quarta-feira, fevereiro 13, 2008
Aline compreende que o tédio há muito enrolou nos seus pulsos os fios da trama. Aline compreende que há muito, na sua vida, o prazer deixou de ser alvoroço e exaltação. Mas Aline sabe (julga saber) que a vida não é possível sem a aceitação desses fios invisíveis que o destino vai tecendo à passagem das horas: entre a alba e a penumbra dos fins de tarde; entre a noite e o seu reverso imperscrutável; entre a aparição e o distanciado sépia dos retratos antigos. Talvez a procura da felicidade implique o prévio reconhecimento da inevitabilidade da tristeza e da incompletude. Talvez o prazer não seja mais que uma fogueira acesa no Inverno; uma lâmpada a iluminar por instantes breves as encostas da umbria; a pedra disparada; o comprimento entre duas ondas sucessivas. E Aline sente-se tentada a pensar que o tédio, provavelmente, delimita um território onde se erguem defesas contra a precariedade do prazer e as incertezas do mundo.
terça-feira, fevereiro 12, 2008
O Poeta, um dos três namorados de Aline nos últimos anos (Manuela não conta), diria agora, chamado a terreiro: «o tédio, Aline, é inversamente proporcional ao desassossego de estar vivo; o tédio, Aline, é a demonstração de que a labareda do prazer se alimenta do seu próprio combustível; há quanto tempo, Aline, uma nuvem não é para ti senão uma nuvem, há quanto tempo não te percorre verdadeiramente a inquietação de um corpo que se deseja, há quanto tempo não choras a olhar a chuva a bater nos vidros das janelas num fim de tarde de Novembro, há quanto tempo não agitas as mãos na água de um tanque a ver a leve ondulação da corrente, há quanto tempo não adormeces com o desassossego de saber que o mundo permanece vivo por dentro dos sonhos?» Isso diria o Poeta, chamado a terreiro, caso o seu depoimento fosse relevante depois da condenação por associação criminosa num processo de roubo de automóveis de luxo. O certo é que Aline encontrou na cidade as suas defesas. Sente-se protegida pelo ruído, pelo anonimato, pelo movimento das ruas. Da varanda do apartamento vê o rio, os barcos e o rasto de prata que deixam nas águas, a outra margem, os telhados dos antigos armazéns, uma alameda com lódãos, uma estrada com automóveis correndo incessantemente a caminho de um lugar de onde um número igual de automóveis parte em sentido contrário. Mas Aline olha a fotografia da casa antiga e sente um súbito sobressalto; uma cicatriz no quotidiano; uma incursão inaceitável nas suas defesas. E parece evidente que o tédio há muito enrolou nos seus pulsos os fios da trama. E parece evidente que há muito, na sua vida, o prazer deixou de ser alvoroço e exaltação.
domingo, fevereiro 10, 2008
O tédio é o contrário do sobressalto. O tédio é uma aranha de silêncio a tecer as suas teias recônditas: a urdidura e a trama. Não é possível definir o momento preciso em que esse delicado tecido, depois de cruzados todos os fios da lançadeira, se mistura na pele e a vai atravessando por osmose: até à indiferença. Aline olha a fotografia da casa e enreda-se na contradição de supor que não viveu uma parte da sua vida e de simultaneamente saber que não poderia deixar de a ter vivido. Aline recorda o desconforto, a solidão, a tempestade, o afastamento do mundo. Imagens vagas: a neve a misturar-se na lama dos caminhos, a água da chuva, muros de pedra, caminhos de terra, as árvores e os bosques. E no entanto uma funda inquietação a percorre e Aline esforça-se por trazer de longe uma imagem nítida, límpida, uma âncora, um momento em que a vida e a sensação de estar viva possam coincidir e fazer sentido: uma imagem nítida, límpida, em vez da sombra e da urdidura do tédio. E só então compreende que é possível ainda o sobressalto e que é preciso começar tudo de novo.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Aline tem nas mãos uma fotografia antiga da casa. Aline viveu dezasseis anos nesta casa afastada do mundo, longe do asfalto, erguida entre a linha de festo e um ligeiro talvegue. A casa é hoje uma ruína. Aline não assistiu ao modo como o telhado foi ganhando um ondulado insólito até o espigão da cumeeira ceder ao Inverno, como a hera e a vinha-virgem treparam as paredes até ocupar as juntas do perpianho e desalinhar as pedras arrumadas, como as portas e as janelas deixaram apenas o vazado dos vãos, como as grades das varandas se inclinaram e desmoronaram no pátio num amontoado de escombros. Aline, muito tempo depois, tem nas mãos uma fotografia da casa a que nunca mais regressou. Olha a fotografia. E descobre, num súbito sobressalto, que a imagem da casa e a memória que tinha da casa são completamente diferentes. Aline olha a fotografia com a estranha sensação de que nunca viveu neste lugar. Como se o tempo tivesse apagado os anos da infância e da adolescência ou como se a infância e a adolescência não tivessem feito parte da sua vida.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
4.
Aline também descobriu muito tarde (quase não acreditava) que havia pessoas a sonhar com a neve e que a neve era "um destino turístico". É verdade que às vezes se desejava a chegada da neve: quando o sincelo persistia dias a fio e o frio ficava entranhado nos ossos e congelava a água dos tanques e dos remansos. Mas a neve, na infância, erguia-se nos caminhos de terra e nas calçadas e misturava-se rapidamente na lama. É verdade que às vezes se desejava a chegada da neve para que a temperatura deixasse de ser insuportável quando as geadas sucessivas espetavam as suas facas de vidro nos largos e nos pátios: mas a neve atravessava o forro dos quartos soprada pelo vento. Ao descobrir que havia pessoas que sonhavam com a neve, Aline esforçou-se por imaginar o prazer de acordar e correr à janela a ver as encostas pintadas de branco. Fechou os olhos por instantes: mas só sentia o desconforto do Inverno e não via mais que a neve muito escura misturada na lama das ruas.
terça-feira, fevereiro 05, 2008
A descoberta da sexualidade é mais precoce no mundo rural porque no mundo rural a sexualidade é mais reprimida. É tão reprimida que está sempre presente. A igreja ajudou ao decidir esconder a sexualidade com uma rede de fios de néon. A ilegitimidade do prazer físico colocou sobre o corpo um lençol opaco que deixou quase tudo à mostra no muito que procurou ocultar. O tema da sexualidade é recorrente no mundo rural e joga-se em permanência num universo de metáforas e alusões em que é inevitável falar do que não se pode dizer. Foder ou matar a fome não andavam longe nos seus pressupostos: libertar o corpo dos seus excessos ou da sua voracidade insustentável. Só muito mais tarde, só muitos anos depois, Aline compreendeu a diferença entre o prazer e o sexo, a pele e o corpo.
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
As ruínas da casa e dos seus anexos são hoje disputadas a preços imoderados. Os promitentes compradores antecipam o prazer de ficar à sombra dos carvalhos centenários numa tarde de Verão, de ver as crianças a jogar à bola na parte de cima do lameiro das águas sesserigas, de subir a escaleira de pedra, de acordar com o silêncio apenas cortado pelo rumor do vento nos ramos das tílias ou da água dos gralheiros do rio. A ironia é imensa: Aline nasceu nesta casa e esta casa e os seus anexos caracterizaram sempre a impossibilidade do prazer. Aline recorda o desconforto, a solidão, a tempestade, o afastamento do mundo. O que faz o tempo: os promitentes compradores privilegiam hoje a ausência de infra-estruturas, o carácter periférico, o isolamento, a distância. Uns antevêem a ideia de prazer exactamente no mesmo objecto que significou para outros o seu reverso.
domingo, fevereiro 03, 2008
Capítulo I
(Onde se apresenta Aline, se reflecte sobre o prazer e o tédio e se fala de uma casa afastada do mundo)
1.
Interrogamo-nos sobre o que é o prazer e descobrimos com surpresa que não há uma definição possível. A ideia de prazer depende de variáveis inúmeras: geográficas, temporais, sociais, culturais. Depende de quase tudo. Numa aldeia do interior, na montanha, nos anos sessenta do século vinte, o prazer poderia decorrer da possibilidade de alguém ficar à noite junto ao fogo da lareira com uma caneca de vinho e um caldo do pote. Hoje, mesmo entre pequenos burgueses, confunde-se facilmente com o hedonismo. Uma finíssima membrana separa o prazer (enquanto libertação das amarras do quotidiano comum) e os seus perigos. A sensação de bem-estar tende para a preguiça, o prazer da comida tende para a gula e o prazer sexual tende para a anulação do desejo. A temperança é uma exigência do prazer e simultaneamente a sua bomba-relógio.
terça-feira, janeiro 29, 2008
Plantar uma árvore
O Inverno
segunda-feira, janeiro 28, 2008
Futebol (quer dizer...)
sábado, janeiro 26, 2008
O que separa
a que separa o balcão da taberna
e as asas do anjo, a traição
e a fidelidade à água das nascentes,
o travertino e o reboco. Subias aos terraços
a olhar o levante
e nenhuma sílaba delimitava
o lume e a nuvem,
os destinos dos marinheiros
e os náufragos
dos romances.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
[Um poema totó a propósito das rimas]
um verso ou nem uma sílaba:
pode faltar quase tudo
e tudo ser quase nada.
Quase nada ou muito pouco:
os botões do teu vestido,
um grão de areia, o deserto,
uma ânfora vazia.
Pode faltar quase tudo,
quase tudo ser tão pouco:
o teu rosto ou uma pérola,
um verso ou nem uma sílaba.
domingo, janeiro 20, 2008
Uma metáfora
verdadeiras.
Que a pérola
era uma metáfora
do amor.
Do mesmo modo
que o amor
era uma metáfora
do fogo.
Tempos Modernos
terça-feira, janeiro 15, 2008
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Em vez das bandeiras
tudo me pertence: a luz
de junho poisada nos taludes
ou nas folhas minúsculas
das cerejeiras bravas, o mapa
das efémeras migrações
dos nomes, os territórios desenhados
nos cadernos de duas linhas
logo depois sujeitos
à voragem dos incêndios.
Não havia fronteiras:
em vez das bandeiras
espetavas na terra lavrada
as varas de lódão.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
O Livro para 2008
Não surpreenderá, assim, que o «rocín flaco» do fidalgo passe, na sua versão, a «pileca à manjedoira»: Aquilino, ao justificar a empreitada da tradução do Quixote (versão mais que tradução) não deixa de invocar a sua «equipagem de escritor»…
Na versão de Aquilino, pois, dificilmente suporíamos que poderia sobreviver uma tradução literal do famoso «de cuyo nombre no quiero acordar-me» - que passará a «o nome amanhã o direi» e que, curiosamente, a paráfrase de Saramago haverá mais tarde de recuperar na Jangada de Pedra ao falar de um lugar de Portugal «de cujo nome nos lembraremos mais tarde».
José Bento, por seu lado (ed. Relógio d’ Água), traduz «de cuyo nombre no quiero acordar-me» por «de cujo nome não me lembro». E defende-se, em rodapé, informando que «querer» é aqui um verbo auxiliar, não se justificando mantê-lo em português. Mas acrescidamente se defenderá na Nota à edição, ao explicar que pretendeu servir o original cingindo-se muito «à sua letra» – seguindo, de resto, o conselho do amigo de Cervantes inscrito no Prólogo da primeira parte: escrever «dando a entender vuestros conceptos sin intricarlos e escurecerlos». Estaria José Bento a pensar nos malefícios da assumida «equipagem de escritor» de Aquilino?…
Claro que o fascínio da abertura do Quixote vem da referência a um vago «lugar» de cujo nome o autor não quer recordar-se. E isso não permite simplificações nem contrapontos.
Além de Miguel Serras Pereira, também os Viscondes de Castilho e Azevedo são fiéis a esse «de cujo nome não quero lembrar-me»; João Bento fica-se pelo «de cujo nome não me lembro»; Aquilino, defendido com a sua «equipagem de escritor», prefere o fascinante e insinuante «o nome amanhã o direi».
Seja como for: a quem se dispuser à leitura do Quixote em português aconselharia sempre a tradução de Miguel Serras Pereira (ed. D. Quixote). Que começa assim: «Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito tempo vivia um fidalgo desses de lança no cabide, adarga antiga, rocim magro e galgo corredor.»

