segunda-feira, março 17, 2008
A camioneta tinha chegado exactamente às dez e quinze. E estava anunciado que a camioneta da carreira chegasse às dez e quinze, duas vezes por semana, do outro lado do mundo. O doutor Magalhães olhou na direcção da casa de mobílias, olhou a camioneta, sentou-se na cadeirinha de lona, sentia-se infeliz, não se teve que não dissesse «veio à tabela a filha da puta».
domingo, março 16, 2008
E então Lalice veio à janela (conta Maria Teresa) e olhou a casa do largo como se também ela pudesse ruir, de súbito, por entre o tisne e a fuligem. O doutor Magalhães acaba de subir à varanda. Puxou a cadeirinha de lona branca e azul para junto do gradeamento de ferro e arregaçou as mangas da camisa em dobras simétricas. Não tardará que venha a sentar-se flectindo cuidadosamente os joelhos e puxando ligeiramente as calças, tirando depois os sapatos de verniz e as peúgas de algodão, enfiando finalmente os pés descamados na bacia de porcelana. Mas por enquanto fica ainda a olhar o perímetro do mundo: a encosta do outro lado do vale, virada ao norte, os pinheiros que a seus olhos se erguem cinzentos e castanhos, o voo de um milhafre sobre a cumeada, a nuvem de gases e poeira que começa a espalhar-se em redor e a precipitar até ao ocre do saibro. Também ele, como Lalice, teme a chegada da camioneta da carreira. Também ele concede que o mundo seja maior que o perímetro da bacia hidrográfica do Terva. Mas custa-lhe admitir que alguém possa chegar de longe; teme que alguém possa chegar e instituir uma nova ordem ou impor um novo conjunto de regras. Porque tudo tinha já os seus limites estabelecidos, as suas fronteiras desenhadas. E a camioneta da carreira trazia consigo, mais que o rumor dos motores e uma nuvem de fuligem, a ameaça do que não tem ainda um nome.
sábado, março 15, 2008
Comecemos, pois (conta Maria Teresa), por essa manhã de fins de Setembro de mil novecentos e vinte e um em que a camioneta da carreira chegou pela primeira vez à Vila. A manhã tinha nascido clara, sem uma nuvem, sem uma aragem a agitar as folhas das árvores. Lalice estava no torno e veio à pedra da entrada. Acendeu um cigarro. No ar, olhando na direcção do nascente, via-se agora uma nuvem de gases e poeira, de cinza e gasóleo queimado, de tisne e fuligem. E Lalice imaginava essa sombra a erguer-se, essa película espessa e peganhosa a revolutear, a alargar-se, a cobrir, aos poucos, a urze da encosta, o espinheiro-da-virgínia do Toural e o jardim dos Correios, os carvalhos da Rua de Cima, os vidoeiros do Noro, a sebe de sempre-noiva, uma nuvem de pó e gasóleo a espalhar-se pelo chão e pelas paredes do armazém de mobílias. «Hão-de foder tudo», dizia Lalice enquanto apagava o cigarro com as botas gaspeadas de couro e desaparecia de novo no armazém iluminado por uma janela larga rasgada ao nascente. «Hão-de foder tudo», dizia, como se a combustão dos gases quebrasse o ciclo do ozono, como se temesse que o gasóleo ou o ruído sobressaltado do motor da camioneta da carreira queimassem as folhas das árvores ou abrissem fendas nas paredes de taipa, como se a sua preocupação fosse o aquecimento global, ou a destruição da camada de ozono, ou o consumo insustentável de recursos fósseis, ou a poluição atmosférica, como se os ecologistas trouxessem do futuro os seus folhetos coloridos em papel reciclado e doutrinassem Lalice contra o ruído sobressaltado dos motores das camionetas. Não: Lalice concedia que o mundo fosse maior que o perímetro da bacia hidrográfica do Terva. Mas o seu mundo era esse: começava nas cumeadas da serra da Seixa, descia a encosta, prolongava-se até à Raposeira, continuava por alturas do Barco de Pedra e fechava, a poente, na Colina do Engenheiro. O resto era apenas um silêncio ameaçador, um rumor de promessas por cumprir. Temia o desconhecido, portanto, e não tanto a fusão dos gelos do Ártico.
sexta-feira, março 14, 2008
Aline (conta Maria Teresa) nasceu em mil novecentos e sessenta e oito. Mas a sua história podia começar no dia distante em que os cães do Pai Ventura morreram afogados na corrente gelada das águas da ribeira do Fontão. Ou umas décadas depois, nessa manhã de Setembro em que a camioneta da carreira chegou à Vila e encontrou o Lalice desavindo. Ou mais tarde ainda, em mil novecentos e cinquenta e nove, quando um topógrafo de Lisboa foi visto a tirar miras na Ponte Pedrinha e se descobriu que uma mulher deslumbrante o acompanhava. É indiferente. Porque as histórias repetem-se ao longo do tempo: só mudam os nomes, os lugares, a paisagem. É como se as pessoas fossem sempre as mesmas. A repetir os mesmos gestos. A insistir nos mesmos erros. Por isso há-de desculpar a minha desatenção quando subverter a cronologia dos factos, quando a inverosimilhança baralhar os fios do relato, quando um personagem desaparecer sem que se lhes dê paradeiro, quando um outro surgir a despropósito.
quinta-feira, março 13, 2008
1.
É-me difícil falar de Aline (diz Maria Teresa). Pela razão simples de que falar dela é também falar de mim. E nós falamos sempre de nós por metáforas. Em abstracto. Nunca falamos verdadeiramente dos nossos medos e nunca falamos verdadeiramente dos nossos desejos. Contamos histórias distorcidas pela impossibilidade da transparência. Mentimos mesmo quando supomos estar a dizer a verdade. Falamos de nós pela voz de um outro que nos olha erguendo defesas. Por isso se usa a expressão «dizer a verdade a mentir». Porque por vezes só é possível dizer a verdade quando a mentira deixa de ser um obstáculo a essa busca da verdade objectiva. Posso falar-lhe de Aline, sim. Mas procurando evitar, em nome do rigor possível, a descrição factual e a cronologia. Dois observadores diferentes descrevem um mesmo evento de modo diverso. Veja como os sindicatos e os governos diferem inevitavelmente na contabilidade do número de grevistas; veja a falta de pudor com que uns e outros falam de forma inconciliável de uma mesma realidade. A manipulação dos factos parece fazer parte intrínseca dos processos de descrição – quando não acreditamos deveras nas mentiras que dizemos. O que nos leva a interrogarmo-nos sobre o que é o real e que mentira é essa a que chamamos verdade.
quinta-feira, março 06, 2008
Aline imprime em duas folhas os textos que acaba de escrever. Levanta-se da mesa, vai à varanda, fuma um cigarro. Olha os barcos e o rasto de prata que deixam nas águas, as paredes cinzentas dos antigos armazéns, a alameda de lódãos e a estrada com automóveis correndo a caminho de lugar nenhum. A tarde declina. A sombra começa a descer sobre os telhados e as árvores da cidade. A noite trará as sua luzes, os candeeiros das ruas e das praças, os faróis acesos, o néon, as lâmpadas das casas e dos apartamentos a desenhar-se nos rectângulos das janelas; a noite trará os seus silêncios, os seus segredos, a inquietude. Aline entra de novo, senta-se de novo à mesa. Relê os textos que acaba de escrever e compreende, na memória viva dessas imagens dispersas, a impossibilidade da narrativa. Sorri. E invade-a a estranha melancolia de quem recupera uma parte do mundo que julgava ter perdido para sempre.
quarta-feira, março 05, 2008
O Inverno começava com a sementeira do centeio e os carretos de mato. Queimadas as cavadas, em terreno onde mal entrava o arado, assim fertilizada a terra escassa com as cinzas dos torrões, era o tempo de tirar os guiços dos telheiros e as rachas de carvalho – e começava o Inverno. As noites iam arrefecendo por altura das escanadas do milho; insinuavam-se os namoros nos bailes de realejo; principiavam os serões sucessivos. Os homens adormeciam nos escanos ou, em havendo companhia, ficavam sentados à lareira a beber vinho, a jogar à sueca ou a tentar a chiadela na bisca do nove; as mulheres bordavam enxovais, enchiam as rocas de lã, faziam os fiandeiros para os cobertores, fiavam o linho dos lençóis e das colchas, rasgavam as tiras de roupa velha para os liteiros e os tapetes. Vinha então o vento da barra, a geada e o sincelo, a neve: o tempo corria suspenso de fios invisíveis. Os homens tiravam das cortes os estercos velhos, matavam os porcos que penduravam nas traves das adegas por uma soga de cabedal, aricavam os centeios. As mulheres, houvesse ou não houvesse serão, ficavam em casa. No seu pequeno e imenso mundo. A guardar a casa e o mundo e a garantir que os ramos da oliveira protegiam as suas crianças e os seus homens da tempestade e do relâmpago. (E isto quer dizer o quê?)
terça-feira, março 04, 2008
A memória desse encontro, como um segredo por desvendar, ficará perdida nas folhas das árvores e no sobressaltado voo do milhafre que desce da colina em voo picado. Ele sabe (presume saber) que ela não pode desejá-lo como ele a deseja; ela sabe que lhe está guardado um papel e conhece o lugar das antigas marcações no palco em que lhe é dado mover-se. Por isso olha do lado de dentro da casa; guardada pela obscuridade do interior; ainda a defender-se de si mesma. É uma tarde quente de fim de Verão. Ela olha-o através dos vidros da janela e imagina-o a subir a escaleira, a entrar, a aproximar-se, a ficar por um momento a olhá-la; e depois os seus braços fortes a apertá-la contra a parede, a tocá-la com fúria, a erguer-lhe a saia, a despi-la, a deitá-la no chão de soalho da cozinha. Mas ambos acabam por representar os papéis que lhes estão destinados segundo códigos antigos. Haverão ainda de encontrar-se várias vezes nos meses seguintes, trocar algumas frases breves de circunstância. Até que o mundo separará para sempre as suas vidas. E depois será tarde. É quase sempre tarde quando aprendemos tarde que a transgressão faz parte do jogo.
sexta-feira, fevereiro 29, 2008
[Modernidade, num determinado tempo antigo, significava humanismo: o conceito separava da vasta barbárie a minoria dos que partilhavam os valores da vida e da dignidade e lutavam pela liberdade e os direitos do homem (palavrão, lugar-comum). A modernidade, hoje, confunde-se com a cultura de massas; hoje somos todos modernos (ou ainda menos). Compreender-se-á que a grande exigência do nosso tempo não seja outra que a de nos libertarmos desta modernidade rasca (varrendo-a) sob pena de chafurdarmos todos nela. Um dos caminhos (não o único) para desatar os nós da urdidura passa pela reinvenção da nossa relação com o meio em que nos movemos. Quem são os modernos de hoje? Imagine-se o blogger moderno (nascido, é um supor, em 1975) a ler um texto sobre um mundo que já não existe em que um lenhador deseja uma mulher e em que os amieiros e os freixos da margem do rio servem de enquadramento à cena. O blogger moderno, vindo de comprar umas calças modernas numa loja das periferias urbanas de Lisboa iguais às calças compradas pelo adolescente de Pequim ou de Manchester ou pelo cota de Baião, não apenas haverá de sorrir como, superior, sobranceiro, resistirá com dificuldade a um comentário displicente. Do género: «Ela adivinha o quanto ele a deseja… com o pescoço no cepo. Assim a carga dramatica seria muito melhor! Ah ah eh eh eh» Este seria um comentário digno, verosímil, do blogger moderno que vem de fazer um download pirata (relevem-se as dificuldades ortográficas do comentário). Acontece que o lenhador desse mundo que já não existe estava certo com o seu mundo e aprendia a evoluir dentro dos condicionalismos geográficos, temporais, culturais, em que vivia; o blogger moderno não sabe quanta da urina que mijou ontem vem no copo de água que acabou de beber, e os condicionalismos culturais e ambientais em que se move são os que ele mesmo, ululante, prescreveu. O lenhador dos anos sessenta tem um caminho a percorrer, embora sem consciência perfeita do caminho que percorreu e do caminho que lhe falta percorrer; o blogger moderno julga conhecer o chão que pisa e não intui que, não obstante encontrar-se em plena corrida e pronto para a aceleração, o mais certo é que bata com os cornos contra uma parede invisível erguida (por ele) no caminho que ele mesmo escolheu percorrer.]
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
Ela adivinha o quanto ele a deseja. Consegue sentir o seu desejo no modo como respira ou (subindo ela a escaleira) faz uma pausa na tarefa de rachar a lenha para poder olhá-la simulando olhar o horizonte. É uma tarde quente de fim de Verão. Os salgueiros e os amieiros, com as suas folhas escuras e os fustes densos, marcam o talvegue do rio. O brilho quase incandescente dos troncos muito brancos das bétulas parece inverosímil. O tojo e a urze, na encosta, não perderam ainda as flores amarelas e roxas. Os robles mais jovens erguem na umbria os troncos lisos de um cinzento ténue. Do lado de dentro da casa, defendida pela obscuridade do interior, ela olha-o através dos vidros da janela a admirar o movimento preciso do corte, os músculos distendidos erguendo o machado, a distensão depois acompanhada de um grito brevíssimo no momento preciso em que a lâmina toca a madeira. Não há uma nuvem. Esse grito e esse som da lâmina a atravessar os paus de lenha, quase simultâneos, quebram o silêncio, a espaços, repercutindo o estampido de um disparo na abóbada do vale.
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
1.
Deus, a que outros chamam Natureza, formou e aplanou as montanhas, deformou os materiais que tinha sedimentado, colmatou bacias, comprimiu os relevos, juntou e separou blocos continentais, formou fossos tectónicos, afastou continentes, fez o mar avançar pela terra dentro e depois afastar-se; concebeu a chuva e o relâmpago, a neve e o fogo, o poço e a nuvem, a geada e a luz, o dia e a treva; criou os peixes e as aves, os escalos e os gaios, a truta e a calhandra; criou a raposa e o saca-rabos, o cão e a salamandra, a galinha e o lobo, a lebre e o texugo; criou os carvalhos e as faias, a aveleira e o escalheiro, a madressilva e o trovisco, a salsaparrilha e o codorno, a urze e o tojo, o azevinho e a bétula; criou finalmente o Homem para que tudo comandasse; e depois, cansado, retirou-lhe uma costela e criou a Mulher. O mais certo é que fosse já tarde; que a fadiga lhe impedisse a perfeição final. E então, dando a tarefa por terminada, coibiu-a de sentir o desejo e de experimentar o prazer.
Aline olhou repetidamente as fotografias da casa. Demoradamente. Durante vários dias. E é como se uma parte da sua vida começasse a regressar de um lugar que nunca existiu, de um tempo que chegou a julgar nunca ter vivido. A tristeza e o sobressalto, a melancolia e o desassossego, aos poucos, pareciam juntar-se na memória das coisas. Não havia uma linha condutora, um fio que ligasse um acontecimento a outro, uma lógica, uma cronologia: apenas imagens isoladas emergindo de entre a poeira muita fina de camadas sucessivas de escombros, resíduos, sedimento. Aline sentou-se. Ligou o computador. Abriu um programa de texto. E começou a escrever:
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
1.
Talvez a evidência da precariedade do prazer tenha levado à invenção do amor. Talvez o amor seja o esforço (a ilusão, a vontade) de cimentar esse muro defensivo erguido com tijolos frágeis (Aline intui que o tédio decorre da aceitação da evidência da precariedade do prazer). Talvez o amor, a ser assim, se constitua como uma das mais belas e perfeitas e comoventes construções humanas. Porque, a ser assim, o amor decide-se no território da sua própria impossibilidade; porque, a ser assim, o amor exige a entrega, a permanente disponibilidade, a abdicação do que julgávamos pertencer-nos. Aline reflecte sobre tudo isto e conclui que merece o tédio. Nunca fez nada pela construção do amor; do mesmo modo que nunca fez nada para que a casa que lhe pertencia pudesse verdadeiramente pertencer-lhe.
domingo, fevereiro 24, 2008
Não sei que mais lhe diga. (Há pouco mais a dizer: e algumas dessas coisas, por pertencerem a um reduto de intimidade, não devem dizer-se.) A tragédia, como imagina (conta o dr. João Marcos), ficou agarrada ao pai de Aline como uma doença do corpo. Menos de vinte linhas resumirão tudo o que falta dizer: Aline nasceu num domingo de Páscoa; ele, nesse dia (eu tinha regressado da cidade), procurou-me num alvoroço: mas nem assim um sorriso foi capaz de abrir o seu rosto; deixou a aldeia, claro: foi viver para uma casa que o seu avô tinha deixado à ruína (afastada do mundo: chegava-se por um caminho de pé posto) a jusante da Ponte de Arame; arroteou o pequeno vale confinante, despedregou a encosta, semeou centeio e um milho de regadio, fez uma horta, erigiu um forno, arrumou um curral. Reconstruiu a casa, vagarosamente, uma pedra e depois outra. Ergueu muros. O tempo corria sem aparente agitação ou sobressalto. A Ana Paula nunca mais se ouviu uma palavra. Aline, depois dos seis anos, foi à escola. Passava a semana na aldeia; em casa dos tios. Eu continuei a visitá-lo como se a tragédia não tivesse alterado tudo. Nunca se falou de Luísa. Nunca se falou desse dia em que ela apareceu, ninguém sabe como nem porquê, morta, à hora do casamento da irmã, coberta por um lençol de linho no chão do adro. Desculpe ter falado tanto (e tão pouco). Você perguntou-me apenas se conhecia o pai de Aline; se éramos amigos. Sei lá que lhe diga. A vida é o caralho.
sábado, fevereiro 23, 2008
O tempo raramente cura as feridas. Mas as feridas ficam e o tempo corre. O pai de Aline (conta o dr. João Marcos) acabou por acordar o casamento com a irmã de Luísa. Ana Paula tinha uma beleza e uns modos que não ultrapassavam os limites do decoro. A aldeia não sentiu os perigos insustentáveis da lascívia ou do prazer ostensivo (Luísa desaparecera para sempre). A aldeia, aliviada, estendeu-lhe um chão de alecrim e alfazema a caminho da igreja; ergueu-lhe grinaldas e arcos de loureiro e vinha-virgem. Era um dia muito quente de meados de Maio. Sem uma nuvem. Claro, quase transparente nas mãos inclinadas contra o horizonte. O ar iluminado e leve até à iridescência. Ana Paula entrava na igreja quando se ouviu um grito. As aves ergueram-se dos ramos dos freixos do largo. A aldeia, num sobressalto, correu ao adro: uma criança destapava um lençol de linho na pedra do cruzeiro e o corpo de Luísa, como se estivesse ainda vivo, os olhos abertos e fundos, estendia-se imóvel no chão do fim da manhã de Maio como uma aparição do desassossego.
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
O sobrenatural não configurava um mundo subliminar ou uma entidade desligada do terreno chão e concreto. O sobrenatural (conta o dr. João Marcos) insinuava-se no quotidiano até não haver separação entre o prodígio ou o milagre e a realidade material. O sobrenatural estava presente nas mínimas coisas; misturava-se nelas. Ora acontece que Luísa era duma beleza trágica: porque à sua beleza se acrescentava uma sobranceria que parecia reverter do tédio e da distância. Isso fundava na comunidade um elemento de instabilidade (de desequilíbrio) inaceitável e que só poderia inscrever-se no domínio do oculto. A Luísa, portanto, se começaram a atribuir estranhos poderes; a ela se começaram a associar inusitadas ocorrências. Porque caiu a neblina sobre os campos da veiga no dia em que nasceu uma criança e aí permaneceu, numa nuvem espessa, até que morreu uma outra afogada num poço? Porque caiu um relâmpago na torre da igreja à meia-noite do dia doze de Dezembro e os dois ponteiros do relógio ficaram parados, sobrepostos, apontando ao número doze? Porque começaram a ver-se fogueiras em deriva nos montes saindo dos buracos dos canhotos furados dos torgos da urze? Porque Luísa, necessariamente, tinha estrangeirinha com o demo. O pai de Aline, claro, ria-se de tudo isto. Ele e Luísa continuavam o namoro. Eram vistos de mãos dadas. Tinham casamento marcado. E foi então que Luísa desapareceu. Sem deixar rasto. No dia em que tinha sido vista na cortinha, a manhã inteira, a recolher as giestas de que se faziam as vassouras das bruxas.
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
O pai de Aline (conta o dr. João Marcos) era pouco expansivo. Tímido. Mas de uma timidez que parecia reverter do orgulho. Havia qualquer coisa de nobre, de distintivo, de delicado, no modo como caminhava ou se sentava à mesa ou batia a pedra do isqueiro até iluminar a torcida de trapos. Por isso ficava quase sempre de fora dos jogos raros do mundo rural: os dias festivos associados aos trabalhos do campo. Por isso ficava quase sempre de fora do jogo recorrente de subentendidos e alusões relativos ao sexo. A sexualidade, a ideia de prazer, numa aldeia de montanha, nesse tempo, eram reprimidas até ao exagero. Compreende-se, pois, que estivessem sempre presentes. Mas o pai de Aline era pouco expansivo. E portanto se levou tão a sério a sua paixão sem reservas (pública) por uma mulher. Luísa. Era esse o seu nome. A tragédia, olhando os seus lábios e as suas pernas esguias, os seus olhos fundos, o seu aparente distanciamento das coisas do mundo, era como se estivesse anunciada nas folhas dos negrilhos ou nas páginas dos livros.
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
A infância passou a correr (conta o dr. João Marcos). A infância é um vórtice, um tempo sem cronologia. A infância, verdadeiramente, não existe. A infância é a memória que guardamos dela num tempo futuro. Passa sempre a correr. Passou a correr e eu saí a caminho da cidade. Saí cedo, como lhe disse. Mas tarde de mais para que fosse já possível cortarem-me por inteiro as raízes dos negrilhos que se misturam em nós. Por isso fiquei a fazer parte da terra, agarrado a ela por laços invisíveis e inverosímeis. Regressava muitas vezes. O pai de Aline procurava-me sempre. O fascínio da cidade é imenso num jovem que vive na montanha, afastado do mundo, por detrás de demoradas cumeadas que se sucedem e perdem na distância entre o cinzento e o azul ténue da melancolia. Ele queria saber do mar e das avenidas, das mulheres e dos aviões, dos barcos e da iluminação das praças e dos grandes edifícios do comércio. Sentia o apelo forte do desconhecido mundo. Veja como são as coisas: sentia esse apelo forte e teve várias oportunidades de sair; quase todos os jovens do nosso tempo acabaram por sair. Mas não. Foi ficando, ficou sempre, ficou para sempre. O mais certo é que fosse tarde: que as raízes dos negrilhos se tivessem já misturado, irrevogáveis, à sua pele e ao ar que respirava.
domingo, fevereiro 17, 2008
Capítulo II
(Onde o dr. João Marcos fala do pai de Aline e de um amor tocado pela tragédia)
1.
Claro (conta o dr. João Marcos) que o conheci. Vivemos em casas contíguas. (Não, ele não vivia com os pais. Peço desculpa, mas isso é outra história; e não vem ao caso.) Se éramos amigos? Sim. Quer dizer. A amizade é hoje um conceito volúvel; a frivolidade uma das principais características deste tempo que me foi dado ainda viver. A amizade, então, era um objecto raro. Não sei se deva dizer que a amizade nos tocava um ao outro. Conhecemo-nos, partilhámos uma infância que hoje não saberia classificar entre a ferida e a felicidade, a sombra e o iluminado êxtase. Corríamos nas encostas da urze e nas veredas que seguiam da escola a caminho do vale, pescávamos trutas palmeiras no regato do Covas, guardávamos gado, ajudávamos no campo, armávamos esparrelas aos melros. Mas eu saí cedo. A cidade. Os estudos. O meu tio queria fazer de mim um homem. Eram essas as suas palavras. O meu pai acabou por ceder. O meu tio dizia que as raízes dos negrilhos se misturavam em nós e nos agarravam à terra. Que era preciso cortar cerce essa matéria vegetal incombustível. Para que a pele e o chão da aluvião não acabassem por misturar-se e confundir-se. Mas eu regressava muitas vezes. Sempre que podia. Nos dias festivos. No Verão. Eu era o seu confidente. O pai da Aline contava-me tudo. Pedia conselhos. Partilhávamos medos, júbilos, apreensões. Sim, talvez possa dizer que éramos amigos. Mesmo considerando que a amizade era então um objecto raro, precioso, singular.