quarta-feira, março 19, 2008

14.

Manuel Pequeno, o Piças, entra de novo na taberna. Pede mais um copo de cachaça. Não tarda que as suas pernas e os seus braços, e depois o corpo todo, comecem a traí-lo em movimentos de circo. O ruído sobressaltado de um motor leva-o à rua. A camioneta da carreira sobe vagarosamente a caminho do largo como se chegasse de uma viagem à roda do mundo. Oito passageiros procuram reconhecer as bagagens de entre uma nuvem de pó. Um desconhecido tira o relógio do bolso do colete. Lalice estende na rua um caibro de quinze arrobas. Pedro mistura na manhã de fins de Setembro (como nos romances sul-americanos) um odor intenso a alecrim. O doutor Magalhães, na varanda da casa do largo, acaba por sentar-se na cadeirinha de lona e enfiar as patas na bacia de porcelana. Manuel Pequeno cambaleia por instantes, olha de novo a circunferência do largo. O filho, mais uma vez, não chegou à Vila: como se a camioneta da carreira não acrescentasse nada ao mundo conhecido. Do outro lado do vale, sobre a cumeada, um milhafre continua a planar como se tudo estivesse conforme com a ordem do mundo.
13.

Na rua Direita, entretanto, Américo Matias sobe os três degraus que separam do acesso o espaço amplo da loja envolvida permanentemente por uma gaze de sombra. O Comércio Central tem o monopólio local da pólvora do estado e um completo sortido em artigos funerários, açúcar e café, bacalhau da noruega, arroz, sabão e pregagens, louças de serviço, vidros, miudezas, camisaria, luvas e calçado de Lisboa, chapéus, bolachas e vinho fino, tintas para pinturas, óleos e vernizes. Enquanto a guerra alastrava na Europa, e o Echos recenseava quinzenalmente os soldados do distrito que já não regressariam do front, e o preço do carbonato proibia a iluminação pública semanas a fio, e se consolidava o racionamento do pão e do açúcar, Américo Matias enriquecia e convidava a sociedade elegante da Vila para matinés dançantes com champanhe e biscoitos ingleses. As tradições, na província, perdem-se devagar. A guerra já findou, não há bem que sempre dure. Mas o que é preciso é estar vivo. E Américo roda com volúpia nos dedos grossos a prancha original do convite desenhado pelo Lindinho enquanto uma nuvem cinzenta desce do Toural e anuncia a partida da camioneta da carreira.
12.

Manuel Pequeno (conta Maria Teresa) desce a rua do Toural. Pedro, o Louco, segue-o à distância e senta-se depois no muro dos correios. Fernanda, dona Fernanda, vem à janela da Pensão Americana, afasta os cortinados com suas cornucópias vermelhas e azuis e desaparece de novo. O doutor Magalhães acaba de subir à varanda da casa do largo. Uma nuvem de gases e poeira anuncia a chegada da camioneta da carreira. Lalice fuma um cigarro à porta do armazém de mobílias. Manuel Pequeno entra e sai da taberna, acaba por sentar-se no murete adossado à empena escalavrada, o seu ângulo de visão condicionado ao movimento em arcos de círculo do pescoço e ao trabalho quase mecânico das suas veias muito salientes. O seu corpo estremece quando o olhar, e portanto a cabeça em bloco, sobe à varanda da casa do largo no momento preciso em que o doutor Magalhães puxa uma cadeirinha de lona branca e azul para junto do gradeamento de ferro forjado e arregaça as mangas da camisa em dobras simétricas.

terça-feira, março 18, 2008

11.

[Maria Teresa faz uma pausa e pede-me desculpa pelos «excessos de linguagem», pela «inusitada cópia de pormenores», pela «quantidade de personagens» que vai entrando na narração: «e isto ainda não é nada.» Diz saber que ficarei confuso, que me obrigarei a rever as minhas notas procurando ligações insuspeitas. E defende-se: «Tenho para mim que uma história deve contar-se como nos foi contada; se me contaram assim, assim lha entrego: sem acrescentar um ponto; sem mudar um til. Já quanto ao que disser da minha lavra, enfim, tenho os meus critérios.» Não posso deixar de sorrir: enquanto autor responsável pelo produto final desta história, passando a limpo textos apócrifos e cartas missivas, reproduzindo os diversos relatos, organizando a estrutura narrativa, não procuro outra coisa que não seja não mudar um til. Mas afinal sabemos ambos, eu e Maria Teresa, que a verdade fica sempre algures entre o que se ouve e o que se escreve, o que se viu e o que julgámos ver.]
10.

Pedro, como num romance sul-americano (continua Maria Teresa), escolheu nesse dia o odor do alecrim. Desceu o caminho do Toural e sentou-se no muro dos correios à espera da camioneta da carreira. Não é ainda a alba. Uma leve aragem cresce do rio quando a névoa começa a levantar-se e se estende pelo jardim da casa em ruína. Pedro acorda com o rumor das folhas dos salgueiros, levanta-se da esteira, passa o umbral, recolhe um minúsculo ramo de alecrim, senta-se na escaleira do pátio e olha a luz que há-de começar a levantar-se, em levantando a névoa, sobre os pinheiros mais altos da serra da Seixa. A Vila, não tarda, começará também ela a erguer-se de entre o lixo das ruas, de entre a sombra das paredes escalavradas, de entre a humidade dos muros, de entre o cheiro de excrementos humanos vazados dos alpendres. Homens e mulheres sairão de casa, entrarão em casa, descerão à veiga, subirão ao monte. Muitos haverão de escolher a sombra em vez da luz. A indiferença em vez do alecrim misturado no ar.
9.

Manuel Pequeno, pai de João Pequeno, está sentado no murete da taberna da Emília. Dia após dia, quando as aves da lagoa do Alto da Ribeira começam a afastar-se na direcção das encostas viradas ao norte, em sendo o Verão, e sobrevoam depois a cumeada planando em voos largos, ou rumam à veiga e se acolhem no leito de cheia à procura da precária luz dos meses frios do Outono e do Inverno, Manuel Pequeno desce a caminho do Toural e bebe aguardente com açúcar na taberna da Emília. Nem o álcool traz aos seus olhos uma única luz, um reflexo, um movimento, uma fugidia sombra. Como hoje: a camioneta da carreira chegou pela primeira vez à Vila, parou no Toural, partiu e parou de novo junto ao armazém de mobílias de Lalice. Pedro, o Louco, viu Lalice a levar um caibro de quinze arrobas atravessado um pouco acima da cintura e a estendê-lo de lado a lado na estrada de saibro; e começou a rir-se tão alto que as aves da Corredoura se desprenderam dos ramos das tílias.

segunda-feira, março 17, 2008

8.

Há um odor intenso de alecrim (conta Maria Teresa) misturado no ar de fuligem. Como no primeiro capítulo dos romances sul-americanos. Lalice abriu o portão das traseiras e saiu ao combarro, desviou umas tábuas de esquadria e pegou num caibro de quinze arrobas, levou-o atravessado um pouco acima da cintura e estendeu-o de lado a lado na estrada de saibro; arrumou-se de novo à pedra da entrada e ficou à espera, os braços cruzados, a perna esquerda flectida ligeiramente, até que a camioneta da carreira arrancou e parou quarenta metros depois com a passagem impedida: as crianças num alarido como se tivesse parido a galega. A camioneta parou com o motor ao ralentim. O motorista saiu e pediu «ao cavalheiro, em nome do progresso», que desviasse o pau. E o Lalice ria-se. E perguntou se a camioneta «não fazia cavalinhos». E riu-se de novo. E puxou um novo cigarro (a manhã clara, sem uma nuvem) em gestos de uma lentidão exasperante.
7.

Lá terá as sua razões (continua Maria Teresa) o doutor Magalhães. Que não nasceu ontem. Que já lhe tirou as medidas. Que já viu este filme, que é como quem diz. Olha o desconhecido e senta-se na cadeirinha de lona. Tem o sobrolho carregado e enfia os pés na bacia de porcelana. E sente essa turva exalação do enxofre da água das caldas santas. E deixa que o sol lhe percorra as pernas e os braços. Que a luz inicie os seus trabalhos de lenta depuração. É alérgico à sombra: doença filha da puta. A sombra não o deixa em repouso durante a noite. A sombra a dilacerar-lhe a pele. Noite após noite. Um formigar em hélice. A pele a escamar, a fender, a encapelar. Depois estica o pescoço e vê o desconhecido a entrar na Pensão Americana. E imagina já a Fernanda a estender-lhe a mão, a cumprimentá-lo, talvez a apreciar o seu rosto esquálido, os seus modos estrangeiros. E recorda o dia longínquo em que tocou o corpo de Fernanda. Em que ela se despiu diante de si. Em que a tocou a medo. Como se tivesse medo do seu próprio corpo. Lembra-se. Lembra-se de ter corrido as portadas até a penumbra os envolver em intimidade e silêncio. E de um incêndio, uma espécie de incêndio, de súbito, encher o quarto. E de ver assim esse corpo que desejava tanto a erguer-se numa labareda. A iluminar as paredes quase nuas. A transformar em fogo a última ceia emoldurada em pau de cerejeira. A irromper numa espiral de vertigem. Lembra-se. Lembra-se ainda de ter ousado tocar esse fogo. De quase ter tocado esse fogo. Esse lume leve. E de sair depois numa corrida. Como se ardesse. E de pensar por um instante breve que talvez fugisse de si mesmo e que talvez fugisse para sempre da luz do amor. Da luz em espiral do amor. E depois disso é alérgico à sombra. E precisa da luz. Há doenças do caralho, que parecem de romance, e é bem certo.
6.

Um desconhecido sai da camioneta da carreira. Fica por instantes interdito como se procurasse um ponto de referência. É magro como um espeto. Tem ar de maricas. Tira o relógio do bolso do colete e abre a tampa de prata. Olha depois em direcção ao sol da meia manhã de Setembro com as mãos transparentes em pala: deve estar a confirmar pela ordem do mundo as qualidades mecânicas do seu instrumento suíço de precisão. Depois, sacudindo a poeira do casaco escuro, troca breves palavras com o motorista da camioneta. E avança para a entrada da Pensão Americana. A mala de carneira e passos decididos. Como se um outro mundo, sacudindo a poeira do casaco escuro, pudesse começar (o orgulho, a displicência) a partir das suas frases e do seu modo de olhar em redor.
5.

A camioneta tinha chegado exactamente às dez e quinze. E estava anunciado que a camioneta da carreira chegasse às dez e quinze, duas vezes por semana, do outro lado do mundo. O doutor Magalhães olhou na direcção da casa de mobílias, olhou a camioneta, sentou-se na cadeirinha de lona, sentia-se infeliz, não se teve que não dissesse «veio à tabela a filha da puta».

domingo, março 16, 2008

4.

E então Lalice veio à janela (conta Maria Teresa) e olhou a casa do largo como se também ela pudesse ruir, de súbito, por entre o tisne e a fuligem. O doutor Magalhães acaba de subir à varanda. Puxou a cadeirinha de lona branca e azul para junto do gradeamento de ferro e arregaçou as mangas da camisa em dobras simétricas. Não tardará que venha a sentar-se flectindo cuidadosamente os joelhos e puxando ligeiramente as calças, tirando depois os sapatos de verniz e as peúgas de algodão, enfiando finalmente os pés descamados na bacia de porcelana. Mas por enquanto fica ainda a olhar o perímetro do mundo: a encosta do outro lado do vale, virada ao norte, os pinheiros que a seus olhos se erguem cinzentos e castanhos, o voo de um milhafre sobre a cumeada, a nuvem de gases e poeira que começa a espalhar-se em redor e a precipitar até ao ocre do saibro. Também ele, como Lalice, teme a chegada da camioneta da carreira. Também ele concede que o mundo seja maior que o perímetro da bacia hidrográfica do Terva. Mas custa-lhe admitir que alguém possa chegar de longe; teme que alguém possa chegar e instituir uma nova ordem ou impor um novo conjunto de regras. Porque tudo tinha já os seus limites estabelecidos, as suas fronteiras desenhadas. E a camioneta da carreira trazia consigo, mais que o rumor dos motores e uma nuvem de fuligem, a ameaça do que não tem ainda um nome.

sábado, março 15, 2008

3.

Comecemos, pois (conta Maria Teresa), por essa manhã de fins de Setembro de mil novecentos e vinte e um em que a camioneta da carreira chegou pela primeira vez à Vila. A manhã tinha nascido clara, sem uma nuvem, sem uma aragem a agitar as folhas das árvores. Lalice estava no torno e veio à pedra da entrada. Acendeu um cigarro. No ar, olhando na direcção do nascente, via-se agora uma nuvem de gases e poeira, de cinza e gasóleo queimado, de tisne e fuligem. E Lalice imaginava essa sombra a erguer-se, essa película espessa e peganhosa a revolutear, a alargar-se, a cobrir, aos poucos, a urze da encosta, o espinheiro-da-virgínia do Toural e o jardim dos Correios, os carvalhos da Rua de Cima, os vidoeiros do Noro, a sebe de sempre-noiva, uma nuvem de pó e gasóleo a espalhar-se pelo chão e pelas paredes do armazém de mobílias. «Hão-de foder tudo», dizia Lalice enquanto apagava o cigarro com as botas gaspeadas de couro e desaparecia de novo no armazém iluminado por uma janela larga rasgada ao nascente. «Hão-de foder tudo», dizia, como se a combustão dos gases quebrasse o ciclo do ozono, como se temesse que o gasóleo ou o ruído sobressaltado do motor da camioneta da carreira queimassem as folhas das árvores ou abrissem fendas nas paredes de taipa, como se a sua preocupação fosse o aquecimento global, ou a destruição da camada de ozono, ou o consumo insustentável de recursos fósseis, ou a poluição atmosférica, como se os ecologistas trouxessem do futuro os seus folhetos coloridos em papel reciclado e doutrinassem Lalice contra o ruído sobressaltado dos motores das camionetas. Não: Lalice concedia que o mundo fosse maior que o perímetro da bacia hidrográfica do Terva. Mas o seu mundo era esse: começava nas cumeadas da serra da Seixa, descia a encosta, prolongava-se até à Raposeira, continuava por alturas do Barco de Pedra e fechava, a poente, na Colina do Engenheiro. O resto era apenas um silêncio ameaçador, um rumor de promessas por cumprir. Temia o desconhecido, portanto, e não tanto a fusão dos gelos do Ártico.

sexta-feira, março 14, 2008

2.

Aline (conta Maria Teresa) nasceu em mil novecentos e sessenta e oito. Mas a sua história podia começar no dia distante em que os cães do Pai Ventura morreram afogados na corrente gelada das águas da ribeira do Fontão. Ou umas décadas depois, nessa manhã de Setembro em que a camioneta da carreira chegou à Vila e encontrou o Lalice desavindo. Ou mais tarde ainda, em mil novecentos e cinquenta e nove, quando um topógrafo de Lisboa foi visto a tirar miras na Ponte Pedrinha e se descobriu que uma mulher deslumbrante o acompanhava. É indiferente. Porque as histórias repetem-se ao longo do tempo: só mudam os nomes, os lugares, a paisagem. É como se as pessoas fossem sempre as mesmas. A repetir os mesmos gestos. A insistir nos mesmos erros. Por isso há-de desculpar a minha desatenção quando subverter a cronologia dos factos, quando a inverosimilhança baralhar os fios do relato, quando um personagem desaparecer sem que se lhes dê paradeiro, quando um outro surgir a despropósito.

quinta-feira, março 13, 2008

Capítulo VI

(Onde Maria Teresa acaba por contar a história duma manhã distante de 1921 como se pegasse em peças dispersas de um puzzle, onde vamos percebendo que há histórias que ficam sempre por contar e onde o Autor verdadeiro deste folhetim se limita a transcrever o conto e a acrescentar um ponto)

1.

É-me difícil falar de Aline (diz Maria Teresa). Pela razão simples de que falar dela é também falar de mim. E nós falamos sempre de nós por metáforas. Em abstracto. Nunca falamos verdadeiramente dos nossos medos e nunca falamos verdadeiramente dos nossos desejos. Contamos histórias distorcidas pela impossibilidade da transparência. Mentimos mesmo quando supomos estar a dizer a verdade. Falamos de nós pela voz de um outro que nos olha erguendo defesas. Por isso se usa a expressão «dizer a verdade a mentir». Porque por vezes só é possível dizer a verdade quando a mentira deixa de ser um obstáculo a essa busca da verdade objectiva. Posso falar-lhe de Aline, sim. Mas procurando evitar, em nome do rigor possível, a descrição factual e a cronologia. Dois observadores diferentes descrevem um mesmo evento de modo diverso. Veja como os sindicatos e os governos diferem inevitavelmente na contabilidade do número de grevistas; veja a falta de pudor com que uns e outros falam de forma inconciliável de uma mesma realidade. A manipulação dos factos parece fazer parte intrínseca dos processos de descrição – quando não acreditamos deveras nas mentiras que dizemos. O que nos leva a interrogarmo-nos sobre o que é o real e que mentira é essa a que chamamos verdade.

quinta-feira, março 06, 2008

Capítulo V

(Onde Aline é atravessada por uma imprevista melancolia)

Aline imprime em duas folhas os textos que acaba de escrever. Levanta-se da mesa, vai à varanda, fuma um cigarro. Olha os barcos e o rasto de prata que deixam nas águas, as paredes cinzentas dos antigos armazéns, a alameda de lódãos e a estrada com automóveis correndo a caminho de lugar nenhum. A tarde declina. A sombra começa a descer sobre os telhados e as árvores da cidade. A noite trará as sua luzes, os candeeiros das ruas e das praças, os faróis acesos, o néon, as lâmpadas das casas e dos apartamentos a desenhar-se nos rectângulos das janelas; a noite trará os seus silêncios, os seus segredos, a inquietude. Aline entra de novo, senta-se de novo à mesa. Relê os textos que acaba de escrever e compreende, na memória viva dessas imagens dispersas, a impossibilidade da narrativa. Sorri. E invade-a a estranha melancolia de quem recupera uma parte do mundo que julgava ter perdido para sempre.

quarta-feira, março 05, 2008

5.

O Inverno começava com a sementeira do centeio e os carretos de mato. Queimadas as cavadas, em terreno onde mal entrava o arado, assim fertilizada a terra escassa com as cinzas dos torrões, era o tempo de tirar os guiços dos telheiros e as rachas de carvalho – e começava o Inverno. As noites iam arrefecendo por altura das escanadas do milho; insinuavam-se os namoros nos bailes de realejo; principiavam os serões sucessivos. Os homens adormeciam nos escanos ou, em havendo companhia, ficavam sentados à lareira a beber vinho, a jogar à sueca ou a tentar a chiadela na bisca do nove; as mulheres bordavam enxovais, enchiam as rocas de lã, faziam os fiandeiros para os cobertores, fiavam o linho dos lençóis e das colchas, rasgavam as tiras de roupa velha para os liteiros e os tapetes. Vinha então o vento da barra, a geada e o sincelo, a neve: o tempo corria suspenso de fios invisíveis. Os homens tiravam das cortes os estercos velhos, matavam os porcos que penduravam nas traves das adegas por uma soga de cabedal, aricavam os centeios. As mulheres, houvesse ou não houvesse serão, ficavam em casa. No seu pequeno e imenso mundo. A guardar a casa e o mundo e a garantir que os ramos da oliveira protegiam as suas crianças e os seus homens da tempestade e do relâmpago. (E isto quer dizer o quê?)

terça-feira, março 04, 2008

4.

A memória desse encontro, como um segredo por desvendar, ficará perdida nas folhas das árvores e no sobressaltado voo do milhafre que desce da colina em voo picado. Ele sabe (presume saber) que ela não pode desejá-lo como ele a deseja; ela sabe que lhe está guardado um papel e conhece o lugar das antigas marcações no palco em que lhe é dado mover-se. Por isso olha do lado de dentro da casa; guardada pela obscuridade do interior; ainda a defender-se de si mesma. É uma tarde quente de fim de Verão. Ela olha-o através dos vidros da janela e imagina-o a subir a escaleira, a entrar, a aproximar-se, a ficar por um momento a olhá-la; e depois os seus braços fortes a apertá-la contra a parede, a tocá-la com fúria, a erguer-lhe a saia, a despi-la, a deitá-la no chão de soalho da cozinha. Mas ambos acabam por representar os papéis que lhes estão destinados segundo códigos antigos. Haverão ainda de encontrar-se várias vezes nos meses seguintes, trocar algumas frases breves de circunstância. Até que o mundo separará para sempre as suas vidas. E depois será tarde. É quase sempre tarde quando aprendemos tarde que a transgressão faz parte do jogo.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

3.

[Modernidade, num determinado tempo antigo, significava humanismo: o conceito separava da vasta barbárie a minoria dos que partilhavam os valores da vida e da dignidade e lutavam pela liberdade e os direitos do homem (palavrão, lugar-comum). A modernidade, hoje, confunde-se com a cultura de massas; hoje somos todos modernos (ou ainda menos). Compreender-se-á que a grande exigência do nosso tempo não seja outra que a de nos libertarmos desta modernidade rasca (varrendo-a) sob pena de chafurdarmos todos nela. Um dos caminhos (não o único) para desatar os nós da urdidura passa pela reinvenção da nossa relação com o meio em que nos movemos. Quem são os modernos de hoje? Imagine-se o blogger moderno (nascido, é um supor, em 1975) a ler um texto sobre um mundo que já não existe em que um lenhador deseja uma mulher e em que os amieiros e os freixos da margem do rio servem de enquadramento à cena. O blogger moderno, vindo de comprar umas calças modernas numa loja das periferias urbanas de Lisboa iguais às calças compradas pelo adolescente de Pequim ou de Manchester ou pelo cota de Baião, não apenas haverá de sorrir como, superior, sobranceiro, resistirá com dificuldade a um comentário displicente. Do género: «Ela adivinha o quanto ele a deseja… com o pescoço no cepo. Assim a carga dramatica seria muito melhor! Ah ah eh eh eh» Este seria um comentário digno, verosímil, do blogger moderno que vem de fazer um download pirata (relevem-se as dificuldades ortográficas do comentário). Acontece que o lenhador desse mundo que já não existe estava certo com o seu mundo e aprendia a evoluir dentro dos condicionalismos geográficos, temporais, culturais, em que vivia; o blogger moderno não sabe quanta da urina que mijou ontem vem no copo de água que acabou de beber, e os condicionalismos culturais e ambientais em que se move são os que ele mesmo, ululante, prescreveu. O lenhador dos anos sessenta tem um caminho a percorrer, embora sem consciência perfeita do caminho que percorreu e do caminho que lhe falta percorrer; o blogger moderno julga conhecer o chão que pisa e não intui que, não obstante encontrar-se em plena corrida e pronto para a aceleração, o mais certo é que bata com os cornos contra uma parede invisível erguida (por ele) no caminho que ele mesmo escolheu percorrer.]

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

2.

Ela adivinha o quanto ele a deseja. Consegue sentir o seu desejo no modo como respira ou (subindo ela a escaleira) faz uma pausa na tarefa de rachar a lenha para poder olhá-la simulando olhar o horizonte. É uma tarde quente de fim de Verão. Os salgueiros e os amieiros, com as suas folhas escuras e os fustes densos, marcam o talvegue do rio. O brilho quase incandescente dos troncos muito brancos das bétulas parece inverosímil. O tojo e a urze, na encosta, não perderam ainda as flores amarelas e roxas. Os robles mais jovens erguem na umbria os troncos lisos de um cinzento ténue. Do lado de dentro da casa, defendida pela obscuridade do interior, ela olha-o através dos vidros da janela a admirar o movimento preciso do corte, os músculos distendidos erguendo o machado, a distensão depois acompanhada de um grito brevíssimo no momento preciso em que a lâmina toca a madeira. Não há uma nuvem. Esse grito e esse som da lâmina a atravessar os paus de lenha, quase simultâneos, quebram o silêncio, a espaços, repercutindo o estampido de um disparo na abóbada do vale.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Capítulo IV

(Onde Aline escreve sobre memórias dispersas)

1.

Deus, a que outros chamam Natureza, formou e aplanou as montanhas, deformou os materiais que tinha sedimentado, colmatou bacias, comprimiu os relevos, juntou e separou blocos continentais, formou fossos tectónicos, afastou continentes, fez o mar avançar pela terra dentro e depois afastar-se; concebeu a chuva e o relâmpago, a neve e o fogo, o poço e a nuvem, a geada e a luz, o dia e a treva; criou os peixes e as aves, os escalos e os gaios, a truta e a calhandra; criou a raposa e o saca-rabos, o cão e a salamandra, a galinha e o lobo, a lebre e o texugo; criou os carvalhos e as faias, a aveleira e o escalheiro, a madressilva e o trovisco, a salsaparrilha e o codorno, a urze e o tojo, o azevinho e a bétula; criou finalmente o Homem para que tudo comandasse; e depois, cansado, retirou-lhe uma costela e criou a Mulher. O mais certo é que fosse já tarde; que a fadiga lhe impedisse a perfeição final. E então, dando a tarefa por terminada, coibiu-a de sentir o desejo e de experimentar o prazer.