a uma mulher, sejam quais forem as circunstâncias que irremediavelmente lhe marcam logo à nascença o futuro curso dos seus dias, não se nega um nome. João, apenas. João, sem mais, sem patronímico, sem nenhum rasto ou vestígio da genealogia, como se a memória avassaladora do tempo pudesse apagar-se na recusa da única herança de que é legítimo esperar nesse momento mágico em que a vida e o mundo coincidem. Leonor, em circunstâncias nunca muito esclarecidas, morreu durante o parto. Desde que a gravidez se anunciara, desde o momento em que não podia mais ocultar o segredo do delito grave do amor, tinha sido afastada do convívio público; e dali, da Vila, a levaram seus pais a um lugar mais afastado do mundo. Aí ficou, meses, nessa casa com um pátio onde lhe era dado sentar-se à sombra de uma tília centenar. Não lhe ouviram uma lamentação; não deixou de sorrir: um sorriso enigmático em que pareciam misturar-se a tragédia e a melancolia. Leonor não poderia chegar a saber que o recém-nascido, nesse mesmo dia seis de Junho, seria entregue aos cuidados de um casal da Aldeia; não poderia chegar a saber, também, que o filho do seu encontro com o engenheiro das florestas haveria de nascer com uma mancha escura desenhada na palma da mão esquerda representando com nitidez os contornos, a nervura, os lóbulos sulcados duma folha de carvalho-negral. Um silêncio fundo, interrompido apenas por um ou outro breve rumor manifesto, haveria de guardar esses segredos ao longo dos anos.
Capítulo IX
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(Onde se apresentam resumos do que é possível por agora dizer-se ligando fios dispersos e se acaba por seguir um caminho imprevisto)
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1.
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O engenheiro das florestas morreu nessa noite de dezassete de Novembro de mil oitocentos e noventa. Supõe-se que Fernando Lalice (nessa altura não era ainda Lalice) o surpreendeu no quarto com Fernanda, o arrastou à Colina da Raia, o dependurou num ramo do carvalho grande, suspenso por uma corda carral enrolada ao pescoço, e lhe queimou o rosto com um archote aceso até o deixar irreconhecível. À Vila demorou a chegar essa normalidade que apenas o Pai Ventura parecia anunciar, finalmente de paz consigo, com o mundo e com a memória dos cães afogados num gralheiro abaixo da Presa do Moinho Velho. Os trabalhos na floresta acabaram pouco tempo depois: ainda veio gente de Lisboa, ainda se chegou a imaginar que o plano antigo haveria de manter-se; mas a falta de colaboração de Fernando, primeiro, e depois a sua oposição ostensiva, revelaram-se decisivas e precipitaram o fim do processo. É verdade que se tratava de uma fase experimental. O mau, no entanto, é começar: o mais certo, conhecendo a gente os políticos como conhece, é que a continuação do programa de transformação da paisagem fosse apenas uma questão de tempo.

sábado, abril 26, 2008

18.

Encontrei Leonor várias vezes depois dessa noite. Um segredo juntáva-nos e delimitava um território que nos separava do mundo. Escrevo estas notas no dia 17 de Novembro de mil oitocentos e noventa. Cheguei à Vila (parece mentira) exactamente há um ano. Tudo, entretanto, mudou. A minha vida mudou. O mundo mudou, como muda sempre, à medida que as nossas vidas mudam e as mudanças das nossas vidas mudam o mundo em que vivemos. O Inverno trouxe a chuva, de novo, e o barulho da chuva caindo nos telhados e nas coberturas de latão dos anexos; o Inverno trouxe a geada e esse silêncio quase mágico das coisas suspensas das folhas e dos ramos dos arbustos da serra; o Inverno trouxe a primeira nevada do ano, esse branco quase azul de tão branco que cobre as ruas e as casas, os taludes dos caminhos e os muros, as margens das ribeiras que descem dos montes entre o sobressalto e a quietação dos vales. Estava frio. Uma nuvem densa anunciava a tempestade. Eu tinha-me metido a caminho das pastagens por baixo do Voluntário. Era ao fim da tarde. Subi pelo carreiro do Lajedo, cheguei ao bosquete de carvalho-negral, segui arrumado à vedação do muro de pedras. E foi então que a vi. Ela sorriu; como se me esperasse; como se me esperasse desde o fundo do tempo. Sorriu. Eu disse «boa tarde». Embaraçado, confuso. «Como está, Leonor?» Não me respondeu. Tinha uma navalha nas mãos. Virou-se ligeiramente e esculpiu um coração trémulo no tronco branco de um vidoeiro. Só então me olhou de frente. Eu via a tarde a descer as encostas, uma nuvem de sombra a poisar na copa mais alta das árvores. Aproximei-me. E compreendi que esse coração trémulo haveria de ficar gravado na minha pele como uma cicatriz ou uma doença do corpo.

sexta-feira, abril 25, 2008

17.

Sentia-me confuso. Sinto-me perdido à medida que o tempo avança e aumenta o fascínio por um lugar que tarda em pertencer-me. Há uma contiguidade dos homens, dos seus gestos, das suas memórias, com a terra onde nasceram e ergueram as árvores, lavraram os campos ou abriram valas de rega. Há um fio que liga o coração e as raízes dos negrilhos. Eu vinha de fora. E, aos poucos, imaginei poder vir a fazer parte desta geografia. Eu vinha de fora com a missão de criar uma paisagem. O mundo acaba por pertencer-nos quando uma espiga nos entrega, múltiplo, o primeiro grão que semeámos. Imaginava as encostas desenhadas pelos meus cadernos de campo e pelos planos de plantação. Imaginava um território a que começaria a pertencer à medida que esse mesmo território, devolvido por um espelho de palavras, me fosse pertencendo. Mas cedo compreendi a extensão do logro. A paisagem é sempre a consequência do modo como os canais construídos regulam a circulação das águas da chuva ou de nascente; dessa relação antiga entre o lugar e a mão. Como se alguém dissesse: aqui um rio, aqui uma árvore. E só então o mundo fizesse sentido.

quinta-feira, abril 24, 2008

16.

É tarde da noite; entro no quarto; deito-me; custa-me adormecer; sinto-me perdido no mundo. E penso que só me faltava isto: Leonor; os seus olhos fundos; o modo como anda sem quase tocar as tijoleiras dos pátios, o saibro dos caminhos.
15.

Primeiro foi a chuva, e depois o vento, e depois a geada, e depois a neve e esse silêncio que, em vindo a noite, parecia ficar agarrado às estrelas por fios invisíveis. E depois a Primavera, com o colorido das encostas e a neblina, manhã cedo, a erguer-se vagarosamente dos vales. E depois o Verão. E já quase o Outono. Os dias revertiam desse calendário feito de luz e sombra, gelo, vento, calor e penumbra, chuva, claridade, névoa. Tudo arrumado: o gelo, a chuva, o vento; a névoa, a claridade; a luz, o calor; a sombra, a penumbra. Vive-se em função desse calendário meteorológico: as pausas e a vertigem, o arado, os enxertos (o garfo e o cavalo), o centeio estendido nas eiras, o aricar e o tender, o escafular, o uso da tarandeira, os merouços de palha. Alguma coisa mistura os frutos e os homens, as mulheres e as folhas e as raízes das árvores, as crianças e a cor dos matos das vertentes; até não haver nada que separe um caule e um gesto. É tarde. Tarde da noite. Revejo as memórias descritivas, as plantas à escala 1:2500, os levantamentos topográficos, os esquemas de plantação; e compreendo que algo separa irremediavelmente os meus planos e a realidade tangível.

segunda-feira, abril 21, 2008

14.

O que é o amor, o que é o desejo? Não há outros mistérios no mundo. Eu tinha visto Leonor uma única vez; quase logo a esquecera. Porque a aparição desse corpo a iluminar uma tarde de Primavera indecisa, deitado, nu, a confundir os seus contornos no desenho dos arbustos de arando, revertia da ideia de milagre; de impossibilidade. Mas ela, ao jantar, sentou-se a meu lado. Eu vi as suas mãos concretas a poisar na mesa os tabuleiros do forno; vi o seu riso e, a espaços, uma espécie de mágoa que parecia vir de longe; senti o ar movendo-se entre nós, tocando-nos, misturado ao seu odor, quando se levantava ou se sentava. O que é o amor, o que é o desejo? Nunca sabemos. Eu tinha apenas a certeza de que a imagem de Leonor ficaria agarrada à minha pele, como uma cicatriz funda, para sempre.

domingo, abril 20, 2008

13.

Esperava ser recebido com animosidade. (Talvez não: este povo já não me era estranho.) Américo Fontes tinha começado por nos levar ao fundo do pátio: «gostava que vissem a vinha antes de bebermos do seu vinho.» Seguimos depois a um telheiro onde nos sentámos a aproveitar a leve aragem do crepúsculo. Eu não sabia como encetar a conversa; Américo falava de tudo menos de pinheiros e plantações. Falava do vinho: das uvas colhidas em Outubro, do modo como eram pisadas no lagar de pedra, da trasfega, do engarrafamento num dia de Março ou Abril em que não houvesse uma nuvem no céu, do chão de terra da adega onde as garrafas eram enterradas para que o Verão, o mês de Julho, um fim de tarde como este, a leve aragem do crepúsculo, permitissem desenterrá-las e trazer esse ligeiro gasoso, esse breve rumor das bolhas de gás a rebentar ao contacto com o ar, e depois se descobrissem na boca os sabores misturados da luz e da água, do calor e do vento fazendo ondular durante a noite os arames das vinhas. Falava do presunto: do modo como, cevado o porco com a lavadura aquecida nos pátios, morto e desmanchado, tinha ficado a defumar, primeiro a um lume vivo de giestas, guiços, lenha miúda, depois a um lume vagaroso de brasas de carvalho, até que se retirava dos lareiros da cozinha e se pendurava na adega, suspenso das traves de madeira, protegido do terror da varejeira por uma rede de serapilheira fina. Falava dos cabritos: criados nos pastos «por baixo do Voluntário, senhor engenheiro, como saberá», do cabrito que haveríamos ainda nessa noite de comer, assado em tabuleiros num forno em «lenha de carvalho, claro». A noite passou a correr. Américo não falou uma única vez de pinheiros e plantações. E à saída, quase sem dar por isso, ao despedir-me num agradecimento confuso, prometi que as pastagens seriam preservadas do avanço das plantações e semeaduras. «Que estivesse descansado.» Fernando achou «que a noite tinha corrido bem». Não sei. Eu continuava ausente. E não me saía da cabeça a imagem da filha de Américo Fontes: Leonor. Os seus olhos, as suas mãos, o seu rosto. Não me saía da cabeça a imagem de Leonor; sentada a meu lado; a levantar-se para ajudar a mãe, diligente, a trazer mais vinho, cabrito, batatas assadas num forno em brasas de carvalho. Leonor: nunca mais a vira desde esse dia distante na Presa das Tílias, na margem esquerda do Terva, deitada, nua, protegida na tarde de Primavera indecisa por um maciço de arbustos de arando.

sábado, abril 19, 2008

12.

Fomos jantar a casa de Américo Fontes. A casa ficava na parte superior de uma vinha virada ao nascente descendo em suaves declives para as margens da ribeira do Fontão. Chegámos ao pátio e fiquei a olhar, ausente, as linhas dos arames iluminados pelo sol do fim de tarde. Um bosque de carvalhos, do outro lado da encosta, deixava as copas vigorosas das suas árvores a reflectir o dia caminhando para o demorado crepúsculo de Julho. Um rumor contínuo: o das águas da ribeira a correr vagarosamente nas pedras das poldras. E a luz, ainda: da urze, do rosmaninho, do tojo, do arando. O mundo está sempre a nascer: rendia-me às suas declivosas encostas, ao curso das suas águas, aos arbustos que desciam das cumeadas ganhando cor, do vermelho ao azul, nas suas flores minúsculas.
11.

E é então que Fernando me propõe um jantar em casa de Américo Fontes. Américo é a principal voz da contestação. Foi ele, Américo, quem juntou uma dezena de homens e obrigou à intervenção policial: não aceitava o avanço das plantações na encosta por baixo do Voluntário, nas pastagens que o carvalho-negral pontuava em pequenos maciços e nas bordaduras junto aos muros antigos erguidos com pedras irregulares de granito. Fernando considerava fundamental trazer Américo para o nosso lado; que era preciso «estratégia». Américo admitira receber-me; não apenas receber-me: fazia questão de que «o senhor engenheiro aceitasse cear com os pobres». Era no Verão. Tinham passado os meses de chuva, de geada, de vento, da neve a descer dos montes, a ficar poisada nos muros da Vila, a misturar-se na lama das ruas, a mudar a paisagem como num milagre sem nome. Os pessegueiros floriram e os frutos desenhavam-se nos seus ramos; as folhas dos freixos e dos vidoeiros entravam por dentro das tardes com o seu verde quase exuberante; a Veiga mudava de cor e uma estranha geometria impunha as suas formas como num mapa de fronteiras desenhadas a régua e esquadro. Ao fundo, nos montes, dos festos aos talvegues, desmatavam-se as encostas para que o futuro pudesse reconhecer o perfil dos pinheiros bravos e o odor da resina.

quinta-feira, abril 17, 2008

10.

O tempo corria de forma indefinida, em intervalos, ora voraz ora lento, descontínuo, como se não houvesse um fio que o fosse estendendo, hora após hora, dia após dia, na direcção do futuro; como se uma parte do tempo ficasse agarrado às raízes dos negrilhos, às candeias amarelas dos castanheiros jovens, às sombras densas do carvalho-negral, às paredes escalavradas das casas. Fernando comandava as operações de terreno: rasgaram-se estradões, desmataram-se encostas, abriram-se covas e valas, plantaram-se pequenos talhões de teste, semeava-se o penisco por áreas cada vez mais vastas. Os trabalhos, no entanto, decorriam com menos normalidade que sobressalto. Uma tensão ainda sem nome ia crescendo à medida que aumentava a área intervencionada. Algumas famílias fizeram frente ao avanço das plantações; a polícia foi obrigada a intervir. Eu mesmo começava a dividir-me; a vacilar. Nos baldios por baixo do Voluntário, na encosta aplanada, eu hesitava entre cumprir o plano de desmatação e deixar incólumes as zonas de pasto onde o carvalho-negral se erguia nas bordaduras ou em moitas densas.

quarta-feira, abril 16, 2008

9.

O frio do Inverno parecia aguardar que a chuva deixasse a abóbada do vale. Os dias eram claros e azuis, e as noites desenhavam no céu todas as estrelas do mundo. Ao fim da manhã, durante o início da tarde, o sol chegava a ser agradável. Mas logo depois, antes ainda do crepúsculo, o frio era difícil de suportar e as crianças iam abandonando as ruas. A sala contígua à taberna passou a ser o meu escritório. Aí comecei a receber as primeiras pessoas. Não obstante a hostilidade com que continuavam a olhar-me, sem intimidades nem um sorriso, começavam a aproximar-se, a saber das condições de trabalho. A escassez empurrava-os para a inevitabilidade de participação num processo que temiam acabar por voltar-se contra eles mesmos. Falavam pouco, escutavam o que era de ouvir, não chegavam a sentar-se. E foi então que ele apareceu. Fernando era um jovem de não mais que vinte ou vinte e um anos. Tínhamos falado algumas vezes. Sentava-se a meu lado; olhava com curiosidade as cartas topográficas; fazia perguntas. Pois nessa tarde atravessou a cortina que separava a taberna da sala contígua e, numa voz decidida, como se as suas palavras revertessem de muita reflexão e fundadas certezas, atirou-me de chofre: «o senhor engenheiro está a olhar para o seu futuro encarregado geral.» Nunca ninguém me tinha falado assim; num tom que não admitia réplica; olhando-me de cima, olhos nos olhos. E, ainda não refeito da surpresa, intuí de imediato que acabava de ganhar um aliado e que se iniciava uma decisiva fase do processo. Os homens, de facto, começaram a aparecer em catadupa, a inscrever os seus nomes, e depois a pedir um lugar para as suas mulheres e os seus filhos. Confiavam nele; na sua voz decidida; nos seus argumentos a favor do progresso; no modo como descrevia um mundo novo, sem miséria, sem crianças descalças a correr nos muros do cadastro ou nos taludes de saibro dos caminhos.