sexta-feira, abril 11, 2008

5.

Eu vinha da serra da Seixa a caminho do Padrão quando começou a chover. O dia estava cinzento e o vento da barra anunciava a chuva que acabou por chegar assim, abatendo-se de súbito num manto único de cumeada a cumeada. A noite aproximava-se. E no entanto era como se uma rede muito fina deixasse ver ao longe, translúcidas, as árvores das encostas e as primeiras casas da Vila. E, ao longe, quase noite, uma misteriosa luz parecia envolver as árvores da encosta e as primeiras casas da Vila. Tudo começou nesse momento: essa sensação estranha que haveria de acompanhar-me ao longo dos meses: essa sensação estranha de pressentir que pouco separa o milagre e o lodo, a ruína e a exaltação. Chovia. Era quase noite. A água gelava-me o corpo. Meti-me ao caminho de regresso e cheguei à taberna completamente encharcado. O Mendes estava atrás do balcão, a arrumar uma estante, e olhou-me como se olhasse um fantasma, uma dessas almas penadas tão frequentes nos relatos que haveria de escutar ao serão ao longo dos meses. Que estavam preocupados, que «nem imagina, senhor engenheiro», que temiam já que tivesse desaparecido numa ravina da serra. Subi ao quarto. Acendi uma vela. Despi-me, sequei-me, fiquei algum tempo deitado na cama a ouvir o barulho da chuva nos telhados e nas coberturas de latão dos anexos. Fechei os olhos e imaginei a água a cair sobre o carvalho grande da Colina da Raia, a escorrer dos troncos brancos dos vidoeiros, a engrossar o caudal do corgo do Pereirinho, a lavar a sujidade das ruas, a erguer uma cortina contra as desordens do mundo. Percorria-me uma confusa felicidade. Como se visse a chuva pela primeira vez e a chuva caísse pela primeira vez nos telhados e nas coberturas de latão dos anexos. Sentia-me feliz. E devo ter adormecido. Porque ouvia o ruído distante duma pancada que se repetia a espaços e só então percebi que batiam à porta.

quinta-feira, abril 10, 2008

4.

Passei a tarde a correr as veredas da serra. Havia vento. Um vento frio a que chamavam da barra e que anunciava chuva. Cheguei a um lugar onde os salgueiros se erguiam na margem dum rio. E fiquei assim, fascinado, a olhar a encosta do outro lado, as suas sombras, os seus brilhos breves quando uma nuvem deixava por instantes que o sol iluminasse os montes. Nessa altura, nessa primeira tarde, não conhecia ainda os nomes dos lugares. Mas soube depois que estava na margem direita do rio Terva, junto ao moinho do Pardo, e que essas águas desciam da presa e avançavam depois num troço quase a direito até Onde se Juntam os Rios. A juzante, depois do gralheiro do Pontilhão e da presa das Tílias, as águas, essas mesmas águas, seguiam por um vale encaixado, deixando pelo poente o Alto do Tabulhão e as Pedras do Carvalhal, e pelo nascente a colina do Formigueiro. Abaixo de Torneiros, quando o estradão de Fiães atravessa o corgo do Pereirinho, parei por instantes, exausto. E depois desci até à Paredela e segui de novo até onde o pequeno ribeiro do Seixo desagua na margem esquerda. Fiquei assim, parado, mudo, rendido: a olhar essas águas iluminadas pela sombra leve de Novembro: até sentir que não havia luz nem sombra, nem tempo nem movimento, e que essas águas é como se tivessem acabado de nascer do fundo da terra.
3.

O fim do mundo só pode ser um lugar assim, perdido entre a tempestade do Inverno e a poeira dos meses de Verão. Há qualquer coisa de irreal nestas ruas, nestas pedras arrumadas a fazer de casas, nestas crianças muito sujas a correr descalças nos taludes das barreiras de saibro. E no entanto as pessoas olham-me como se eu é que fosse o elemento estranho, como se houvesse uma ordem que eu pudesse pôr em causa só de respirar ou mover os braços. Luís Raposo, o carregador que tinha justado em Vidago, seguia muito direito, não obstante o cansaço, quase orgulhoso de me trazer como um troféu a este lugar perdido e fora do mundo. E garantia-me que haveria de «ajeitar um lugar asseado, senhor engenheiro». Levou-me ao cimo da Vila e entrámos numa taberna escura. O ar era quase irrespirável e o cheiro da merda ia-se diluindo numa atmosfera de ranço e vinagre. Acomodaram-me num quarto: um espaço exíguo, sem um único vão a cortar a parede de taipa: duas velas de sebo, o lavatório de zinco, uma pequena cómoda de castanho sem adornos.

quarta-feira, abril 09, 2008

2.

O carregador, um ignorante boçal, ajeitou as malas em cima da mula, disse que faltava ainda uma légua bem medida até chegarmos à Vila e perguntou que coisa via eu que me fizesse sorrir, sendo certo que, olhando dali, do Alto de Pinho, para o nascente e o poente, para o norte e o sul, não se vislumbravam mais que «carreiros fodidos de andar e calhaus de pedra». Não lhe respondi que o que via era o progresso. Calei-me. E seguimos, portanto, pelo caminho de terra batida, agora quase sempre a descer até chegarmos à entrada da Vila. E foi então que uns cães raivosos apareceram a correr como desalmados pelas margens do rio. O carregador estava nervoso; pediu-me que desmontasse e prendeu as arreatas das mulas a uma amoreira fazendo tenção de se aproximar dos cães. Mas eu já não tinha paciência para o espectáculo e ordenei-lhe que regressasse. Chegámos à Vila por volta do meio-dia. E nunca mais poderei esquecer o cheiro a merda que se misturava no ar daquela manhã do dia dezassete de Novembro de mil oitocentos e oitenta e nove.

terça-feira, abril 08, 2008

Capítulo VIII

(Onde se transcrevem fragmentos do diário do engenheiro das florestas)
1.
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O caminho de terra corria por vales sinuosos, subindo à meia encosta a desviar-se do declive das vertentes a pique sobre o rio Tâmega, descendo de novo, subindo depois à cumeada no Alto de Pinho. Parámos e fiquei por algum tempo a olhar os montes arredondados que se sucediam na distância. Estava fascinado. Distingui o carvalho alvarinho do carvalho negral, a madressilva do escalheiro, a urze do tojo, o medronheiro da aveleira. Uma luminosidade leve desenhava os contornos da serra, delimitava os volumes dos maciços arbóreos, deixava ver ao longe um bosque de vidoeiros, espalhava as sombras dos freixos numa zona aplanada onde se pressentia o remanso de um rio e depois uma vertente cortada a direito a encaixar de novo as suas águas. Sorri. Criar uma paisagem é como participar da criação do mundo. E imaginava já o pinheiro bravo a erguer-se de uma a outra encosta, a descer aos talvegues, a subir às linhas de festo, e o arando a dar lugar às feteiras, a gilbardeira ou a salsaparrilha a serem vagarosamente substituídas pelas giestas e os silvados. Montei de novo e dei ordem de partida.
Capítulo VII

(Onde Maria Teresa repete os seus argumentos sobre a impossibilidade da narrativa)
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Maria Teresa fala desse desse dia mágico em que a camioneta da carreira chegou à Vila. Não conta a história de Aline; não conta a sua própria história. Ao longo da narração, nas suas imensas pausas, repetidas vezes insiste que uma história não tem princípio nem fim; que a história de uma única pessoa é já a história do mundo; porque uma única pessoa é já o mundo todo. «Penso ter-lhe falado da impossibilidade da narrativa», diz mais uma vez. É uma tarde de Verão; estamos sentados no terraço duma casa da Aldeia. E, de súbito, Maria Teresa levanta-se, caminha vagarosamente até à guarda de madeira, fica por instantes em silêncio, aponta um lugar indefinido na encosta do outro lado do rio, olha-me de novo; pergunta: «Sabe que estradão é aquele?» Também eu me levanto; também eu caminho até à guarda de madeira; também eu olho a encosta do outro lado do rio. «Aquele é o antigo estradão que ligava à Vila. Foi por ali», continua Maria Teresa, «numa madrugada de Julho de mil novecentos e dezanove, ainda escuro, que João Pequeno chegou à Aldeia, fugido do Posto da Guarda. Atravessou o rio nas poldras e rumou a esta mesma casa. Abriu a cancela do pátio, subiu a escaleira que vem dar ao terraço e bateu a esta janela. Uma história, como vê, não acaba nunca; pode sempre recomeçar. Quer que lhe fale de João Pequeno? Ou os fragmentos do diário do engenheiro das florestas, que Fernanda acabou por oferecer ao professor, continuam a suscitar-lhe curiosidade? Quer acabar a história neste preciso momento? Você é o autor do folhetim; você é que sabe.»

segunda-feira, abril 07, 2008

44.

Quando a manhã avança para o meio dia (conta Maria Teresa e eu acrescento um ponto), e a camioneta da carreira leva enfim atrás de si o tisne e a fuligem, e a luz regressa às folhas recortadas da sempre-noiva, e os gatos da Emília se estiram na pedra do jardim dos Correios, Lalice fica por algum tempo na pedra da entrada do armazém de mobílias a olhar os campos da veiga e a Encosta dos Matos, o polígono apertado da Vila e o céu muito baixo, mesmo quando o céu de Setembro se ergue leve e azul a uma distância sem medida, as ruas apertadas e sujas com galinhas a debicar na terra fresca da base dos muros, homens sem rumo com varas de aguilhada no ombro direito ou de chapéu rodado nas mãos a sair do edifício das Finanças ou da secretaria da Câmara, e sente que nenhuma razão o impele a mover os músculos, a erguer-se da cama cedo de manhã, a deitar-se, a gritar ou a correr pelos campos lavrados das Trindades. É certo que o armazém dista escassos quarenta metros da Pensão Americana e que a vê todos os dias, a ela, Fernanda, chegando-se à rua ou atrás dos vidros da janela grande a compor o cortinado, e que quase sempre almoça junto dela, e às vezes janta, e às vezes partilha o serão, e que é com Fernanda que faz amor quando se deita em casa da Rute numa esteira muito suja ou com uma puta desconhecida do Caneiro, e que tantas vezes ficam por algum tempo sentados à mesa a discutir os episódios do último romance francês da biblioteca de Carlos, o Alferes, que ambos lêem, um depois do outro, e que os aproxima no segredo de uma história feliz ou de uma traição, como se uma história feliz ou a traição das páginas de um livro fossem parte de uma outra história que poderiam ter vivido juntos. Mas não é a mesma coisa. Lalice perdeu a ilusão de que tudo poderia ser diferente, de que tudo poderia começar de novo: antes da chegada da camioneta da carreira, antes da tempestade. Não. Já nada poderia ser a mesma coisa depois dessa noite de há muitos anos em que topou com o engenheiro na cama de Fernanda, e o obrigou a sair da Pensão e a subir à Colina da Raia, e o suspendeu de uma corda carral, e o queimou com um archote aceso até o seu rosto ficar irreconhecível.

sábado, abril 05, 2008

43.

Este sol da meia manhã de fins de Setembro é um bálsamo. O doutor Magalhães olha o largo quase deserto. A camioneta da carreira partiu finalmente, Lalice regressa à oficina dos toscos, Luísa atravessa o largo a caminho da Pensão Americana, a saia quase à altura dos joelhos, um decote furqueiro, o cabelo apanhado num pregador colorido. «Há-de vir do Matias, de comprar louça fina para o cara de cu comer um escabeche.» Tudo começou, há já muitos anos, com a chegada do engenheiro das florestas. Foi preciso que morresse para que o Pai Ventura e a Vila regressassem à paz antiga e deixasse de se ouvir o ladrar dos cães engolidos na corrente invernosa da Ribeira do Fontão. E tudo regressasse, por algum tempo, à ordem natural das coisas.

sexta-feira, abril 04, 2008

42.

Dona Carmo. Carminha. Arnaldo Adão, o Lindinho, lembra-se de subir a avenida de Sangunhedo numa corrida; a puxar as golas do sobretudo contra a chuva imprevista. Era uma manhã de domingo; prometera ajudá-la na preparação do jantar dessa noite: nos arranjos de mesa, nos ambientes de luz, nos canapés, nas tartes de noz. «Bem vê, Arnaldo. É a primeira vez que o comité das senhoras reúne em minha casa; não gostaria de desmerecer.» A chuva imprevista, uma bátega de primavera indecisa. Chegou a escorrer água. «Meu Deus, tem que despir já essa roupa, secar-se.» Arnaldo não dizia uma palavra. Não movia um músculo. Carminha aproximou-se. Tirou-lhe o sobretudo encharcado, a camisola molhada. Um perfume leve inebriava-o. Um perfume estranhamente familiar desprendia-se daqueles pulsos muito finos, das suas veias azuis. Ficaram ambos parados. Olhavam-se como quem procura desprender-se de uma mágoa antiga. Carminha estendeu a mão esquerda, mordeu o lábio inferior, tocou-lhe na face muito devagar. Um dilúvio. O barulho da água no telhado, a adivinhar-se contra os vidros das janelas para além dos cortinados corridos, na Ribeira do Fontão, na Encosta dos Matos. Um diante do outro. O vestido de Carminha a cair a seus pés. Lá fora um dilúvio. Ela pegou-lhe na mão, levou-o para o quarto, entraram no quarto, na penumbra do quarto, a chuva puxada pelo vento da barra. Como se tivesse que ser. Como se estivesse escrito nas folhas dos negrilhos. O seu corpo nu a desprender um perfume leve, um perfume estranhamente familiar. O mesmo perfume da Joaninha Custódio, da roupa interior da Joaninha Custódio, recordou-se finalmente Arnaldo Adão, o Lindinho, distraído por instantes, antes de acabar de se despir e se deitar a seu lado.

quinta-feira, abril 03, 2008

41.

O engenheiro foi o primeiro hóspede da Pensão Americana, da velha casa de pasto do Mendes, estávamos em mil oitocentos e oitenta e nove, Fernanda era ainda uma criança, teria quê? dezasseis anos. Os cães ladravam sempre à sua passagem. Até àquela noite de Novembro, um ano depois de ter chegado. Encontraram-no morto, suspenso de uma corda no carvalho da Colina da Raia. Essa a que agora chamam a Colina do Engenheiro. Enforcado. Diz-se que tinha os olhos queimados: a pele arroxeada, escamada, fendida, como se um incêndio houvesse lavrado a noite toda no interior do seu corpo. Será verdade que o Pai Ventura o queimou, devagar, com um archote aceso na noite escura de Novembro, e que ele mesmo o dependurou da corda carral?
40.

O Lindinho tinha fama de maricas. Passava o tempo a ler romances ou a ajudar as senhoras em tarefas femininas: arranjos de flores secas, decorações de natal, centros de mesa, papéis recortados, vidrinhos de terra, pintura em cerâmica, ovos de páscoa, fustes coloridos, redacção de convites com volutas desenhadas a tinta-da-china, escolha de tecidos para cortinados, conseguir um ponto de caramelo, preparar um bouquet garni ou um clafouti de maçã reineta. O Agenor, por sua vez, espumava da boca, em público, a olhar um tornozelo. E quase todas as segundas-feiras, logo de manhã, chamando o Lindinho ao varandim das traseiras do edifício das Finanças, puxando de um cigarro, contava-lhe pormenores das aventuras de sábado à noite na casa da Rute. «Gostava de o levar lá uma destas vezes, Arnaldo. Aos sábados, menino, como é que lhe hei-de explicar? Mas você. Olhe que aquilo não morde.» E então olhavam na direcção da casa de Carminho, dona Carmo. À distância de trinta a quarenta passos, parcialmente encoberta pela ramagem de uma nogueira, adivinham-se-lhe as pernas até um pouco acima dos joelhos, o pescoço descoberto. Damásio Martins não vem há uns três anos à Vila. «Eu queria lá saber dos Estados Unidos do Brasil e da árvore das patacas. É como lhe digo: há gente que não sabe dar valor ao que tem.»

quarta-feira, abril 02, 2008

39.

No dia dezassete de Novembro de mil oitocentos e oitenta e nove, pelo fim da manhã, os cães do Pai Ventura começaram a ladrar, correram pelo perímetro do pátio espumando pela boca, acabaram por saltar o portão de ferro, seguiram pela estrada do Noro, rumaram ao lameiro das Águas de Lima, enfiaram-se na Presa do Moinho Velho, desceram ao gralheiro, morreram afogados na correnteza gelada. O engenheiro da floresta, do outro lado da margem, nervoso, assustado, tinha puxado da pistola automática. Lúcio Raposo conta: «os olhos dos bichos parece que luziam. Ficaram por um cibo a espernear na correnteza; depois desapareceram. Ladravam sempre. Debaixo de água, e ladravam. Ainda prendi a arreata da mula à amoreira grande e intentei chegar-me a eles. Mas o engenheiro apontou-me o pistolo e parou-me logo: que justara um carregador, que andasse. Eu estremeci: aquilo os animais só podia ser ao engenheiro que ladrassem. Estive para o mandar à puta que o pariu; mas temi.» O Pai Ventura, numa corrida, chegou à Curva da Amoreira Grande, olhou a corrente das águas. Durante muito tempo ouviria os cães a ladrar: o seu eco, talvez; o som a perder-se e a multiplicar-se na abóbada do vale; a embater na Pedra da Seixa; a regressar à curva do Noro; a perder-se depois na Encosta dos Matos; a regressar ainda, de novo, à linha sinuosa do talvegue. «O Pai Ventura estava como louco. Atravessou a ribeira, chegou encharcado à beira de nós, ficou a olhar-nos demorosamente. A olhar-nos, lembro-me; a olhar sobretudo o engenheiro e a perguntar quem era o cara de caralho que lhe punha assim os cães. Até que voltou à margem, correu ao juzante, passou a tarde à procura dos bichos: no remanso de Onde se Juntam os Rios, na Presa das Tílias, no Voluntário. No dia seguinte ouvia-se ainda o raio dos cães, ladravam ainda, o Pai Ventura quase enlouquecia, tapava as orelhas com ambas as mãos, durante uma semana não podia a gente sair à rua que os não ouvisse, ao correr das margens da ribeira do Fontão, da Pedra da Seixa à Curva do Noro, da Curva do Noro à Encosta dos Matos, do Alto do Barco de Pedra ao caminho dos Campos das Trindades. Diz-se que o Pai Ventura os ouviu durante muitos meses, todos os dias, como se os bichos estivessem ainda à espera que alguém os retirasse das águas ou como se houvesse ainda alguma coisa que era preciso cumprir.»

terça-feira, abril 01, 2008

38.

Nessa manhã, depois de coser um processo com fio do norte, antes ainda do rumor sobressaltado da carreira se anunciar a caminho do Toural, Arnaldo Adão, o Lindinho, segue o colega ao varandim das traseiras. «Olhe-me aquilo, Arnaldo». Dona Carmo estava sentada no alpendre de casa; a uma distância de trinta ou quarenta passos; com um livro nas mãos. Tinha a saia levantada acima dos joelhos e uma camisa leve quase decotada. Quando o Martins a trouxe do Porto e a passeou a seu lado pela primeira vez, numa noite de Junho, de braço dado, pensou-se que tinha enlouquecido. A Vila não estava preparada para uma puta que se expusesse em público. E Carmo não podia senão ser uma puta. Mas depressa se calou a boca do povo: Carminha fazia vida de casa; saía, quando muito, para ir à igreja e ao Comércio Central: vestidos escuros quase até aos pés, um véu de rendas, palavras quase só de cortesia. Alta, a cintura fina, os olhos fundos, a boca larga marcada por uma linha horizontal, os seios pequenos, as mãos muito brancas, os dedos esguios. «Você olhe-me aquilo, Arnaldo», dizia o Agenor. E via-se que passava a língua pelos lábios como se estivesse com sede.
37.

O doutor Magalhães só então acaba por sentar-se na cadeirinha de lona, enfiar os pés no ligeiro odor a enxofre da água das Caldas Santas, deixar que o sol lhe percorra as pernas e os braços. Olha, franzindo o olhar: o desconhecido avança para a entrada da Pensão Americana; é magro como um espeto. Com a chegada da camioneta da carreira haverá sempre alguém que chega de longe e alguém que parte, alguém que regressa, alguém que acrescenta um nome aos nomes conhecidos, alguém que faz uma pergunta nova, alguém que repete uma pergunta, alguém que responde. Tudo começou há muitos anos: com a chegada do engenheiro das florestas. Um desconhecido, pela primeira vez, não estava de passagem.
36.

Ana Ferreirinha abre a cancela do pátio. As manas Custódias dormem ainda. Acomoda a fazenda; esfrega o soalho; limpa o pó dos móveis, das molduras com retratos a sépia, do serviço das índias, das jarras de cristal; prepara o café das meninas. Uma nuvem de gases e poeira levanta-se no ar da meia manhã de Setembro; as manas correm à varanda; a camioneta da carreira sobe vagarosamente a rua Cinco de Outubro como se chegasse de uma viagem à roda do mundo.
35.

Arnaldo Adão, o Lindinho, ouviu o rumor sobressaltado da camioneta da carreira e vem à janela da repartição de Finanças. Do outro lado da rua, do outro lado de um rectângulo atravessado pelas grades, entre quatro ferros verticais, o rosto de Serapião Afonso recorta-se na penumbra húmida da cadeia civil. O Lindinho estremece: ninguém como ele conhece os segredos da Vila. Suspira e recolhe-se de novo aos livros, apura a caligrafia. O seu trabalho, que desenvolve com invulgar mérito, consiste em dar as entradas e as saídas de correspondência, classificando os documentos por assuntos e resumindo o teor numa letra cursiva que é já quase mítica. Os processos são poucos. Em alguns dias o movimento resume-se a um ofício assinado pelo chefe da repartição em tinta permanente. Ainda assim, aplicando-se sobre as páginas gigantes do livro de correspondência expedida, ligeiramente curvado e com o antebraço dobrado em ângulo recto no ressalto da estante, Arnaldo Adão concentra-se durante duas horas no seu mister até passar o mata-borrão sobre a última letra ou sinal gráfico e o Agenor se levantar da secretária e aprovar a obra-prima num lento e concentrado semicerrar das pálpebras.

segunda-feira, março 31, 2008

34.

Dias seguidos, um depois do outro, olhando pela janela contra o edifício das Finanças, ou subindo ao lancil do pátio e olhando na direcção do que há-de ser a serra da Seixa, para além dos muros altos, Serapião não vê uma árvore. Não há uma árvore: um freixo, um amieiro, uma tília. O bolor, o poder da ruína, a água a escorrer do tecto, mesmo em Setembro, a meio da manhã, em não havendo uma nuvem de chuva ou neblina entre a terra e o céu. E João Pequeno? Não há notícia dele desde essa noite em que se mandou de cabeça pela janela do posto da Guarda, a meio do interrogatório, e desapareceu numa corrida trôpega por entre as macieiras e dois tiros nervosos disparados no escuro por um agente altivo que fizera com eles o exame da terceira classe.
33.

Num clamor, a camioneta da carreira desce ainda o caminho dos Campos das Trindades: mas Margarida vê já o desconhecido a entrar na Pensão Americana, a dizer «muito bom dia», a poisar no chão encerado uma mala de carneira cheia de pó. Margarida sabe que dona Fernanda sabe que esse dia poderá ser diferente; que ela o pressente de um modo difuso. Como se tudo pudesse começar de novo. Como se alguém chegasse e dissesse: aqui uma árvore, aqui um muro alinhado, aqui o caminho do monte, aqui um tanque, aqui uma casa, aqui uma encosta de carvalhos, aqui um ribeiro e suas águas sesserigas, aqui uma pedra, aqui uma fonte. E só então o mundo começasse. E só então a luz do seu corpo não queimasse as mãos e o corpo de quem acredita ainda no amor e não teme acariciar essa pele, enfrentar essa luz poderosa.
32.

Ana Ferreirinha recorda esse dia em que pela primeira vez um aroma forte de erva-cidreira se ergueu dentro de casa; um odor intenso como se pudesse tocar-se, como se pesasse nas mãos abrindo-as em palma, como se poisasse no escano, como se poisasse na mesa, como se fosse ficar para sempre entranhado no chão de terra batida. Recorda esse dia em que pela primeira vez se sentiu a si mesma: como se as águas do mundo, subterrâneas, se movessem de súbito e o seu corpo estremecesse num invisível sobressalto. Nesse dia, nessa manhã de Novembro, noite ainda, com o escuro atravessado pelo silêncio do vale: quatro luas depois de lhe faltarem as regras. Nessa manhã de Novembro o aroma intenso da erva-cidreira encheu a casa; um perfume espesso que podia tocar-se com as mãos. E então adormeceu. E, nítida, no sonho, uma voz que saía do interior do seu corpo: «mãe». E no dia seguinte, nessa manhã de Novembro a seguir à outra manhã de Novembro, o aroma leve da murta encheu a casa e ela adormeceu. E, nítida, noite ainda, com o silêncio do mundo a rebentar numa nuvem de sombra, de súbito, uma voz que saía do interior do seu corpo: «mãe». Todos os dias, dia após dia, cedo de manhã, noite ainda, um perfume diferente e, em adormecendo, uma voz que saía do interior do seu corpo: «mãe». E depois: «mãe, o vento». Ou: «mãe, as águas frias». Ou: «mãe, o céu, o azul, uma árvore, a chuva». [Não se ria – diz-me Maria Teresa. Não se ria: que sabe você das coisas do mundo?] Pedro nasceu de cinco meses e nunca mais disse uma palavra. Pedro, o Louco. Ana Ferreirinha recorda: tinha acabado de esfregar o chão da varanda da casa do largo, estava quase a sair. Nisto vê o doutor Magalhães num alvoroço; vinha da Pensão Americana; subiu a escaleira exterior, aproximou-se numa corrida, agarrou-a por um braço, fechou-a no quarto, deitou-a na cama, despiu-a com fúria. Parecia que escaldava, que as mãos e os braços e as pernas tinham saído de dentro de um incêndio na floresta. Dois meses depois ganhou coragem, disse-lhe: «estou grávida de vossa excelência».

domingo, março 30, 2008

31.

Pelo rectângulo da janela atravessada pelas grades (conta Maria Teresa) vê-se uma fita estreita de azul poisada nas telhas do edifício das Finanças. São dez e pouco da manhã. Não há uma nuvem de chuva ou neblina entre a terra e o céu. A camioneta da carreira segue a caminho do largo do Toural num rumor sobressaltado; não tarda que os gases e a poeira venham misturar-se à sombra húmida que desliza do pátio interior e depois se espalha pelo chão e pelas paredes da cela. Pelo rectângulo da janela atravessada por quatro ferros verticais vê-se por instantes a camioneta da carreira a passar em frente às Finanças. E depois uma nuvem de gases e poeira. Há vinte e seis meses exactos, subindo ao Alto da Ribeira, a patrulha da Guarda dá-lhes voz de prisão. Serapião Afonso e João Pequeno vêem-se de novo no posto da Guarda, de onde tinham saído ao fim da manhã. Mas agora a coisa fia mais fino: o doutor Magalhães aparece à entrada da porta acompanhado de Américo Matias; vêm com cara de caso. «Os senhores são acusados de assalto ao cofre da câmara municipal», dizia o cabo Mateus, «e há testemunhas idóneas. Aqui presentes, aliás». Que os viram a entrar no edifício pela banda do quelho, pela janela lateral que forçaram e retiraram do engonço; que estava era arrependido de os não ter encarcerado logo de manhã quando começaram a armar confusões no Toural com o Cardoso à mor da merda das vacas; que agora o que era preciso era repor o dinheirinho do cofre das receitas, e pronto.