Elas sabiam que aos filhos
os haveria de levar nas águas de novembro
a deriva. Não diziam
a Palavra com medo
dos desastres.
Elas bordavam ao domingo
as toalhas das mesas.
Elas mantinham o lume aceso
durante a tempestade até
chegarem os seus homens. E erguiam
pequenos muros
frágeis de tijolos
refractários.
Elas mudavam de lugar
os objectos e penduravam
papéis coloridos nos arames de roupa
do pátio
onde escreviam um nome.
Elas ficavam assim
a olhar os astros.
Depois os filhos saíam de casa e elas
desciam ao pátio a procurar
na trémula caligrafia
os limites da passagem do Tempo
e cada uma das suas
irrevogáveis
sílabas.
domingo, dezembro 16, 2007
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Nos domingos
Nos domingos de junho dos princípios
dos anos 70 as crianças quebravam
o gume do silêncio sucessivo a ensaiar nas varandas
de cimento os princípios
da levitação.
dos anos 70 as crianças quebravam
o gume do silêncio sucessivo a ensaiar nas varandas
de cimento os princípios
da levitação.
quarta-feira, dezembro 12, 2007
Gardunho
A flecha é a parte mais funda das árvores reflectidas
no açude e as raízes
parecem descer ao longo do fuste aproximando-se
do céu e simultaneamente
fugindo dele. O declive
das encostas cortadas a pique esconde
as cumeadas. Doze
salgueiros erguem uma espécie
de sebe ou guarda-vento.
A casa fica na margem direita do pequeno
vale desenhado de ambos
os lados do rio.
Se alguém chegasse à escaleira da entrada
e gritasse
o eco da sua voz repercutia-se numa abóbada
de silício.
no açude e as raízes
parecem descer ao longo do fuste aproximando-se
do céu e simultaneamente
fugindo dele. O declive
das encostas cortadas a pique esconde
as cumeadas. Doze
salgueiros erguem uma espécie
de sebe ou guarda-vento.
A casa fica na margem direita do pequeno
vale desenhado de ambos
os lados do rio.
Se alguém chegasse à escaleira da entrada
e gritasse
o eco da sua voz repercutia-se numa abóbada
de silício.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
As frases
Vem de muito longe o pó
na tijoleira das entradas das casas. Os mortos
saem dos retratos a sépia
pendurados nas paredes
e parecem tocar-nos
no ombro.
Uma frase desmoronava as barragens
dos desastres. Não era ainda
a noite. Ele deixava as mãos muito levemente
sobre a água
do tanque a experimentar
a imponderável ondulação dos significados.
na tijoleira das entradas das casas. Os mortos
saem dos retratos a sépia
pendurados nas paredes
e parecem tocar-nos
no ombro.
Uma frase desmoronava as barragens
dos desastres. Não era ainda
a noite. Ele deixava as mãos muito levemente
sobre a água
do tanque a experimentar
a imponderável ondulação dos significados.
domingo, dezembro 09, 2007
No tempo das colheitas
No tempo das colheitas
como o ar quente a loucura ascendia
e desenhava uma nuvem
se as mulheres
despiam as saias e tiravam
das gavetas das cómodas
a pérola do lume. Nas varandas
nem a memória ficava do silêncio em vez
da roupa de cor estendida nos arames
tensos.
A dádiva aproximava das hastes do trigo
a água das nascentes.
Alguém subia aos ramos
quase apodrecidos das macieiras
do cedo e dizia assim
eu tivesse o poder
de curar com as mãos.
como o ar quente a loucura ascendia
e desenhava uma nuvem
se as mulheres
despiam as saias e tiravam
das gavetas das cómodas
a pérola do lume. Nas varandas
nem a memória ficava do silêncio em vez
da roupa de cor estendida nos arames
tensos.
A dádiva aproximava das hastes do trigo
a água das nascentes.
Alguém subia aos ramos
quase apodrecidos das macieiras
do cedo e dizia assim
eu tivesse o poder
de curar com as mãos.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Arqueologia
As paredes de pedra e os vidros
da janela separavam do mundo
o crepitar doméstico
do fogo da lareira e o odor
do pão ainda quente.
Na mesa do escano
a criança desenhava os diques.
A ameaça
é um dissimulado rumor
que não exige defesas.
Crescendo nas margens
em vez do dilúvio
a água começava por delinear nos troncos
das árvores os iluminados círculos
dos anos.
Na mesa do escano
a criança desenhava os diques.
O olvido e a tormenta
queimam em seu redor o oxigénio
até ao deslaçar imperceptível
das palavras. No enxofre do vácuo
em partes desiguais a tempestade
e as pétalas cor de zinco
das rosas do inverno
ardem.
O que fica é o breve
e quase inexplicável espólio de quatro
pedaços de cerâmica e um
desenho nas suas linhas trémulas
a lápis.
da janela separavam do mundo
o crepitar doméstico
do fogo da lareira e o odor
do pão ainda quente.
Na mesa do escano
a criança desenhava os diques.
A ameaça
é um dissimulado rumor
que não exige defesas.
Crescendo nas margens
em vez do dilúvio
a água começava por delinear nos troncos
das árvores os iluminados círculos
dos anos.
Na mesa do escano
a criança desenhava os diques.
O olvido e a tormenta
queimam em seu redor o oxigénio
até ao deslaçar imperceptível
das palavras. No enxofre do vácuo
em partes desiguais a tempestade
e as pétalas cor de zinco
das rosas do inverno
ardem.
O que fica é o breve
e quase inexplicável espólio de quatro
pedaços de cerâmica e um
desenho nas suas linhas trémulas
a lápis.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
A rotação dos astros
As mulheres correram
a tirar dos arames os adjectivos
quando os relâmpagos bateram nas pedras
de xisto dos pátios. As mulheres
guardaram os adjectivos nas gavetas da cómoda.
As mulheres misturaram a água
e as palavras nos púcaros.
As mulheres fecharam à chave
as portas sucessivas.
Mas o inverno trazia
do fundo dos poços da infância
o mapa dos remansos. O inverno
desmoronava as barreiras de saibro.
O inverno espalhava os eléctrodos
entre a nuvem de silêncio
e a hélice das sementes do ácer.
Oinvernotropeçavanosdegrausdecasa.
E era quase a noite.
E uma criança abriu a gaveta dos adjectivos
e jurou que as marés ou a rotação dos astros
revertiam no cântaro da cozinha
do breve rumor das águas
subterrâneas dos relâmpagos.
a tirar dos arames os adjectivos
quando os relâmpagos bateram nas pedras
de xisto dos pátios. As mulheres
guardaram os adjectivos nas gavetas da cómoda.
As mulheres misturaram a água
e as palavras nos púcaros.
As mulheres fecharam à chave
as portas sucessivas.
Mas o inverno trazia
do fundo dos poços da infância
o mapa dos remansos. O inverno
desmoronava as barreiras de saibro.
O inverno espalhava os eléctrodos
entre a nuvem de silêncio
e a hélice das sementes do ácer.
Oinvernotropeçavanosdegrausdecasa.
E era quase a noite.
E uma criança abriu a gaveta dos adjectivos
e jurou que as marés ou a rotação dos astros
revertiam no cântaro da cozinha
do breve rumor das águas
subterrâneas dos relâmpagos.
domingo, dezembro 02, 2007
Letra de canção enviada pelo comentador anónimo
O amor às vezes esbarra em coisas
tão pequenas:
desatenções, um esquecimento,
preciosismos.
No nosso caso, acredita,
foi apenas
não te conteres e exagerares
nos galicismos.
Tanto batom e tanto ruge
não se aguenta.
Tanta chauffage, tanto charme,
tanto chique.
No restaurante era o menu
em vez da ementa
e em vez das lojas tu compravas
na butique.
Pela manhã ganhavas horas
na toalete,
em cada táxi interpelavas
o chauffer.
Ele era o louvre, a notre-dame
e la villette,
era o malraux, o victor hugo,
o molière.
Já enjoava os croissãs
quase vencido,
os sucessivos bibelôs,
os dossiês.
E ainda agora tanto tempo
decorrido
fico doente só de ouvir
falar francês.
tão pequenas:
desatenções, um esquecimento,
preciosismos.
No nosso caso, acredita,
foi apenas
não te conteres e exagerares
nos galicismos.
Tanto batom e tanto ruge
não se aguenta.
Tanta chauffage, tanto charme,
tanto chique.
No restaurante era o menu
em vez da ementa
e em vez das lojas tu compravas
na butique.
Pela manhã ganhavas horas
na toalete,
em cada táxi interpelavas
o chauffer.
Ele era o louvre, a notre-dame
e la villette,
era o malraux, o victor hugo,
o molière.
Já enjoava os croissãs
quase vencido,
os sucessivos bibelôs,
os dossiês.
E ainda agora tanto tempo
decorrido
fico doente só de ouvir
falar francês.
quarta-feira, novembro 28, 2007
Ver
Uma árvore é um universo
em expansão afundando as suas raízes
em direcção ao passado e os seus ramos
em direcção ao futuro. Olhaste tantas vezes
a gleditsia da ponte vindo de casa a caminho
do padrão e nunca verdadeiramente
viste nenhuma das suas folhas e nenhum
dos seus espinhos e nenhuma
das sua vagens. As mais das vezes
conhecemos as coisas pelos seus nomes
e nunca chegamos a vê-las.
em expansão afundando as suas raízes
em direcção ao passado e os seus ramos
em direcção ao futuro. Olhaste tantas vezes
a gleditsia da ponte vindo de casa a caminho
do padrão e nunca verdadeiramente
viste nenhuma das suas folhas e nenhum
dos seus espinhos e nenhuma
das sua vagens. As mais das vezes
conhecemos as coisas pelos seus nomes
e nunca chegamos a vê-las.
segunda-feira, novembro 26, 2007
quinta-feira, novembro 22, 2007
domingo, novembro 18, 2007
Letra de canção (outra)
Há tantas coisas
que passaram
já de moda
o um de maio
os rebuçados
de mentol
o gira-discos
a disquete
a arte nova
a anorexia
o casamento
o rock and roll
Há tantas coisas
que pertencem
ao passado
a pedra pomes
os exames
do liceu
o sabonete
a limonada
o frango assado
as persianas
o amianto
o coliseu
Mas entretanto
é outro o tempo
o dia-a-dia
o jornalismo
de polícia
as adopções
pão integral
a paridade
a ecologia
o ecoponto
a reciclagem
os vidrões
Há tantas coisas
que pertencem
ao que vês
o baixa-a-bola
a opção táctica
dum trinco
o almerindo
o ponto.com
o corte inglês
a banda gástrica
a asae
o ornitorrinco
que passaram
já de moda
o um de maio
os rebuçados
de mentol
o gira-discos
a disquete
a arte nova
a anorexia
o casamento
o rock and roll
Há tantas coisas
que pertencem
ao passado
a pedra pomes
os exames
do liceu
o sabonete
a limonada
o frango assado
as persianas
o amianto
o coliseu
Mas entretanto
é outro o tempo
o dia-a-dia
o jornalismo
de polícia
as adopções
pão integral
a paridade
a ecologia
o ecoponto
a reciclagem
os vidrões
Há tantas coisas
que pertencem
ao que vês
o baixa-a-bola
a opção táctica
dum trinco
o almerindo
o ponto.com
o corte inglês
a banda gástrica
a asae
o ornitorrinco
sexta-feira, novembro 16, 2007
Não: é verdade
Não é verdade que os amigos não morrem.
Os amigos morrem quando a morte
os leva com a sua faca de cortar o gelo no diamante
dos lagos da península. Os amigos morrem
e não é verdade que regressam
na memória de os lembrarmos
ou nas fotografias e nos papéis amarelecidos
dos seus nomes. [Não
sei: ao dizer que os amigos não morrem
enquanto nos lembrarmos deles
talvez procuremos mais que um refúgio
para nós mesmos: às vezes
é necessária a certeza de que tudo está certo
mesmo que seja preciso
mentir para dizer a verdade.] Não
sei: os amigos não morrem quando a morte
os leva com a sua faca de cortar o gelo no diamante
dos lagos da península.
Os amigos morrem quando a morte
os leva com a sua faca de cortar o gelo no diamante
dos lagos da península. Os amigos morrem
e não é verdade que regressam
na memória de os lembrarmos
ou nas fotografias e nos papéis amarelecidos
dos seus nomes. [Não
sei: ao dizer que os amigos não morrem
enquanto nos lembrarmos deles
talvez procuremos mais que um refúgio
para nós mesmos: às vezes
é necessária a certeza de que tudo está certo
mesmo que seja preciso
mentir para dizer a verdade.] Não
sei: os amigos não morrem quando a morte
os leva com a sua faca de cortar o gelo no diamante
dos lagos da península.
terça-feira, novembro 13, 2007
Quando o vento
é assim quando
o vento (ou o esquecimento) começa
a percorrer
as pág nas dos livr s
e v s
l
v ç
a
o vento (ou o esquecimento) começa
a percorrer
as pág nas dos livr s
e v s
l
v ç
a
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