domingo, fevereiro 03, 2008

Capítulo I

(Onde se apresenta Aline, se reflecte sobre o prazer e o tédio e se fala de uma casa afastada do mundo)

1.

Interrogamo-nos sobre o que é o prazer e descobrimos com surpresa que não há uma definição possível. A ideia de prazer depende de variáveis inúmeras: geográficas, temporais, sociais, culturais. Depende de quase tudo. Numa aldeia do interior, na montanha, nos anos sessenta do século vinte, o prazer poderia decorrer da possibilidade de alguém ficar à noite junto ao fogo da lareira com uma caneca de vinho e um caldo do pote. Hoje, mesmo entre pequenos burgueses, confunde-se facilmente com o hedonismo. Uma finíssima membrana separa o prazer (enquanto libertação das amarras do quotidiano comum) e os seus perigos. A sensação de bem-estar tende para a preguiça, o prazer da comida tende para a gula e o prazer sexual tende para a anulação do desejo. A temperança é uma exigência do prazer e simultaneamente a sua bomba-relógio.

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A Casa a Jusante da Ponte de Arame
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[Folhetim]
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terça-feira, janeiro 29, 2008

Plantar uma árvore

Plantar uma árvore. E procurar sempre um alinhamento, um enquadramento, uma regra, um eixo de simetria, uma proporção. Aqui não há lugar a geometrias variáveis.

O Inverno

Nenhuma outra árvore representa assim o Inverno. Os ramos erguidos das figueiras, nus, sem uma única folha, disponíveis para a sombra e a luz volátil do fim da tarde. Essa luz poisada nos troncos e nos ramos e que chega a poder tocar-se com as mãos. O Inverno assim adormecido numa árvore como se o Tempo ficasse suspenso dos seus próprios nomes.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Futebol (quer dizer...)

O que significa uma vitória: três pontos? Não: a possibilidade de enviar mensagens aos amigos, pagar um copo, falar alto nos restaurantes onde se pode fumar. O Porto poderia ter ganho? Sim. Se os deuses assim o desejassem.

sábado, janeiro 26, 2008

O que separa

É uma membrana tão fina
a que separa o balcão da taberna
e as asas do anjo, a traição
e a fidelidade à água das nascentes,
o travertino e o reboco. Subias aos terraços
a olhar o levante
e nenhuma sílaba delimitava
o lume e a nuvem,
os destinos dos marinheiros
e os náufragos
dos romances.

O jogo da bola

Variações.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

[Um poema totó a propósito das rimas]

O teu rosto ou uma pérola,
um verso ou nem uma sílaba:
pode faltar quase tudo
e tudo ser quase nada.

Quase nada ou muito pouco:
os botões do teu vestido,
um grão de areia, o deserto,
uma ânfora vazia.

Pode faltar quase tudo,
quase tudo ser tão pouco:
o teu rosto ou uma pérola,
um verso ou nem uma sílaba.

domingo, janeiro 20, 2008

Uma metáfora

Pensava que não havia pérolas
verdadeiras.
Que a pérola
era uma metáfora
do amor.
Do mesmo modo
que o amor
era uma metáfora
do fogo.

Tempos Modernos

Se pudesse pedir alguma coisa era que os electrodomésticos não viessem com tantas funções.

terça-feira, janeiro 15, 2008

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Em vez das bandeiras

Poderás então dizer
tudo me pertence: a luz
de junho poisada nos taludes
ou nas folhas minúsculas
das cerejeiras bravas, o mapa
das efémeras migrações
dos nomes, os territórios desenhados
nos cadernos de duas linhas
logo depois sujeitos
à voragem dos incêndios.
Não havia fronteiras:
em vez das bandeiras
espetavas na terra lavrada
as varas de lódão.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

O Livro para 2008

Aquilino Ribeiro, na sua versão do Quixote (ed. Bertrand Editora), ambiciona bem mais que corrigir «entorses», «insuficiências», «inexactidões» de traduções anteriores para português. Mais que ultrapassar esse «breve dano», Aquilino propõe-se corrigir a falta de respeito pelo «carácter da elocução da obra». É obra.

Não surpreenderá, assim, que o «rocín flaco» do fidalgo passe, na sua versão, a «pileca à manjedoira»: Aquilino, ao justificar a empreitada da tradução do Quixote (versão mais que tradução) não deixa de invocar a sua «equipagem de escritor»…

Na versão de Aquilino, pois, dificilmente suporíamos que poderia sobreviver uma tradução literal do famoso «de cuyo nombre no quiero acordar-me» - que passará a «o nome amanhã o direi» e que, curiosamente, a paráfrase de Saramago haverá mais tarde de recuperar na Jangada de Pedra ao falar de um lugar de Portugal «de cujo nome nos lembraremos mais tarde».

José Bento, por seu lado (ed. Relógio d’ Água), traduz «de cuyo nombre no quiero acordar-me» por «de cujo nome não me lembro». E defende-se, em rodapé, informando que «querer» é aqui um verbo auxiliar, não se justificando mantê-lo em português. Mas acrescidamente se defenderá na Nota à edição, ao explicar que pretendeu servir o original cingindo-se muito «à sua letra» – seguindo, de resto, o conselho do amigo de Cervantes inscrito no Prólogo da primeira parte: escrever «dando a entender vuestros conceptos sin intricarlos e escurecerlos». Estaria José Bento a pensar nos malefícios da assumida «equipagem de escritor» de Aquilino?…

Claro que o fascínio da abertura do Quixote vem da referência a um vago «lugar» de cujo nome o autor não quer recordar-se. E isso não permite simplificações nem contrapontos.

Além de Miguel Serras Pereira, também os Viscondes de Castilho e Azevedo são fiéis a esse «de cujo nome não quero lembrar-me»; João Bento fica-se pelo «de cujo nome não me lembro»; Aquilino, defendido com a sua «equipagem de escritor», prefere o fascinante e insinuante «o nome amanhã o direi».

Seja como for: a quem se dispuser à leitura do Quixote em português aconselharia sempre a tradução de Miguel Serras Pereira (ed. D. Quixote). Que começa assim: «Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito tempo vivia um fidalgo desses de lança no cabide, adarga antiga, rocim magro e galgo corredor.»

sábado, dezembro 29, 2007

Os perigos

Ninguém se perde
no estrangeiro ou nas cidades
dos livros. Ninguém se perde
nos labirintos de creta. O problema
é chegar a casa saindo
das ruas do largo
com as chaves no bolso.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Os outros

O problema sempre foram
as más companhias: são os outros
que corrompem. Por
nós, cada um de nós, o mundo
não teria uma nuvem de cinza ou um único muro
erguido a desenhar com alvenarias
as fronteiras
e a intolerância. O problema
do mundo sempre
foram os outros.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Natal

jcb


Boas Festas.

sábado, dezembro 22, 2007

As páginas dos romances

Fazíamos o salto mortal com pirueta à frente
voando com uma venda nos olhos
dos andaimes para o monte de areia da póvoa. As obras
da escola eram a nossa perdição: as fasquias de alumínio,

o ondulado de luzalite das coberturas, o entulho, o ressalto
exacto do encaixe das tijoleiras, o pó quase de talco
dos sacos de cimento da cimpor. Nos sábados à tarde
erguíamos muros no combarro com tijolo de quinze,

marcávamos com estacas de pinho o perímetro
exterior do pavilhão, ligávamos a betoneira a olhar
em sobressalto os movimentos oscilatórios do balde.

Penso que era assim. Às vezes pergunto o que fica
dos livros, o que pertence e não pertence à literatura,
o que acrescentaram à nossa vida as páginas dos romances.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Do que nunca existiu

Os amigos juntam-se e falam do passado, da música
que já não se ouve na rádio, do inverno em que choveu
semanas a fio e o rio saiu das margens para desenhar
nos troncos das árvores os círculos imperfeitos

da idade. Eles sabem para si mesmos que falam
do que nunca existiu: das mulheres que se renderam
para sempre às palavras do amor, das perdizes
caindo de asa nas encostas iluminadas da urze,

das corridas memoráveis do vinte e cinco
de abril, das tardes de domingo que haveriam
de envergonhar a uefa se a televisão estivesse presente

nas finais dos torneios dos bombeiros voluntários.
É disso que os amigos falam: do que a vida poderia
ter sido se não fosse a filha da puta de vida que foi.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Pouco mais

jcb

O que deitámos fora
ou nem chegámos a ter
por indiferença ou lentidão: pouco mais
ou nem tanto
desejamos agora.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Dezembro

foto: A. C.


A chuva diminui a distância
entre nós e as coisas. Um muro, de súbito,
é como se fosse o primeiro e único muro
da infância. E podemos sentir uma estranha melancolia
a olhar os velhos postes de electricidade
com os seus fios
a atravessar as ruas e as casas.