quinta-feira, abril 03, 2008

40.

O Lindinho tinha fama de maricas. Passava o tempo a ler romances ou a ajudar as senhoras em tarefas femininas: arranjos de flores secas, decorações de natal, centros de mesa, papéis recortados, vidrinhos de terra, pintura em cerâmica, ovos de páscoa, fustes coloridos, redacção de convites com volutas desenhadas a tinta-da-china, escolha de tecidos para cortinados, conseguir um ponto de caramelo, preparar um bouquet garni ou um clafouti de maçã reineta. O Agenor, por sua vez, espumava da boca, em público, a olhar um tornozelo. E quase todas as segundas-feiras, logo de manhã, chamando o Lindinho ao varandim das traseiras do edifício das Finanças, puxando de um cigarro, contava-lhe pormenores das aventuras de sábado à noite na casa da Rute. «Gostava de o levar lá uma destas vezes, Arnaldo. Aos sábados, menino, como é que lhe hei-de explicar? Mas você. Olhe que aquilo não morde.» E então olhavam na direcção da casa de Carminho, dona Carmo. À distância de trinta a quarenta passos, parcialmente encoberta pela ramagem de uma nogueira, adivinham-se-lhe as pernas até um pouco acima dos joelhos, o pescoço descoberto. Damásio Martins não vem há uns três anos à Vila. «Eu queria lá saber dos Estados Unidos do Brasil e da árvore das patacas. É como lhe digo: há gente que não sabe dar valor ao que tem.»

quarta-feira, abril 02, 2008

39.

No dia dezassete de Novembro de mil oitocentos e oitenta e nove, pelo fim da manhã, os cães do Pai Ventura começaram a ladrar, correram pelo perímetro do pátio espumando pela boca, acabaram por saltar o portão de ferro, seguiram pela estrada do Noro, rumaram ao lameiro das Águas de Lima, enfiaram-se na Presa do Moinho Velho, desceram ao gralheiro, morreram afogados na correnteza gelada. O engenheiro da floresta, do outro lado da margem, nervoso, assustado, tinha puxado da pistola automática. Lúcio Raposo conta: «os olhos dos bichos parece que luziam. Ficaram por um cibo a espernear na correnteza; depois desapareceram. Ladravam sempre. Debaixo de água, e ladravam. Ainda prendi a arreata da mula à amoreira grande e intentei chegar-me a eles. Mas o engenheiro apontou-me o pistolo e parou-me logo: que justara um carregador, que andasse. Eu estremeci: aquilo os animais só podia ser ao engenheiro que ladrassem. Estive para o mandar à puta que o pariu; mas temi.» O Pai Ventura, numa corrida, chegou à Curva da Amoreira Grande, olhou a corrente das águas. Durante muito tempo ouviria os cães a ladrar: o seu eco, talvez; o som a perder-se e a multiplicar-se na abóbada do vale; a embater na Pedra da Seixa; a regressar à curva do Noro; a perder-se depois na Encosta dos Matos; a regressar ainda, de novo, à linha sinuosa do talvegue. «O Pai Ventura estava como louco. Atravessou a ribeira, chegou encharcado à beira de nós, ficou a olhar-nos demorosamente. A olhar-nos, lembro-me; a olhar sobretudo o engenheiro e a perguntar quem era o cara de caralho que lhe punha assim os cães. Até que voltou à margem, correu ao juzante, passou a tarde à procura dos bichos: no remanso de Onde se Juntam os Rios, na Presa das Tílias, no Voluntário. No dia seguinte ouvia-se ainda o raio dos cães, ladravam ainda, o Pai Ventura quase enlouquecia, tapava as orelhas com ambas as mãos, durante uma semana não podia a gente sair à rua que os não ouvisse, ao correr das margens da ribeira do Fontão, da Pedra da Seixa à Curva do Noro, da Curva do Noro à Encosta dos Matos, do Alto do Barco de Pedra ao caminho dos Campos das Trindades. Diz-se que o Pai Ventura os ouviu durante muitos meses, todos os dias, como se os bichos estivessem ainda à espera que alguém os retirasse das águas ou como se houvesse ainda alguma coisa que era preciso cumprir.»

terça-feira, abril 01, 2008

38.

Nessa manhã, depois de coser um processo com fio do norte, antes ainda do rumor sobressaltado da carreira se anunciar a caminho do Toural, Arnaldo Adão, o Lindinho, segue o colega ao varandim das traseiras. «Olhe-me aquilo, Arnaldo». Dona Carmo estava sentada no alpendre de casa; a uma distância de trinta ou quarenta passos; com um livro nas mãos. Tinha a saia levantada acima dos joelhos e uma camisa leve quase decotada. Quando o Martins a trouxe do Porto e a passeou a seu lado pela primeira vez, numa noite de Junho, de braço dado, pensou-se que tinha enlouquecido. A Vila não estava preparada para uma puta que se expusesse em público. E Carmo não podia senão ser uma puta. Mas depressa se calou a boca do povo: Carminha fazia vida de casa; saía, quando muito, para ir à igreja e ao Comércio Central: vestidos escuros quase até aos pés, um véu de rendas, palavras quase só de cortesia. Alta, a cintura fina, os olhos fundos, a boca larga marcada por uma linha horizontal, os seios pequenos, as mãos muito brancas, os dedos esguios. «Você olhe-me aquilo, Arnaldo», dizia o Agenor. E via-se que passava a língua pelos lábios como se estivesse com sede.
37.

O doutor Magalhães só então acaba por sentar-se na cadeirinha de lona, enfiar os pés no ligeiro odor a enxofre da água das Caldas Santas, deixar que o sol lhe percorra as pernas e os braços. Olha, franzindo o olhar: o desconhecido avança para a entrada da Pensão Americana; é magro como um espeto. Com a chegada da camioneta da carreira haverá sempre alguém que chega de longe e alguém que parte, alguém que regressa, alguém que acrescenta um nome aos nomes conhecidos, alguém que faz uma pergunta nova, alguém que repete uma pergunta, alguém que responde. Tudo começou há muitos anos: com a chegada do engenheiro das florestas. Um desconhecido, pela primeira vez, não estava de passagem.
36.

Ana Ferreirinha abre a cancela do pátio. As manas Custódias dormem ainda. Acomoda a fazenda; esfrega o soalho; limpa o pó dos móveis, das molduras com retratos a sépia, do serviço das índias, das jarras de cristal; prepara o café das meninas. Uma nuvem de gases e poeira levanta-se no ar da meia manhã de Setembro; as manas correm à varanda; a camioneta da carreira sobe vagarosamente a rua Cinco de Outubro como se chegasse de uma viagem à roda do mundo.
35.

Arnaldo Adão, o Lindinho, ouviu o rumor sobressaltado da camioneta da carreira e vem à janela da repartição de Finanças. Do outro lado da rua, do outro lado de um rectângulo atravessado pelas grades, entre quatro ferros verticais, o rosto de Serapião Afonso recorta-se na penumbra húmida da cadeia civil. O Lindinho estremece: ninguém como ele conhece os segredos da Vila. Suspira e recolhe-se de novo aos livros, apura a caligrafia. O seu trabalho, que desenvolve com invulgar mérito, consiste em dar as entradas e as saídas de correspondência, classificando os documentos por assuntos e resumindo o teor numa letra cursiva que é já quase mítica. Os processos são poucos. Em alguns dias o movimento resume-se a um ofício assinado pelo chefe da repartição em tinta permanente. Ainda assim, aplicando-se sobre as páginas gigantes do livro de correspondência expedida, ligeiramente curvado e com o antebraço dobrado em ângulo recto no ressalto da estante, Arnaldo Adão concentra-se durante duas horas no seu mister até passar o mata-borrão sobre a última letra ou sinal gráfico e o Agenor se levantar da secretária e aprovar a obra-prima num lento e concentrado semicerrar das pálpebras.

segunda-feira, março 31, 2008

34.

Dias seguidos, um depois do outro, olhando pela janela contra o edifício das Finanças, ou subindo ao lancil do pátio e olhando na direcção do que há-de ser a serra da Seixa, para além dos muros altos, Serapião não vê uma árvore. Não há uma árvore: um freixo, um amieiro, uma tília. O bolor, o poder da ruína, a água a escorrer do tecto, mesmo em Setembro, a meio da manhã, em não havendo uma nuvem de chuva ou neblina entre a terra e o céu. E João Pequeno? Não há notícia dele desde essa noite em que se mandou de cabeça pela janela do posto da Guarda, a meio do interrogatório, e desapareceu numa corrida trôpega por entre as macieiras e dois tiros nervosos disparados no escuro por um agente altivo que fizera com eles o exame da terceira classe.
33.

Num clamor, a camioneta da carreira desce ainda o caminho dos Campos das Trindades: mas Margarida vê já o desconhecido a entrar na Pensão Americana, a dizer «muito bom dia», a poisar no chão encerado uma mala de carneira cheia de pó. Margarida sabe que dona Fernanda sabe que esse dia poderá ser diferente; que ela o pressente de um modo difuso. Como se tudo pudesse começar de novo. Como se alguém chegasse e dissesse: aqui uma árvore, aqui um muro alinhado, aqui o caminho do monte, aqui um tanque, aqui uma casa, aqui uma encosta de carvalhos, aqui um ribeiro e suas águas sesserigas, aqui uma pedra, aqui uma fonte. E só então o mundo começasse. E só então a luz do seu corpo não queimasse as mãos e o corpo de quem acredita ainda no amor e não teme acariciar essa pele, enfrentar essa luz poderosa.
32.

Ana Ferreirinha recorda esse dia em que pela primeira vez um aroma forte de erva-cidreira se ergueu dentro de casa; um odor intenso como se pudesse tocar-se, como se pesasse nas mãos abrindo-as em palma, como se poisasse no escano, como se poisasse na mesa, como se fosse ficar para sempre entranhado no chão de terra batida. Recorda esse dia em que pela primeira vez se sentiu a si mesma: como se as águas do mundo, subterrâneas, se movessem de súbito e o seu corpo estremecesse num invisível sobressalto. Nesse dia, nessa manhã de Novembro, noite ainda, com o escuro atravessado pelo silêncio do vale: quatro luas depois de lhe faltarem as regras. Nessa manhã de Novembro o aroma intenso da erva-cidreira encheu a casa; um perfume espesso que podia tocar-se com as mãos. E então adormeceu. E, nítida, no sonho, uma voz que saía do interior do seu corpo: «mãe». E no dia seguinte, nessa manhã de Novembro a seguir à outra manhã de Novembro, o aroma leve da murta encheu a casa e ela adormeceu. E, nítida, noite ainda, com o silêncio do mundo a rebentar numa nuvem de sombra, de súbito, uma voz que saía do interior do seu corpo: «mãe». Todos os dias, dia após dia, cedo de manhã, noite ainda, um perfume diferente e, em adormecendo, uma voz que saía do interior do seu corpo: «mãe». E depois: «mãe, o vento». Ou: «mãe, as águas frias». Ou: «mãe, o céu, o azul, uma árvore, a chuva». [Não se ria – diz-me Maria Teresa. Não se ria: que sabe você das coisas do mundo?] Pedro nasceu de cinco meses e nunca mais disse uma palavra. Pedro, o Louco. Ana Ferreirinha recorda: tinha acabado de esfregar o chão da varanda da casa do largo, estava quase a sair. Nisto vê o doutor Magalhães num alvoroço; vinha da Pensão Americana; subiu a escaleira exterior, aproximou-se numa corrida, agarrou-a por um braço, fechou-a no quarto, deitou-a na cama, despiu-a com fúria. Parecia que escaldava, que as mãos e os braços e as pernas tinham saído de dentro de um incêndio na floresta. Dois meses depois ganhou coragem, disse-lhe: «estou grávida de vossa excelência».

domingo, março 30, 2008

31.

Pelo rectângulo da janela atravessada pelas grades (conta Maria Teresa) vê-se uma fita estreita de azul poisada nas telhas do edifício das Finanças. São dez e pouco da manhã. Não há uma nuvem de chuva ou neblina entre a terra e o céu. A camioneta da carreira segue a caminho do largo do Toural num rumor sobressaltado; não tarda que os gases e a poeira venham misturar-se à sombra húmida que desliza do pátio interior e depois se espalha pelo chão e pelas paredes da cela. Pelo rectângulo da janela atravessada por quatro ferros verticais vê-se por instantes a camioneta da carreira a passar em frente às Finanças. E depois uma nuvem de gases e poeira. Há vinte e seis meses exactos, subindo ao Alto da Ribeira, a patrulha da Guarda dá-lhes voz de prisão. Serapião Afonso e João Pequeno vêem-se de novo no posto da Guarda, de onde tinham saído ao fim da manhã. Mas agora a coisa fia mais fino: o doutor Magalhães aparece à entrada da porta acompanhado de Américo Matias; vêm com cara de caso. «Os senhores são acusados de assalto ao cofre da câmara municipal», dizia o cabo Mateus, «e há testemunhas idóneas. Aqui presentes, aliás». Que os viram a entrar no edifício pela banda do quelho, pela janela lateral que forçaram e retiraram do engonço; que estava era arrependido de os não ter encarcerado logo de manhã quando começaram a armar confusões no Toural com o Cardoso à mor da merda das vacas; que agora o que era preciso era repor o dinheirinho do cofre das receitas, e pronto.
30.

Luísa aproxima-se da porta do quarto em bicos de pés e fica por algum tempo à escuta. Encosta o ouvido à madeira e procura o som metálico de uma mala que se feche, o rumor de uma folha de papel a deslizar na escrivaninha, a ondulação de um lençol a ser puxado para a cabeceira da cama, o barulho da água a correr no lavatório, o cicio de uns lábios a ler uma carta. Não ouve um ruído. É como se o senhor professor nem respirasse. É como se fosse um fantasma. É como se a manhã, de súbito, parasse no tempo e alguém chegasse e dissesse: aqui uma árvore, aqui uma pedra, aqui uma fonte. E só então o mundo pudesse começar.

sábado, março 29, 2008

29.

É escuro ainda; um escuro atravessado pelo silêncio do vale. No escuro da noite, no escuro atravessado pelo silêncio do vale, Ana Ferreirinha levanta-se, veste-se, lava as mãos e a cara no lavatório de zinco. Depois senta-se no escano. Depois espera. Depois a luz começa a entrar em casa, a definir os contornos da masseira, da mesa de comer, da cama de dormir. Depois a luz começa a espalhar-se pelo chão de terra; depois sobe pelas paredes de pedra arrumada; depois um feixe de luz poisa nas suas mãos, entrando pela janela minúscula da parede do fundo, e traz de longe, descendo a Encosta da Mina, subindo pelo talvegue até Onde se Juntam os Rios, seguindo pela vereda da Encosta dos Matos, e depois pela Colina do Engenheiro (a que antigamente se chamava a Colina da Raia), e depois pelo caminho do Toural, e depois descendo de novo até entrar pela janela minúscula da parede do fundo: depois a luz traz de longe o aroma do alecrim. Só então o dia começa. Só então os dias começam verdadeiramente: quando um aroma forte, um aroma intenso, entra com a alba pela janela minúscula da parede do fundo; ou pelo intervalo entre duas telhas levantadas; ou pelas frinchas da porta: só então o dia começa. Porque só então, dentro de si, alguma coisa estremece, alguma coisa lhe diz que está viva, alguma coisa que chega de longe como se as águas subterrâneas se movessem de súbito e o mundo estremecesse numa exalação invisível do ar.

sexta-feira, março 28, 2008

28.

Margarida (conta Maria Teresa) recorda o momento preciso em que a doença de adivinhar o futuro havia de tocá-la para sempre: nessa noite de quinta-feira não conseguia dormir. Durante a ceia havia um silêncio pesado. O pai evitara comentários sobre a chegada do primo Carlos; a mãe levantou-se da mesa para esconder as lágrimas. «Vem ferido?», perguntou. Que não. «Mas depois falamos do teu primo.» Não conseguia dormir: o rumor das águas de lima, o rumor das águas da nascente da mina; o alarido das águas crescendo no quarto: as águas do tanque, a água da ribeira do Fontão, a água da Presa do Moinho. Aos poucos, um a um, começava a identificar os ruídos todos da noite. Não conseguia dormir; as pálpebras cerradas a iludir a vigília. E de súbito, no escuro do quarto, vê a imagem do primo Carlos. Nítida. A imagem do primo: deitado numa cama de ferro da casa do largo, a luz da manhã a entrar pelo rectângulo da janela, a iluminar os losangos da colcha. De quando seria essa imagem? Da manhã do dia seguinte, de um dia qualquer de Setembro do ano seguinte, de um dia qualquer alguns anos depois? O primo regressado da guerra. A sua imagem nítida: deitado numa cama de ferro, os olhos atados a um qualquer momento de sombra que o haveria de acompanhar para sempre, que ficaria para sempre agarrado aos seus olhos, às suas mãos, à sua pele, à sua memória, à sua vida. Margarida não conseguia dormir: o rumor das águas de lima, o rumor das águas da nascente da mina, o alarido das águas crescendo no quarto, as águas do futuro crescendo no interior do seu próprio corpo.
27.

Quando acordou pela primeira vez numa cela escura da cadeia civil, há vinte e seis meses exactos, Serapião compreendeu que estar preso é não ter uma árvore, não ter um rio, não ter uma encosta por onde descer a caminho do rio, não ter a luz da encosta a descer a caminho das margens do rio. Há vinte e seis meses exactos: Serapião Afonso está sentado na mesa grande da taberna da Emília. O ti Alcino vendera nessa manhã a parelha de vacas ao Vicente de Curros. É certo que o negócio estava apalavrado com o Cardoso. Mas o Vicente de Curros olhava os bichos de frente e de trás, mirava-os de cima, ajoelhava-se no chão e apreciava-lhes o ventre, passava-lhes a mão pelos lombelos: a cabeça larga e o focinho negro, o perfil côncavo, o pescoço breve, as nádegas anchas: a Marela de um castanho quase palha, a Joaninha acerejada: ambas com a cornamenta da estirpe, em forma de lira; ambas e duas com fitas coloridas nos chifres untados com azeite. «Sim senhora», repetia o de Curros, «sim senhora». Nisto chega o Cardoso: que o Alcino não tinha nada que vender as vacas sem lhe falar primeiro. «Mas se o negócio nem estava sinalizado, homem», defendia-se o Alcino. «Sinalizava-se», respondia o Cardoso. E sem mais aquelas levanta o pau de lodo e prepara-lhe a investida descendente direita à cabeça. Serapião, num pulo, agarra-lhe o braço, João Pequeno deita-o por terra, a Guarda toma conta da ocorrência; deixam o toural, seguem para o posto em fila quase indiana. Passa do meio-dia quando terminam as inculcas e desandam até novas ordens. Alcino já tem a fazenda descuidada, convida-os para o fim de tarde na taberna da Emília. «Bem o merecendes.» De maneira que assim foi. Sentados na mesa grande, revendo a aventura da manhã, comem iscas de bacalhau e bebem vinho de Anelhe. Emília está de rastos. Nos dias de feira é um corrupio desde o nascer do sol, os homens a matar o bicho com nozes e aguardente, a comer polvo cozido e chicharros de escabeche, a entrar e a sair até ao fim da noite, às vezes madrugada dentro. A taberna, aos poucos, vai ficando vazia; a serradura do chão numa pasta única. Alcino pede mais uma caneca de dois quartilhos de tinto. Chega-lhe com o dedo. Sai às onze da noite. Serapião ampara-lhe os primeiros passos a caminho da rua, diz «vá-me com cuidado, homem», senta-se de novo à mesa grande. Emília traz dois cálices de licor de cereja: «é adoçar a boquinha e putas-ao-sameiro». João pequeno ainda puxa do realejo, cantam depois a ribeirinha num coro desafinado, erguem-se de novo. Emília suspira, fecha o portão pintado de verde. Serapião e João Pequeno seguem agarrados a trautear a ribeirinha, ficam por algum tempo sentados numa pedra do muro, lavam a cara na água do tanque do Toural, sobem ao Alto da Ribeira. Param de novo, cantam ainda, seguem de novo. Nisto a patrulha da Guarda faz-lhes frente, dá-lhes voz de prisão, as espingardas em riste. «Ó mestre, isto há-de ser a brincar», diz o Serapião. «Caluda, e é seguir em frente.» Quando acordou pela primeira vez na cela escura da cadeia civil, há vinte e seis meses exactos, Serapião Afonso compreendeu que estar preso é não ter uma árvore, não ter um rio, não ter uma mata de carvalhos onde procurar a sombra dos meses de Julho.
26.

Ainda antes desse ruído sobressaltado se anunciar na curva do Alto do Barco de Pedra (continua Maria Teresa), e depois descer num clamor a caminho dos Campos das Trindades, Margarida adivinha a chegada da camioneta da carreira, do mesmo modo que adivinha já a chegada da chuva pelo fim da tarde: uma nuvem há-de tocar os pinheiros mais altos da serra da Seixa, e depois atravessar a veiga, e depois a Encosta dos Matos; e depois outra nuvem, ligeiramente mais escura; e só depois um manto da largura do vale; e só depois a chuva. Alguém dirá: «parece impossível, levantei-me cedo, não havia uma nuvem de água ou neblina entre a terra e o céu».

quinta-feira, março 27, 2008

25.

Pelo rectângulo da janela atravessada pelas grades, entre quatro ferros verticais, vê-se uma fita estreita de azul, em não havendo nuvens, poisada nas telhas do edifício das finanças. O resto é sombra. Uma sombra húmida que vem do pátio interior e depois se arrasta pelo chão e pelas paredes das celas: o bolor, o poder da ruína, a água a escorrer do tecto, mesmo em Setembro, a meio da manhã, em não havendo uma nuvem de água ou neblina entre a terra e o céu. Dias seguidos, um depois do outro, olhando pela janela contra o edifício das finanças, ou subindo ao lancil do pátio e olhando na direcção do que há-de ser a serra da Seixa, para além dos muros altos, Serapião Afonso não vê uma árvore. Não há uma árvore: uma árvore de fruto a que pudesse, em começando a abrir, ou quando a flor irrompe contra a memória da neve, derramar-lhe nas folhas um pouco de cal, de cal viva, de cal em pó, misturada no enxofre, muito cedo de manhã, com as gotas ainda do orvalho, ou depois da chuva, quando o odor da terra começa a levantar-se. Uma árvore: um freixo, um amieiro, uma tília; a prata dos álamos; o verde brilhante dos negrilhos jovens, um carvalho negral, o branco dos vidoeiros antes do Inverno.

quarta-feira, março 26, 2008

24.

Dona Fernanda (conta Maria Teresa) escolhe um vestido de festa. É como se tudo pudesse começar de novo. Atrás do balcão corrido da Pensão Americana, vagarosamente, arruma os papéis, o livro de registos. Luísa vem de calafetar as janelas do primeiro andar com panos húmidos e a dizer mal do pó levantado pela camioneta da carreira: tem um sorriso rasgado, a saia quase à altura dos joelhos, um decote de furco, o cabelo apanhado num pregador colorido. Atrás do balcão, à espera, Fernanda muda de sítio o livro de registos, as mãos nervosas, o aroma do alecrim a misturar-se no ar. O desconhecido entra. Abre a porta da pensão, pára por instantes, olha em redor, atravessa o átrio, diz «muito bom dia», poisa no chão encerado uma mala de carneira cheia de pó. Dona Fernanda recorda a primeira vez em que se despiu diante de um homem: foi há tantos anos: a luz do seu corpo a iluminar as paredes do quarto; era impossível olhar de frente esse esplendor; um incêndio. Nua, Fernanda. E então o engenheiro das florestas cerrou os olhos, as mãos de súbito pelo corpo todo numa aflição como se uma doença o atormentasse desde o princípio dos tempos. A arder. Gritou, saiu numa corrida, uma dor que se adivinhava à distância no escuro da noite. Ninguém o viu durante o resto da noite. Na manhã seguinte encontraram-no morto, suspenso de uma corda no carvalho da colina da Raia. Enforcado. Dizem que tinha os olhos queimados: a pele arroxeada, escamada, fendida, como se um incêndio houvesse lavrado a noite toda no interior do seu corpo.
23.

Ainda antes desse ruído sobressaltado se anunciar na curva do Alto do Barco de Pedra, e depois descer num clamor a caminho dos Campos das Trindades, Margarida adivinha a chegada da camioneta da carreira: no imperceptível estremecer das folhas do salgueiro; no bater das asas de um milhafre que se levanta sobre a cumeada; na ondulação ligeira da água do tanque. São dez da manhã. Não há uma nuvem. Margarida acordou cedo, a luz ainda indecisa na colina: se pode chamar-se dormir a esses minutos breves em que uma pequena paz lhe permite cerrar as pálpebras. Durante a noite, durante a noite toda: o ruído da madeira das traves da cozinha, da hera a crescer nas paredes da casa, das águas de lima, da luz do quarto minguante poisada nas telhas e no chão de granito da eira, da nascente da mina: durante toda a noite, dia após dia, ano após ano, Margarida não dorme. É assim há três anos: ouve o mais leve ruído a crescer do interior da terra, da superfície das águas, da folhagem, da ramagem, do voo das aves. Um alarido às vezes insuportável. Há três anos que praticamente não consegue dormir.

terça-feira, março 25, 2008

22.

Américo Matias passa a língua pelos lábios secos. Embrulha vagarosamente as peças, uma a uma, cuidadosamente, dobrando em trapézio as pontas do papel com flores estilizadas. Luísa não usa corpete e não é certo que uma cinta apertada lhe modele as ancas levantadas. Américo recorda: um dia, uma noite de Novembro, ficou até tarde no serão de dona Fernanda. Chovia que deus-e-a-dava. Soprada pelo vento da Seixa, oblíqua, a água entrava por debaixo da portada; a lareira acesa protegia-os da tempestade e do mundo. Luísa adormecera no maple corrido, a cabeça muito perto do seu ombro. Dona Fernanda pediu licença por um minuto, subiu ao primeiro andar a verificar as janelas, «esta chuva que não há meio de parar». Chovia como se chovesse desde sempre. Ficaram sozinhos: Américo e Luísa. E Américo Matias deixou que a sua mão direita se perdesse na cintura de Luísa. Ouvia lá em cima os passos no soalho, uma porta a fechar-se. O vestido tão fino que era possível sentir, passando a mão aberta, vagarosamente, quase sem tocar, mais que a pele, os minúsculos poros da pele. As pernas de Luísa, a curva dos joelhos. Não podia ser que dormisse. Respirava de um modo diferente. [Não sorria (diz Maria Teresa): foi assim que me contaram. Eram outros tempos, claro, a linguagem era outra. Enfim, continuemos...] Chovia que deus-e-a-dava. Soprada pelo vento da Seixa, a água da chuva. Como se chovesse desde sempre. Dona Fernanda desceu. Era tarde. Agora, hoje, uns quatro ou cinco anos depois dessa noite de chuva, na penumbra da loja, lá fora o sol da meia manhã de Setembro, Américo Matias embrulha vagarosamente as peças, uma a uma, cuidadosamente, dobrando em trapézio as pontas do papel com flores estilizadas. O odor do alecrim quase embebeda. Chega da encosta do outro lado do vale, pára por instantes no largo, sobe a rua Direita e seu pequeno labirinto de curvas e veredas adjacentes, desce os três degraus do Comércio Central, cola-se irremediavelmente às estantes envernizadas, ao balcão de castanho, ao papel pardo dos embrulhos, ao fio do norte, às mãos agitadas de Américo Matias. Luísa sai da penumbra da loja sem pressa. As suas ancas iluminam como uma aparição a manhã de Setembro.
21.

Fernanda sobe de novo, despe o roupão, passa a mão esquerda, com volúpia, pelo ventre liso, a luz do seu corpo a iluminar as paredes do quarto [que é como quem diz, claro], a manhã indecisa a entrar pela janela virada ao nascente. Recorda a primeira vez em que se despiu diante de um homem. O engenheiro chegara em Novembro de mil oitocentos e oitenta e nove; passava os dias na serra com a brigada da floresta. À noite, depois da ceia, estendia as cartas topográficas na mesa da sala, os dedos finos, os modos galantes. Em fins de Fevereiro, à experiência, começaram as primeiras sementeiras e plantações: dezenas de homens e mulheres a desmatar a encosta, a abrir covas, o penisco, os pinheiros minúsculos a desenhar uma nova paisagem. À noite, depois da ceia, o engenheiro estendia as cartas topográficas na mesa da sala, os seus modos galantes. A taberna fechava cedo, o engenheiro foi o primeiro hóspede da casa de pasto: só mais tarde a taberna se transformou em pensão. Dona Fernanda recorda: nessa noite ficaram sozinhos na sala, as cartas topográficas estendidas na mesa, os seus dedos finos, os modos estrangeiros. Tinha quê? dezasseis anos. O engenheiro olhou-a nos olhos, tocou-lhe os cabelos, os ombros, o rosto. Era como se mais nada existisse no mundo para além dos seus dedos finos, os modos estrangeiros. E então subiram. [Sabe você (continua Maria Teresa) como me contaram este momento? Que, de súbito, no quarto muito escuro, a luz do corpo nu de Fernanda iluminou as paredes, o jarro com água, o livro de botânica, as velas de sebo, o lavatório, a pequena cómoda. Que, de súbito, no quarto muito escuro, era como se lavrasse um incêndio. Que a luz do seu corpo iluminou as paredes do quarto. Que era impossível olhar de frente esse esplendor.]